Unidade III · Aplicação Fitossanitária

Por que dois pulverizadores aparentemente idênticos podem aplicar doses completamente diferentes no mesmo talhão?

Aula 10. Regulagem, Calibração e Inspeção de Pulverizadores
Prof. Dr. Anísio da Silva Nunes
Tecnologia de Aplicação de Produtos Fitossanitários
UNEMAT · Agronomia · Tangará da Serra
?
Ponto de partida
Quais erros de regulagem mais comprometem a uniformidade de uma aplicação terrestre?
Ao final desta aula, você será capaz de

Objetivos de aprendizagem

01

Calibrar em campo

Conferir o volume de calda efetivamente aplicado no talhão.

02

Diagnosticar erros

Ler sintomas de aplicação irregular na lavoura e achar a causa.

03

Avaliar a conformidade

Julgar o pulverizador pelos critérios da inspeção periódica.

Diagnóstico de campo no Brasil

O desvio que ninguém vê operando

18,8%
dos pulverizadores avaliados em MT na categoria ruim
54%
dos equipamentos em MT na categoria razoável
>18%
de erro na taxa em parte dos pulverizadores amostrados
Três processos, uma ordem fixa

O que não se confunde

ProcessoResponde a quêResultado esperado
ManutençãoA máquina está apta a operar?Sem vazamento, filtros limpos, pontas íntegras
RegulagemQue configuração a tarefa exige?Pontas, pressão, altura e velocidade definidas
CalibraçãoEstá entregando o planejado?Taxa de aplicação real conferida em campo
O circuito hidráulico

Componentes do pulverizador de barra

Tq
Reserva

Tanque

Polietileno com respiro, coador, agitador e fundo afunilado.

Bo
Pressão

Bomba

De pistão ou centrífuga; gera a pressão que leva a calda à barra.

Cm
Controle

Comando

Regulador de pressão e válvula direcional das seções.

Ba
Distribuição

Barra

Pontas espaçadas, altura ajustável e sistema de estabilização.

Componentes do sistema

Circuito hidráulico do pulverizador

Circuito hidráulico do pulverizador convencional: tanque, agitador, bomba, regulador de pressão, manômetro, barra e bicos.
Circuito hidráulico do pulverizador convencional: tanque, agitador, bomba, regulador de pressão, manômetro, barra e bicos.
Fonte: Proteção de plantas
A bomba define o comportamento

Bomba de pistão vs centrífuga

Pistão

Deslocamento positivo150 a 300 L/minVazão independe da pressãoExige válvula de alívio

Pressão máxima de 35 bar a 540 rpm; vazão proporcional à rotação.

Centrífuga

Deslocamento não positivo15 a 530 L/minVazão inversa à pressãoRegula por estrangulamento

Ao fechar seções, a pressão sobe e o volume deslocado cai.

Bombas de pulverizador

Circuitos: pistão x centrífuga

Circuito hidráulico do pulverizador com bomba de pistão, bomba centrífuga e bomba de diafragma.
Circuito hidráulico do pulverizador com bomba de pistão, bomba centrífuga e bomba de diafragma.
Fonte: Capítulo 13 - Tecnologia de Aplicação
Malha decrescente do tanque à ponta

Filtros do circuito

Posição no circuitoFunçãoMalha típica
Boca do tanqueRetém sujeira grosseira na entradaCoador metálico
Filtro de sucçãoProtege as partes internas da bomba30 a 50 mesh
Filtro de linhaRetém partículas finas antes das seções50 a 80 mesh
Filtro de pontaÚltima barreira antes do orifício50 a 100 mesh
Filtros do circuito

Malhas obstruídas dos filtros

Obstrução das malhas dos filtros de ponta e dos filtros de sucção por matéria orgânica e argila.
Obstrução das malhas dos filtros de ponta e dos filtros de sucção por matéria orgânica e argila.
Fonte: Manual técnico para subsidiar a mistura em tanque de agrotóxicos e afins
A formulação escolhe a malha

Suspensão exige malha mais aberta

Formulação em suspensão

Pó molhávelSuspensão concentradaGrânulo dispersívelMalha 30 a 50

Partícula em suspensão entope malha fina e interrompe o fluxo.

Solução ou emulsão

Concentrado solúvelConcentrado emulsionávelMalha 80 a 100

Ponta de menor vazão pede filtro mais fino que ponta de maior vazão.

A ponta faz três coisas ao mesmo tempo

Três funções da ponta

Vz
Quanto sai

Vazão

Definida pelo tamanho do orifício e pela pressão de trabalho.

Ds
Onde cai

Distribuição

Depende do modelo e do ângulo de abertura ao longo da faixa.

Gt
Como cai

Tamanho de gota

Função do modelo, da característica do líquido e da pressão.

Material define custo e vida útil

Materiais das pontas

MaterialResistência ao desgasteCusto relativo
CerâmicaMuito altaMais alto
Aço inoxidávelAltaIntermediário
PoliacetalMédiaBaixo a intermediário
LatãoBaixaBaixo
Critério único de substituição

A ponta desgastada não avisa

10%
de vazão acima da ponta nova já obriga a troca
50 h
de uso marcam o início do controle de desgaste
10%
de variação máx./mín. tolerada dentro do conjunto
Ângulo e espaçamento definem a altura

Altura mínima da barra (cm)

Ângulo da pontaEsp. 0,30 mEsp. 0,50 mEsp. 1,00 m
80°3660119
90°3050100
100°254284
110°213570
Dois extremos, dois erros

Barra alta demais vs baixa demais

Alta demais

Gota percorre maisMais derivaMais evaporação

A gota fica exposta tempo demais antes de atingir o alvo.

Baixa demais

Sobreposição incompletaSubdepósito entre pontasSuperdepósito sob a ponta

Os jatos adjacentes não se cruzam e a faixa fica desigual.

Altura da barra

Sobreposição por altura da barra

Cruzamento de jatos: sobreposição excessiva com barra alta e deficiente com barra baixa.
Cruzamento de jatos: sobreposição excessiva com barra alta e deficiente com barra baixa.
Fonte: MANUAL
Cada ponta tem sua faixa

Pressão de trabalho por tipo de ponta

Tipo de pontaFaixa típica de pressãoObservação
Jato cônico75 a 200 lbf/pol² (≈ 5 a 14 bar)Pressão maior produz gota menor
Jato plano comum15 a 60 lbf/pol² (≈ 1 a 4 bar)Acima do limite reduz a uniformidade
Jato plano c/ indução de arAcima de 30 lbf/pol² (≈ 2 bar)Exige pressão maior para funcionar
Pressão x tamanho de gota

Gota por modelo e pressão

Diâmetro mediano volumétrico (DMV) por modelo de ponta, avaliado nas faixas de pressão recomendadas pelos fabricantes.
Diâmetro mediano volumétrico (DMV) por modelo de ponta, avaliado nas faixas de pressão recomendadas pelos fabricantes.
Fonte: ENTENDENDO A TECNOLOGIA DE APLICAÇÃO
Pressão corrige pouco a taxa

Dobrar a vazão custa quatro vezes a pressão

Fórmulaq2 ÷ q1 = raiz quadrada de (P2 ÷ P1)
Para dobrar a vazãoP2 = 2 × (2 ÷ 1)² = 2 × 4
Pressão inicial P1: 2 barVazão inicial q1: 1,0 L/minVazão desejada q2: 2,0 L/min
Resultado8bar
Medir a pressão certa

O manômetro na regulagem

Pv
Onde fica

Posição visível

Instalado ao alcance do operador durante a operação.

Es
Como ler

Escala 25 a 75%

A pressão usual deve cair entre 25% e 75% da escala máxima.

Kt
Precisão

Kit manômetro

Mede a pressão na própria ponta, sem perda de carga.

Gl
Durabilidade

Banho de glicerina

Resiste melhor à vibração do que o modelo seco.

Leitura de pressão

Esquema do manômetro

Esquema do manômetro usado na regulagem do pulverizador.
Esquema do manômetro usado na regulagem do pulverizador.
Fonte: APLICAÇÃO DE AGROTÓXICOS: TECNOLOGIA DE APLICAÇÃO
A equação que reúne tudo

Taxa de aplicação na barra

FórmulaQ = vazão por ponta × 600 ÷ (velocidade × espaçamento)
Com os dados da lavoura1,4 × 600 ÷ (6 × 0,5)
Vazão por ponta: 1,4 L/minVelocidade: 6 km/hEspaçamento: 0,5 m
Resultado280L/ha
Dois caminhos, o mesmo resultado

Dois métodos de calibração

Tempo do percurso

Coleta no tempo de 50 mVaso calibradorLeitura direta em L/ha

Difundido em pulverizador tratorizado com vaso calibrador.

Velocidade calculada

Coleta de 1 minuto fixoSoma da vazãoAplica a equação Q

Serve para pulverizador em geral, inclusive autopropelido.

Calibração pelo tempo de 50 m

Do percurso à vazão coletada

1
Abastecer o tanque até a metade com água limpa
2
Demarcar 50 m em terreno semelhante ao da aplicação
3
Cronometrar o tempo T e calcular V = 180 ÷ T
4
Com a máquina parada, abrir registros e regular a pressão
5
Coletar a vazão de cada ponta durante o mesmo tempo T
Calibração de campo

Identificando a ponta

Identificação de uma ponta de pulverização.
Identificação de uma ponta de pulverização.
Fonte: Capítulo 13 - Tecnologia de Aplicação
Conferir a taxa sem cronômetro

Quadrado de calibração

FórmulaTaxa = volume gasto × 10.000 ÷ área aplicada
Com os dados da lavoura12,5 × 10.000 ÷ 625
Quadrado de 25,0 m por 25,0 m: 625 m²Volume consumido do tanque: 12,5 L
Resultado200L/ha
Quando a taxa não bate

Ajuste da taxa de aplicação

Taxa acima da desejada

Reduzir a pressãoAumentar a velocidadePonta de menor vazão

Ajuste pequeno usa pressão ou velocidade; ajuste maior troca a ponta.

Taxa abaixo da desejada

Aumentar a pressãoReduzir a velocidadePonta de maior vazão

A tomada de potência se mantém sempre em 540 rpm.

Da taxa confirmada ao tanque

Quanto produto por reabastecimento

FórmulaProduto por tanque = capacidade × dose ÷ taxa
Com os dados da lavoura800 × 200 ÷ 100
Capacidade do tanque: 800 LDose do produto comercial: 200 g/haTaxa calibrada: 100 L/ha
Resultado1,6kg por tanque
No eletrônico, calibra-se o controlador

Autopropelido com controlador

Fl
Vazão real

Fluxômetro

Leitura atualizada pela coleta das pontas, inserida no monitor.

Vm
Proteção

Velocidade mínima

Evita pressão abaixo do mínimo da ponta em baixa velocidade.

Sa
Geometria

Sensor de altura

Mantém a barra entre 0,5 e 1,2 m em relação ao alvo.

Se
Equilíbrio

Seções

Fechar uma seção sobe a pressão; a compensação reequilibra.

Controlador de pulverização

Comando eletrônico do autopropelido

Comando Master Flow da Jacto.
Comando Master Flow da Jacto.
Fonte: Proteção de plantas
O ar leva a gota ao alvo

Turboatomizador: L/ha vs L/planta

Volume em L/ha

Café e uvaQ = (V × VR × E) ÷ 600Velocidade em km/h

E é o espaçamento entre linhas; VR é o volume recomendado.

Volume em L/planta

Citros e mangaQ = (60 × V × VR) ÷ eVelocidade em m/s

Aplicando um lado por passada, divide-se o volume por dois.

Turboatomizador

Bicos do turbopulverizador

Regulagem inadequada dos bicos de um turbopulverizador.
Regulagem inadequada dos bicos de um turbopulverizador.
Fonte: MANUAL
A faixa define a distância

Costal com vaso calibrador

Largura da faixa (m)Distância a percorrer para 25 m² (m)
0,550,0
0,735,7
1,025,0
1,220,8
1,516,7
No costal, o operador é parte da máquina

Condição para calibrar o costal

Vp
Antes

Verificação prévia

Êmbolos, válvulas e vedações íntegros, sem vazamento.

Rb
Durante

Ritmo de bombeamento

Constante, para manter a pressão estável na lança.

Vc
Durante

Velocidade de marcha

Constante; ritmo diferente do calibrado invalida a aferição.

Distribuição transversal

Coeficiente de variação da barra

Faixa de CVCondição típicaStatus
Abaixo de 7%Ponta nova, altura correta, pressão na faixaUniformidade ótima
7 a 15%Pequeno desvio de altura, pressão ou pontaAceitável
Acima de 15%Ponta desgastada ou altura incorretaReprovada (ISO 16122)
Antes de aplicar a lavoura inteira

Cinco minutos ou a safra

Achar a falha de cobertura com papel hidrossensível antes custa cinco minutos; achar depois pode custar a safra.
Um único problema reprova o item

IPP: itens qualitativos

Item avaliadoCritério de reprovação
VazamentosQualquer ponto de vazamento, em qualquer volume
Mangueiras danificadasQualquer fissura, trinca ou ressecamento
AntigotejadoresEscorrimento por qualquer ponta após o corte
Tipo de pontasQualquer ponta de modelo ou vazão diferente
ManômetroPressão de trabalho fora de 25% a 75% da escala
AgitadorResíduo no fundo após a pulverização
Item central da IPP quantitativa

Taxa real dentro da tolerância

FórmulaQ = vazão total × 600 ÷ (velocidade × largura)
Com os dados da lavoura10 × 600 ÷ (6 × 10)
Vazão total da barra: 10 L/minVelocidade: 6 km/hLargura útil: 10 mDesvio aceito: 5% (95 a 105 L/ha)
Resultado100L/ha
Limites numéricos objetivos

IPP: itens quantitativos

Item avaliadoCritério de conformidade
Estado das pontasDesvio máx./mín. até 10% da vazão nova
Taxa de aplicação realDesvio até 5% da taxa pretendida
Precisão do manômetroDiferença até 10% em ambas as escalas
Espaçamento entre pontasDesvio até 10% do espaçamento nominal
Uniformidade da barraCV até 15% (ISO 16122)
O ponto cego brasileiro

A inspeção que a lei ainda não exige

No Brasil não há obrigatoriedade legal de inspeção periódica; ela é responsabilidade da propriedade e do agrônomo que a assiste.
Resíduo mal removido causa fitotoxicidade

Limpeza do circuito em três lavagens

1
Primeira lavagem: água limpa, agitar e pulverizar na lavoura tratada
2
Segunda lavagem: solução alcalina com pH acima de 12, agitar 15 a 60 min
3
Enxágue final: água limpa, agitar 20 min, pH próximo ao da água de origem
Nenhum deles avisa durante a operação

Erros comuns de regulagem

ErroConsequência prática
Velocidade diferente da calibraçãoSubdose ou superdose proporcional
Pontas desgastadasSuperdose e perda de uniformidade
Altura de barra incorretaSubdepósito intercalado a superdepósito
Pressão fora da faixaGota errada, ângulo errado, CV elevado
Filtros parcialmente entupidosSubdose silenciosa, sem sinal
Manômetro imprecisoToda a regulagem baseada em pressão errada
Erros de regulagem

Filtros entupidos na prática

Exemplos de filtros de seção removidos durante a limpeza de pulverizadores automotrizes.
Exemplos de filtros de seção removidos durante a limpeza de pulverizadores automotrizes.
Fonte: TECNOLOGIA
Mais barata que a emergência

Manutenção preventiva em três níveis

Di
Antes de operar

Diária

Filtros, vazamentos, mangueiras e antigotejadores checados.

Pe
Uso intensivo

Periódica

Controle de vazão das pontas a partir de 50 horas de uso.

En
Entressafra

Preparo do ciclo

Limpeza profunda, troca de filtros e lubrificação completa.

Manutenção preventiva

Falhas por falta de manutenção

Sensor de pressão entupido e filtros de barra obstruídos por incompatibilidade da mistura de herbicidas.
Sensor de pressão entupido e filtros de barra obstruídos por incompatibilidade da mistura de herbicidas.
Fonte: Manual técnico para subsidiar a mistura em tanque de agrotóxicos e afins
Cerrado / MT

Janela estreita pede intervalo menor

Com carga alta de aplicações por safra, o intervalo entre calibrações precisa ser menor, não maior.
?
Retome a pergunta
Quais erros de regulagem mais comprometem a uniformidade de uma aplicação terrestre?
Responda agora com o que você viu na aula.
Encerramento
Regular decide o que a máquina deve fazer; calibrar prova, em campo, o que ela faz.