Unidade III · Proteção da Produtividade

Como reduzir perdas causadas por insetos-praga?

Aula 10. Manejo Integrado de Pragas
Prof. Dr. Anísio da Silva Nunes
Fitotecnia III. Culturas de Cereais
UNEMAT · Agronomia · Tangará da Serra
?
Ponto de partida
Quando uma população de insetos passa a representar prejuízo econômico?
Ao final desta aula, você será capaz de

Objetivos de aprendizagem

01

Comparar pragas e limiares

Confrontar as principais pragas e os níveis de dano econômico entre as cinco culturas.

02

Interpretar o monitoramento

Decidir sobre a necessidade de controle a partir de dados de amostragem.

03

Relacionar refúgio e MIP

Ligar mecanismo de ação, coexistência e refúgio ao manejo de resistência.

Praga não é a espécie, é a densidade

Inseto fitófago e praga

Inseto fitófago

Cerca de 30 espécies no milhoConvive com a culturaRegulado por inimigos naturais

A maioria nunca justifica intervenção, mantida em baixa população pelo controle natural.

Praga

Densidade que causa prejuízoCusta mais que o controleExige decisão

Só é praga a espécie cuja densidade causa prejuízo igual ou maior que o custo do próprio controle.

Escolher o inseticida é mais que escolher eficácia

Duas seletividades

Fi
Da molécula

Seletividade fisiológica

Mesmo em contato, causa mortalidade baixa ou nula ao inimigo natural.

Ec
Do modo de aplicar

Seletividade ecológica

A aplicação dirigida reduz o contato do produto com o inimigo natural.

MI
O que o MIP é

Químico quando se justifica

MIP não é ausência de químico, é uso apenas quando o monitoramento o indica.

Monitorar é ler a densidade contra três linhas

Os três níveis populacionais

NívelSiglaO que representa
Nível de equilíbrioNEDensidade em torno da qual a praga oscila sem intervenção
Nível de controleNCDensidade a partir da qual se recomenda iniciar o controle
Nível de dano econômicoNDEDensidade em que o prejuízo iguala o custo do controle
O NC vem abaixo do NDE de propósito, porque a população ainda cresce entre a decisão e o efeito do produto.
Cada item depende do anterior

Um programa de MIP

1
Definir o método de amostragem para cada espécie
2
Identificar corretamente as pragas da cultura e da região
3
Levantar os inimigos naturais presentes na área
4
Determinar os níveis de ação para cada praga-chave
5
Escolher a alternativa de controle mais seletiva
Exemplo com valores ilustrativos de milho

Nível de dano econômico

FórmulaNDE = custo do controle ÷ (preço do grão × perda por indivíduo × eficácia)
Com os dados da lavoura150 ÷ (0,60 × 60 × 0,85)
Custo do controle: 150 reais por hectarePreço do grão: 0,60 reais por kgPerda por lagarta por m²: 60 kg/ha
Resultado4,9lagartas por m²
O preço do cereal está no denominador

Um alvo que se move

Quando a cotação sobe, o nível de dano econômico cai e vale controlar em densidade menor. O NDE se recalcula a cada safra, não se decora.
A categoria define a intensidade do monitoramento

Três categorias de praga

NP
Oscila no equilíbrio

Não-praga

Nunca ultrapassa o nível de controle e não demanda intervenção.

Oc
Picos isolados

Praga ocasional

Ultrapassa o nível de controle às vezes e volta sozinha ao equilíbrio.

Ch
Sistemática

Praga-chave

Só retorna ao equilíbrio com intervenção repetida, e exige monitoramento constante.

Para vetores de patógenos sistêmicos o NDE é quase nulo, e a decisão se baseia no risco epidemiológico.
Sem contagem sistemática não existe MIP

Monitoramento por cultura

CulturaMétodo e cadênciaMomento crítico
ArrozSemanal, com redário para percevejos da panículaEstabelecimento e florescimento
Milho10 pontos por hectare e armadilha de feromônioEmergência a 15 dias e formação de grãos
SorgoSemanal, e a cada 3 dias no florescimentoCartucho e florescimento
MilhetoLevantamento de campo, sem inseticida registradoEstabelecimento e enchimento
TrigoSemanal, com contagem de lagartas no soloEmergência e espigamento
Três refinamentos que elevam a decisão

Como se monitora

Fe
O mais preciso

Feromônio sexual

Validado para poucas espécies, com destaque para a lagarta-do-cartucho.

Vi
O mais abrangente

Vistoria de campo

Batida de pano, inspeção de plantas e contagem no solo cobrem o restante.

Es
O ganho oculto

Distribuição espacial

Focos agregados permitem controle localizado e grande economia de produto.

Amostragens de percevejos rendem mais no início da manhã ou no fim da tarde, quando os insetos estão mais ativos.
Referências operacionais

Números do monitoramento

5 ha
área coberta por uma armadilha de feromônio
3
mariposas por noite disparam a decisão de controle
60%
de economia de inseticida com controle localizado em lagartas
A estratégia trófica prevê o trânsito entre lavouras

Polífago e monófago

Praga polífaga

Atravessa culturasRotação não barraLagarta-do-cartucho

O inseto não lê o nome da cultura, e a troca de espécie não funciona como barreira.

Praga de monofagia funcional

Um hospedeiroRotação funcionaCigarrinha-do-milho

Contra ela o manejo central é eliminar plantas voluntárias e soqueiras entre cultivos.

A praga mais importante do conjunto

Lagarta-do-cartucho

Y
Identificação

Y invertido na fronte

Quatro manchas pretas em quadrado no oitavo segmento abdominal.

Ca
Comportamento

Canibalismo

Costuma restar uma única lagarta por planta mesmo em infestação severa.

Re
Alerta

Resistência documentada

Populações de Mato Grosso já resistem a piretroides e organofosforados.

Como identificar

Lagarta-do-cartucho

Visão frontal da lagarta-do-cartucho; no detalhe, o Y invertido na cápsula cefálica.
Visão frontal da lagarta-do-cartucho; no detalhe, o Y invertido na cápsula cefálica.
Fonte: Sistema Enlist®
A arquitetura da planta muda o limiar

Nível de controle por cultura

CulturaNível de controleDano
Milho3 mariposas por noite na armadilhaReduz a produtividade em até 50%
Sorgo3 mariposas por noite ou 20% de plantas infestadasPerda de até 27% no peso de grãos
Arroz10% de plantas com dano ou 1 lagarta viva por m²Consome folhas e colmos de plantas jovens
TrigoContagem no solo desde o início da infestaçãoDano ao estande no estabelecimento
MilhetoLevantamento de campo, sem inseticida registradoCoração morto em plantas jovens
O dado que contraria o senso comum de rotação

Milheto, hospedeiro preferencial

O milheto produz mais adultos de lagarta-do-cartucho por metro quadrado que o próprio milho, e mantém a população-fonte da praga em plena entressafra.
Espécies distintas, biologia e dano comuns

Guilda de percevejos

CulturaEspécie dominanteNível de controle
TrigoDiceraeus melacanthus, barriga-verde1 percevejo por m²
ArrozOebalus spp. na panícula1 percevejo por 4 panículas
SorgoPercevejos da panícula12 pequenos ou 4 grandes por panícula
MilhoDiceraeus spp. e Leptoglossus zonatus1 a 2 percevejos por 5 plantas
MilhetoNezara viridulaMonitoramento, sem inseticida registrado
A perfuração do grão abre porta para Nematospora coryli, causando grãos ardidos e perda de qualidade.
O dano indireto costuma ser o pior

Guilda de pulgões

Fl
Dano direto

Sucção do floema

Colônias numerosas em poucos dias, com fumagina sobre a excreção açucarada.

Vi
Dano indireto

Vetoração de vírus

Poucos indivíduos já transmitem, e esse é o principal impacto em várias culturas.

Rs
O risco do erro

Ressurgência

Inseticida de amplo espectro elimina o inimigo natural e libera explosão populacional.

Parasitoides e predadores podem suprimir mais de 95% do crescimento populacional dos pulgões.
O vírus decide a importância da espécie

Pulgões e vírus transmitidos

CulturaEspécieVírus ou nível de controle
TrigoRhopalosiphum padiNanismo-amarelo, 10% de plantas infestadas
SorgoSchizaphis graminumMosaico da cana, 1 folha amarela por planta
MilhoRhopalosiphum maidisMosaico-comum e mela-do-pendão
MilhetoSchizaphis graminumMosaico, manejo por inimigos naturais
ArrozRhopalosiphum rufiabdominalisPulgão-da-raiz, de menor importância
Vetores de vírus

Colônia de pulgões

Pulgão (Rhopalosiphum maidis) em folha de milho.
Pulgão (Rhopalosiphum maidis) em folha de milho.
Fonte: Embrapa, Comunicado Técnico
O ponto de contato aqui é o armazém

Primárias e secundárias

Pragas primárias

Rompem o grão íntegroSitophilus spp.Traça-dos-cereais

Abrem a porta do grão inteiro e viabilizam a infestação seguinte.

Pragas secundárias

Só grão danificadoTribolium castaneumOryzaephilus surinamensis

Avançam sobre o que as primárias abriram, e agravam a perda de qualidade.

Expurgo com fosfina, o controle curativo

Tempo de exposição à fosfina

SituaçãoTempo de exposição
Sementes96 horas
Sacarias120 horas
Silos metálicos240 horas
Graneleiros280 horas
Regra geral acima de 10 °C168 horas, sete dias
Expor por menos tempo que o necessário seleciona resistência sem eliminar a infestação.
Broqueadores e lagartas de panícula

Três pragas de quatro culturas

Br
Interna ao colmo

Broca-do-colmo

Coração morto e panícula branca, com controle biológico por Cotesia flavipes.

El
Base do colmo

Lagarta-elasmo

Máximo dano em solo arenoso, seca e calor, típicos da safrinha.

He
Estruturas reprodutivas

Helicoverpa

Consome grãos imaturos e abre porta para podridões e micotoxinas.

Percevejo-do-colmo

Coração morto e panícula branca

Panícula branca do arroz, sintoma do ataque do percevejo-do-colmo (Tibraca limbativentris).
Panícula branca do arroz, sintoma do ataque do percevejo-do-colmo (Tibraca limbativentris).
Fonte: Arquivo do Agrônomo nº 9
Contra essas, a rotação de fato funciona

Pragas exclusivas de cada cereal

CulturaPraga exclusivaParticularidade
MilhoCigarrinha-do-milhoVetor dos enfezamentos, de monofagia funcional
SorgoMosca-do-sorgo e pulgão-da-canaA safrinha escapa do pico da mosca
ArrozPercevejo-do-colmo e gorgulho-aquáticoPredominam no sistema irrigado
MilhetoCigarrinha-africanaPreferência natural pelo milheto, vetor potencial de vírus
TrigoLagartas-do-trigo e percevejo-raspadorCortam a espiga e raspam a folha no espigamento
No arroz de terras altas o percevejo-do-grão predomina, e o percevejo-do-colmo é do arroz irrigado.
Um caso em que trocar a cultura não basta

Cigarrinha-do-milho

O que não funciona

Rotação de espécieTratamento tardioContar só o dano direto

O tratamento de sementes mata a cigarrinha, mas depois de ela já ter inoculado a doença.

O que funciona

Eliminar plantas voluntáriasCultivar resistenteControle do vetor cedo

Romper a ponte verde entre cultivos pesa mais que qualquer troca de espécie na rotação.

Por onde o produto atinge o inseto

Via de entrada

ViaComo ageExigência de aplicação
IngestãoO inseto morre ao consumir o produtoMira nos locais de alimentação
ContatoPenetra pela epiderme do insetoRecobrimento na zona de atividade do inseto
InalaçãoAtinge o inseto pela respiraçãoRecinto fechado e hermético, sem residual
Como o produto se move na planta

Contato, translaminar e sistêmico

Co
Não se move

De contato

Age onde a gota se deposita e exige alta cobertura e uniformidade.

Tl
Atravessa a folha

Translaminar

Atinge o inseto na face oposta à da deposição, útil contra pragas abrigadas.

Si
Circula na planta

Sistêmico

Adequado a sugadores e base do tratamento de sementes.

Pragas abrigadas no cartucho ou no colmo exigem ação de profundidade e alto volume de calda.
O código do rótulo é o dado que importa

Grupos IRAC e mecanismos

GrupoMecanismoClasse química
1BInibidores da acetilcolinesteraseOrganofosforados
3AModuladores do canal de sódioPiretroides
4AModuladores do receptor nicotínicoNeonicotinoides
5Ativadores alostéricos do receptor nicotínicoEspinosinas
11Disruptores da membrana intestinalProteínas de Bacillus thuringiensis
28Moduladores do receptor de rianodinaDiamidas
O erro que anula a estratégia

Marca não é mecanismo

Aplicar em sequência dois produtos de classes químicas diferentes mas do mesmo grupo IRAC equivale, para a seleção de resistência, a aplicar o mesmo produto duas vezes.
Agir sobre o ambiente antes de qualquer aplicação

Ponte verde e cultura

Pv
O conceito

Ponte verde

Intervalo em que soqueira e planta voluntária abrigam o inseto entre safras.

Re
Palha e soqueira

Destruir restos culturais

Reduz a sobrevivência das larvas de broca em diapausa no período seco.

Ep
Calendário

Ajustar a época

O florescimento do sorgo na safrinha escapa do pico da mosca-do-sorgo.

O vazio sanitário regional restabelece a suscetibilidade da população e é recomendação consolidada.
A ponte verde

Milho tiguera com enfezamento

Planta tiguera de milho com sintomas de enfezamento vermelho, servindo de ponte verde.
Planta tiguera de milho com sintomas de enfezamento vermelho, servindo de ponte verde.
Fonte: Manejo da Cigarrinha e Enfezamentos na Cultura do Milho
Produzidos em biofábrica e liberados na lavoura

Parasitoides e seus alvos

ParasitoideAlvoObservação
Trichogramma spp.Ovos de lagartasVespinha de menos de 1 mm, várias gerações por ciclo
Telenomus remusOvos de lagarta-do-cartuchoParasitoide específico da espécie
Telenomus podisiOvos de percevejosLiberação inclusive por drone
Cotesia flavipesLarvas de broca-do-colmoReferência de controle da broca
Aphidius spp.PulgõesBase do programa nacional de controle em trigo
Três grupos de organismos benéficos

Quem faz o controle natural

Predadores e parasitoides

JoaninhasTesourinhaVespinhas

O predador consome vários indivíduos, o parasitoide se desenvolve dentro de um só e o mata.

Entomopatógenos

FungosBaculovírusBacillus thuringiensis

Matam por penetração na cutícula ou por ingestão, sem afetar os inimigos naturais.

Monitoramento e biológico integrados

Liberação de Trichogramma

1
Instalar armadilhas de feromônio, uma a cada 5 ha
2
Iniciar a soltura ao capturar 3 ou mais mariposas por noite
3
Liberar 100 mil vespinhas por hectare em vários pontos
4
Conferir o escurecimento do ovo parasitado após cerca de 4 dias
O predador mais importante do milho e do sorgo

A tesourinha em números

200
dias de vida, contra 35 a 40 do ciclo da lagarta-do-cartucho
8 mil
ovos de lagarta consumidos ao longo da vida
95%
de supressão de pulgões que os inimigos naturais podem alcançar
O produto não cria a resistência, seleciona

Estratégias de manejo

EstratégiaPrincípioCuidado
ModeraçãoReduzir a pressão de seleção e preservar suscetíveisEquivale à implementação efetiva do MIP
SaturaçãoDose alta que mata também o heterozigotoSeguir a bula, nunca ajustar por conta própria
Ataque múltiploRotacionar ao menos três mecanismos ou misturarA mistura falha se a resistência a um componente já é alta
A herança define a velocidade do problema

Recessiva e dominante

Alelo recessivo

Heterozigoto morreAlta dose funcionaResistência lenta

É o pressuposto da estratégia de alta dose com refúgio no milho Bt.

Alelo dominante

Heterozigoto sobreviveAlta dose falhaResistência rápida

No início do processo são os heterozigotos que carregam a maior parte dos alelos de resistência.

O que já se enfrenta no Brasil

Resistência registrada em cereais

EspécieNome comumGrupos IRAC
Spodoptera frugiperdaLagarta-do-cartucho1B, 3, 5, 11 e 15
Sitophilus zeamaisGorgulho-do-milho22A e 24
Rhyzopertha dominicaBesourinho-dos-cereais3 e 24
Tribolium castaneumBesouro-castanho24
Diatraea saccharalisBroca-do-colmo11
Como o refúgio preserva a tecnologia

Alta dose com refúgio

AD
A planta Bt

Alta dose

Mata os suscetíveis e também os heterozigotos, deixando vivos só os raros resistentes.

Rf
A área não Bt

Criadouro de suscetíveis

Fornece indivíduos que se acasalam com os resistentes sobreviventes.

Pi
O reforço

Pirâmide de genes

Duas ou mais proteínas independentes matam por redundância.

O Bt não age sobre sugadores nem sobre pragas subterrâneas, e o tratamento de sementes continua necessário.
Alta dose com refúgio

Por que o refúgio importa

Área de refúgio adjacente à área Bt, a no máximo 800 metros.
Área de refúgio adjacente à área Bt, a no máximo 800 metros.
Fonte: Manual de Pragas do Milho
Duas exigências distintas que se confundem

Refúgio e coexistência

ExigênciaFinalidadeRegra
Refúgio, manejo de resistênciaRetardar a seleção de insetos resistentesDe 5% a 20% da área, a até 800 m das plantas Bt
Coexistência, opção 1Proteger a lavoura convencional vizinha100 m de distância entre as lavouras
Coexistência, opção 2Proteger a lavoura convencional vizinha20 m mais bordadura de 10 linhas convencionais
A bordadura pode servir de refúgio, desde que não receba bioinseticida à base de Bt.
Obrigação legal e recomendação técnica

O que cada regra protege

Coexistência

Obrigação legalProtege o vizinhoPureza do lote

Garante ao produtor vizinho o direito de colher milho convencional sem contaminação.

Manejo de resistência

Recomendação da CTNBioProtege a tecnologiaRefúgio estruturado

Quem ignora o refúgio é o primeiro prejudicado, porque a própria lavoura falhará primeiro.

O que cada regra protege

Estruturas da área de refúgio

Formas de dispor a área de refúgio na lavoura, inclusive em faixas sob pivô central.
Formas de dispor a área de refúgio na lavoura, inclusive em faixas sob pivô central.
Fonte: Área de Refúgio
?
Retome a pergunta
Quando uma população de insetos passa a representar prejuízo econômico?
Responda agora com o que você viu na aula.
Encerramento
Controlar na hora certa, com o mecanismo certo, preservando quem trabalha de graça.