Unidade II · Desempenho e Análise

Como medir a qualidade de um lote de sementes?

Aula 08. Análise de Sementes
Prof. Dr. Anísio da Silva Nunes
Produção e Tecnologia de Sementes
UNEMAT · Agronomia · Tangará da Serra
?
Ponto de partida
Como saber se um lote atende aos padrões exigidos para comercialização?
Ao final desta aula, você será capaz de

Objetivos de aprendizagem

01

Ler o laudo

Identificar lotes fora dos padrões mínimos legais por espécie a partir da leitura de um laudo de análise.

02

Amostrar corretamente

Realizar amostragem de lotes em campo e armazém seguindo as normas do RAS/MAPA para garantir representatividade.

03

Orientar o produtor

Orientar o produtor rural na leitura do laudo de análise para decisões de compra, ajuste de estande e semeadura.

O boletim como instrumento de decisão

Três proteções da análise de sementes

Ag
Comprador

Agricultor

Protege contra a compra de lote de qualidade inferior sob promessa de qualidade superior.

Pr
Vendedor

Produtor de sementes

Protege contra contestações infundadas, pois o boletim documenta objetivamente o que foi entregue.

Ca
Sistema

Cadeia sementeira

Sem método padronizado de medir qualidade não existe comércio de sementes em escala nacional.

Mesmo laboratório, pesos jurídicos distintos

Análise oficial e análise de controle

Análise oficial

Laboratório credenciado no RenasemValor legal para comércio e certificaçãoBoletim assinado por responsável técnico

Identifica o lote, descreve a amostra e apresenta os resultados por parâmetro.

Análise de controle

Monitoramento interno da empresaAcompanha produção e armazenamentoSem valor legal para comercialização

Não substitui a análise oficial na hora de vender o lote.

O que a análise efetivamente mede

Quatro dimensões da qualidade

Ge
Herança

Genética

Identidade e pureza varietal da cultivar declarada.

Composição

Física

Pureza, material inerte e outras sementes na amostra.

Vi
Vigor

Fisiológica

Germinação, vigor e capacidade de originar plântula normal.

Sa
Patógenos

Sanitária

Presença e incidência de patógenos associados à semente.

A mesma distinção dentro do laboratório

LAS e LASO

SiglaFinalidade declaradaQuem opera tipicamente
LASControle de qualidade e identificação de lotes, sem finalidade oficialLaboratórios vinculados a cooperativas
LASOResultados oficiais para fiscalização, certificação e demais fins legaisSubconjunto credenciado especificamente para essa função
Credenciamento pelo MAPA exige escopo por espécie, método e responsável técnico.
Do internacional ao nacional

ISTA, RAS e a hierarquia normativa

IS
Internacional

ISTA

Regras de referência usadas em mais de 70 países, sediada na Suíça.

RA
Nacional

RAS

Regras para Análise de Sementes do MAPA, incorpora a metodologia ISTA às espécies nacionais.

Hi
Prevalência

Hierarquia

Nas exportações prevalecem as Regras ISTA sobre a RAS.

Nota técnica

A atualização é modular, não anual

A RAS 2025 é revisada capítulo a capítulo; usar tolerância defasada pode invalidar um resultado ou repetir um teste sem necessidade.
O lote como unidade de análise

Peso máximo de lote por espécie

30.000 kg
limite de lote para soja (Glycine max) e arroz (Oryza sativa)
40.000 kg
limite de lote para milho (Zea mays)
O erro de amostragem não é corrigível

Hierarquia da amostragem até o laboratório

1
Amostras simples coletadas em vários pontos do lote
2
Amostra composta reúne todas as amostras simples
3
Homogeneização e quarteamento reduzem o volume
4
Amostra média enviada ao laboratório na massa prescrita
5
Amostra de trabalho retirada para cada determinação
Massa mínima por determinação

Amostra de trabalho para soja

DeterminaçãoMassa da amostra de trabalho
Análise de pureza500 g
Outras sementes por número1.000 g
Teste de germinaçãocerca de 50 g, 400 sementes
Amostra submetida ou média1.000 g
Exceções previstas nas RAS

Lote pequeno e de alto valor

Lote pequeno

Amostra prescrita afeta o peso restanteTamanho igual ou menor que 1% do lote máximo

Amostra média menor é aceita, com peso real declarado no boletim.

Lote de alto valor

Sementes híbridas vendidas por unidadeMaterial de pesquisa ou melhoramento

Mesma exceção, desde que suficiente para as análises obrigatórias.

Intensidade mínima conforme o lote

Amostras simples, lote com poucas embalagens

Nº de embalagensNº de amostras simples
1 a 43 de cada embalagem
5 a 82 de cada embalagem
9 a 151 de cada embalagem
Nota técnica

Embalagem e o tipo de teste

Amostras para germinação evitam embalagem hermética; amostras para teor de água exigem embalagem impermeável e hermética.
Intensidade mínima conforme o lote

Amostras simples, lote com muitas embalagens

Nº de embalagensNº de amostras simples
16 a 3015 no total
31 a 5920 no total
60 ou mais30 no total
Contraprova guardada em condições controladas

Amostra duplicata

1 ano
prazo mínimo de guarda a partir do boletim
< 20°C
temperatura recomendada de armazenamento
< 60%
umidade relativa recomendada
O que exatamente está na embalagem

Três frações do teste de pureza

Pu
Fração 1

Semente pura

Sementes da espécie declarada, inteiras ou com fragmento maior que a metade.

Ou
Fração 2

Outras sementes

Sementes de qualquer outra espécie, cultivada ou silvestre, nociva ou não.

Ma
Fração 3

Material inerte

Solo, palha, fragmentos pequenos, insetos e estruturas de fungos.

Pureza

Frações do teste de pureza

Fluxograma das frações separadas no teste de pureza.
Fluxograma das frações separadas no teste de pureza.
Fonte: SEMENTES
Precisão exigida por espécie

Resolução da balança, amostras pequenas

Peso da amostra (g)Resolução mínima (g)
menos de 1,0000,0001
1,000 a 9,9990,001
10,00 a 99,990,01
Critérios que validam o resultado

Aceitação da pureza física

3%
tolerância máxima entre peso inicial e soma das frações (RAS 2025)
100,0%
soma exata exigida das três frações
0,05%
limite abaixo do qual o componente vira traço
Precisão exigida por espécie

Resolução da balança, amostras grandes

Peso da amostra (g)Resolução mínima (g)
100,0 a 999,90,1
1.000 ou mais1
A convenção que evita confusão

Base úmida e base seca

Base úmida

Convenção das RASPadrão do boletimBase sem indicação

Relaciona a água à massa total da semente úmida; é a convenção do boletim.

Base seca

Usada em pesquisaEstudos de dessecaçãoValor sempre maior

Relaciona a água à massa seca; produz valor numericamente maior para o mesmo lote.

O parâmetro que condiciona os demais

Métodos para o teor de água

MétodoTemperaturaTolerância entre repetições
Estufa a 105°C105°C, 24 horas0,5%, mais usado no Brasil
Estufa a baixa temperatura103 ± 2°C, 17 ± 1 hora0,5%, referência ISTA
Estufa a alta temperatura130 a 133°C0,5%, alternativa mais rápida
Determinadores elétricosleitura imediatatriagem de rotina, faixa 7–23%, exige calibração anual
Grau de umidade

Teor de água: método

Esquema simplificado de um método de determinação do teor de água.
Esquema simplificado de um método de determinação do teor de água.
Fonte: SEMENTES
Rotina do Método 2 das RAS

Procedimento do peso de mil sementes

1
8 repetições de 100 sementes puras retiradas ao acaso
2
Pesagem individual de cada repetição
3
PMS igual à média das 100 sementes vezes 10
4
Coeficiente de variação calculado entre as repetições
5
Acima da tolerância, mais 8 repetições são contadas
Critério de aceitação do PMS

Tolerância do coeficiente de variação

4%
tolerância máxima para espécies não palhentas, como soja e milho
6%
tolerância máxima para espécies palhentas
O padrão oficial para a soja

Condições do teste de germinação

ParâmetroCondição padronizada
Repetições8 repetições de 50 sementes
SubstratoPapel em rolo ou entre areia
TemperaturaAlternada 20 a 30°C ou constante 25°C
ContagensPrimeira no 5º dia, final no 8º dia
Nem toda plântula germinada é normal

Plântulas normais e anormais

Normais

Intactas, bem desenvolvidasCom defeitos secundários levesCom infecção secundária externa

Contabilizadas na percentagem de germinação do lote.

Anormais

Danificadas, sem cotilédones ou raizDeformadas, hipocótilo torcidoDeterioradas por patógeno interno

Não contabilizadas, mesmo tendo germinado.

Critério de desempate na avaliação

A regra dos 50% para cotilédones

Dano em menos de 50% dos cotilédones não classifica a plântula como anormal, se as demais estruturas estiverem íntegras.
Três destinos possíveis da semente

Semente dormente, dura e morta

Do
Viável

Dormente

Absorveu água, não germinou, mas não está obviamente morta.

Du
Impermeável

Dura

Não absorveu água até o final do teste; tegumento impermeável.

Mo
Inviável

Morta

Visivelmente mole ou mofada, sem capacidade de germinar.

Verificando a tolerância entre repetições

Cálculo da percentagem de germinação

FórmulaGerminação (%) = média de 4 repetições de 100 sementes
Com os dados reais(85 + 79 + 87 + 83) / 4
Repetição 1: 85 normaisRepetição 2: 79 normaisRepetição 3: 87 normaisRepetição 4: 83 normais
Resultado84%
Nota técnica

O dano por embebição rápida

Sementes de soja com menos de 12% de água podem romper membranas ao reidratar, subestimando a germinação real do lote.
O que muda a leitura do teste

Fatores que afetam o tetrazólio

FatorEfeito sobre a reação
pH da soluçãopH ácido retarda a reação
Temperatura, 30 a 40°CFavorece a reação; acima degrada proteínas
Ausência de luzAcelera a reação; luz altera a coloração
Pré-condicionamento adequadoFacilita o corte e a absorção do sal
Oito classes de coloração para soja

Classes de tetrazólio

1 a 5
classes que somadas expressam a viabilidade
1 a 3
classes que somadas expressam o vigor
6 a 8
classes consideradas inviáveis
A leitura que identifica a causa

Padrão de coloração por dano

Tipo de danoPadrão de coloração
Dano mecânico de colheitaDescolorida no hilo, bordas nítidas
Deterioração por umidadeVermelho intenso e difuso no eixo
Dano por percevejoMancha esbranquiçada, tecido esponjoso
Alta viabilidade e vigorVermelho-carmim claro e uniforme
Limite do método

Tetrazólio não separa dormência de viabilidade

Sementes dormentes e viáveis não dormentes reagem igual ao corante; o teste funciona como complemento da germinação, nunca como substituto.
Detectando o que a germinação não vê

Métodos de sanidade, parte 1

MétodoAlvo típico
Exame diretoEscleródios, teliósporos, galhas de nematoides
Papel de filtroFusarium, Phomopsis, Colletotrichum
Meio de culturaFungos e bactérias com esporulação específica
A quarta dimensão da qualidade

O que a germinação não captura

A germinação só detecta o inóculo que já mata ou deforma a plântula; a fração assintomática, mais perigosa, passa despercebida.
Complementando o exame visual

Métodos de sanidade, parte 2

MétodoAlvo típico
Incubação em papel ou areiaSintomas de tombamento e lesões na plântula
Sorológicos e molecularesVírus, bactérias e fungos em baixa incidência
Imersão e lavagemEsporos aderidos à superfície da semente
A distinção que orienta a decisão

Transmitido e transportado pela semente

Transportado

Aderido à superfícieContaminante externoRemovível por tratamento

Não acompanha necessariamente a germinação da plântula.

Transmitido

Dentro dos tecidosEmbrião, cotilédone, endospermaAcompanha a plântula

Pode gerar foco primário de doença na lavoura.

Maior peso na análise sanitária da soja

Patógenos do Cerrado mato-grossense

Ph
Campo

Phomopsis e Colletotrichum

Phomopsis spp. e Colletotrichum truncatum, favorecidos por umidade no campo.

Fu
Deterioração

Fusarium e Cercospora

Fusarium spp. e Cercospora kikuchii, ligados à deterioração por umidade.

Ar
Armazém

Aspergillus e Penicillium

Fungos de armazenamento, indicam condições inadequadas de conservação.

Sanidade

Fungos em semente de soja

Sementes de soja infectadas por fungos (Phomopsis, Fusarium e outros).
Sementes de soja infectadas por fungos (Phomopsis, Fusarium e outros).
Fonte: Embrapa Soja — Documentos, 380
Integrando pureza e germinação

Cálculo do valor cultural

FórmulaVC (%) = Pureza (%) × Germinação (%) / 100
Com os dados reais99 × 85 / 100
Pureza física: 99%Germinação: 85%
Resultado84,15%
O que o número não mostra

O valor cultural não mede vigor

O valor cultural usa germinação ideal de laboratório; em lotes de vigor comprometido, a emergência real em campo cai.
A diferença que o boletim revela

Dois lotes, dois valores culturais

Lote A

Pureza 99%Germinação 85%Valor cultural 84,15%

Maior eficiência real de sementes puras e germináveis.

Lote B

Pureza 95%Germinação 80%Valor cultural 76%

Mesma aparência de qualidade, desempenho real inferior.

Do valor cultural à taxa de semeadura

Quantidade de sementes por área

FórmulaQS (kg/ha) = Densidade × PMS (g) / (VC (%) × 10)
Com os dados reais(300.000 × 150) / (84 × 10)
Densidade desejada: 300.000 plantas/haPeso de mil sementes: 150 gValor cultural: 84%
Resultado53,6kg/ha
O custo de compensar germinação com dose

Impacto do valor cultural na dose

59,2 kg/ha
dose exigida pelo lote de valor cultural 76%
5,6 kg/ha
diferença de dose entre os dois lotes
2.800 kg
sementes a mais em 500 hectares de soja
A ficha de identidade do lote

O que o boletim identifica

La
Origem

Laboratório

Identificação e número de credenciamento no Renasem.

Lo
Objeto

O lote

Espécie, cultivar, categoria, número de lote e safra.

RT
Assinatura

Responsável técnico

Data de emissão e assinatura do engenheiro-agrônomo.

Instrução Normativa nº 45/2013 do MAPA

Padrões mínimos de qualidade da soja

CategoriaPureza mínimaGerminação mínimaOutras sementes, máximo
Básica99,0%75%0,0%
C199,0%80%0,1%
C299,0%80%0,1%
S1 e S299,0%80%0,1%
Escopos legais diferentes

BAS e BASO

BAS

Amostra comumEmitido por qualquer laboratório credenciado

Boletim de Análise de Sementes, uso corrente na comercialização.

BASO

Amostra oficialLaboratório do MAPA ou credenciado para essa finalidade

Boletim Oficial de Análise de Sementes, peso legal maior em fiscalização.

A mesma Instrução Normativa, outra espécie

Padrões mínimos do milho híbrido

CategoriaPureza mínimaGerminação mínimaOutras sementes, máximo
Básica98,0%75% (híbridos simples)0,0%
C198,0%85%0,1%
S198,0%85%0,1%
Quem assina responde

Responsabilidade civil e penal do RT

O responsável técnico responde civil e penalmente pela veracidade do boletim; dado falso pode cancelar o credenciamento.
Nenhum parâmetro isolado basta

Leitura integrada, situações comuns

Situação do loteParâmetro alteradoDiagnóstico provável
AprovadoTodos no padrãoQualidade dentro do padrão legal
Fora do padrãoPureza abaixo do mínimoBeneficiamento insuficiente ou contaminação
Fora do padrãoGerminação abaixo do mínimoDeterioração fisiológica ou danos pós-colheita
O prazo em que o laudo vale

Validade legal do boletim

6 meses
validade da germinação para soja
3 meses
validade adicional da reanálise, soja
12 meses
validade da germinação para milho
O que o padrão legal não cobre

Leitura integrada, riscos adicionais

Situação do loteParâmetro alteradoDiagnóstico provável
Risco de armazenamentoTeor de água elevadoAquecimento e deterioração; secagem prioritária
Não capturado pelo boletimVigor não avaliadoRecomenda-se teste de tetrazólio
?
Retome a pergunta
Como saber se um lote atende aos padrões exigidos para comercialização?
Responda agora com o que você viu na aula.
Encerramento
O laudo transforma a qualidade do lote em número defensável; ler pureza, germinação, teor de água e vigor em conjunto orienta a decisão do produtor.