Unidade II · Calda Fitossanitária

Por que misturar produtos no tanque pode aumentar a eficiência de uma operação ou destruir uma aplicação inteira?

Aula 08. Mistura em Tanque
Prof. Dr. Anísio da Silva Nunes
Tecnologia de Aplicação de Produtos Fitossanitários
UNEMAT · Agronomia · Tangará da Serra
?
Ponto de partida
Como saber, antes mesmo de abrir as embalagens, se dois produtos são compatíveis na mesma calda?
Ao final desta aula, você será capaz de

Objetivos de aprendizagem

01

Validar a mistura

Executar o teste da garrafa antes da aplicação em campo.

02

Ordenar a adição

Estabelecer a ordem de incorporação conforme a formulação de cada produto.

03

Avaliar o risco

Julgar os riscos técnicos e legais da mistura fora de bula.

Bloco A · Por que a mistura existe

A prática mais comum, a menos estudada

Quase toda pulverização brasileira é uma mistura, e boa parte é feita sem dado técnico.
Conceito

Mistura em tanque

Associação de dois ou mais produtos, com ou sem fertilizante foliar, no tanque, imediatamente antes da aplicação.
Levantamento Gazziero, 2015

A dimensão da prática no Brasil

97%
dos produtores praticam mistura em tanque
95%
combinam de dois a cinco produtos na calda
9,5%
chegam a sete produtos ou mais numa aplicação
O dado que mais preocupa

Prática ampla, conhecimento estreito

72%
desconhecem ou consideram insuficiente a informação técnica
97%
misturam mesmo assim, todos os dias
Por que se mistura

Três grupos de razões

Ag
Fitossanitário

Agronômica

Controlar praga, doença e planta daninha numa passagem, e manejar resistência.

Op
Operacional

Econômica

Menos passagens do pulverizador, menos combustível, água e mão de obra.

Sg
Segurança

Ambiental

Menos manuseio de produto e menor impacto acumulado na safra.

Decaro Junior, 2019

A calda ficou mais concentrada

5 a 10×
mais produtos por aplicação em soja em duas décadas
menos volume de calda em cultura horizontal
15 a 30×
mais concentrada que há vinte anos
Bloco B · A regra do jogo

Da proibição de 1985 à lei de 2023

A mistura saiu da clandestinidade regulatória e passou a ter um responsável com nome: o agrônomo.
Trinta e três anos de vaivém

A regulamentação em cinco marcos

1
1985: recomendação de mistura retirada de rótulo e bula
2
1995: Portaria 67 reabre a recomendação nos registros
3
2002: Instrução Normativa 46 proíbe a mistura de novo
4
2018: Instrução Normativa 40 transfere a decisão ao agrônomo
5
2023: Lei 14.785 autoriza a mistura em lei ordinária
Conceito

Receita agronômica

Prescrição técnica obrigatória, emitida por profissional habilitado, com conteúdo mínimo no Decreto 4.074/2002 e na Lei 14.785/2023.
O que sustenta a prescrição

Hierarquia normativa da mistura

NormaConteúdo para a mistura
Lei 14.785/2023, art. 39 §2ºAutoriza o profissional a recomendar mistura em tanque
Lei 14.785/2023, art. 50Responsabilidade civil por receita errada ou negligência
Decreto 4.074/2002, art. 66Conteúdo mínimo da receita agronômica
IN MAPA 40/2018Conteúdo da receita nas situações de mistura
ABNT NBR 13875:2014Método de compatibilidade física da calda
ASTM E1518-05/2012Método alternativo de avaliação física
Artigo 3º da IN 40

Intérprete, não executor

Interpretar a recomendação oficial e elaborar a receita é competência e responsabilidade do engenheiro-agrônomo.
Caso relatado no vídeo

A recomendação no papel de pão

Orientação informal de mistura, sem respaldo de bula, virou responsabilização criminal do profissional que a assinou.
Bloco C · A química da calda

Nem toda mistura soma

O encontro de dois ativos pode reforçar, empatar ou anular o controle esperado.
Cada ganho tem contrapartida

Vantagem e risco lado a lado

DimensãoVantagemRisco
ControleEspectro ampliado numa operaçãoAntagonismo entre ativos
ResistênciaCombina mecanismos de açãoFalta de informação técnica
CustoMenos passagens e combustívelRepetir a operação se a mistura falhar
ExposiçãoMenos manuseio de produtoCalda complexa erra mais no preparo
EstabilidadeMaior diluição reduz problemaBaixa taxa concentra e amplia o risco
Risco do aplicador

Tecnologia reduz a exposição

Avanços na tecnologia de aplicação sobre o risco de exposição do aplicador e do ambiente.
Avanços na tecnologia de aplicação sobre o risco de exposição do aplicador e do ambiente.
Fonte: TECNOLOGIA
Como dois ativos se encontram

Cinco formas de interação

TipoResultado sobre o alvo
SinergismoEfeito conjunto maior que a soma dos individuais
AditivoEfeito igual à soma, com ação tóxica idêntica
IdênticoCada substância age isolada, com ação distinta
PotencializaçãoUm componente amplia a ação do outro
AntagonismoEfeito inferior ao do produto mais ativo sozinho
Beckel, 2006

O mesmo aditivo, dois destinos

PBO com deltametrina

PiretroideSinergismoMais residual

O butóxido de piperonila aumenta o poder residual sobre o inseto.

PBO com fenitrotiom

OrganofosforadoAntagonismoMenos tóxico

O mesmo aditivo reduz a toxicidade ao inseto na mistura.

A maior preocupação prática

Física não é biológica

O antagonismo não deixa marca na calda: uma mistura visualmente perfeita pode ter ativos que se neutralizam.
Antagonismo documentado

Casos em herbicidas

MisturaEfeito
fluazifop-p + 2,4-DReduz o controle de milho RR voluntário
ACCase + ALSAntagonismo no capim-arroz resistente
clodinafop + metsulfuron ou 2,4-DAntagonismo no controle de azevém
dicamba + quizalofop ou clethodimReduz o controle de milho voluntário RR
Bloco D · Incompatibilidade

Uma se vê no tanque, a outra na lavoura

A incompatibilidade física aparece na hora; a química só se revela dias depois, no campo.
Dois tipos, dois tempos

Física e química

Incompatibilidade física

VisívelNo tanqueImediata

Separação de fase, floco, grumo, precipitado, cristal ou espuma na calda.

Incompatibilidade química

InvisívelNa lavouraTardia

Perda de eficácia por hidrólise, complexação ou antagonismo, sem sinal visual.

O que a calda mostra

Os sinais da incompatibilidade física

FenômenoO que aparece
FloculaçãoFormação de flocos ou grumos
PrecipitaçãoSeparação de sólidos no fundo
Separação de fasesÓleo sobrenadante na superfície
CristalizaçãoFormação de cristais na calda
GelificaçãoA calda inteira vira gel
Espuma excessivaBolha estável que atrapalha o controle do volume
Foto de campo

Sinais visíveis no tanque

Separação de óleo na camada superior do tanque (A) e transbordamento de calda por excesso de espuma (B).
Separação de óleo na camada superior do tanque (A) e transbordamento de calda por excesso de espuma (B).
Fonte: Manual técnico para subsidiar a mistura em tanque de agrotóxicos e afins
Erro clássico de sequência

EC antes do pó molhável

Concentrado emulsionável adicionado antes do WP forma pasta insolúvel que obstrui filtros e o orifício da ponta.
Ruedell, 1995

A degradação que não se vê

55%
de cipermetrina perdida em duas horas a pH 9,0
90%
perdida em vinte e quatro horas no mesmo pH
Casos observados

Incompatibilidade física por mistura

MisturaSintoma
Glifosato WG + clorpirifós CEPrecipitação e floculação imediata
Lactofen CE + clorpirifós CEPrecipitação com decantação de particulados
Glifosato SC + clorpirifós CEPrecipitação e perda de produto no fundo
Fomesafen SC + clorpirifós CEDecantação lenta, calda não homogênea
Consequência prática

Quando a mistura entope o filtro

Incompatibilidade da mistura de herbicidas causando entupimento nos filtros de barra (B).
Incompatibilidade da mistura de herbicidas causando entupimento nos filtros de barra (B).
Fonte: Manual técnico para subsidiar a mistura em tanque de agrotóxicos e afins
Bloco E · Preparar a calda certo

Antes de abrir a primeira embalagem

Água, solubilidade e ordem de adição definem se a calda vai se manter estável.
Formulação WG

Do grânulo à suspensão

Formulação WG em grânulo (a), em embalagem hidrossolúvel (b) e diluída em água formando suspensão (c).
Formulação WG em grânulo (a), em embalagem hidrossolúvel (b) e diluída em água formando suspensão (c).
Fonte: TECNOLOGIA
A água manda na calda

Qualidade da água de pulverização

CaracterísticaCondição críticaEfeito
pHmenor que 5 ou maior que 7Hidrólise e alteração da molécula
Durezamaior que 321 ppm de CaCO₃Cátion bivalente inativa o ativo
Temperaturamenor que 15 °CGelifica EC e dissolve mal o sólido
Sólidoságua visivelmente turvaAdsorve ativo e danifica o sistema
Posição técnica

Corrigir pH, mas não por rotina

Águas do Cerrado costumam ser brandas; confirmar por análise antes de prescrever corretivo em toda calda.
Decaro Junior, 2019

Solubilidade dos ingredientes ativos

Ingrediente ativoSolubilidade em água (ppm, 20 °C)
Clorotalonil0,81
Azoxistrobina6,70
Tebuconazol36,00
Glifosato10.500
2,4-D24.300
Acefato790.000
Formulação WP

Um pó molhável em água

Formulação WP na forma de produto comercial (a) e diluída em água formando suspensão (b).
Formulação WP na forma de produto comercial (a) e diluída em água formando suspensão (b).
Fonte: TECNOLOGIA
A assimetria que ordena a mistura

Insolúvel e solúvel

Fungicidas

Abaixo de 300 ppmSólido ou suspensãoWG, WP, SC

Insolúveis em água, exigem agitação cuidadosa e entram cedo na calda.

Herbicidas e alguns inseticidas

Milhares de ppmSolúvelSL, SP, SG

Muito solúveis, como acefato e glufosinato, entram depois na sequência.

Formulação SC

Um concentrado suspenso em água

Formulação SC na forma de produto comercial (à esquerda) e diluída em água (à direita).
Formulação SC na forma de produto comercial (à esquerda) e diluída em água (à direita).
Fonte: TECNOLOGIA
Como a calda é preparada

Três sistemas, três riscos

In
Menor risco

Incorporador

Diluição progressiva no tanque a dois terços; padrão para mistura complexa.

Pm
Risco médio

Pré-mistura

Mistura concentrada num reservatório menor, depois transferida ao pulverizador.

Cp
Risco no tempo

Calda pronta

Preparada em equipamento separado; o armazenamento degrada o ativo.

Embrapa, Documentos 437, 2021

A ordem de adição no tanque

1
Água a dois terços do volume e agitação contínua até o fim
2
Condicionadores: sequestrante, acidificante, antiespumante e redutor de deriva
3
Sólidos: pó molhável (WP), depois granulados (WG, SG)
4
Suspensão concentrada (SC), depois concentrado solúvel (SL)
5
Emulsionável (EC), adjuvantes, fertilizante foliar e completar a água
Não há consenso único

Quatro critérios de ordem

ReferênciaSequência recomendada
Embrapa 437/2021Condicionadores, WP, WG/SG, SC, SL, EC, adjuvante, foliar
ABNT NBR 13875WG, WP, SC, SL, EC, com 60% da água no início
ASTM E1518SL, WG, WP, SC, EC, com todo o volume de água
Decaro Junior 2023Por solubilidade: água, insolúvel, solvente, solúvel, foliar
Onde entra cada um

Posição dos adjuvantes

AdjuvantePosição na sequência
Quelatizante e corretor de pHNo início, antes de qualquer produto
AntiespumanteNo início, junto ao condicionador
Óleo mineral ou vegetalSegue o critério da formulação EC
Estabilizador e surfactanteEntre formulações imiscíveis
Fertilizante foliarPor último, sempre com teste prévio
Soja, safra 2019/20

A posição do óleo mudou o resultado

Ordem que falhou

Corretor de pHGlifosato SLÓleo por último

Fase oleosa sobrenadante minutos depois; queimou o folíolo em campo.

Ordem corrigida

Corretor de pHÓleo antesGlifosato por último

Emulsão estável, aspecto esbranquiçado, sem fitotoxicidade na cultura.

Bloco F · Validar antes de aplicar

Um litro que salva um tanque

Alguns minutos em escala de um litro evitam comprometer o volume inteiro do pulverizador.
Conceito

Teste da garrafa (jar test)

Validação prévia da mistura em recipiente transparente de um litro, nas mesmas proporções previstas para o tanque.
Como se faz

O teste passo a passo

1
Medir a água, dois terços do volume, num recipiente de 1 L
2
Adicionar o condicionador de água
3
Adicionar os produtos na sequência prevista para o tanque
4
Adjuvante e fertilizante, se houver, e completar a água
5
Fechar, agitar e deixar em repouso por duas horas
Do hectare para o litro de teste

Quanto de produto na garrafa

FórmulaProduto na calda (L) = dose (g/ha) ÷ concentração (g/L)
Com os dados da lavoura1.440 ÷ 720 = 2 L em 100 L; depois 2 ÷ 100 = 0,02 L/L
Dose do ativo: 1.440 g/haConcentração do produto: 720 g/LTaxa de aplicação: 100 L/ha
Resultado20mL por litro de teste
Ler pelo tempo de separação

A decisão depende do relógio

Condição na caldaDecisão técnica
Estável, sem separaçãoAplicar sem restrição
Separação após 10 minutosAplicar com agitação constante
Separação entre 5 e 10 minutosAplicar com agitação, situação arriscada
Separação em até 1 minutoNão aplicar
Separação imediataNão aplicar
O que o teste não enxerga

Um limite a ter claro

O teste detecta só incompatibilidade física; não reproduz resíduo do tanque nem revela antagonismo biológico.
Regulagem e tempo

Agitar sempre, aplicar logo

30%
mínimo da vazão nominal no retorno para agitar
24 h
armazenamento já deposita cristais no tanque
Antuniassi, 2019

A mesma mistura, só o volume muda

50 L/ha, tanque a um quarto

Baixo volumeAlta concentraçãoIncompatível

A mesma dose e a mesma ordem geram incompatibilidade visível.

100 L/ha, tanque a três quartos

Mais águaMenor concentraçãoCompatível

O problema desaparece por completo só com mais diluição.

A interação subestimada

Baixar a taxa concentra o risco

Completar com água dissolve o sintoma visível, mas não corrige a incompatibilidade química nem o antagonismo.
Fator de risco e decisão

Quando redobrar o cuidado

Fator de riscoDecisão
Taxa abaixo de 50 L/haAumentar o volume ou reduzir produtos
Água dura, acima de 321 ppmSequestrante antes de qualquer produto
pH fora da faixa de 4 a 6Acidificante ou tamponante antes dos produtos
Enxofre combinado com ECEvitar; validar com dado e teste
Glifosato com adubo foliarFormulação quelatizada e aumentar o volume
Mais de cinco produtosAvaliar reduzir o número por aplicação
Antuniassi, 2019

Perda física e perda química

Fora do tanque

DerivaEscorrimentoChuva

A perda física reduz a dose que chega ao alvo depois da ponta.

Dentro do tanque

InativaçãopHMistura ruim

A perda química reduz a dose antes de a calda sair do pulverizador.

Evidência de campo

Chuva depois da pulverização

Controle de Digitaria com haloxyfop e diferentes óleos adjuvantes, após 15 mm de chuva 60 minutos depois da pulverização.
Controle de Digitaria com haloxyfop e diferentes óleos adjuvantes, após 15 mm de chuva 60 minutos depois da pulverização.
Fonte: TECNOLOGIA
Quando o ativo é um organismo vivo

Três níveis de risco

Ba
Tolera melhor

Bacillus

Esporo resistente; sinergia de Bacillus subtilis QST 713 com hidróxido de cobre.

Az
Exige cautela

Azospirillum

Azospirillum amazonense incompatível com fipronil, azoxistrobina, ciproconazol e piraclostrobina.

Tr
Maior risco

Trichoderma

Trichoderma incompatível com difenoconazol, fluazinam, iprodiona e tiabendazol.

A regra dos biológicos

Vivo pede outra lógica

Consultar o fabricante, adicionar por último, aplicar logo e separar as aplicações quando não houver dado.
Ao assinar a receita

Três dimensões numa assinatura

A calda

Física

A mistura se mantém homogênea, sem separação, floco ou precipitado.

Qu
Os ativos

Química

Os ingredientes não se degradam nem se complexam na água.

Bi
O controle

Biológica

A eficácia sobre o alvo se mantém, sem antagonismo.

?
Retome a pergunta
Como saber, antes mesmo de abrir as embalagens, se dois produtos são compatíveis na mesma calda?
Responda agora com o que você viu na aula.
Encerramento
A pergunta não é se a lei permite a mistura, é se existe teste, dado de compatibilidade ou literatura para responder por ela.