Unidade II · Expressão do Potencial Produtivo

Como estabelecer uma lavoura com alto potencial produtivo?

Aula 06. Manejo do Solo e Implantação das Culturas
Prof. Dr. Anísio da Silva Nunes
Fitotecnia III. Culturas de Cereais
UNEMAT · Agronomia · Tangará da Serra
?
Ponto de partida
Quanto da produtividade é decidido antes mesmo da emergência das plantas?
Ao final desta aula, você será capaz de

Objetivos de aprendizagem

01

Comparar sistemas

Confrontar cultivo, época e arranjo espacial das cinco culturas em sequeiro.

02

Calcular a população

Converter população em estande, em sementes por metro e em quilos por hectare.

03

Diagnosticar falhas

Rastrear o sintoma de campo até a semente, a operação ou o solo.

Duas filosofias de manejo

Convencional e conservacionista

Preparo convencional

Revolve a cada cicloIncorpora resíduosSuperfície exposta

Prepara o ambiente da semente revolvendo o solo, com maior risco de erosão e de compactação.

Preparo conservacionista

Mobilização mínimaSolo cobertoRotação de espécies

Cultivar mantendo o potencial produtivo, com adição de 8.000 a 12.000 kg/ha por ano de matéria orgânica.

Conservacionista

Cobertura morta no plantio direto

Cultivo em nível sobre cobertura vegetal, prática conservacionista contra a erosão.
Cultivo em nível sobre cobertura vegetal, prática conservacionista contra a erosão.
Fonte: 500 Perguntas, 500 Respostas (Embrapa)
Duas etapas com objetivos distintos

Do preparo primário ao secundário

Etapa ou implementoO que fazCuidado principal
Preparo primárioMobilização profunda que enterra restos culturaisRompe camadas e expõe a superfície
Preparo secundárioDuas gradagens que destorroam e nivelamElimina plântulas de daninhas já germinadas
Grade aradoraAra, destorroa e nivela em uma passadaForma pé-de-grade entre 10 e 15 cm
Arado escarificadorAfrouxa com tensão localizada, de 20 a 30 cmNão inverte camadas e mantém resíduos
As duas etapas

Preparo primário e secundário

O preparo convencional do solo em duas etapas: mobilização profunda e destorroamento.
O preparo convencional do solo em duas etapas: mobilização profunda e destorroamento.
Fonte: 500 Perguntas, 500 Respostas (Embrapa)
O custo escondido do rendimento operacional

Pé-de-grade

O uso continuado da grade aradora na mesma profundidade forma uma camada compactada logo abaixo da linha de corte, que barra a infiltração e alimenta a erosão.
Nenhum implemento entrega bom preparo fora da faixa

Friabilidade e umidade ideal

ImplementoTipo de soloUmidade ideal
Arado e gradeArgiloso60% a 70% da capacidade de campo
Arado e gradeArenoso60% a 80% da capacidade de campo
Escarificador e subsoladorArgiloso30% a 40% da capacidade de campo
Solo friável é aquele em que um torrão coletado a 10 cm se desagrega sob leve pressão dos dedos.
Os dois erros do preparo

Úmido demais e seco demais

Solo úmido demais

Deformação plásticaCompacta a camadaTorrões

É o erro mais caro, porque compacta exatamente a camada que se queria soltar.

Solo seco demais

Mais combustívelMais passadasSuperfície pulverizada

Deixa a superfície suscetível à erosão e produz torrões que prejudicam a distribuição de sementes.

Torrões e falhas

Preparo inadequado

Estande irregular de milho em solo mal preparado.
Estande irregular de milho em solo mal preparado.
Fonte: 500 Perguntas, 500 Respostas (Embrapa)
Mecânica sem biologia dura uma safra

Romper e manter rompido

1
Diagnosticar a camada e sua profundidade
2
Escarificar com o solo na faixa de friabilidade
3
Espaçar as hastes de 1,2 a 1,3 vez a profundidade
4
Semear plantas de raiz agressiva para ocupar os poros
5
Controlar o tráfego na safra seguinte
Romper e manter rompido

Resistência à penetração

Resistência mecânica à penetração em milho solteiro e consorciado com braquiária, por profundidade.
Resistência mecânica à penetração em milho solteiro e consorciado com braquiária, por profundidade.
Fonte: Informações Agronômicas
Onde ela está e como enxergá-la

Diagnóstico da compactação

20
Profundidade típica

De 5 a 20 cm

Camada formada por tráfego pesado e preparo repetido em solo úmido.

Tr
O mais difundido

Trincheira

Abrir perfis de 30 por 30 por 50 cm e examinar a estrutura.

Pe
Rápido e quantitativo

Penetrômetro

Referência de 2 kgf/cm² com o solo na capacidade de campo.

O exame morfológico de raízes é o diagnóstico mais confiável, com raízes achatadas e tortuosas como sintoma.
A confusão que explica muitos fracassos

Plantio direto e SPD

Plantio direto

Ato de semear sem preparoDois princípiosCorresponde ao no-tillage

Suprime o preparo e mantém restos culturais, mas não garante diversificação nem cobertura permanente.

Sistema Plantio Direto

Sistema de manejoTrês princípiosResposta brasileira

Só entrega resultado quando os três fundamentos operam juntos, e não é uma técnica de semeadura.

Os três precisam operar juntos

Os fundamentos do SPD

Re
Fundamento 1

Revolvimento mínimo

A mobilização se restringe à linha de semeadura, preservando bioporos.

Co
Fundamento 2

Cobertura permanente

Palhada ou plantas vivas como barreira contra chuva e radiação.

Ro
Fundamento 3

Rotação de culturas

Espécies de famílias e funções diferentes, o que não é a sucessão soja e milho.

Massa inicial não é o que importa

Persistência da palhada

Espécie de coberturaMassa seca (kg/ha)Resíduo aos 180 dias
Aveia preta8.23136%
Centeio4.06261%
Azevém4.00721%
Trigo2.96558%
No verão do Cerrado o milheto é a cobertura de decomposição mais lenta, o que o consagrou como produtor de palha.
Alerta de sistema

O sistema pela metade

Dois princípios apenas, somados à calagem superficial sem incorporação, estratificam o perfil e degradam o solo de forma progressiva.
A data é irreversível e comanda o risco

Janelas de semeadura em Mato Grosso

CulturaJanelaObservação técnica
Arroz de terras altasOutubro a dezembroO risco se acentua após 20 de dezembro
Milho safrinhaJaneiro a fevereiroCada dia de atraso amplia o risco no pendoamento
Trigo de sequeiroJaneiro a fevereiroMaturação na estação seca reduz a brusone
Sorgo graníferoFevereiro a marçoComeça onde o milho safrinha já tem risco alto
MilhetoFevereiro a marçoSemeadura em abril floresce cedo e produz pouca biomassa
Do zoneamento à cultivar

Como decidir dentro da janela

1
Consultar o ZARC do município e do tipo de solo
2
Verificar se a janela está aberta para a data pretendida
3
No início da janela, usar cultivar de ciclo mais longo
4
No fim da janela, usar cultivar precoce que escapa do veranico
5
Registrar a semeadura para crédito e seguro
Os dois desvios custam caro

Antecipar e atrasar

Antecipar

Espigamento na chuvaBrusone no trigoEstiagem pós-germinação

Na região tropical, antecipar joga a fase crítica para dentro do período úmido.

Atrasar

Menor potencialVeranico no enchimentoFora do seguro

Retira a lavoura da cobertura do seguro rural e do crédito subsidiado.

Quatro dimensões independentes

Qualidade da semente

Ge
Dimensão 1

Genética

Potencial da cultivar, garantido pela pureza varietal.

Fi
Dimensão 2

Fisiológica

Germinação e vigor, a que entra no cálculo de sementes.

Sa
Dimensão 3

Sanitária

Ausência de patógenos transmitidos da semente à plântula.

Fs
Dimensão 4

Física

Pureza do lote, com sementes puras, inerte e outras espécies.

O vigor decide o que o laboratório não mostra

Germinação não garante estande

Lote de arrozGerminação em laboratórioEmergência em campo
193%84%
292%71%
395%68%
497%82%
O lote 3 tinha a maior germinação e entregou a menor emergência, porque o vigor é outra dimensão.
Fora de ordem, o inoculante morre

A ordem do tratamento

1
Fungicida, contra patógenos transmitidos pela semente
2
Inseticida, contra pragas iniciais e vetores de vírus
3
Inoculante, por último, porque contém bactérias vivas
4
Semear em até 24 horas após o tratamento
A semente tratada perde fluidez, e a grafita a 3 g/kg preserva a regularidade da distribuição no milho.
Em gramínea, inocula-se pela raiz

O que o Azospirillum faz

Au
O mecanismo

Auxinas

A bactéria produz fitormônios que multiplicam raízes laterais e pelos radiculares.

Ra
O benefício

Raiz maior

Explora mais solo, absorve mais água e sustenta a planta no veranico.

As
A diferença

Associação

Sem nódulo, ao contrário da simbiose do rizóbio com a soja.

O ganho médio observado em milho e sorgo é da ordem de 20% de produtividade.
O erro conceitual mais caro

Complementa, não substitui

A fixação por Azospirillum é discreta e variável, e quem corta a adubação nitrogenada contando com ela colhe uma lavoura subnutrida.
O erro de raciocínio mais caro da implantação

População e estande

População

Plantas por hectareVariável de decisãoDefinida pelo agrônomo

Decidida a partir da cultura, da cultivar, da água e da fertilidade disponíveis.

Estande

Plantas por metroConsequênciaRegula a máquina

Calculado a partir da população e do espaçamento, nunca escolhido de forma arbitrária.

Estande e competição

População e diâmetro de colmo

Diâmetro médio de colmo de plantas de milho conforme os tratamentos de arranjo.
Diâmetro médio de colmo de plantas de milho conforme os tratamentos de arranjo.
Fonte: Milho: Manejo e Produtividade
Porte, perfilhamento e sistema de semeadura

Arranjo das cinco culturas

CulturaPopulação (plantas/ha)Fileiras (m)Estande (pl/m)PMS (g)
Trigo3.500.000 a 4.500.0000,17-0,2060-8030-45
Arroz1.800.000 a 2.500.0000,25-0,3550-8022-30
Milho55.000 a 70.0000,45-0,502,5-3,5220-380
Sorgo180.000 a 220.0000,45-0,506-1020-35
Milheto100.000 a 175.0000,404-76-8
O gasto de sementes que resulta desse arranjo vai de 3 a 5 kg/ha no milheto até 120 a 180 kg/ha no trigo.
A semeadora não aceita uma faixa

Onde se posicionar na faixa

Su
Limite superior

Recursos não limitantes

Boa fertilidade e água, época ideal e híbrido de folha ereta.

Me
Meio da faixa

Condições médias

Fertilidade e água médias, com semeadura em época adequada.

In
Limite inferior

Risco presente

Sequeiro com veranico provável, semeadura tardia ou histórico de acamamento.

A decisão obedece ao fator mais limitante, e o risco hídrico puxa a escolha para baixo mesmo com os demais favoráveis.
Por que estreitar a fileira reduz o estande

Mesma população, três espaçamentos

EspaçamentoMetros de fileira por hectareEstande (plantas/m)
0,45 m22.2222,70
0,50 m20.0003,00
0,90 m11.1115,40
Com 60.000 plantas por hectare fixas, o espaçamento reprograma a máquina e não muda o total de semente comprado.
Semeadora de precisão, exemplo do milho

Da população ao quilo de semente

FórmulaQuilos por hectare = população ÷ (germinação × emergência) × PMS ÷ 1.000.000
Com os dados da lavoura60.000 ÷ 0,855 × 320 ÷ 1.000.000
Estande a 0,50 m: 3,00 plantas/mSementes por metro: 3,51Sementes por hectare: 70.175
Resultado22,46kg/ha de semente
Nem toda semente vira planta

A fração de estabelecimento

Ge
Primeira perda

Germinação

Percentual do rótulo, obtido em laboratório sob condições ideais.

Em
Segunda perda

Emergência

Fração que rompe o solo na lavoura real, sempre menor que a germinação.

90
O padrão

90% de emergência

Adotado quando o dado não foi medido na própria área.

Omitir a emergência equivale a assumir 100%, e subestimar sementes produz estande furado e irreversível.
Semeadora de fluxo contínuo, exemplo do trigo

A mesma conta, outra escala

FórmulaQuilos por hectare = população ÷ (germinação × emergência) × PMS ÷ 1.000.000
Com os dados da lavoura4.000.000 ÷ 0,81 × 36 ÷ 1.000.000
Estande a 0,17 m: 68 plantas/mSementes por metro: 84Sementes por hectare: 4.938.272
Resultado177,8kg/ha de semente
O dosador define a máquina

Precisão e fluxo contínuo

CaracterísticaSemeadora de precisãoSemeadora de fluxo contínuo
DosadorDisco alveolado ou pneumáticoRotor acanalado ou dentado
ControleEspaçamento individual entre sementesVazão de sementes por metro
CulturasMilho e sorgoTrigo e arroz
Em semeadura direta, o disco de corte de cerca de 18 polegadas corta palhadas de até 5 t/ha.
Dois atos que a prática costuma fundir

Regulagem e calibração

Regulagem

Ajuste planejadoDisco e engrenagemBaseada no cálculo

Ajusta a máquina para entregar a taxa pretendida, e é apenas o ponto de partida.

Calibração

Verificação empíricaColeta e pesagemMáquina em movimento

Confere o que a máquina realmente entrega e captura a patinagem da roda motriz.

A ordem importa, cada passo depende do anterior

Calibrar a semeadora

1
Verificar dosadores, discos, pneus e correntes
2
Regular pela referência teórica do fabricante
3
Calcular a massa esperada em 50 metros de fileira
4
Coletar com a máquina na velocidade real de trabalho
5
Comparar, corrigir e registrar o ajuste final
Mais raso em solo úmido, mais fundo em solo seco

Profundidade por cultura

CulturaProfundidadeObservação
Trigo2 a 4 cmAcima disso a emergência é lenta e mais exposta a patógenos
Arroz2 a 4 cmSolos secos pedem o limite superior da faixa
Milho3 a 5 cmO mesocótilo posiciona a raiz nodular próxima da superfície
Sorgo3 a 5 cmSemente de baixa reserva, sensível ao excesso de profundidade
Milheto2 a 4 cmSemente muito pequena, e um torrão já impede a emergência
Acima de 8 km/h a qualidade cai, e em plantio direto de milho a emergência chega a cair 12%.
Onde a semente deve ficar

Profundidade e raiz nodular

Estádio VE: crescimento inicial da raiz nodular, acima do mesocótilo.
Estádio VE: crescimento inicial da raiz nodular, acima do mesocótilo.
Fonte: Como a Planta de Milho se Desenvolve (Embrapa)
Classificação dos intervalos na linha

Aceitável, falha e duplo

Ac
Pelo menos 80%

Aceitável

Intervalo entre 0,5 e 1,5 vez o espaçamento teórico.

Fa
No máximo 10%

Falha

Intervalo maior que 1,5 vez o teórico, com perda de estande.

Du
No máximo 10%

Duplo

Intervalo menor que 0,5 vez o teórico, com competição localizada.

O coeficiente de variação do espaçamento deve ficar em no máximo 25%.
A frota cabe na janela do ZARC

Dias de semeadura

FórmulaDias = área ÷ (CCE × eficiência operacional × horas por dia × conjuntos)
Com os dados da lavoura300 ÷ (3,9 × 0,75 × 10 × 1)
Largura de 13 linhas a 0,50 m: 6,5 mVelocidade: 6 km/hCapacidade operacional: 2,925 ha/h
Resultado10,26dias, que se arredondam para 11
O arredondamento é sempre para cima, porque uma fração de dia deixaria área sem semear. Onze dias cabem na janela de 20.
Avaliar enquanto ainda dá para corrigir

Quando e como avaliar

AvaliaçãoQuandoReferência
ProfundidadeLogo após semearFaixa da cultura, medida em 5 pontos
Uniformidade longitudinalLogo após semearAceitáveis iguais ou acima de 80%
Fechamento do sulcoLogo após semearSulco fechado, sem crosta excessiva
EmergênciaDe 5 a 10 diasIgual ou acima de 85%
EstandeDe 14 a 21 diasPopulação-alvo, em 10 pontos de 3 metros
A correção depende da origem

Semente, operação ou solo

Falha de semente

Baixo vigorEmergência lentaDesuniformidade

Pede troca de lote, e aumentar a taxa não corrige a desuniformidade de emergência.

Falha de operação ou de solo

Velocidade altaDosador gastoTorrão e crosta

A maior parte das falhas está sob controle direto do agrônomo, na regulagem e no preparo.

O que a operação estraga

Velocidade e dosador

A velocidade de deslocamento na semeadura afeta diretamente o desempenho do dosador.
A velocidade de deslocamento na semeadura afeta diretamente o desempenho do dosador.
Fonte: 500 Perguntas, 500 Respostas (Embrapa)
Ler o sintoma e rastrear a causa

Do sintoma à correção

Sintoma observadoCausa provávelCorreção
Falhas grandes na linhaVelocidade alta ou patinagemReduzir velocidade e recalibrar em movimento
Excesso de plantas juntasDisco dosador inadequadoAjustar o disco à semente e refazer a calibração
Semente parada no sulcoProfundidade excessiva ou crostaReduzir a profundidade e melhorar o preparo
Plântulas que tombamPraga de solo ou tratamento ausenteRevisar o tratamento e o histórico da área
Murcha em veranico curtoCamada compactadaDescompactar e semear plantas de raiz agressiva
?
Retome a pergunta
Quanto da produtividade é decidido antes mesmo da emergência das plantas?
Responda agora com o que você viu na aula.
Encerramento
Não há adubação de cobertura que reponha uma planta que nunca emergiu.