Como escolher a cultivar certa entre dezenas de opções disponíveis?
Relacionar a escolha de cultivares e híbridos ao sistema reprodutivo de cada espécie.
Casar o material genético com o objetivo de produção e o ambiente da lavoura.
Julgar criticamente biotecnologia e edição gênica aplicadas aos cinco cereais.
O potencial produtivo já está formado. Agora começa a fase de expressá-lo.
A genética é a primeira decisão de manejo: ela fixa o teto que as demais tentam alcançar.
O melhoramento é ciência e arte: método estatístico para selecionar, olho treinado para reconhecer a planta superior.
Aplicação de princípios genéticos e estatísticos para alterar de forma dirigida a constituição genética de uma população vegetal, aumentando a frequência de alelos favoráveis a caracteres de interesse agronômico. Depende de variabilidade genética preexistente.
| Cultura | Objetivos prioritários atuais |
|---|---|
| Milho | Heterose, tolerância à seca e resistência ao tombamento |
| Trigo | Rendimento, força de glúten e resistência a giberela e brusone |
| Arroz | Tropicalização, resistência à brusone e grão longo-fino |
| Sorgo | Porte baixo, ausência de tanino e stay green |
| Milheto | Da palhada para o índice de colheita e a produção de grão |
Selecionar dentro de uma linha pura não muda a média, porque a seleção atua sobre a variabilidade existente e não inventa alelos que a população não tem.
Como a planta troca pólen determina o método de melhoramento e o tipo de cultivar possível.
| Categoria | Taxa de cruzamento | Cereais |
|---|---|---|
| Autógamas | Menor que 5% | Arroz e trigo |
| Intermediárias | De 5% a 95% | Sorgo |
| Alógamas | Maior que 95% | Milho e milheto |
A polinização ocorre antes de a flor abrir e fecha a porta ao pólen externo.
No milho, o pendão libera pólen antes de os estilos da própria planta receberem.
Incapacidade de produzir pólen viável, base industrial do híbrido.
| Termo | Constituição genética | Semente salva serve |
|---|---|---|
| Cultivar | Depende do tipo registrado | Depende do tipo |
| Linha pura | Homozigota, um único genótipo | Sim, mantém o tipo |
| Variedade de polinização aberta | Heterozigota, estável na população | Sim, com amostra adequada |
| Híbrido | Heterozigota uniforme, só na F1 | Não, a F2 segrega |
Arroz e trigo mantêm o tipo, e a variedade de milheto se multiplica com amostra adequada.
O vigor só existe na F1, e semear a F2 derruba a produtividade e a uniformidade.
Atua sobre a variabilidade que já existe na população.
Cruza parentais para reunir alelos favoráveis que estavam separados.
Dentro da linha pura a variação restante é apenas ambiental.
| Método | Quando seleciona | Característica |
|---|---|---|
| População | Só ao final, em F5 | Simples e deixa a seleção natural atuar |
| Genealógico | Plantas individuais desde F2 | Controle total da ancestralidade |
| Descendente de uma semente | Só ao final | Rápido, conduzido fora de época |
O método do descendente de uma semente é conduzido fora de época e em casa de vegetação, o que espreme mais gerações por ano e encurta o tempo até a cultivar.
Endogamia e heterose são fenômenos opostos; entender um sem o outro é entender pela metade.
A mesma autofecundação que deprime o vigor é a que fixa o genótipo e cria a linhagem.
A evidência empírica pende para a teoria da dominância, e não para a sobredominância.
Perda de vigor na descendência causada pela manifestação, em homozigose, de alelos deletérios que estavam mascarados em heterozigose. É intensa em espécies alógamas, como o milho, e ausente ou fraca em autógamas, que já eliminaram esses alelos.
A heterozigose cai pela metade a cada geração de autofecundação.
Alelos deletérios que estavam mascarados se manifestam em homozigose.
A planta homozigota gera descendência idêntica, e nasce a linhagem.
Maior uniformidade e maior potencial, com a semente mais cara.
Uniformidade alta e custo intermediário de semente.
Mais variável, menor potencial e semente mais barata.
| Cereal | Sistema reprodutivo | Material dominante |
|---|---|---|
| Milho | Alógamo, monoico e protândrico | Híbrido, é a regra |
| Sorgo | Intermediário | Híbrido granífero, via macho-esterilidade |
| Arroz | Autógamo | Linha pura, híbrido minoritário |
| Trigo | Autógamo | Linha pura, sem híbrido no Brasil |
| Milheto | Alógamo | Variedade de polinização aberta |
| Linha | Papel | Característica |
|---|---|---|
| A | Fêmea do cruzamento comercial | Macho-estéril, não produz pólen viável |
| B | Mantenedora da linha A | Idêntica à A, mas com pólen fértil |
| R | Macho do cruzamento comercial | Restaura a fertilidade do pólen na F1 |
BRS Caiapó e BRS Primavera são marcos do esforço nacional de adaptação ao Cerrado.
A macho-esterilidade dispensa a emasculação, o que viabiliza a produção apesar de cada flor gerar uma semente.
O custo de produzir semente híbrida de uma autógama é alto e o ganho de vigor no trigo raramente o compensa, por isso a cultivar brasileira é sempre linha pura.
A cultivar superior universal não existe; a adaptação ao ambiente local é parte do potencial genético.
| Característica | Especificação |
|---|---|
| Porte e altura | Semi-ereto, de 90 a 110 cm |
| Perfilhamento | Moderado a alto |
| Folhas | Eretas, eficientes na interceptação de luz |
| Ciclo | Médio, de 105 a 120 dias |
| Grão e sanidade | Longo-fino e resistência à brusone |
O material asiático vinha adaptado a dias curtos e umidade alta.
Chuva concentrada e irregular, com risco de veranico no ciclo.
Solos ácidos com toxicidade por alumínio exigiram nova base genética.
| Critério | O que verificar |
|---|---|
| Adaptação | Indicação para o município no ZARC vigente |
| Ciclo | Compatível com a janela e o sistema de produção |
| Estabilidade | Comportamento em vários locais e anos, não só potencial |
| Sanidade | Resistência às principais doenças da região |
| Mercado | Aptidão do grão à classe comercial de destino |
Compensa quando a produtividade esperada paga o prêmio da semente comprada a cada safra.
Em produtividade esperada baixa, a relação custo-benefício da variedade pode superar a do híbrido.
A biotecnologia não substitui o melhoramento convencional; ela adiciona características a um híbrido que continua sendo convencional.
Um híbrido transgênico é, antes de tudo, um híbrido obtido pelo esquema clássico.
A transgenia adiciona características sobre uma base convencional, sob regulação da CTNBio.
Organismo que tem no genoma um ou mais genes de outra espécie, ou da mesma espécie modificados, inseridos por engenharia genética, rompendo a barreira do cruzamento sexual. Fora a característica do gene inserido, não há diferença em relação à planta convencional.
| Herbicida | Alvo bioquímico | Gene e mecanismo de tolerância |
|---|---|---|
| Glifosato | Enzima EPSPS | CP4 EPSPS, versão que o herbicida não bloqueia |
| Glufosinato | Glutamina sintetase | PAT, acetila e inativa o herbicida |
| 2,4-D e haloxifope | Desregulação por auxina | AAD-1, degrada o herbicida na planta |
Y é YieldGard com Cry1Ab, H é Herculex com Cry1F e tolerância ao glufosinato.
R é Roundup Ready com tolerância ao glifosato, V é Viptera com Vip3Aa20.
PowerCore, mais Ultra com Vip3Aa20 e Enlist com tolerância ao 2,4-D.
| Tecnologia | Evento | Proteínas inseticidas | Aprovação |
|---|---|---|---|
| YieldGard | MON810 | Cry1Ab | 2007 |
| Roundup Ready 2 | NK603 | nenhuma | 2008 |
| Agrisure Viptera | MIR162 | Vip3Aa20 | 2009 |
| PowerCore | MON89034 x TC1507 x NK603 | Cry1A.105, Cry2Ab2 e Cry1F | 2010 |
| Leptra | TC1507 x MON810 x MIR162 x NK603 | Cry1F, Cry1Ab e Vip3Aa20 | 2015 |
| VT PRO 4 | MON87427 x MON89034 x MIR162 x MON87411 | Cry1A.105, Cry2Ab2, Vip3Aa20, Cry3Bb1 e DvSnf7 | 2018 |
| Tecnologia | Cartucho | Broca | Espiga | Rosca | Alfinete |
|---|---|---|---|---|---|
| YieldGard VT PRO | Sim | Sim | Sim | Não | Não |
| YieldGard VT PRO 3 | Sim | Sim | Sim | Não | Sim |
| Leptra | Sim | Sim | Sim | Sim | Não |
| PowerCore Ultra | Sim | Sim | Sim | Sim | Não |
| VT PRO 4 | Sim | Sim | Sim | Sim | Sim |
Selecionam a planta com o alelo desejado ainda em plântula.
Painéis de milhares de SNPs preveem o valor genético sem avaliação de campo.
Homozigose completa em uma etapa, encurtando até quatro anos.
Regulada pela Lei de Biossegurança, com parecer da CTNBio por evento.
Não é classificada como OGM no Brasil quando não há DNA exógeno, mas a aceitação no destino ainda é incerta.
Registrar e proteger uma cultivar são atos jurídicos distintos, com finalidades e efeitos diferentes.
| Instrumento | Finalidade | Alcance |
|---|---|---|
| Registro Nacional de Cultivares | Autoriza produzir e comercializar semente | Condição de mercado |
| Certificado de Proteção | Garante propriedade intelectual ao obtentor | Vai até a semente |
| Patente do evento | Protege a tecnologia inserida | Pode alcançar o grão colhido |
Modelos preditivos escolhem cruzamentos e encurtam o desenvolvimento.
Tolerância à seca e resistência a doenças por caminho regulatório mais rápido.
Cultivares ajustadas a combinações locais de solo, clima e mercado.
| Referência | O que sustenta |
|---|---|
| Shull · heterose | Esquema de obtenção do híbrido simples |
| Johannsen (1903) | Limite da seleção dentro de linha pura |
| Embrapa Milho e Sorgo | Espectro de controle por tecnologia Bt |
| Lei de Proteção de Cultivares | Registro, proteção e uso próprio |
| CTNBio | Eventos aprovados e regulação da edição gênica |
| IRRI · porte baixo do arroz | Tropicalização do germoplasma asiático |
Como escolher a cultivar certa entre dezenas de opções disponíveis?
A genética define o teto de três formas: o potencial produtivo da cultivar em ambiente sem limitação; a arquitetura da planta, que decide arranjo e população; e o pacote de resistências e tolerâncias, que determina quanto do teto sobrevive ao estresse real. Nenhum manejo posterior ultrapassa esse teto — o manejo apenas evita ficar abaixo dele.