Unidade II · Calda Fitossanitária

Por que a mesma dose de produto pode ter desempenhos completamente diferentes conforme o volume de calda usado?

Aula 06. Calda Fitossanitária e Taxa de Aplicação
Prof. Dr. Anísio da Silva Nunes
Tecnologia de Aplicação de Produtos Fitossanitários
UNEMAT · Agronomia · Tangará da Serra
?
Ponto de partida
O que define a taxa de aplicação ideal para uma cultura, um alvo e um equipamento específicos?
Ao final desta aula, você será capaz de

Objetivos de aprendizagem

01

Calcular a taxa

Determinar a taxa de aplicação conforme alvo, cultura e equipamento.

02

Avaliar a água

Julgar a qualidade da água de preparo e seu efeito na estabilidade da calda.

03

Ajustar em campo

Corrigir a taxa conforme o alvo biológico e o estádio da cultura.

O que forma a calda

Três componentes, uma mistura só

Ag
O veículo

Água

Mais de 95% do volume; pH, dureza e sólidos afetam a eficácia.

Pr
O ativo

Produto

Ingrediente ativo que age sobre o alvo, na dose indicada na bula.

Ad
O ajuste

Adjuvante

Corrige tensão superficial, adesão ou pH quando o rótulo recomenda.

Formulação WP

Produto e água formando a mistura

Formulação WP em forma comercial e diluída em água, formando uma suspensão.
Formulação WP em forma comercial e diluída em água, formando uma suspensão.
Fonte: TECNOLOGIA
A água define a estabilidade do ativo

pH ideal por ingrediente ativo

Ingrediente ativopH ideal
Etefom3,0
Glifosato4,0
Cipermetrina4,0
Dicamba5,0
Diurom7,0
ClorotalonilNão é afetado pelo pH
A bula do produto é a fonte obrigatória; não existe pH ideal universal.
Ponto de atenção

Quando a água sabota a calda

Cipermetrina em água com pH 9,0 perde 55% do princípio ativo em 2 horas e 90% em 24 horas.
Cálcio e magnésio na água

Classificação da dureza da água

ClassificaçãoEscala internacional (mmol/L)Escala americana (ppm CaCO₃)
Levemenor que 1,6menor que 160
Moderadamente dura1,6 a 3,2160 a 320
Dura3,2 a 4,6320 a 460
Muito duramaior que 4,6maior que 460
Para o glifosato, a literatura admite dureza total de até 150 ppm.
Nem todo cátion pesa igual

Poder desativador sobre o glifosato

Fe
Efeito muito severo

Ferro e alumínio

Fe³⁺ e Al³⁺ inativam fortemente a molécula na calda.

Ca
Efeito severo

Cálcio e zinco

Ca²⁺ e Zn²⁺ causam inativação severa; Mg²⁺, moderada.

K
Sem efeito

Potássio

K⁺ não afeta o produto na calda.

O efeito contraintuitivo da dureza

Fração de glifosato inativada

Fórmula% inativado = (Va × Dureza_Ca × 0,00047) ÷ Dose_glifosato
Com os dados da lavoura(100 × 400 × 0,00047) ÷ 1
Va (volume de água): 100 L/haDureza_Ca (dureza cálcica): 400 ppm de Ca²⁺Dose de glifosato: 1 kg/ha de ingrediente ativo
Resultado18,8% inativado
Diagnóstico rápido

Água: problema, consequência e solução

ProblemaConsequênciaSolução
Sólidos em suspensãoInativa ativos e entope pontasTrocar a fonte, filtrar, aplicar logo
Água dura (Ca²⁺, Mg²⁺)Inativa formulados salinos, precipitaSulfato de amônio, reduzir o volume
pH acima de 7,0Hidrólise alcalina dos ativosRedutor de pH, aplicar logo
pH tamponadoResiste à correçãoProduto neutralizante específico
Três termos que o campo confunde

Taxa, volume de calda e dose

L/ha
Por área

Taxa de aplicação

Calda distribuída por hectare; parâmetro de operação do pulverizador.

L
No tanque

Volume de calda

Quantidade física de mistura contida no tanque, medida em litros.

g/ha
Do produto

Dose

Produto comercial formulado por área, conforme a bula.

A bula recomenda de duas formas

Dose por área e dose por concentração

Dose por área

L/ha, g/haFixa por hectareIndepende do volume

Usual em herbicidas e culturas de campo; a quantidade por hectare é constante.

Dose por concentração

g por 100 LProporcional ao volumeAté o escorrimento

Comum em culturas arbóreas; a quantidade cresce com o volume de calda.

Sistema de referência ASABE

Classificação da taxa (S327.3)

ClasseVolume (L/ha)
Ultra ultra baixo volume (U-UBV)menor que 0,5
Ultra baixo volume (UBV)0,5 a 5
Baixo volume (BV)5 a 50
Médio volume (MV)50 a 500
Alto volume (AV)maior que 500
Uma classificação própria

Taxa de aplicação para drones

menor que 5
ultrabaixo volume, em L/ha
5 a 30
baixo volume, faixa predominante
30 a 50
médio volume; acima disso, inviável pela carga
Sistema de referência Matthews (2000)

Culturas anuais e arbóreas

ClasseAnuais (L/ha)Arbóreas (L/ha)
Ultra baixo volumemenor que 5menor que 50
Muito baixo volume5 a 5050 a 200
Baixo volume50 a 200200 a 500
Médio volume200 a 600500 a 1.000
Alto volumemaior que 600maior que 1.000
O que o Cerrado mato-grossense pratica

Faixas de campo em MT

Fu
Soja

Fungicidas

80 a 130 L/ha; abaixo de 50 em R5 é risco real de subdose de cobertura.

He
Pós-emergente

Herbicidas

60 a 100 L/ha com glifosato.

In
Alvo móvel

Inseticidas

30 a 80 L/ha, conforme o alvo.

Taxa terrestre por mecanismo de ação

Faixas: herbicidas e inseticidas

Produto e mecanismoTaxa terrestre (L/ha)
Herbicida pré-emergente (solo)80 a 120
Herbicida pós-emergente sistêmico60 a 100
Herbicida pós-emergente de contato100 a 150
Inseticida sistêmico50 a 80
Inseticida de contato ou ingestão80 a 150
Acaricida de contato80 a 150
A bula do produto registrado no Agrofit prevalece sobre a generalização.
Calcular a taxa de aplicação

Da ponta ao volume por hectare

FórmulaQ (L/ha) = q (L/min) × 600 ÷ [V (km/h) × e (m)]
Com os dados da lavoura1,2 × 600 ÷ (6 × 0,5)
q (vazão por ponta): 1,2 L/minV (velocidade): 6 km/he (espaçamento entre pontas): 0,5 m
Resultado240L/ha
Taxa terrestre por mecanismo de ação

Faixas: fungicidas e biológicos

Produto e mecanismoTaxa terrestre (L/ha)
Fungicida sistêmico80 a 130
Fungicida de contato ou multissítio100 a 200
Fungicida mistura sistêmico + contato80 a 150
Fungicida ou bionematicida biológico100 a 200
Ajustar sempre pelo componente de contato da mistura.
Escolher a ponta certa

Vazão necessária por ponta

Fórmulaqᵢ (L/min) = V (km/h) × eᵢ (cm) × Q (L/ha) ÷ 60.000
Com os dados da lavoura6 × 50 × 100 ÷ 60.000
V (velocidade): 6 km/heᵢ (espaçamento entre pontas): 50 cmQ (taxa planejada): 100 L/ha
Resultado0,5L/min por ponta
O que a pulverização precisa entregar

Cobertura não é o mesmo que volume

"%"
A definição

Cobertura

Fração da superfície do alvo efetivamente atingida pelas gotas.

Si
Sistêmico

20 a 30%

Já basta; o produto se redistribui após a absorção foliar.

Co
Contato

Acima de 50%

Exige cobertura densa; não há redistribuição interna.

Registro com pigmento fluorescente

Cobertura vista no alvo

Cobertura de pulverização em alvo natural evidenciada com pigmento fluorescente.
Cobertura de pulverização em alvo natural evidenciada com pigmento fluorescente.
Fonte: TECNOLOGIA
A equação que rege a cobertura

Fórmula de Courshee (1967)

FórmulaC (%) = 15 × (V × R × K²) ÷ (A × D)
Com os dados da lavoura15 × (100 × 0,8 × 1²) ÷ (30.000 × 200)
V (taxa de aplicação): 100 L/haR (taxa de recuperação): 0,8, ou 80%K (fator de espalhamento): 1A (área foliar): 30.000 m²/haD (diâmetro das gotas): 200 µm
Resultado0,02% de cobertura
O que cada variável controla

Numerador sobe, denominador desce

V
Numerador

Volume (V)

Aumentar a taxa eleva a cobertura na mesma proporção; R também soma.

K
Numerador

Espalhamento (K²)

É quadrático; um surfatante que dobra K quadruplica o efeito.

A
Denominador

Área foliar (A)

Mais folhas por hectare diluem a cobertura obtida.

D
Denominador

Diâmetro (D)

Gotas maiores cobrem menos área por unidade de volume.

A relação é linear

Dobrar o volume dobra a cobertura

Mantendo as demais variáveis constantes, aumentar a taxa de 100 para 200 L/ha dobra a cobertura do alvo.
Comparação de tecnologias

Volume e deposição no dossel

Deposição do fungicida em três alturas do dossel de soja, comparando tecnologias de aplicação.
Deposição do fungicida em três alturas do dossel de soja, comparando tecnologias de aplicação.
Fonte: Documentos
Norma ASABE S572

Classes de tamanho de gota (parte 1)

ClasseSímboloCorDMV (µm)
Extremamente finaXFRoxomenor que 60
Muito finaVFVermelho60 a 145
FinaFLaranja145 a 225
MédiaMAmarelo226 a 325
A cor da classe não é a cor da ponta, que codifica a vazão.
Norma ASABE S572.1

VMD conforme a pressão de trabalho

VMD de gotas produzidas em relação à pressão de trabalho, segundo a ASABE S572.1.
VMD de gotas produzidas em relação à pressão de trabalho, segundo a ASABE S572.1.
Fonte: Tecnologia de aplicação de pesticidas
O parâmetro que representa o espectro

Diâmetro mediano volumétrico

Dv0,5
divide o volume pulverizado em duas metades iguais
100 µm
espessura de um fio de cabelo, referência visual
8 classes
padrão ASABE S572, do roxo ao preto
Esquema técnico

DMV e DMN no espectro de gotas

Estabelecimento dos parâmetros DMV e DMN dentro do espectro de gotas pulverizadas.
Estabelecimento dos parâmetros DMV e DMN dentro do espectro de gotas pulverizadas.
Fonte: Tecnologia de aplicação de pesticidas
Norma ASABE S572

Classes de tamanho de gota (parte 2)

ClasseSímboloCorDMV (µm)
GrossaCAzul326 a 400
Muito grossaVCVerde401 a 500
Extremamente grossaXCBranco501 a 650
Ultra grossaUCPretomaior que 650
Referência de bicos

Pontas que delimitam as classes

Pontas de referência usadas para delimitar os limites entre as classes de gotas.
Pontas de referência usadas para delimitar os limites entre as classes de gotas.
Fonte: ENTENDENDO A TECNOLOGIA DE APLICAÇÃO
Uma relação cúbica com o diâmetro

Número de gotas por cm²

FórmulaN = (60 ÷ π) × (100 ÷ d)³ × Q
Com os dados da lavoura(60 ÷ π) × (100 ÷ 200)³ × 100
d (diâmetro da gota): 200 µmQ (taxa de aplicação): 100 L/ha
Resultado239gotas/cm²
Cada produto exige uma densidade

Densidade mínima de gotas

Classe de produtoGotas/cm² (mínimo)
Inseticida sistêmico20 a 30
Inseticida de contato50 a 70
Herbicida pós-emergente sistêmico20 a 30
Herbicida pós-emergente de contato30 a 40
Fungicida sistêmico30 a 40
Fungicida de contatomaior que 70
Análise de imagem

Padrões de tamanho e densidade

Padrões de tamanho (VMD) e densidade de gotas de pulverização.
Padrões de tamanho (VMD) e densidade de gotas de pulverização.
Fonte: MANUAL
Por que a exigência muda

Produto sistêmico e produto de contato

Sistêmico

Redistribui na planta20 a 30 gotas/cm²Cobertura baixa basta

Cada gota alcança partes da planta além do ponto de contato.

De contato

Age onde depositaAcima de 50 gotas/cm²Cobertura alta e uniforme

Sem redistribuição: ponto não atingido é ponto não controlado.

O volume decide o resultado biológico

A mesma dose, dois resultados

Fungicida sistêmico a 150 L/ha controla a ferrugem asiática da soja com folga; a mesma dose a 50 L/ha pode falhar.
Ensaio a campo

Duas taxas, dois resultados

Parcelas de soja pulverizadas com drone em duas taxas de aplicação e dois fungicidas.
Parcelas de soja pulverizadas com drone em duas taxas de aplicação e dois fungicidas.
Fonte: Documentos
A eficácia não é linear

O que governa o controle

Me
Mecanismo

Sistêmico tolera menos volume

Redistribui após a absorção; o de contato exige cobertura.

Al
Alvo

Tamanho e posição pesam

Alvo pequeno ou no terço inferior do dossel exige mais.

Ho
Janela

10h às 14h na soja

O heliotropismo verticaliza as folhas e melhora a penetração.

Reduzir volume tem os dois lados

Baixo volume: ganho e risco

Vantagens

Mais área por horaMenos águaAbsorção mais rápida

O ganho operacional é real, mas menor do que a intuição sugere.

Riscos

Gotas evaporamMais derivaFalha de cobertura

Volume baixo, gota fina e clima marginal falham no Cerrado.

Dado experimental

Gotas finas e risco de deriva

Percentual do volume em gotas menores que 100 µm, indicador de risco de deriva.
Percentual do volume em gotas menores que 100 µm, indicador de risco de deriva.
Fonte: TECNOLOGIA
O que dá errado com baixo volume

Três erros que custam reaplicação

"1"
Erro comum

Reduzir volume sem reduzir a gota

A ponta de gota grossa deixa cobertura insuficiente já prevista.

"2"
Erro comum

Tratar contato como sistêmico

Transferir a lógica de volume baixo sem ajustar o espectro.

"3"
Erro comum

Contar só o rendimento

Ignorar o risco de falha e o custo de reaplicar.

A distância entre papel e campo

Taxa de bula e prática de campo

Taxa de bula

100 a 300 L/haEnsaios de registroMáxima segurança

Definida no MAPA para garantir eficácia, não para o Cerrado de hoje.

Prática de campo

60 a 100 L/haJanela climática curtaLimite empírico

Abaixo da bula sem validação local é risco de responsabilidade técnica.

O preço de reduzir a gota

Tamanho de gota, queda e deriva

Diâmetro (µm)Queda de 3 mDeriva com vento 5 km/h
20252 s335 m
10010 s13,4 m
2406 s8,5 m
4002 s2,6 m
1.0001 s1,4 m
Valores aproximados, variam com o modelo físico adotado.
Comportamento no dossel

Gota, dossel e deriva

Comportamento de diferentes tamanhos de gota no dossel vegetal, com faixa ideal de penetração de 100 a 300 micra.
Comportamento de diferentes tamanhos de gota no dossel vegetal, com faixa ideal de penetração de 100 a 300 micra.
Fonte: AGRO nômico
A taxa correta é resposta a um contexto

Ajuste por cultura, alvo e clima

Cu
Cultura

IAF alto pede mais volume

O dossel fechado dilui a cobertura ao longo do ciclo.

Al
Alvo

Cada alvo, uma faixa de gota

Inseto de contato, 20 a 50 µm; solo, gota muito grossa.

Cl
Clima

Calor e ar seco derrubam a gota

Acima de 30°C e abaixo de 55% de UR, mais evaporação.

Soja com grande enfolhamento

Cobertura por terço do dossel

Cobertura das folhas nos terços do dossel conforme a classe de gotas, em soja com grande enfolhamento.
Cobertura das folhas nos terços do dossel conforme a classe de gotas, em soja com grande enfolhamento.
Fonte: ENTENDENDO A TECNOLOGIA DE APLICAÇÃO
A mesma taxa cobre menos ao longo do ciclo

Índice de área foliar da soja

menor que 1,0
IAF em V3, dossel aberto
3,0 a 4,0
IAF em R1
maior que 5,0
IAF em R5, dossel fechado
Calda preparada é calda em risco

Estabilidade e prazo de uso

1
Estimar o tempo total entre preparo e fim antes de encher o tanque
2
Preparar a calda imediatamente antes do uso
3
Manter agitação contínua durante toda a aplicação
4
Reavaliar após 80 a 100 min de repouso, consumir no mesmo dia
?
Retome a pergunta
O que define a taxa de aplicação ideal para uma cultura, um alvo e um equipamento específicos?
Responda agora com o que você viu na aula.
Encerramento
A taxa de aplicação é a ferramenta mais barata da tecnologia de aplicação: ajustar o que já sai de graça do próprio tanque.