Unidade II · Expressão do Potencial Produtivo

Como a genética define os limites produtivos dos cereais?

Aula 05. Melhoramento Genético e Escolha de Cultivares
Prof. Dr. Anísio da Silva Nunes
Fitotecnia III. Culturas de Cereais
UNEMAT · Agronomia · Tangará da Serra
?
Ponto de partida
Como escolher a cultivar certa entre dezenas de opções disponíveis?
Ao final desta aula, você será capaz de

Objetivos de aprendizagem

01

Comparar critérios

Relacionar a escolha de cultivares e híbridos ao sistema reprodutivo de cada espécie.

02

Selecionar materiais

Casar o material genético com o objetivo de produção e o ambiente da lavoura.

03

Avaliar tendências

Julgar criticamente biotecnologia e edição gênica aplicadas aos cinco cereais.

A seleção começou milênios antes da genética

Marcos do melhoramento

1
Seleção empírica pré-colombiana transforma o teosinto em milho
2
Shull propõe o esquema de híbridos de milho em 1909
3
Polyssú seleciona o primeiro trigo brasileiro em 1914
4
Programa de conversão do sorgo nos Estados Unidos nos anos 1950
5
Banco de germoplasma de milheto da Embrapa em 1995
A matéria-prima do melhoramento

Banco de germoplasma

O banco de germoplasma reúne e conserva a variabilidade genética que alimenta os programas.
O banco de germoplasma reúne e conserva a variabilidade genética que alimenta os programas.
Fonte: 500 Perguntas, 500 Respostas (Embrapa)
Melhorar não significa o mesmo em cada cereal

Objetivos de cada programa

CulturaObjetivos prioritários atuais
MilhoHeterose, tolerância à seca e resistência ao tombamento
TrigoRendimento, força de glúten e resistência a giberela e brusone
ArrozTropicalização, resistência à brusone e grão longo-fino
SorgoPorte baixo, ausência de tanino e stay green
MilhetoDa palhada para o índice de colheita e a produção de grão
A lição de Johannsen, 1903

A seleção tem limite

Selecionar dentro de uma linha pura não muda a média, porque a seleção atua sobre a variabilidade existente e não inventa alelos que a população não tem.
O primeiro dado que o melhorista levanta

Três categorias reprodutivas

CategoriaTaxa de cruzamentoCereais
AutógamasMenor que 5%Arroz e trigo
IntermediáriasDe 5% a 95%Sorgo
AlógamasMaior que 95%Milho e milheto
A categoria define se o trabalho será com linhas puras ou com populações e se o híbrido faz sentido econômico.
A flor empurra para um lado ou para o outro

Três mecanismos florais

Cl
Autogamia

Cleistogamia

A polinização ocorre antes de a flor abrir e fecha a porta ao pólen externo.

Mo
Alogamia

Monoicia e protandria

No milho, o pendão libera pólen antes de os estilos da própria planta receberem.

Ma
Produção de semente

Macho-esterilidade

Incapacidade de produzir pólen viável, base industrial do híbrido.

A cadeia que termina na revenda

Do sistema reprodutivo à semente

1
A espécie tem uma taxa de fecundação cruzada característica
2
Ela define o método, por linhas puras ou por populações
3
O método define o tipo de cultivar possível
4
O tipo define se o produtor compra semente a cada safra
Três termos que não são sinônimos

Cultivar, linha pura e híbrido

TermoConstituição genéticaSemente salva serve
CultivarDepende do tipo registradoDepende do tipo
Linha puraHomozigota, um único genótipoSim, mantém o tipo
Variedade de polinização abertaHeterozigota, estável na populaçãoSim, com amostra adequada
HíbridoHeterozigota uniforme, só na F1Não, a F2 segrega
A diferença que aparece no bolso

Quando a semente salva serve

Pode multiplicar

Linha puraVariedadeSem arranjo heterozigoto

Arroz e trigo mantêm o tipo, e a variedade de milheto se multiplica com amostra adequada.

Precisa comprar a cada safra

Híbrido simplesHíbrido triploHíbrido duplo

O vigor só existe na F1, e semear a F2 derruba a produtividade e a uniformidade.

Conduzir as gerações segregantes até a homozigose

Três métodos em autógamas

MétodoQuando selecionaCaracterística
PopulaçãoSó ao final, em F5Simples e deixa a seleção natural atuar
GenealógicoPlantas individuais desde F2Controle total da ancestralidade
Descendente de uma sementeSó ao finalRápido, conduzido fora de época
Método em autógamas

Seleção por pedigree

Esquema de seleção por pedigree: sementes dos indivíduos F2 mais resistentes originam progênies F3.
Esquema de seleção por pedigree: sementes dos indivíduos F2 mais resistentes originam progênies F3.
Fonte: Apostila de Fitopatologia
Dois caminhos e um limite

Seleção, hibridação e limite

Se
Caminho 1

Seleção

Atua sobre a variabilidade que já existe na população.

Hi
Caminho 2

Hibridação

Cruza parentais para reunir alelos favoráveis que estavam separados.

Li
O limite

Linhas puras

Dentro da linha pura a variação restante é apenas ambiental.

Por que o SSD domina hoje

Mais gerações por ano

O método do descendente de uma semente é conduzido fora de época e em casa de vegetação, o que espreme mais gerações por ano e encurta o tempo até a cultivar.
Dois fenômenos que são a face um do outro

Endogamia e heterose

Endogamia

Aumenta a homozigoseExpõe recessivos deletériosDeprime o vigor

A mesma autofecundação que deprime o vigor é a que fixa o genótipo e cria a linhagem.

Heterose

Cruza linhagens distintasMascara recessivosSupera a média dos pais

A evidência empírica pende para a teoria da dominância, e não para a sobredominância.

O mecanismo em três passos

Por que o vigor cai

Ho
Passo 1

Homozigose cresce

A heterozigose cai pela metade a cada geração de autofecundação.

Re
Passo 2

Recessivos aparecem

Alelos deletérios que estavam mascarados se manifestam em homozigose.

Fi
A contrapartida

Genótipo fixado

A planta homozigota gera descendência idêntica, e nasce a linhagem.

A sensibilidade varia com a espécie, e o milho sofre depressão de intensidade intermediária.
O esquema proposto por Shull

Como o híbrido é montado

1
Autofecundação sucessiva por seis a oito gerações
2
Obtenção de linhagens endogâmicas fixadas e uniformes
3
Cruzamento de duas linhagens distintas
4
F1 vigorosa e uniforme, semeada pelo produtor
Quanto a F1 supera a média dos pais

Heterose de um cruzamento

FórmulaHeterose (%) = [F1 - média dos pais] ÷ média dos pais × 100
Com os dados da lavoura(9.000 - 4.500) ÷ 4.500 × 100
Parental 1: 4.000 kg/haParental 2: 5.000 kg/haHíbrido F1: 9.000 kg/ha
Resultado100% de heterose
Por que a semente híbrida não se guarda

O que acontece na F2

15 a 40%
de queda de produtividade ao semear a segunda geração
50%
da heterozigose se perde na segregação da F2
F1
única geração em que o vigor se expressa por inteiro
O mesmo princípio, cinco arranjos comerciais

Material dominante por cereal

CerealSistema reprodutivoMaterial dominante
MilhoAlógamo, monoico e protândricoHíbrido, é a regra
SorgoIntermediárioHíbrido granífero, via macho-esterilidade
ArrozAutógamoLinha pura, híbrido minoritário
TrigoAutógamoLinha pura, sem híbrido no Brasil
MilhetoAlógamoVariedade de polinização aberta
Sob o mesmo manejo, cultivares nacionais de milheto rendem 2,68 t/ha e as africanas cerca de 4 t/ha.
Uniformidade, potencial e custo

Três arquiteturas de híbrido

Si
A x B

Híbrido simples

Maior uniformidade e maior potencial, com a semente mais cara.

Tr
(A x B) x C

Híbrido triplo

Uniformidade alta e custo intermediário de semente.

Du
(A x B) x (C x D)

Híbrido duplo

Mais variável, menor potencial e semente mais barata.

O tamanho e a forma da semente não afetam o rendimento, a peneira só uniformiza a semeadura.
Produzir híbrido sem emasculação manual

Sorgo, o sistema de três linhas

LinhaPapelCaracterística
AFêmea do cruzamento comercialMacho-estéril, não produz pólen viável
BMantenedora da linha AIdêntica à A, mas com pólen fértil
RMacho do cruzamento comercialRestaura a fertilidade do pólen na F1
O mesmo sistema de três linhas viabiliza o arroz híbrido, desenvolvido por Yuan Longping a partir de 1970.
A autógama que virou híbrida

Arroz, linha pura e híbrido

Linha pura

Maioria do arroz de terras altasSemente salva viávelFoco em tropicalização

BRS Caiapó e BRS Primavera são marcos do esforço nacional de adaptação ao Cerrado.

Arroz híbrido

Sistema A, B e R20% a 25% a maisMinoritário no Brasil

A macho-esterilidade dispensa a emasculação, o que viabiliza a produção apesar de cada flor gerar uma semente.

Uma questão econômica, não biológica

Trigo híbrido, no mundo

O custo de produzir semente híbrida de uma autógama é alto e o ganho de vigor no trigo raramente o compensa, por isso a cultivar brasileira é sempre linha pura.
A cultivar superior universal não existe

Ideótipo do arroz de sequeiro

CaracterísticaEspecificação
Porte e alturaSemi-ereto, de 90 a 110 cm
PerfilhamentoModerado a alto
FolhasEretas, eficientes na interceptação de luz
CicloMédio, de 105 a 120 dias
Grão e sanidadeLongo-fino e resistência à brusone
Germoplasma asiático em ambiente tropical

O que a tropicalização venceu

Fp
Luz

Fotoperíodo longo

O material asiático vinha adaptado a dias curtos e umidade alta.

Se
Água

Estação seca definida

Chuva concentrada e irregular, com risco de veranico no ciclo.

Al
Solo

Acidez e alumínio

Solos ácidos com toxicidade por alumínio exigiram nova base genética.

Casar genética, ambiente e mercado

Checklist de escolha de cultivar

CritérioO que verificar
AdaptaçãoIndicação para o município no ZARC vigente
CicloCompatível com a janela e o sistema de produção
EstabilidadeComportamento em vários locais e anos, não só potencial
SanidadeResistência às principais doenças da região
MercadoAptidão do grão à classe comercial de destino
Não é verdade que variedade seja mais estável que híbrido, existem híbridos simples de alta estabilidade.
A decisão econômica

Variedade e híbrido

Híbrido

Alto capitalAmbiente favorávelMaior teto e uniformidade

Compensa quando a produtividade esperada paga o prêmio da semente comprada a cada safra.

Variedade ou linha pura

Baixo capitalAmbiente limitanteSemente própria

Em produtividade esperada baixa, a relação custo-benefício da variedade pode superar a do híbrido.

Um princípio que atravessa os cinco cereais

Nunca uma cultivar só

20%
da área, no máximo, dedicada à cultivar nova em teste
2
anos de área-teste antes de expandir um híbrido sem histórico
1
cultivar nova avaliada a cada safra, comparada com a estabelecida
Uma não substitui a outra

Convencional e biotecnologia

Melhoramento convencional

Linhagens e cruzamentosBase genética do híbridoSeleção fenotípica

Um híbrido transgênico é, antes de tudo, um híbrido obtido pelo esquema clássico.

Camada biotecnológica

Evento de transformaçãoProteínas BtTolerância a herbicida

A transgenia adiciona características sobre uma base convencional, sob regulação da CTNBio.

Sem inserir gene de outra espécie

Ferramentas que aceleram

MA
Antes do fenótipo

Marcadores moleculares

Selecionam a planta com o alelo desejado ainda em plântula.

SG
Predição

Seleção genômica

Painéis de milhares de SNPs preveem o valor genético sem avaliação de campo.

DH
Atalho

Duplo-haploides

Homozigose completa em uma etapa, encurtando até quatro anos.

Por que a proteína é específica

Como a proteína Cry age

1
A larva ingere o cristal proteico produzido pela planta
2
O pH alcalino do intestino médio cliva o cristal e libera o núcleo ativo
3
A toxina se liga a receptores específicos do epitélio intestinal
4
Formam-se poros na membrana e o intestino médio é destruído
Em mamíferos o estômago ácido degrada a proteína em minutos e falta o receptor intestinal.
Da ingestão ao poro

Modo de ação da proteína Cry

Segmento de DNA de Bacillus thuringiensis que codifica a proteína cristal Cry.
Segmento de DNA de Bacillus thuringiensis que codifica a proteína cristal Cry.
Fonte: Milho: Dúvidas sobre Biotecnologias
Alvo único, tolerância dirigida

Como a planta resiste ao herbicida

HerbicidaAlvo bioquímicoGene e mecanismo de tolerância
GlifosatoEnzima EPSPSCP4 EPSPS, versão que o herbicida não bloqueia
GlufosinatoGlutamina sintetasePAT, acetila e inativa o herbicida
2,4-D e haloxifopeDesregulação por auxinaAAD-1, degrada o herbicida na planta
Alvo do glufosinato

Glutamina sintetase

Rota metabólica simplificada do glutamato, cuja enzima é o alvo do glufosinato (adaptado de Forde & Lea, 2007).
Rota metabólica simplificada do glutamato, cuja enzima é o alvo do glufosinato (adaptado de Forde & Lea, 2007).
Fonte: Aspectos de Resistência de Plantas Daninhas aos Herbicidas
As letras no fim do nome do híbrido

Decodificando o sufixo

YH
Proteínas Cry

Y e H

Y é YieldGard com Cry1Ab, H é Herculex com Cry1F e tolerância ao glufosinato.

RV
Herbicida e Vip

R e V

R é Roundup Ready com tolerância ao glifosato, V é Viptera com Vip3Aa20.

PW
Empilhamentos

PW, U e E

PowerCore, mais Ultra com Vip3Aa20 e Enlist com tolerância ao 2,4-D.

P mais o número identificam a base genética convencional, as letras identificam o pacote de biotecnologia.
Marca não é evento

Eventos de milho no Brasil

TecnologiaEventoProteínas inseticidasAprovação
YieldGardMON810Cry1Ab2007
Roundup Ready 2NK603nenhuma2008
Agrisure VipteraMIR162Vip3Aa202009
PowerCoreMON89034 x TC1507 x NK603Cry1A.105, Cry2Ab2 e Cry1F2010
LeptraTC1507 x MON810 x MIR162 x NK603Cry1F, Cry1Ab e Vip3Aa202015
VT PRO 4MON87427 x MON89034 x MIR162 x MON87411Cry1A.105, Cry2Ab2, Vip3Aa20, Cry3Bb1 e DvSnf72018
PowerCore e YieldGard VT PRO MAX são a mesma planta, o mesmo evento vendido sob marcas diferentes.
O que preserva a eficácia da tecnologia

Refúgio estruturado

5 a 20%
da área semeada com milho não Bt, conforme o evento
800 m
distância máxima entre o refúgio e as plantas Bt
2
ou mais proteínas independentes na pirâmide de genes
Eficácia a campo, dado da Embrapa Milho e Sorgo

Espectro de controle por tecnologia

TecnologiaCartuchoBrocaEspigaRoscaAlfinete
YieldGard VT PROSimSimSimNãoNão
YieldGard VT PRO 3SimSimSimNãoSim
LeptraSimSimSimSimNão
PowerCore UltraSimSimSimSimNão
VT PRO 4SimSimSimSimSim
O controle de Spodoptera frugiperda pelo Cry1F está comprometido desde 2011, e o Sim se sustenta pelas demais proteínas.
A regulação define a velocidade de adoção

Transgenia e edição gênica

Transgenia clássica

Insere DNA exógenoClassificada como OGM10 a 15 anos

Regulada pela Lei de Biossegurança, com parecer da CTNBio por evento.

Edição gênica

Modifica o próprio genomaSem DNA exógeno5 a 7 anos

Não é classificada como OGM no Brasil quando não há DNA exógeno, mas a aceitação no destino ainda é incerta.

Dois atos jurídicos distintos

Registro e proteção de cultivares

InstrumentoFinalidadeAlcance
Registro Nacional de CultivaresAutoriza produzir e comercializar sementeCondição de mercado
Certificado de ProteçãoGarante propriedade intelectual ao obtentorVai até a semente
Patente do eventoProtege a tecnologia inseridaPode alcançar o grão colhido
A proteção exige que a cultivar seja distinta, homogênea e estável, com prazo de 15 anos para a maioria das espécies.
O próximo salto não vem de área nova

Tendências do melhoramento

IA
Predição

Genômica e IA

Modelos preditivos escolhem cruzamentos e encurtam o desenvolvimento.

Ed
Rota curta

Edição gênica

Tolerância à seca e resistência a doenças por caminho regulatório mais rápido.

Ni
Nicho

Personalização

Cultivares ajustadas a combinações locais de solo, clima e mercado.

?
Retome a pergunta
Como escolher a cultivar certa entre dezenas de opções disponíveis?
Responda agora com o que você viu na aula.
Encerramento
A cultivar escreve o teto da lavoura, e o manejo só decide quanto dele será alcançado.