Unidade III · Aplicação Fitossanitária

Por que adicionar carga elétrica a uma gota pode resolver um problema que a regulagem convencional não resolve?

Aula 11. Pulverização Eletrostática e Tecnologias para Otimização da Pulverização
Prof. Dr. Anísio da Silva Nunes
Tecnologia de Aplicação de Produtos Fitossanitários
UNEMAT · Agronomia · Tangará da Serra
?
Ponto de partida
Que tecnologias permitem aplicar menos produto sem perder eficácia biológica?
Ao final desta aula, você será capaz de

Objetivos de aprendizagem

01

Explicar a física

Descrever o princípio da eletrostática e seu efeito sobre a deposição no alvo.

02

Avaliar a viabilidade

Julgar taxa variável e aplicação seletiva para um sistema produtivo específico.

03

Comparar tecnologias

Confrontar convencional e otimização quanto a insumo e impacto ambiental.

Ponto de partida

Nenhuma tecnologia é universal

Cada tecnologia resolve um problema específico; adotar sem o problema é desperdício de capital.
A linguagem da eletrostática

Três conceitos de base

DMV
O tamanho

Diâmetro Mediano Volumétrico

Divide o volume pulverizado em duas metades iguais de gotas.

Q/M
A carga

Relação carga/massa

Carga elétrica por massa de calda; quanto maior, maior a atração.

De
O efeito

Deposição eletrostática

Gota carregada atraída por carga de sinal contrário no alvo.

Conceitos de base

DMV e DMN no espectro de gotas

Estabelecimento dos parâmetros DMV e DMN dentro do espectro de gotas pulverizadas.
Estabelecimento dos parâmetros DMV e DMN dentro do espectro de gotas pulverizadas.
Fonte: Tecnologia de aplicação de pesticidas
Da ponta à folha

Como a gota carregada se fixa

1
Gotas de mesma carga se repelem e abrem melhor o jato
2
A nuvem carregada induz carga contrária na folha aterrada
3
A folha atrai as gotas de sinal oposto
4
A gota se fixa, inclusive na face abaxial
Força elétrica contra a gravidade

Gota menor, domínio elétrico maior

51×
força elétrica sobre a gravidade numa gota de 30 µm
14×
na gota de 100 µm
na gota de 300 µm
Estimar a cobertura

Quantas gotas chegam por cm²

FórmulaDensidade = (Taxa ÷ volume da gota) ÷ área foliar
Com os dados da lavoura(3 × 10¹⁶ ÷ 523.600) ÷ 6 × 10⁸
Taxa de aplicação: 30 L/ha = 3 × 10¹⁶ µm³/haVolume da gota de 100 µm: 0,5236 × 100³ = 523.600 µm³Número de gotas: 5,73 × 10¹⁰ por haÁrea foliar da soja: 60.000 m²/ha = 6 × 10⁸ cm²
Resultado95gotas/cm²
Como a gota recebe carga

Sistemas de carregamento

SistemaVoltagem típicaCalda energizadaUso comercial
Coronacerca de 70 kVNão, íons no arRestrito
Indução2 kV a 10 kVNãoPredominante
ContatoAlta tensãoSim, por conduçãoPouco comum
Corona exige gota muito fina (50 a 110 µm); contato exige isolamento rigoroso.
O peso decide a trajetória

Gota pequena contra gota grande

Gota de 30 µm

LeveTrajetória curvilíneaDeposita sob a folha

A atração elétrica vence o peso e a gota contorna a folha.

Gota de 200 µm

Peso 300× maiorTrajetória retaCai por gravidade

Mesmo carregada, o peso impede o desvio para a face inferior.

O que controla o carregamento

Fatores de carregamento e deposição

FatorEfeitoManejo
Umidade relativaAlta UR derruba a eletrificaçãoAplicar no período mais seco
Condutividade da caldaAbaixo de 10⁻⁴ mS/m a indução não funcionaMedir e ajustar com adjuvante
Tensão superficialDefine tamanho e carga máxima da gotaÁgua 72 mN/m; calda 30 a 73 mN/m
Condição da plantaDeposição cai sob estresse hídricoPreferir plantas túrgidas
Entre todos, a umidade relativa é o fator mais limitante.
O fator mais limitante

Umidade relativa estreita a janela

−50%
perda de eletrificação ao subir a UR de 10% para 96%
10⁻⁴
mS/m, limite mínimo de condutividade da calda
Manhã
orvalho e UR alta inviabilizam a técnica
Instrumento de campo

Medindo a umidade relativa

Termohigro-anemômetro Kestrel 3000, usado para medir as condições ambientais da aplicação.
Termohigro-anemômetro Kestrel 3000, usado para medir as condições ambientais da aplicação.
Fonte: Tecnologia de Aplicação de Defensivos
O que a eletrostática entrega

Vantagens da carga na gota

Ax
Alvos difíceis

Face abaxial e dossel

Gotas carregadas alcançam onde a gota neutra não chega.

Pe
Menos perda

Redução de escape

Mais produto no alvo abre espaço para reduzir a taxa.

Gf
Gota fina

Fina viável

A carga leva ao alvo a gota fina que derivaria sozinha.

Dois efeitos que se confundem

Deposição não é o mesmo que deriva

Ganho na deposição

ConsistenteAlvo próximoDocumentado

A atração age forte quando a gota já está perto do alvo.

Ganho na deriva

CondicionalNem sempre confirmadoVento comanda

No trajeto, quem carrega a gota é o vento, não a carga.

Deposição e penetração

Tamanho de gota no dossel

Comportamento de diferentes tamanhos de gota no dossel; faixa ideal de penetração entre 100 e 300 micra.
Comportamento de diferentes tamanhos de gota no dossel; faixa ideal de penetração entre 100 e 300 micra.
Fonte: AGRO nômico
Onde a técnica falha

Limitações da eletrostática

UR
Clima

Dependência de UR

Umidade alta inviabiliza a técnica em boa parte do dia.

Ap
Distribuição

Concentração apical

A carga fixa no topo e deixa a baixeira subprotegida.

At
Produto

Nem todo ativo

Funciona melhor com cobertura localizada que homogênea.

Qm
Ajuste

Complexidade da Q/M

Voltagem, vazão, distância e calda mudam ao longo do dia.

Como corrigir a concentração apical

Eletrostática sozinha ou com ar

Eletrostática isolada

Fixa no ápiceBaixeira fracaPerfil desigual

Boa na parte externa, insuficiente para a ferrugem de baixeira.

Com assistência de ar

Ar empurraCarga fixaEstratos cobertos

O ar leva a gota ao dossel e a carga a prende no alvo.

Como funciona a cortina de ar

Assistência de ar na barra

1
Ventilador axial gera grande volume de ar
2
O ar percorre um duto inflado acima das pontas
3
Sai por aberturas inferiores como cortina de ar
4
A cortina empurra as gotas para dentro do dossel
O ganho operacional mais imediato

Janela de vento ampliada

3 m/s
limite prático da pulverização hidráulica convencional
7 a 8 m/s
possível com assistência de ar
10 m/s
indicado por fabricantes com dupla turbina
Direção do jato e penetração

Angulação da barra

Vertical

Ponta a 0°

Bons depósitos no dossel com o ar ligado.

30°
A favor

Ponta a 30°

Aumenta depósitos em alvos verticais e na face inferior.

Off
Solo nu

Ar desligado

Sem barreira foliar, o ar causa escorrimento e perda.

Dado de campo documentado

Redução de dose com assistência de ar

Cultura / alvoResultado com arFonte
Beterraba50% da dose igualou 100% convencionalMay; Hilton, 1992
Cevada, planta invasora1/3 da dose a 100 L/ha igualou 200 L/ha convencionalAndersen et al., 2000
Ervilha, Botrytis sp.50% da dose superou 100% convencionalKnott, 1995
O ganho depende de alvo, cultura e regulagem.
Recorte Cerrado / MT

Quando ligar e quando desligar o ar

Desligar o ar

Solo nuSoja jovemDessecação

Sem dossel, o ar aumenta a perda por escorrimento.

Ligar o ar

Dossel fechadoFungicidaFerrugem

Com barreira foliar, o ar melhora penetração e baixeira.

Três termos que se confundem

Ar dentro, ar fora e carga

ConceitoO que éEfeito principal
Indução de arPonta que põe ar dentro da gotaGera gotas grossas, menos deriva
Assistência de arVentilador com cortina externa sobre a barraPenetração, gota fina e mais vento
Assistência eletrostáticaCarga elétrica aplicada às gotasMais deposição em alvo difícil
Indução de ar está na ponta; assistência de ar está no conjunto barra e ventilador.
O pulverizador que se ajusta

Sensores do controlador eletrônico

Fl
Vazão

Fluxômetro

Conta o fluxo por turbina ou por sensor eletromagnético.

Pr
Pressão

Transdutor de pressão

Divergência com o fluxômetro dispara alarme de falha.

Ve
Velocidade

Sensor de velocidade

Magnético no rodado ou por GNSS; contabiliza a área.

Direcionamento por satélite

Da barra de luz ao piloto automático

Barra de luz

ManualAcessívelOperador corrige

Versão mais simples do direcionamento por satélite.

Piloto e RTK

AutônomoCorreção RTKFaixas paralelas

Acurácia maior para pingente e culturas de porte, como o algodão.

O que refina o controle

Resposta, redundância e padrão

Tr
Resposta

Tempo de resposta

Válvula rápida em terreno plano, mais lenta em terreno acidentado.

Rd
Segurança

Redundância

Fluxômetro e pressão juntos detectam entupimento e vazamento.

Is
Comunicação

Padrão ISOBUS

Um terminal na cabine controla vários implementos.

O dilema da taxa variável

Como variar sem mudar a gota

Variar por pressão

Muda o DMVAltera a derivaLimite de 20%

Aumentar a pressão muda o tamanho de gota e a deposição.

PWM e injeção direta

DMV estávelBico a bicoDose desvinculada

O PWM modula a abertura; a injeção varia só o ativo.

Relação DMV x pressão

Pressão e tamanho de gota

DMV de gotas em relação à pressão de trabalho, segundo critérios da ASABE S572.1.
DMV de gotas em relação à pressão de trabalho, segundo critérios da ASABE S572.1.
Fonte: Tecnologia de aplicação de pesticidas
Aplicar só onde há alvo

Economia da aplicação localizada

67 a 82%
redução no herbicida específico, relatos no Cerrado
NDVI
índice que separa planta viva de resíduo e solo
Noturno
sensores ativos com luz própria operam à noite
Como o sensor enxerga o alvo

Do verde simples ao multiespectral

Vd
Simples

Só o verde

Lê qualquer verde, inclusive tinta; barato e limitado.

Ml
Avançado

Multiespectral

Calcula NDVI e NDRE e distingue planta viva de morta.

Cl
Cuidado

Calibração

Sensores sensíveis exigem calibração frequente.

Sensoriamento multiespectral

NDVI e NDRE após aplicação

Parcelas com e sem fungicida por drone, fotografadas com câmera multiespectral e índices NDVI/NDRE.
Parcelas com e sem fungicida por drone, fotografadas com câmera multiespectral e índices NDVI/NDRE.
Fonte: Documentos
Catação química

VAPT e APS

VAPT

Veículo dedicadoAté 28 km/hSensor em tempo real

Percorre a cana sem dano e trata até 7 linhas por passada.

APS

Pré-selecionadaImagem de satéliteReboleiras mapeadas

Aplicação pré-selecionada por imagem de satélite ou VANT.

O drone como plataforma aérea

Parâmetros operacionais do drone

ParâmetroFaixa usual
Velocidade de voo4 a 7 m/s
Altura sobre a copa3 a 6 m
Faixa de aplicação6 a 10 m
Tamanho de gota60 a 400 µm
Taxa de aplicação5 a 15 L/ha
A faixa de deposição varia com modelo, altura e classe de gota.
Comparação de tecnologias

Depósito por altura da planta

Depósito de calda em folhas de três alturas da soja, comparando diferentes tecnologias de aplicação.
Depósito de calda em folhas de três alturas da soja, comparando diferentes tecnologias de aplicação.
Fonte: Documentos
A maior limitação do drone

Energia limita a autonomia

1 ha
alcance aproximado por voo
30 kg
calda nos maiores multirrotores
48 kg
peso de decolagem que exige piloto ANAC
O que o drone evita

Vantagens da plataforma aérea

Sc
Solo

Sem compactação

Não roda sobre a lavoura nem adensa o solo.

Am
Cultura

Sem amassamento

Elimina a perda por rodas do terrestre.

Rt
Registro

Rastreabilidade

Data, coordenadas e mapa de cada aplicação.

Op
Saúde

Remove o aplicador

Tira o operador da área tratada.

A perda que o drone evita

Amassamento por rodas

2 a 7%
perda por amassamento em soja
4,8%
perda em arroz irrigado
0%
amassamento na aplicação aérea
Deposição e eficácia comparadas

O que a pesquisa mostra

Ca
Café

Embrapa

Drone reduziu cerca de 5 vezes a perda fora do alvo ante o avião.

So
Soja

Ferrugem

Drone igualou o terrestre no controle em epidemia leve.

Ds
Dessecação

Cobertura

5 a 25 L/ha deram dessecação satisfatória com glifosato.

Panorama do setor

Uso do drone por cultura

Porcentagem de uso de drones agrícolas por cultura, entre 40 empresas prestadoras de serviço.
Porcentagem de uso de drones agrícolas por cultura, entre 40 empresas prestadoras de serviço.
Fonte: Documentos
Duas classificações divergentes

Classes de taxa de aplicação

ClasseASABE 2007, L/haMatthews 2000, L/ha
Ultra baixo volume0,5 a 5menor que 5
Muito baixo volumenão se aplica5 a 50
Baixo volume5 a 5050 a 200
Médio volume50 a 500200 a 600
Alto volumemaior que 500maior que 600
Mesmo nome, faixas diferentes; sempre citar o autor e o número em L/ha.
O erro mais repetido

A bula prevalece sobre a generalização

Reduzir a taxa abaixo da faixa da bula alegando ganho operacional é negligência técnica.
Reduzir a taxa não dobra a área

O mito do ganho operacional

FórmulaÁrea por tanque (ha) = volume do tanque (L) ÷ taxa (L/ha)
Com os dados da lavoura2.500 ÷ 100 = 25 ha contra 2.500 ÷ 50 = 50 ha
Volume do tanque: 2.500 LA 100 L/ha: 25 ha por tanqueA 50 L/ha: 50 ha por tanquePreparo e manobra não caem na mesma proporção
Resultado+28%na capacidade de campo, não +100%
Não existe tecnologia universal

Comparação entre as tecnologias

TecnologiaDependência de URRedução de insumoCusto
ConvencionalModeradaNãoBaixo
EletrostáticaCríticaCondicionalAlto
Assistência de arBaixaDocumentadaModerado
Taxa variável, VRAModeradaCom mapa de prescriçãoModerado a alto
DroneModeradaCalda concentradaR$ 60 a 200 mil
A convencional segue como referência: simples, confiável e barata.
Escolher pelo problema dominante

Árvore de decisão da tecnologia

1
Vento acima de 3 m/s: assistência de ar
2
Dossel denso com UR controlável: eletrostática com ar
3
Variabilidade no talhão: taxa variável ou sensores
4
Área pequena ou solo frágil: drone como complemento
5
Sem esses gargalos: convencional bem calibrado
O critério que unifica a decisão

Custo por hectare contra o ganho

Nenhuma tecnologia se paga fora do problema que ela resolve; dimensione lavoura por lavoura.
?
Retome a pergunta
Que tecnologias permitem aplicar menos produto sem perder eficácia biológica?
Responda agora com o que você viu na aula.
Encerramento
Menos produto com a mesma eficácia exige a tecnologia certa para o gargalo certo, não a mais moderna.