Unidade II · Expressão do Potencial Produtivo

Como decidir o que, quanto, quando e onde adubar?

Aula 08. Adubação e Manejo Nutricional
Prof. Dr. Anísio da Silva Nunes
Fitotecnia III. Culturas de Cereais
UNEMAT · Agronomia · Tangará da Serra
?
Ponto de partida
Por que nem toda adubação resulta em aumento de produtividade?
Ao final desta aula, você será capaz de

Objetivos de aprendizagem

01

Calcular a recomendação

Definir semeadura e cobertura das cinco culturas a partir do laudo e da expectativa.

02

Comparar eficiências

Justificar dose, fonte e época, incluindo a mitigação de perdas por volatilização.

03

Planejar o programa

Integrar calagem, gessagem e adubação para sustentar altas produtividades.

Cada etapa depende da anterior

Do laudo à máquina calibrada

1
Interpretar teores e índices das duas camadas
2
Calcular a calagem pelos três métodos e escolher a maior
3
Avaliar o subsolo e calcular a gessagem
4
Definir as doses de N, P2O5 e K2O por cultura
5
Montar a fórmula e converter em gramas por metro de sulco
Camadas distintas da recomendação

Corrigir e nutrir

Correção

Calcário e gessoMexe no ambientepH, bases e alumínio

Constrói a casa onde a raiz vai morar, e define a profundidade que ela consegue explorar.

Adubação

FertilizanteEntrega nutrienteN, P e K

Mobília a casa, e só rende quando o ambiente químico já permite que a planta responda.

A ordem não pode ser invertida

Dinheiro parado no perfil

A planta responde ao fator mais limitante, não ao nutriente aplicado. Nitrogênio em solo ácido de alumínio tóxico é combustível com o freio de mão puxado.
Três efeitos concretos, três fórmulas de dose

Por que calcariar

pH
Motivo 1

Corrigir a acidez ativa

O carbonato consome o hidrogênio livre da solução e o pH sobe.

Al
Motivo 2

Neutralizar o alumínio

Com o pH em alta, o alumínio precipita como hidróxido e deixa de intoxicar.

Ca
Motivo 3

Fornecer cálcio e magnésio

O calcário também é adubo, e o dolomítico repõe magnésio.

O alvo é equilíbrio, não neutralidade: acima de pH 7 os micronutrientes metálicos travam a disponibilidade.
A confusão entre eles produz recomendação errada

Os quatro rostos da acidez

TipoO que éOnde está
AtivaHidrogênio livreSolução do solo, lida pelo pHmetro
TrocávelAlumínio e hidrogênio adsorvidosSítios de troca, é a que intoxica a raiz
Não trocávelHidrogênio em ligação covalenteMatéria orgânica e minerais, libera devagar
PotencialHidrogênio mais alumínio totalSoma tudo e entra na CTC a pH 7
O rosto da acidez

Toxidez de alumínio no campo

Toxidez de alumínio em trigo: crestamento no campo e injúrias no sistema radicular.
Toxidez de alumínio em trigo: crestamento no campo e injúrias no sistema radicular.
Fonte: Informações Agronômicas
Duas propriedades definem o corretivo

Composição e granulometria

Poder de neutralização

Composição químicaPureza do materialComparado ao carbonato puro

Mede quanto do peso do saco de fato neutraliza ácido.

Reatividade

GranulometriaVelocidade na safraPartícula fina reage rápido

O PRNT é o produto dos dois dividido por 100, e comparar calcário por tonelada, sem olhar o PRNT, é erro de iniciante.

Talhão TH-07, método da saturação por bases

Necessidade de calagem

FórmulaNC (t/ha) = [(V2 - V1) × CTC a pH 7] ÷ PRNT
Com os dados da lavoura[(60 - 39,5215) × 6,0352] ÷ 90
V atual: 39,5215%V desejado: 60%CTC a pH 7: 6,0352 cmolc/dm³
Resultado1,3732t/ha de calcário PRNT 90%
Cada método vence um obstáculo diferente

As três doses do TH-07

MétodoObjetivoDose (t/ha)
Saturação por basesCorrigir acidez ativa e subir o V1,3732
Neutralização do alumínioDesarmar o alumínio com margem0,2889
Elevação de cálcio e magnésioSuprir bases e neutralizar alumínio0,0889
No método 3 o cálcio mais magnésio do solo já superou o alvo, por isso a dose ficou mínima.
Cálcio e alumínio em profundidade

Gesso no perfil do solo

Saturação por Al e teor de Ca ao longo do perfil, em função de doses de gesso.
Saturação por Al e teor de Ca ao longo do perfil, em função de doses de gesso.
Fonte: GESSO AGRÍCOLA: Condicionador de Solo Indispensável para a Construção de Ambientes de Alta Produtividade na Agricultura Tropical
A lógica do elo mais fraco

Por que a maior dose

3
Três objetivos

O calcário faz tudo junto

Mais calcário sobe o V, precipita alumínio e fornece cálcio ao mesmo tempo.

Co
A consequência

A maior contém as menores

A dose que satisfaz o mais exigente satisfaz automaticamente os outros dois.

Ti
A escolha do tipo

Magnésio decide

Magnésio abaixo de 0,5 pede dolomítico; adequado libera calcítico ou magnesiano.

No TH-07 o magnésio é 0,78 e a relação cálcio e magnésio é estreita, o que descarta o dolomítico.
Ferramentas complementares, nunca substitutas

Calcário e gesso

Calcário

Pouco solúvelFica onde foi incorporadoCorrige pH

Resolve a superfície e não desce sozinho no perfil, por isso não corrige o subsolo.

Gesso

Sulfato de cálcioSolúvel, desce com a águaNão corrige pH

Leva cálcio ao subsolo e reduz a atividade tóxica do alumínio, abrindo caminho para a raiz.

Basta uma condição na camada de 20 a 40 cm

Quando indicar a gessagem

Ca
Critério 1

Cálcio baixo

Abaixo de 0,5 cmolc por decímetro cúbico na camada de subsolo.

m
Critério 2

Saturação por alumínio

Acima de 20% da CTC efetiva da camada.

Al
Critério 3

Alumínio trocável

Acima de 0,5 cmolc por decímetro cúbico.

No subsolo do TH-07 a saturação por alumínio é 44,35% e o alumínio é 1,42, indicando gesso com sobra.
Quando indicar gessagem

Práticas e eficiência do adubo

Sequência de decisões do manejo do trigo, da análise de solo às intervenções no ciclo.
Sequência de decisões do manejo do trigo, da análise de solo às intervenções no ciclo.
Fonte: Informações Agronômicas
Talhão TH-07, camada de 20 a 40 cm

Necessidade de gesso

FórmulaNG (t/ha) = [(CTC efetiva × 0,6) - cálcio] × 6,4
Com os dados da lavoura[(3,2021 × 0,6) - 1,25] × 6,4
CTC efetiva do subsolo: 3,2021 cmolc/dm³Cálcio atual: 1,25 cmolc/dm³Alvo de saturação de cálcio: 60%
Resultado4,2960t/ha de gesso agrícola
A assimetria que o laudo raso esconde

Uma tonelada em cima, quatro embaixo

A superfície do TH-07 pedia pouco mais de uma tonelada de calcário e o subsolo pedia mais de quatro de gesso. Quem amostra só a camada de cima recomenda pela metade.
Forma do nitrogênio e concentração

Fontes nitrogenadas

FonteConcentração de NObservação
Ureia44% a 46%A mais concentrada e a de maior volatilização em superfície
Sulfato de amônio20% a 21%Carrega 22% a 24% de enxofre e acidifica o solo
Nitrato de amônio32% a 33%Pronta absorção e menor volatilização
MAP9% a 11%Também é fonte fosfatada
DAP16% a 18%Também é fonte fosfatada
Nitrato, ureia e sulfato

Fontes e fenologia do trigo

Manejo nutricional e fenologia do trigo, com as fontes nitrogenadas em cada fase.
Manejo nutricional e fenologia do trigo, com as fontes nitrogenadas em cada fase.
Fonte: Informações Agronômicas
Nenhuma fonte entrega só o nutriente do nome

O que vem junto

S
Enxofre de brinde

Sulfatos

Sulfato de amônio e superfosfato simples entregam enxofre útil.

Ac
Acidez residual

Amoniacais

Fontes amoniacais acidificam o solo ao longo dos anos.

Cl
Salinidade

Cloreto

O cloreto de potássio é o mais barato por unidade e o de maior índice salino.

Solubilidade, concentração e acompanhantes

Fontes fosfatadas e potássicas

FonteConcentraçãoAcompanhantes
Superfosfato simples18% a 21% de P2O5Cálcio e enxofre
Superfosfato triplo41% a 46% de P2O5Cálcio
MAP48% a 52% de P2O5Nitrogênio
Cloreto de potássio58% a 60% de K2OCloreto
Sulfato de potássio48% a 52% de K2OEnxofre
Fosfatos naturais reativos têm baixa solubilidade e liberação lenta, e não servem à adubação anual.
Fertilizante é sal, e cada fonte sala diferente

Índice salino

Índice salino alto

Cloreto de potássioUreiaNitrato de amônio

Não podem ser empilhados junto da semente, porque desidratam a plântula.

Índice salino baixo

MAP e DAPSuperfosfato simplesSuperfosfato triplo

O fósforo quase não sala e por isso pode ir concentrado no sulco, junto da semente.

A mobilidade comanda posição, época e parcelamento

N, P e K no solo

NutrienteForma e mobilidadeDecisão que impõe
NitrogênioNitrato, ânion de alta mobilidadeParcelar em arranque e cobertura
FósforoFixado por óxidos, quase imóvelTudo na semeadura e localizado
PotássioCátion retido pelos sítios de trocaParcelar conforme dose, solo e salinidade
Quem entende a mobilidade deduz cada regra de parcelamento em vez de decorá-las.
O N no solo

Temperatura e nitrificação

Influência da temperatura do solo sobre a taxa relativa de acúmulo de nitrato no solo.
Influência da temperatura do solo sobre a taxa relativa de acúmulo de nitrato no solo.
Fonte: Manejo de Plantas Daninhas
A física é implacável

A osmose invertida

Concentrar sal junto da semente faz a solução puxar água de dentro dela, e a queima do adubo no sulco mata o estande antes de a lavoura começar.
A regra prática do potássio

Limites no sulco e a lanço

50
No sulco

50 kg/ha de K2O

Acima desse limite, o excedente precisa ir para a cobertura.

80
A lanço

80 kg/ha de K2O

O limite é maior porque o sal se distribui em toda a superfície.

TH
No TH-07

60 viram 50 mais 10

Dos 60 kg/ha totais, 50 foram ao sulco e 10 escorreram para a cobertura.

O vazamento silencioso do nitrogênio

Como a ureia vira gás

1
Ureia aplicada na superfície encontra a urease do solo e da palhada
2
A hidrólise transforma a ureia em carbonato de amônio
3
O carbonato é instável e libera amônia gasosa
4
Sem chuva ou incorporação, a amônia escapa para a atmosfera
O plantio direto, por manter palhada, concentra atividade de urease e tende a perder mais.
O que a perda custa e o que a mitigação compra

Volatilização em números

1/3
do nitrogênio aplicado pode se perder em condição desfavorável
NBPT
inibidor que atrasa a hidrólise por alguns dias
0
ganho do inibidor se a chuva não vier dentro da janela
Cada aplicação atende um momento

Semeadura e cobertura

Adubação de semeadura

Fósforo inteiroParte do potássioArranque de nitrogênio

Entrega o suficiente para a plântula sair bem antes de as raízes se espalharem.

Adubação de cobertura

Grosso do nitrogênioPotássio excedentePerfilhamento e alongamento

No milho, doses acima de 100 kg/ha de N são rachadas entre V4 e V6 e entre V8 e V10.

O teor de fósforo do solo decide a posição

Sulco ou lanço

Teor de fósforoPosição indicadaRazão
BaixoSulco obrigatórioLocalizar reduz o contato com a superfície fixadora
Adequado ou altoLanço liberadoO perfil já tem fósforo disponível espalhado
Liberar o lanço com fósforo baixo é economia de diesel que custa grão.
Onde o P fica preso

pH e disponibilidade de fósforo

Efeitos do pH do solo na disponibilidade de fósforo para as plantas.
Efeitos do pH do solo na disponibilidade de fósforo para as plantas.
Fonte: Manejo de Plantas Daninhas
A bifurcação que precede a conta

Manutenção e corretiva gradual

Manutenção

Repõe a exportaçãoSolo já construídoSafra a safra

Sustenta o teor atual em solo corrigido e com fertilidade construída.

Corretiva gradual

Aplica acima da exportaçãoSolo ainda pobreVários anos

Paga mais agora para elevar o teor do solo ao longo das safras seguintes.

As três estratégias

Construção, manutenção e reposição

Disponibilidade de nutriente no solo como critério para construir, manter ou repor a fertilidade.
Disponibilidade de nutriente no solo como critério para construir, manter ou repor a fertilidade.
Fonte: Informações Agronômicas
Solos de adequado a alto, em kg/ha

Manutenção do trigo de sequeiro

ExpectativaN semeaduraN coberturaP2O5 adequadoK2O adequado
3,0 t/ha20106030
4,0 t/ha20407040
5,0 t/ha20708050
O boro na semeadura, de 0,65 a 1,3 kg/ha, controla o chochamento por esterilidade masculina.
Chochamento e esterilidade

Boro no trigo

Espigas de trigo sem boro (-B) e com boro (+B): o chochamento na ausência do nutriente.
Espigas de trigo sem boro (-B) e com boro (+B): o chochamento na ausência do nutriente.
Fonte: 500 Perguntas, 500 Respostas (Embrapa)
Três entradas antes de escolher a linha

Como ler a tabela

Fi
Entrada 1

Filosofia

Manutenção ou corretiva, conforme o solo já esteja construído ou não.

Te
Entrada 2

Teor do solo

A classe do laudo aponta a coluna, adequado ou alto.

Ex
Entrada 3

Expectativa

A produtividade almejada aponta a linha da tabela.

Como monitorar

Balanço de entradas e saídas

Monitoramento e manejo de solos de fertilidade construída, pelo balanço de entradas e saídas.
Monitoramento e manejo de solos de fertilidade construída, pelo balanço de entradas e saídas.
Fonte: Informações Agronômicas
A cultura mais exigente do grupo

Manutenção do milho de sequeiro

ExpectativaN semeaduraN coberturaP2O5 adequadoK2O semeadura
6,0 t/ha20406060
8,0 t/ha30708060
10,0 t/ha3013010060
10,0 t/ha3018012060
O enxofre entra com 20 kg/ha até 8 t/ha e 30 kg/ha entre 8 e 12 t/ha de expectativa.
A fenologia e o hábito explicam a diferença

O milho e os rústicos

Milho

Até 180 kg/ha de NMuita matéria secaGrão exigente

Puxa a maior demanda de nitrogênio em cobertura entre as cinco culturas.

Sorgo e milheto

N de cobertura menorMenos fósforoMenos potássio

Cereais rústicos têm exigência menor por tonelada esperada, coerente com o teto produtivo.

A comparação que a ementa pede

Manutenção nas cinco culturas

CulturaExpectativaN coberturaP2O5K2O
Trigo5,0 t/ha708050
Arroz5,0 t/ha20 a 707060
Milho10,0 t/ha130 a 18010060
Sorgo6,0 t/ha1108060
Milheto3,0 t/ha608060
Doses em kg/ha, com P2O5 e K2O na semeadura, para solo de teor adequado. O nitrogênio de semeadura é baixo e parecido entre todas, porque serve apenas de arranque.
Necessidade de 20-70-50 na semeadura do trigo

Quilos da fórmula por hectare

FórmulaQuantidade da fórmula = (100 × P2O5 desejado) ÷ teor de P2O5 da fórmula
Com os dados da lavoura(100 × 70) ÷ 28
Fórmula escolhida: 08-28-20P2O5 desejado: 70 kg/haAncoragem: no fósforo, que vai inteiro na semeadura
Resultado250kg/ha da fórmula 08-28-20
Toda grade escolhida precisa ser conferida

A conferência e a tolerância

NutrienteDesejado (kg/ha)Entregue por 250 kgDiferença
N2020,00
P2O57070,00
K2O5050,00
A variação aceitável entre o desejado e o entregue é de no máximo 10 kg/ha por nutriente.
A recomendação só vira realidade na regulagem

Gramas por metro de sulco

FórmulaQuantidade por metro = (dose por hectare × 1.000) ÷ metros de sulco por hectare
Com os dados da lavoura(250 × 1.000) ÷ 58.823,5294
Espaçamento do trigo: 0,17 mMetros de sulco por hectare: 58.823,5294Dose por hectare: 250 kg
Resultado4,25g/m da fórmula 08-28-20
Nenhuma eficiência de uso chega a 100%

Eficiência e adubação de sistema

N
Menor eficiência

Nitrogênio

O mais móvel e o mais sujeito a perda, por isso concentra as mitigações.

P
Efeito residual

Fósforo

Baixa eficiência no ano, mas constrói reserva para a cultura seguinte.

Si
A lógica

Adubar o sistema

Planejar a rotação inteira em vez de reabastecer do zero a cada safra.

Lista de verificação antes de assinar

Erros comuns e o que custam

ErroConsequência
Adubar antes de corrigir o soloAdubo desperdiçado e resposta baixa
Comprar calcário pela tonelada, sem olhar o PRNTCorreção insuficiente e custo real maior
Amostrar apenas a camada de 0 a 20 cmRaiz presa em camada rasa e murcha no veranico
Empilhar potássio acima do limite no sulcoFalha de estande por queima da semente
Aplicar ureia em superfície sem chuvaPerda expressiva do nitrogênio por volatilização
Errar o espaçamento no cálculo de gramas por metroDose real errada na lavoura inteira
?
Retome a pergunta
Por que nem toda adubação resulta em aumento de produtividade?
Responda agora com o que você viu na aula.
Encerramento
A adubação começa na análise de solo e termina na regulagem da máquina.