Unidade I · Formação do Potencial Produtivo

Como os cereais transformam recursos ambientais em produtividade?

Aula 03. Fisiologia e Desenvolvimento dos Cereais
Prof. Dr. Anísio da Silva Nunes
Fitotecnia III. Culturas de Cereais
UNEMAT · Agronomia · Tangará da Serra
?
Ponto de partida
De onde vem a matéria que enche os grãos e determina a produtividade?
Ao final desta aula, você será capaz de

Objetivos de aprendizagem

01

Diferenciar C3 e C4

Separar o comportamento fisiológico das cinco culturas quanto a luz, água e carbono.

02

Comparar eficiências

Justificar diferenças de resposta ao estresse hídrico e térmico entre as culturas.

03

Diagnosticar gargalos

Localizar o fator fisiológico que limita a produtividade de uma lavoura.

Dois conceitos que o diagnóstico não pode fundir

Crescer e desenvolver-se

Crescimento

Aumento irreversívelVolume e massaMensurável

Área foliar, comprimento de colmo e matéria seca acumulada em gramas.

Desenvolvimento

Diferenciação celularMorfogêneseMuda de função

A virada do meristema vegetativo para reprodutivo é invisível e fixa o teto de grãos.

O que acontece na célula

Três processos, três respostas

Dv
Meristema

Divisão celular

Multiplica o número de células e sustenta o crescimento.

Al
Turgor

Alongamento celular

Expande a célula por entrada de água e deposição de parede.

Mo
Ontogenia

Morfogênese

Diferencia tecidos e órgãos, incluindo a inflorescência.

Por que a lavoura estressada trava em altura

A divisão continua, a expansão para

Sob déficit hídrico a planta segue dividindo células no meristema, mas o alongamento depende de turgor e é o primeiro a parar.
A mesma enzima fixa e desperdiça

RuBisCO, dupla função

Ru
A enzima central

Carboxilase e oxigenase

Única enzima capaz de montar o açúcar, e também a que abre o vazamento.

CO
Caminho produtivo

Liga-se ao CO2

Inicia o Ciclo de Calvin e produz açúcar para a planta.

O2
Caminho de perda

Liga-se ao O2

Dispara a fotorrespiração, que gasta energia e devolve carbono já fixado.

O mesmo sítio ativo, dois destinos

Carboxilação e oxigenação

Carboxilação

Substrato CO2Ciclo de CalvinGanho de açúcar

Predomina quando o CO2 interno está alto e a temperatura é amena.

Oxigenação

Substrato O2FotorrespiraçãoPerda de carbono

No arroz consome de 20% a 40% do carbono fixado, energia que nunca chega ao grão.

A condição do Cerrado agrava o problema

Quando a fotorrespiração aumenta

CondiçãoO que acontece na folhaEfeito
Temperatura altaRuBisCO perde afinidade pelo CO2Favorece a oxigenação
Estômato fechadoEntra menos CO2 e acumula O2Intensifica a fotorrespiração
Alta irradiânciaMais energia com pouco substratoAmplia a perda de carbono
Calor e estômato fechado ao mesmo tempo formam a pior combinação para uma planta C3.
Uma bomba de concentração de CO2

O mecanismo C4 passo a passo

1
CO2 entra pelo estômato e chega ao mesofilo
2
PEP-carboxilase captura o carbono sem reagir com O2
3
Forma-se um ácido de quatro carbonos, oxaloacetato e malato
4
O ácido migra para a célula da bainha do feixe
5
A descarboxilação libera CO2 concentrado sobre a RuBisCO
O que a via C4 exige em troca

Anatomia, enzima e custo

Kr
Estrutura

Anatomia Kranz

Mesofilo e bainha do feixe dividem o trabalho em duas células.

Pe
Enzima de captura

PEP-carboxilase

Alta afinidade pelo CO2 e nenhuma reação com o oxigênio.

AT
O preço

ATP adicional

Bombear carbono gasta energia que a planta C3 não gasta.

A bifurcação bioquímica dos cereais

Parâmetros que separam C3 e C4

ParâmetroPlantas C3Plantas C4
Primeiro composto estávelÁcido de 3 carbonosÁcido de 4 carbonos
Enzima de capturaRuBisCOPEP-carboxilase e RuBisCO
Anatomia foliarMesofilo uniformeAnatomia Kranz
FotorrespiraçãoAltaPraticamente suprimida
Ponto de compensação de CO230 a 70 ppm5 a 10 ppm
Eficiência do uso da radiação1,0 a 2,0 g/MJ3,0 a 4,0 g/MJ
A diferença em número

Duas vias, dois patamares

5 a 10
ppm de ponto de compensação de CO2 nas plantas C4
30 a 70
ppm de ponto de compensação nas plantas C3
50 a 70
mg de CO2 por dm² por hora de fotossíntese líquida C4
Nas plantas C3 a fotossíntese líquida fica entre 15 e 35 mg de CO2 por dm² por hora.
Onde cada cultura se encaixa

Via fotossintética das cinco culturas

CulturaViaConsequência fisiológica dominante
TrigoC3Fotorrespiração alta no calor, exige altitude no Cerrado
ArrozC3Perde de 20% a 40% do carbono e depende de água farta
MilhoC4Maior teto de rendimento entre os cinco cereais
SorgoC4Alta eficiência somada a economia de água
MilhetoC4Fixa carbono sob calor e baixa fertilidade
Cuidado com a generalização

A vantagem C4 não é universal

Sob temperatura amena e radiação baixa, o ATP extra da bomba de carbono não compensa, e a planta C3 pode ser tão eficiente quanto a C4.
A fotossíntese fabrica, a respiração gasta

Dois destinos do carbono respirado

Tipo de gastoFunçãoQuando se torna problema
Respiração de crescimentoConstrói folhas, raízes e grãoProdutiva, converte açúcar em estrutura
Respiração de manutençãoMantém as células vivasCresce com a temperatura e drena reservas
A produtividade final é o saldo entre o que a fotossíntese fabrica e o que a respiração queima.
O que a noite faz com o saldo de carbono

Noites frias e noites quentes

Dia quente e noite fria

30 a 33 °C de diaRespiração contidaSaldo preservado

Regime ideal para o milho, com fotossíntese alta de dia e baixa queima à noite.

Dia e noite quentes

Ciclo aceleradoRespiração altaReservas consumidas

A planta gasta como substrato os açúcares que fixou durante o dia e perde rendimento.

Limiares que derrubam o enchimento

Temperatura e peso do grão

35 °C
temperatura diurna acima da qual o enchimento cai
24 °C
temperatura noturna acima da qual a respiração drena
30 a 33
graus Celsius do regime diurno ideal para o milho
Comparação clássica de Aldrich

Água por quilo de matéria seca

EspécieÁgua por kg de matéria seca (kg)
Sorgo271
Milho372
Trigo505
Aveia635
Alfafa858
Em outro ensaio da Embrapa o milheto ficou entre 282 e 302 g de água por grama de matéria seca.
Tolerância à seca não é mito

Como o sorgo atravessa o veranico

Ra
Escape

Raiz profunda

Sistema fibroso com o dobro das raízes secundárias do milho.

Ex
Bioquímica

Expansinas

Flexibilizam a parede celular e retardam a desidratação da folha.

Mu
Tolerância

Murcha reversível

Reduz o metabolismo e recupera quando o estresse cessa.

Mecanismos medidos

A rusticidade em números

100x
aumento na expressão do gene das expansinas no sorgo
2 m
profundidade que as raízes do milheto ultrapassam
50%
mais estômatos por área na folha de sorgo que na de milho
Cada cultura resolve de um jeito

Mecanismos de água por cultura

CulturaMecanismo dominante
SorgoRaiz fibrosa profunda, expansinas e murcha reversível
MilhetoRaízes além de 2 m, folhas pubescentes e via C4 eficiente
MilhoBoa conversão em matéria seca, mas raiz concentrada nos primeiros 30 cm
TrigoC3 sensível, escapa do déficit por ajuste de ciclo
ArrozEnrolamento foliar por células buliformes e raiz até 140 cm
Adaptação ao alagamento

Aerênquima na raiz do arroz

Seção transversal de raiz de arroz, com os espaços intercelulares que formam o aerênquima.
Seção transversal de raiz de arroz, com os espaços intercelulares que formam o aerênquima.
Fonte: Como a Planta de Arroz se Desenvolve (Embrapa)
Duas estratégias diante da seca

Escape e tolerância

Escape

Raiz profundaCiclo ajustadoÁgua residual do perfil

A planta evita o estresse alcançando água que as outras não alcançam ou fugindo no tempo.

Tolerância

Metabolismo reduzidoMurcha reversívelParede flexível

A planta convive com o estresse, preserva a integridade celular e retoma quando chove.

Quanto a água disponível permite produzir

Da água à matéria seca

FórmulaMatéria seca (kg de MS/ha) = lâmina disponível (L/ha) ÷ água por kg de MS (L/kg)
Com os dados da lavoura3.000.000 ÷ 271
Lâmina de 300 mm: 3.000.000 L/haSorgo: 271 L por kg de MSMesma lâmina no milho: 8.065 kg/ha
Resultado11.070kg de MS/ha
Economia hídrica não protege de tudo

O florescimento decide

Nas cinco culturas o florescimento é o período mais sensível ao déficit hídrico, porque é nele que se define o número de grãos.
Para onde vai o carbono fabricado

Fonte, dreno e reserva

Fo
Produz e exporta

Fonte

Folha madura que produz mais fotoassimilados do que consome.

Dr
Importa e estoca

Dreno

Grão em enchimento, raiz e folha jovem que recebem o excedente.

Cm
Os dois papéis

Colmo

Estoca o excedente antes da antese e devolve ao grão depois dela.

O ciclo da reserva

Do estoque ao quebramento

1
Folha produz mais do que o dreno consome
2
Excedente vira açúcar solúvel estocado no colmo
3
Enchimento acelera e a fonte foliar não basta
4
Colmo remobiliza a reserva para o grão
5
Colmo esvaziado enfraquece e pode quebrar
A equação do rendimento de grãos

Fonte, dreno e peso

FórmulaRendimento (g/m²) = IAF × grãos por m² de folha × peso do grão (g)
Com os dados da lavoura4 × 750 × 0,30
IAF: 4 m² de folha por m² de soloGrãos por m² de folha: 750Peso do grão: 0,30 g
Resultado900g/m², ou 9.000 kg/ha
Quanto da biomassa virou produto

Índice de colheita das cinco culturas

CulturaÍndice de colheitaLeitura
Milho0,45-0,55Dreno bem definido, uma a duas espigas
Arroz0,45-0,55Cultivares semianãs investem no grão
Trigo0,40-0,50Ganho histórico veio do número de grãos
Sorgo0,35-0,45Parte da biomassa permanece no colmo
Milheto0,20-0,35Partição privilegia a palhada sobre o grão
A pergunta central da fisiologia da produção

Limita a fonte ou o dreno

Fonte insuficiente

Área foliar baixaPerda de folhaColmo drenado

O carbono não é produzido em quantidade suficiente e o grão fica leve ou chocho.

Dreno insuficiente

Poucos grãos por áreaCarbono sobraAcúmulo no colmo

No milho e no trigo modernos, o número de grãos costuma limitar antes da fonte.

Duas sensibilidades diferentes

Três etapas da formação do grão

1
Divisão celular do endosperma fixa a capacidade máxima
2
Fase linear deposita amido e o grão ganha peso
3
Dessecação encerra o processo e o grão endurece
Modelo detalhado no arroz

Subfases do enchimento

SubfaseProcessoEstado do grão
Fase lagDivisão celular define a capacidadeAquoso
Fase linearMaior ganho de peso, 15 a 25 diasLeitoso a pastoso
DessecaçãoPerda de água e endurecimentoPróximo da maturidade fisiológica
No trigo a divisão celular dura cerca de uma semana e o enchimento aproximadamente 25 dias.
Aquoso, leitoso e pastoso

Subfases do enchimento

Grãos de espiga com 7, 10, 12 (R2) e 18 (R3) dias após o florescimento.
Grãos de espiga com 7, 10, 12 (R2) e 18 (R3) dias após o florescimento.
Fonte: Como a Planta de Milho se Desenvolve (Embrapa)
O que governa o peso final

Três parâmetros do grão

Ri
Quanto por dia

Ritmo de enchimento

Taxa de deposição de matéria seca durante a fase linear.

Te
Por quanto tempo

Tempo de enchimento

Duração da fase linear até a maturidade fisiológica.

Ca
Teto fixado cedo

Capacidade do grão

Número de células do endosperma definido na fase lag.

Taxa e duração

Peso do grão em trigo

Diagrama da determinação do peso do grão em trigo, entre o emborrachamento e a colheita.
Diagrama da determinação do peso do grão em trigo, entre o emborrachamento e a colheita.
Fonte: Ecofisiologia do Trigo
A variável que mais explica rendimento

Onde o número de grãos fecha

CulturaMomento de definiçãoComponente correlacionado
MilhoNa floração, por estilo-estigma polinizadoGrãos por espiga
TrigoDo alongamento do colmo até a anteseGrãos por metro quadrado
ArrozPerfilhamento, diferenciação e anteseEspiguetas férteis por panícula
SorgoDiferenciação da panícula, com compensaçãoGrãos por panícula
MilhetoCedo, antes mesmo da anteseGrãos por panícula e estande
Da semeadura à antese

Onde o número de grãos fecha

Subperíodos entre semeadura, duplo anel, espigueta terminal e antese em cultivares de trigo.
Subperíodos entre semeadura, duplo anel, espigueta terminal e antese em cultivares de trigo.
Fonte: Ecofisiologia do Trigo
Documentado no arroz

A origem do carbono do grão

60 a 80%
vem da fotossíntese corrente, sobretudo da folha bandeira
20 a 40%
vem da remobilização das reservas do colmo
30 a 50%
contribuição isolada da folha bandeira para a panícula
Os componentes competem entre si

Número e peso do grão

Mais grãos por área

Dreno ampliadoMesma fonteGrãos menores

Sem ampliar a fonte, o mesmo carbono é redistribuído em porções menores.

Grãos mais pesados

Menos drenosMais carbono por grãoTeto limitado

A correlação negativa entre número e peso aparece no trigo e no arroz.

Qual componente manda

Rendimento e número de grãos

Associação entre rendimento e número de grãos/m² em cultivares de trigo, 1940 a 1992.
Associação entre rendimento e número de grãos/m² em cultivares de trigo, 1940 a 1992.
Fonte: Ecofisiologia do Trigo
Dois momentos que não se confundem

Da maturidade fisiológica à colheita

CulturaUmidade na maturidade (%)Umidade de colheita (%)
Trigo35-4013-15
Arroz25-3018-22
Milho30-3514-18
Sorgo28-3014-18
Milheto28-3513-15
O arroz é colhido ainda úmido para preservar o rendimento de grãos inteiros no beneficiamento.
Maturidade fisiológica

Estádio R6 do milho

Espiga madura de milho e corte do sabugo, no estádio R6.
Espiga madura de milho e corte do sabugo, no estádio R6.
Fonte: Como a Planta de Milho se Desenvolve (Embrapa)
O fim do enchimento e o que vem depois

Camada preta e dry down

Cp
Sinal visível

Camada preta

Forma-se na inserção do grão e marca o fim do acúmulo de matéria seca.

Mf
Definição

Maturidade fisiológica

Máximo peso de matéria seca e máximo vigor da semente.

Dd
Depois disso

Dry down

Perda física de água na planta até a umidade de colheita.

No milheto a camada preta surge de 20 a 25 dias após o florescimento, do topo para a base da panícula.
O sinal da maturidade

A camada preta

No R6 a camada dura de amido avança até o sabugo e forma-se a camada preta de abscisão.
No R6 a camada dura de amido avança até o sabugo e forma-se a camada preta de abscisão.
Fonte: Como a Planta de Milho se Desenvolve (Embrapa)
O mesmo traço tem dois efeitos

Stay green e dry down

O que o stay green entrega

Fotossíntese prolongadaColmo túrgidoMenos quebramento

Mais tempo de fonte ativa alimentando o grão e planta em pé até a colheita.

O que ele cobra

Secagem mais lentaColheita adiadaÁrea ocupada

Permanecer verde retarda a perda de umidade do grão, e o produtor precisa equilibrar os dois lados.

Senescência é o desligamento programado das folhas ao fim do ciclo, com perda de clorofila e transferência do nitrogênio para os órgãos em crescimento. O stay green a retarda.
Onde procurar primeiro em cada cultura

Gargalo fisiológico característico

CulturaEficiência do uso da águaGargalo característico
TrigoBaixaFotorrespiração no calor
ArrozBaixaFotorrespiração e dependência hídrica
MilhoMédiaRaiz superficial e dreno concentrado na floração
SorgoMuito altaPoucos gargalos, alta estabilidade
MilhetoMuito altaBaixa partição da biomassa para o grão
?
Retome a pergunta
De onde vem a matéria que enche os grãos e determina a produtividade?
Responda agora com o que você viu na aula.
Encerramento
Toda lavoura tem um fator que limita antes dos outros, e a fisiologia diz qual procurar primeiro.