Unidade III · Legislação e Mercado

O que torna uma semente mais valiosa que outra?

Aula 12. Comercialização, Mercado e Inovações em Sementes
Prof. Dr. Anísio da Silva Nunes
Produção e Tecnologia de Sementes
UNEMAT · Agronomia · Tangará da Serra
?
Ponto de partida
Quais tendências devem transformar o mercado de sementes nos próximos anos?
Ao final desta aula, você será capaz de

Objetivos de aprendizagem

01

Mapear a cadeia produtiva

Identificar os agentes da cadeia de sementes e o papel de cada um na disponibilidade, qualidade e preço.

02

Avaliar as inovações

Avaliar vantagens, limitações e riscos regulatórios das inovações biotecnológicas aplicadas a sementes.

03

Recomendar com critério

Integrar qualidade, tecnologia, custo e legislação na recomendação de sementes para um sistema produtivo.

O comprador não vê o que compra antes de semear

Três mecanismos corrigem a assimetria

Ce
Verificação estatal

Certificação oficial

O Estado verifica a qualidade que o comprador não consegue verificar sozinho.

Re
Histórico da marca

Reputação

O histórico da empresa no mercado substitui, em parte, a inspeção direta do lote.

Rt
Assinatura legal

Responsabilidade técnica

O laudo assinado pelo agrônomo tem consequência legal, não é apenas formalidade.

Duas cadeias, dois níveis de risco

Mercado formal e mercado informal

Mercado formal

Semente rastreávelLaudo de análiseResponsabilidade técnica

Garantia de identidade genética documentada do início ao fim.

Mercado informal

Semente salva irregularPiratariaSem rastreabilidade

O risco de falha de germinação e sanidade passa ao agricultor.

Dimensão do mercado global

Dezenas de bilhões de dólares em jogo

US$ 52 a 57 bi
foi o valor do mercado global de sementes em 2023
US$ 83 a 104 bi
é a projeção de valor do mercado global até 2031
6% a 8%
ao ano é a taxa composta de crescimento projetada
Décadas de fusões e aquisições

Quem controla o germoplasma (1)

GrupoControle deEstratégia predominante
BayerSoja, milho e algodão; eventos RR2 e IntactaTecnologias empilhadas e royalties via Cultive Biotec
CortevaMilho e soja; eventos Enlist E3 e ConkestaSeparação entre sementes e proteção de plantas
Syngenta-ChemChinaMilho e hortaliças; tratamento de sementesIntegração de sementes e plataformas digitais
Integração e separação convivem no setor

Como os grupos se organizam

Ba
Cobrança centralizada

Bayer e o Cultive Biotec

Reúne, com outras empresas, a cobrança de royalties de biotecnologia sobre a soja.

Co
Divisão de negócios

Corteva se separa em duas

A divisão de sementes projeta vendas de quase US$ 10 bi em 2025.

Sy
Integração digital

Syngenta une três frentes

Sementes, tratamento de sementes e plataformas digitais operam de forma integrada.

Décadas de fusões e aquisições

Quem controla o germoplasma (2)

GrupoControle deEstratégia predominante
BASFGermoplasma de soja Xitavo; hortaliçasLicenciamento de germoplasma e tratamento de sementes
LimagrainCereais de inverno, milho, hortaliçasCooperativa francesa, foco em mercados emergentes
KWSBeterraba açucareira, milho, cereaisMelhoramento assistido por marcadores moleculares
Nota técnica sobre o Brasil

A concentração muda de camada no Brasil

No Brasil, a GDM detinha 76% do licenciamento de germoplasma de soja em 2024, ante 63% em 2022.
Onde o dinheiro circula no Brasil

O tamanho do mercado brasileiro

R$ 70 bi
são movimentados por ano no mercado brasileiro de sementes
70%
do volume é de soja e milho, segundo a Abrasem
R$ 24,5 bi
é o mercado de sementes de soja ao final da safra 2024/2025
A concentração muda de elo entre os países

Brasil e Estados Unidos não se parecem

Estados Unidos

Maior empresa: cerca de 30%Quatro maiores: cerca de 65%Concentração no multiplicador

O poder de mercado está na venda e na multiplicação.

Brasil

Maior empresa: menos de 10%Muitos multiplicadores regionaisConcentração no obtentor

O poder de mercado está no controle do germoplasma.

Um problema estrutural da safra 2024/2025

Sobra de sementes de soja

30% a 40%
foi a sobra de estoques nas sementeiras de MT e do Centro-Oeste
R$ 130
por saca foi o preço de venda do excedente como grão
R$ 220
por saca seria o preço se vendido como semente
Retrato de 23.494 campos habilitados em 2017/2018

Os cinco maiores estados em campos

1
Paraná ocupa a primeira posição no ranking
2
Mato Grosso vem em segundo lugar
3
Minas Gerais aparece na terceira posição
4
Rio Grande do Sul soma o quarto lugar
5
Goiás fecha os cinco maiores estados
Como se distribuíam os 23.494 campos

Categorias de semente por participação

CategoriaParticipação nos campos habilitados
S241,2% dos campos
S134,3% dos campos
C211,8% dos campos
C110,1% dos campos
Básica somava 2,4% e genética apenas 0,2% dos campos habilitados.
Do melhorista ao agricultor

Cinco elos da cadeia produtiva

1
Melhorista cria a cultivar e detém a proteção intelectual sobre ela
2
Obtentor do evento transgênico detém a patente sobre o transgene
3
Produtor de semente básica multiplica o material sob controle rigoroso
4
Multiplicador certificado produz a semente em escala comercial sob contrato
5
Unidade de beneficiamento trata, embala e libera o lote com laudo técnico
Três perfis convivem no elo de multiplicação

Quem produz a semente no Brasil

Pi
Registrado

Produtor individual

Produz sob contrato ou acerto informal, mas é registrado e amparado pela legislação.

Ep
Pessoa jurídica

Empresas produtoras

A maioria produz sob responsabilidade técnica, sem melhoramento próprio.

Co
Prestador de serviço

Cooperante

Recebe a semente básica e bonificação de 5% a 10% acima do preço do grão.

Antes da certificação formal

Dois tipos de controle de qualidade

Controle interno

Conduzido pelo produtorNão exigido por leiBaixo custo, bom retorno

Constrói o histórico de cada lote produzido.

Controle externo

Certificação geração a geraçãoFiscalização do comércioSistema OECD desde 1958

Verifica o produto fora do controle do próprio produtor.

Um modelo que evita imobilizar capital em terra

O peso dos cooperantes no mundo

80%
da produção mundial de sementes melhoradas passa por cooperantes
1958
é o ano em que o sistema de certificação OECD começou a funcionar
O canal define o relacionamento com o produtor

Três caminhos até o agricultor

Vd
Maior margem

Venda direta

Exige equipe técnica própria e investimento constante em assistência pós-venda.

Ra
Canal dominante

Revenda agrícola

Cooperativas e distribuidoras concentram poder de recomendação no balcão.

Ce
Em expansão

Comércio eletrônico

Enfrenta a logística de um produto vivo e a assistência técnica remota.

Cinco arranjos entre obtentor e multiplicador

Modelos comerciais da semente (1)

ModeloComo funcionaQuem controla
LicenciamentoRoyalty de cerca de 5%, marca do obtentorMultiplicador vende com marca própria
VerticalizaçãoObtentor produz e vende sem licenciar terceirosObtentor controla toda a cadeia
Produção terceirizadaMultiplicador produz como prestador de serviçoObtentor controla a marca
O modelo mais comum no país

Licenciamento predomina na soja

Au
Espécie autógama

Soja permite reuso

Glycine max, autógama, permite ao agricultor reutilizar a própria semente na safra seguinte.

Ex
Exceção legal

LPC garante uso próprio

A Lei de Proteção de Cultivares garante a exceção, mas não para fins comerciais.

Ev
Limite do evento

Transgene escapa só em parte

O evento patenteado escapa apenas parcialmente dessa exceção de uso próprio.

Cinco arranjos entre obtentor e multiplicador

Modelos comerciais da semente (2)

ModeloComo funcionaQuem controla
Co-titularidadeDois obtentores partilham a cultivar por contribuição conjuntaAmbos negociam os direitos
Patente de eventoA proteção se estende ao produto final, o grãoDetentor da patente do transgene
Dois instrumentos, duas incidências

Royalty não é taxa tecnológica

Royalty

Incide na cultivarPago pelo multiplicadorLei nº 9.456/1997

Gira em torno de 5% do preço de venda da semente.

Taxa tecnológica

Incide no transgenePaga pelo agricultorLei nº 9.279/1996

Incide sobre toda a produção, incluindo a semente salva.

Cobrança centralizada desde 2021

Como funciona o Cultive Biotec

1
BASF, Bayer, Corteva e Syngenta criaram a joint venture, aprovada pelo CADE
2
Antes, cada empresa cobrava royalty de biotecnologia por procedimento próprio
3
A arrecadação passou a ser feita nos pontos de recebimento de grãos
4
O agricultor declara a área plantada e a tecnologia utilizada
5
A taxa tecnológica é descontada diretamente do grão entregue
Entre os maiores adotantes do mundo

Transgenia dominante em três culturas

94%
é a taxa de adoção de transgênicos na área de soja no Brasil
85%
ou mais de adoção de transgênicos na área de milho
74%
é a taxa de adoção de transgênicos na área de algodão
Duas famílias de características predominam

Os eventos mais presentes no campo

To
Herbicida

Tolerância a herbicidas

Glifosato e inibidores da ACCase (tolerância do traço Enlist) estão nas combinações mais usadas.

Bt
Inseto

Resistência a insetos

Proteínas Bt controlam lepidópteros em soja e milho.

Em
Empilhamento

Eventos empilhados

Intacta 2 Xtend e Enlist E3 reúnem vários mecanismos numa só planta.

Nomes comerciais no campo

Eventos comerciais por cultura

Soja

Intacta RR2 PROIntacta 2 XtendEnlist E3

Combinam tolerância a herbicidas e resistência a insetos.

Milho

HerculexVT PROPowerCore

Operam sob empilhamento de eventos na mesma planta.

Ponto delicado da profissão

Três camadas de propriedade intelectual

Germoplasma, evento transgênico e tratamento vêm de empresas diferentes, mas a etiqueta não separa os custos.
Fora da rastreabilidade formal

O tamanho do mercado informal

30%
do mercado de sementes tem origem desconhecida, segundo a Abrasem
11%
da área de soja do Brasil é plantada com semente pirata
R$ 10 bi
em perdas anuais estimadas para toda a cadeia produtiva
A mesma pirataria, escalas diferentes

Brasil e Mato Grosso não se parecem

Brasil

30% de origem desconhecida11% da área de soja pirataR$ 10 bi em perdas

Equivalente à área de soja de todo o Mato Grosso do Sul.

Mato Grosso

Uso ilegal abaixo de 20%Alta escala de produçãoConsciência dos riscos

O perfil do produtor mato-grossense reduz a adesão à semente irregular.

Regionalização

Zoneamento agroclimático

Zoneamento agroclimático para produção de sementes.
Zoneamento agroclimático para produção de sementes.
Fonte: Embrapa Soja — Documentos, 380
O privilégio do agricultor tem limites

Quando a semente salva é legal

Pr
Local

Só na propriedade

A reserva fica restrita à propriedade ou posse do próprio usuário.

Sa
Prazo

Só a próxima safra

Vale apenas para a semeadura da safra seguinte.

Pa
Proporção

Área e tecnologia

Guarda proporção com a área e a tecnologia empregada.

Nc
Proibição

Sem comercialização

Nunca pode envolver venda ou troca do material reservado.

A ordem de aplicação importa

A sequência do tratamento industrial

1
Fungicidas e inseticidas, os produtos químicos, entram primeiro
2
Polímero de fixação forma um filme de base aquosa
3
Inoculantes e bioestimulantes, organismos vivos, entram por último
4
O lote segue para embalagem com laudo técnico assinado pelo RT
Tecnologia de sementes

Tratamento industrial

Máquinas do tratamento industrial de sementes.
Máquinas do tratamento industrial de sementes.
Fonte: KLS
Do campo à indústria

Quanto do lote já chega tratado

30%
da área de soja já era tratada industrialmente na safra 2015/2016
100%
das sementes de milho híbrido recebem fungicida na indústria
98%
das sementes de soja e milho híbrido recebem algum tratamento
Mesma proteção, processos diferentes

Tratamento na indústria e na propriedade

Tratamento industrial

Dosadores automatizadosCobertura uniformeAdotado desde 2013

Reduz o risco de perda de viabilidade dos microrganismos.

Tratamento na propriedade

Tambores improvisadosCobertura inferiorExposição solar direta

Maior risco de perda de viabilidade dos inoculantes.

O revestimento varia conforme o objetivo

Formatos de revestimento da semente

FormatoAplicação típica
PeliculizaçãoFixação de produtos e coloração de rastreio
IncrustaçãoNutrientes, fungicida e inseticida com polímero
PeletizaçãoHortaliças, tabaco e espécies florestais
EncapsulamentoSemeadura de precisão em hortaliças
A peletização pode multiplicar de 15 a 200 vezes a massa da semente.
Tecnologia de sementes

Peletização e revestimento

Sementes de hortaliças submetidas à peletização.
Sementes de hortaliças submetidas à peletização.
Fonte: SEMENTES
A semente não é só o genoma

Tecnologias biológicas embarcadas

In
Fixação de N

Inoculantes

Bradyrhizobium fixa nitrogênio e responde por 57% das vendas em valor.

Bi
Estímulo fisiológico

Bioestimulantes

Algas, aminoácidos e ácidos húmicos estimulam processos fisiológicos da planta.

Bd
Ação antifúngica

Biodefensivos

Trichoderma e Bacillus formam biofilme protetor sobre as raízes.

Crescimento de dois dígitos

O mercado brasileiro de bioinsumos

R$ 6,2 bi
movimentados em bioinsumos no Brasil em 2025, alta de 15%
194 mi ha
de área tratada com bioinsumos, alta de 28% sobre o ano anterior
90%
da área de soja em Mato Grosso recebe inoculação
Dois microrganismos, papéis complementares

Bradyrhizobium e Azospirillum

Bradyrhizobium

57% das vendas em valor77% das doses entreguesFixação de nitrogênio

Responsável pela maior parte do mercado de inoculantes.

Azospirillum brasilense

Co-inoculação em sojaProdução de auxinas16% do consumo em milho

Amplia a resposta da planta ao Bradyrhizobium.

A tecnologia biológica mais consolidada

Inoculantes em números

R$ 527,5 mi
foi o mercado de inoculantes em 2024, alta de 10,5%
206 mi
de doses entregues em 2024, alta de 28,1% em volume
12,4%
é a projeção de crescimento do setor para 2025
Distinção regulatória

Edição gênica não é transgenia

Produtos sem DNA exógeno podem ser enquadrados como não-OGM pela CTNBio, dispensando o fluxo regulatório completo.
Já em uso na pesquisa pública

O CRISPR na Embrapa Soja

Se
Prioridade atual

Tolerância à seca

Modifica genes de resposta ao estresse hídrico em cultivares de soja.

Fo
Horizonte

Eficiência fotossintética

Potencial de ganho em fotossíntese e tolerância a calor e salinidade.

Fe
Sanidade

Resistência a patógenos

Inclui a ferrugem asiática, Phakopsora pachyrhizi, maior problema fitossanitário da soja.

A regulação define a velocidade

Dois caminhos até o mercado

Regulação favorável

5 a 7 anosCaminho de não-OGMDo desenvolvimento à venda

Enquadramento como não-OGM acelera a chegada ao mercado.

Fluxo completo como OGM

10 a 15 anosAprovação integral pela CTNBioIncerteza em mercados importadores

Países importadores podem tratar a edição como transgenia.

Camadas sobrepostas numa só embalagem

Seis tecnologias numa semente (1)

CamadaExemplo na semente
Genoma da cultivarMelhoramento convencional ou assistido por marcadores
Evento transgênicoTolerância a herbicidas e resistência a insetos
Edição gênicaAjustes pontuais de precisão genômica
A convergência tem um preço

Poucas empresas, muitas camadas

O que está na saca

Germoplasma da GDMEvento da Bayer ou CortevaTratamento da Syngenta ou BASF

Um punhado de empresas controla cada camada tecnológica.

O que isso implica

Maior dependência do produtorPoder concentrado por camadaCusto embutido em cada elo

A dependência tecnológica está embutida na saca, não só no campo.

Camadas sobrepostas numa só embalagem

Seis tecnologias numa semente (2)

CamadaExemplo na semente
Tratamento químicoFungicidas e inseticidas sistêmicos
InoculanteBradyrhizobium e Azospirillum
Bioestimulante ou biodefensivoAplicado na mesma calda de tratamento
Dois regimes climáticos pressionam o melhoramento

Veranicos e safrinha no Cerrado

Soja: veranicos

Janeiro a fevereiroRaízes mais profundasSenescência foliar retardada

Prioridade declarada nos programas de melhoramento no Cerrado.

Milho: safrinha

Período de semeadura mais curtoDéficit hídrico antecipadoMaior risco de perda

Pressiona por cultivares mais precoces e tolerantes.

Da geração à predição genômica

Como o melhoramento ganhou velocidade

1
Programa convencional leva de 10 a 12 gerações para fixar as características
2
Marcadores moleculares permitem selecionar plantas antes da floração
3
Seleção genômica usa painéis de SNPs para predizer o valor genético sem avaliar em campo
4
Lei nº 15.070/2024 (Marco dos Bioinsumos) reduz o registro de combinações biológicas de 18 para 12 meses
O motor de crescimento está mudando

Três apostas para os próximos anos

Pv
Nicho específico

Personalização varietal

Cultivares adaptadas a solo, clima e mercado de destino específicos.

Ia
Melhoramento

Inteligência artificial

Modelos preditivos identificam cruzamentos promissores em grandes empresas.

Bl
Rastreabilidade

Blockchain

Verifica a identidade genética do lote, ainda em projetos piloto.

O crescimento muda de motor

Área versus tecnologia por área

Motor antigo

Expansão de área5,1% ao ano entre 2000 e 2025Abertura de área nova

Ritmo perde força, com projeção próxima de 1,5% ao ano.

Motor novo

Tecnologia por áreaEventos empilhados e tratamentos biológicosAssistência técnica integrada

A densidade de tecnologia passa a definir a competição.

?
Retome a pergunta
Quais tendências devem transformar o mercado de sementes nos próximos anos?
Responda agora com o que você viu na aula.
Encerramento
O valor de uma semente vem da tecnologia embarcada, da regulação que a autoriza e da confiança que sustenta o preço que o mercado aceita pagar.