Unidade I · Uso Responsável de Produtos Fitossanitários

Por que a dose, e não o produto em si, é o que realmente define o veneno?

Aula 03. Toxicologia e Medidas de Segurança
Prof. Dr. Anísio da Silva Nunes
Tecnologia de Aplicação de Produtos Fitossanitários
UNEMAT · Agronomia · Tangará da Serra
?
Ponto de partida
Como interpretar a classificação toxicológica de um rótulo para avaliar o risco real de uma aplicação?
Ao final desta aula, você será capaz de

Objetivos de aprendizagem

01

Interpretar o rótulo

Ler a classificação toxicológica e relacioná-la ao risco real de exposição.

02

Selecionar o EPI

Escolher o conjunto adequado a cada etapa, do preparo da calda ao campo.

03

Socorrer a tempo

Reconhecer sintomas iniciais de intoxicação e indicar os primeiros socorros.

Por que este tema importa

O tamanho do problema no Brasil

9.729
casos notificados no SINAN em 2025, o pior índice desde 2015
27
intoxicações por dia, em média, ao longo do ano
1/4
das vítimas eram crianças de 1 a 4 anos de idade
Conceitos que não são sinônimos

O léxico da toxicologia

Do
Quanto entra

Dose

Quantidade absorvida por kg de peso, que produz determinado efeito.

To
Propriedade fixa

Toxicidade

Capacidade inerente do composto de causar lesão, independente do uso.

Re
Na população

Resposta

Proporção da população que manifesta o efeito; DL50 mede resposta.

Ri
Toxicidade × exposição

Risco

Probabilidade de a exposição causar lesão no trabalhador.

O princípio que sustenta a ciência

Não existe substância inofensiva

A dose separa o veneno do remédio. Água em excesso causa hiponatremia; sal em dose alta é letal.
Cortar um deles já impede a intoxicação

Três elementos ao mesmo tempo

Ag
O xenobiótico

Agente

Composto capaz de produzir efeito; reduzir sua concentração já ajuda.

Si
O organismo

Sistema biológico

O corpo com o qual o agente interage; barrar o contato com EPI protege.

Re
O desfecho

Resposta nociva

A lesão resultante; não se expor resolve o problema pela raiz.

O caminho da substância no corpo

Toxicocinética

1
Absorção: entrada da substância pela via de exposição
2
Distribuição: transporte pelos fluidos corporais até os tecidos
3
Biotransformação: metabolização, principalmente no fígado
4
Excreção: eliminação do organismo, sobretudo pela urina
Como se mede a toxicidade

DL50, CL50 e NOEL

ParâmetroO que medeUnidade
DL50Dose única que mata 50% dos animais expostosmg/kg de peso
CL50Concentração no ar que mata 50%, em 4 h de exposiçãomg/L ou ppm
NOELMaior dose diária prolongada sem efeito adverso detectávelmg/kg/dia
DL50 e CL50 medem toxicidade aguda; NOEL é o parâmetro central da crônica.
O tempo muda tudo

Intoxicação aguda e crônica

Aguda

Exposição curtaDose altaSintoma imediatoGeralmente reversível

Aparece em até 24 horas; diagnóstico mais fácil de estabelecer.

Crônica

Meses ou anosDoses pequenasSintoma tardioMuitas vezes irreversível

Nexo causal difícil; desfechos como câncer hematológico.

A base experimental da classificação

Testes de toxicidade crônica

Efeito avaliadoAnimalProtocolo
Toxicidade crônica geralRato albino, 18 por dose90 dias
NeurotoxicidadeGalinha Leghorn, 12 por doseObservação prolongada
CarcinogenicidadeRato albino, 32 por doseLongo prazo
TeratogenicidadeRata fêmea, 12 por dose6º ao 16º dia de gestação
MutagenicidadeRata fêmea, 6 por dose5 dias pré-acasalamento
Reprodução6 fêmeas e 7 machos3 gerações
O Decreto 4.074/2002 proíbe registrar produto carcinogênico, mutagênico ou teratogênico.
Três órgãos, uma decisão

Registro tripartite

1
MAPA avalia a eficiência agronômica e fixa a condição de uso
2
ANVISA avalia a toxicidade humana e emite a classificação
3
IBAMA avalia a periculosidade ambiental do produto
4
Registro emitido pelo MAPA só com aprovação dos três
O que mudou na regra

Marco legal atual

InstrumentoO que trouxe
Lei 14.785/2023Revogou a Lei 7.802/1989 e manteve o registro tripartite
Lei 15.070/2024Revisou definições e estendeu o marco aos bioinsumos
RDC 294/2019Substituiu as quatro classes antigas pelo sistema GHS
Decreto 4.074/2002Regulamento em vigor; proíbe registro sem antídoto conhecido
A infração administrativa vai de R$ 2 mil a R$ 2 milhões.
Quatro portas de entrada

Vias de exposição

Cu
A mais frequente

Cutânea

Absorção variável por região e formulação; calor acima de 35°C agrava.

Re
Absorção rápida

Respiratória

Vascularização alveolar; crítica com vapor, névoa e pó respirável.

Or
Contaminação indireta

Oral

Mão contaminada em contato com alimento, cigarro ou a própria boca.

Oc
No preparo da calda

Ocular

Respingo atinge conjuntiva e córnea; irritação aguda e sensibilização.

Vias de exposição

Tecnologia reduz exposição do aplicador

Avanços na tecnologia de aplicação reduzem o risco de exposição do aplicador e do ambiente aos fitossanitários.
Avanços na tecnologia de aplicação reduzem o risco de exposição do aplicador e do ambiente aos fitossanitários.
Fonte: TECNOLOGIA
O que o corpo sinaliza

Sinais por via de contaminação

ViaSinais e sintomas observáveis
DérmicaIrritação, pele seca e rachada, descamação, ardor
RespiratóriaArdor na garganta, tosse, rouquidão, congestão das vias aéreas
OralIrritação da boca, dor no peito, náusea, diarreia, câimbra
OcularArdor, lacrimejamento, vermelhidão, visão turva
No Cerrado, organofosforado e piretroide dominam a exposição na soja e no algodão.
Quem está sob a norma

Exposição direta e indireta

Direta

Prepara a caldaAplicaAbastece o tanqueFaz a calibração

Manipula o produto em qualquer etapa, do armazenamento ao descarte.

Indireta

Circula na áreaAtividade próximaSem manipular o produto

Trabalha onde há manipulação, mesmo sem tocar no produto.

A regra vigente desde 2019

Classificação GHS por DL50 oral

CategoriaDenominaçãoDL50 oral (mg/kg)Faixa
1Extremamente tóxicoaté 5Vermelha
2Altamente tóxicoacima de 5 a 50Vermelha
3Moderadamente tóxicoacima de 50 a 300Amarela
4Pouco tóxicoacima de 300 a 2.000Azul
5Improvável de causar danoacima de 2.000 a 5.000Azul
NCNão classificadoacima de 5.000Verde
A classificação final é sempre a via mais restritiva entre oral, cutânea e inalatória.
Dois sistemas nas prateleiras

Portaria 03/92 e GHS

Sistema antigo

Classes I a IVNúmero romanoAmarela = Classe II

Rótulo impresso antes de 2019 ainda circula com classe romana.

Sistema GHS

Categorias 1 a 5 e NCNúmero arábicoVermelho = Cat. 1 e 2

Rótulo renovado após 2019 traz a categoria arábica.

O maior risco de erro de leitura

Vermelho não significa só Classe I

No GHS, a faixa vermelha cobre Categoria 1 e Categoria 2, sem distinção visual entre as duas.
Classificação do IBAMA, separada

Periculosidade ambiental (PPA)

I
Máximo cuidado

Classe I

Produto altamente perigoso para o meio ambiente.

II
Alto risco

Classe II

Produto muito perigoso para o meio ambiente.

III
Risco moderado

Classe III

Produto perigoso para o meio ambiente.

IV
Menor risco

Classe IV

Pouco perigoso; um Cat. 4 humano pode ser Classe I ambiental.

A avaliação internacional de câncer

IARC e ingredientes ativos

IngredienteGrupo IARCAssociação principal
Lindano1Linfoma não-Hodgkin
Glifosato2ALinfoma não-Hodgkin
Malationa2ALinfoma não-Hodgkin
Diazinona2ALinfoma não-Hodgkin
DDT2ACâncer testicular e de fígado
2,4-D2BLinfoma não-Hodgkin, leucemia
A IARC identifica o perigo, sem considerar dose ou modo de uso.
O herbicida mais usado do mundo

O caso do glifosato

2A
classificado pela IARC em 2015 como provável carcinógeno
2020
ANVISA manteve o registro sem restrição por carcinogenicidade
2025
novo pedido de reabertura da reavaliação toxicológica
Da toxicidade crônica ao prato

Parâmetros de resíduo em alimento

ParâmetroDefiniçãoUnidade
NOELDose máxima sem efeito observável em exposição prolongadamg/kg/dia
IDAQuantidade ingerível diariamente por toda a vida sem riscomg/kg pc/dia
DRfaResíduo ingerível em até 24 h sem efeito adversomg/kg pc
LMRResíduo máximo do uso conforme a boa prática agrícolamg/kg (ppm)
O Codex Alimentarius (FAO/OMS) é a referência internacional para o LMR.
Do NOEL ao limite seguro

Ingestão Diária Aceitável

FórmulaIDA = NOEL ÷ FS
Substituindo os valores5 ÷ 100
NOEL: 5 mg/kg/diaFS: 100 (10 × 10)Exemplo didático
Resultado0,05mg/kg pc/dia
O mecanismo orienta a conduta

Sintomas por grupo químico

GrupoMecanismoSinal clínico agudo
Organofosforado e carbamatoInibe acetilcolinesteraseSalivação, miose, bradicardia, fasciculação
PiretroideAge no canal de sódioParestesia, tremor fino, sensibilização dérmica
NeonicotinoideAgonista nicotínicoDesorientação, espasmo, convulsão
Paraquat e diquatGera radical livreFibrose pulmonar progressiva e irreversível
CumarínicoAntagonista da vitamina KHemorragia múltipla, dias a semanas depois
OrganocloradoAltera membrana neuronalTremor, convulsão, lesão hepática e renal
A categoria do rótulo informa o perigo, mas não substitui o ingrediente ativo.
A sequência não muda

Primeiros socorros no campo

1
Remover o trabalhador da área de exposição de imediato
2
Retirar a roupa contaminada sem espalhar o produto
3
Lavar pele ou olhos com água corrente por 15 minutos
4
Não induzir vômito, sobretudo com concentrado emulsionável
5
Acionar SAMU 192 e levar o rótulo ao atendimento médico
Nem todo grupo tem antídoto

Antídotos por grupo químico

OF
Tem antídoto

Organofosforado

Atropina e oxima como a pralidoxima, se administradas precocemente.

Pi
Sem antídoto

Piretroide

Não há antídoto específico; o tratamento é apenas sintomático.

Pq
Sem antídoto eficaz

Paraquat

Só reduzir a absorção; carvão ativado nas primeiras horas.

Do mais eficaz ao último recurso

NR-31: hierarquia de controle

1
Eliminação: substituir o produto por alternativa não tóxica
2
Proteção coletiva: cabine fechada, barra protegida
3
Redução do risco por medida técnica ou organizacional
4
EPI: proteção individual, a mais sujeita a falha humana
O que a lei exige do empregador

Obrigações da NR-31

SubitemObrigação
31.8.8Capacitar todo trabalhador em exposição direta sobre prevenção
31.8.9Fornecer EPI e vedar roupa pessoal na aplicação
31.8.18Exigir armazenamento em alvenaria, piso impermeável, acesso restrito
31.12.74Capacitar para manuseio e operação segura de máquina
31.20.1Proibir EPI danificado, com manutenção preventiva obrigatória
A capacitação mínima é de 20 horas; a responsabilidade é solidária.
Quando a condição é insalubre

Margem de Segurança

FórmulaMS = (NOEL × P) ÷ (QAE × 10)
Substituindo os valores(5 × 70) ÷ (20 × 10)
NOEL: 5 mg/kg/diaP: 70 kgQAE: 20 mg/dia
Resultado1,75MS ≥ 1, condição segura
A proteção certa para cada parte

EPI por parte do corpo

Parte do corpoEPIMaterial
Cabeça e pescoçoTouca árabeTecido hidro-repelente
Olhos e faceViseira facialAcetato transparente resistente
Vias respiratóriasRespirador com filtroCombinado para vapor e partícula
Mãos e antebraçoLuva impermeável longaNitrílica ou neoprene
Tronco e membrosJaleco e calçaHidro-repelente ou impermeável
Pés e pernasBota impermeávelBorracha ou PVC
Categoria 1 e 2 exigem filtro P2 ou P3 mais carvão ativado.
A ordem é inversa e proposital

Colocar e retirar o EPI

Colocação

CalçaJaleco por foraBotasRespiradorViseiraLuvas por último

Veste-se primeiro o que fica por baixo; luvas por último ajustam a vedação.

Retirada

Lavar luvasToucaJalecoBotasRespiradorLuvas por último

O exterior está contaminado; a ordem errada transfere produto para a pele.

Obrigatória na embalagem lavável

Tríplice lavagem

1
Adicionar água até um quarto da capacidade da embalagem
2
Tampar e agitar por 30 segundos
3
Despejar o líquido de lavagem no tanque do pulverizador
4
Repetir por mais duas vezes, totalizando três lavagens
5
Destinar a embalagem, com a tampa, ao ponto de coleta
A posição depende do alvo

Sobreposição manga-luva

Culturas baixas

HerbicidaJato descendenteManga sobre a luva

O líquido escorre pelo braço e cai no chão, longe do punho.

Copas de árvores

PomarBraço levantadoLuva sobre a manga

Impede que o líquido escorra da luva para dentro do jaleco.

Toxicidade da mistura, não eficácia

Efeito da mistura sobre o operador

EfeitoResultado
SomatórioAção igual à soma das ações individuais
AntagônicoAção inferior à soma, mas superior à de cada um isolado
IdênticoCada substância age de forma independente
SinérgicoAção tóxica superior à soma das ações individuais
Mede toxicidade sobre o corpo, inclusive o do operador, não o controle da praga.
Antes de guardar o produto

Armazenamento seguro

Lo
A mais de 15 m

Local

Trancado, seco, ventilado, distante de habitação e de alimento.

Or
Embalagem original

Organização

Rótulo aderido, separação por classe, estoque tipo PEPS.

Qt
Só uma safra

Quantidade

Comprar o necessário; descartar produto antigo ou sem rótulo.

Segurança em cada momento

Rotina segura da aplicação

1
Antes: ler o rótulo, vestir o EPI e escolher local ventilado
2
Durante: não desentupir a ponta com a boca, evitar aplicar contra o vento
3
Depois: lavar o pulverizador, tomar banho e trocar de roupa
O que ler com foco toxicológico

Leitura do rótulo

Ca
A faixa colorida

Categoria GHS

Lembrar que Categoria 1 e 2 compartilham a faixa vermelha.

De
Além da faixa

Desfecho adicional

Carcinogênico, mutagênico ou tóxico para reprodução, quando houver.

Re
Antes de voltar

Intervalo de reentrada

Tempo para entrar na área sem EPI; sem ele, consultar a bula.

O que de fato protege o trabalhador

A conversa que o receituário não faz

Não é a assinatura que protege, é explicar por que o produto entra no corpo e o que a proteção evita.
?
Retome a pergunta
Como interpretar a classificação toxicológica de um rótulo para avaliar o risco real de uma aplicação?
Responda agora com o que você viu na aula.
Encerramento
A dose define o veneno, mas é a disciplina de quem aplica que decide se essa dose chega a fazer efeito em alguém.