Gabarito comentado, Aula 04: Deriva na Aplicação de Produtos Fitossanitários¶
Tip
Confira depois de tentar resolver. O Bloco A não tem gabarito aqui: será discutido em sala. Se errou, releia o comentário e volte ao texto de apoio no ponto indicado, entender por que a resposta é essa vale mais que acertar.
Bloco B¶
B1: (C) Deriva de vapor. A combinação gota grossa mais vento calmo praticamente exclui a deriva física no momento da aplicação, e o sintoma tardio (três dias depois) aponta para a volatilização do produto já depositado na folha: deriva de vapor, típica de herbicida auxínico em formulação éster, agravada pela temperatura e de baixo controle pelo aplicador (depende da formulação).
As alternativas (A) e (D) descrevem deriva de partículas e exoderiva física, que exigiriam gota fina e vento no ato da pulverização; (B) confunde com a endoderiva, que é perda dentro da própria área tratada.
B2: (B) Não recomendada. 2,5 km/h corresponde à força 1 (quase calmo) na escala Beaufort: vento fraco demais não dispersa a névoa e sinaliza risco de inversão térmica. A condição ideal é de 3,2 a 6,5 km/h (força 2, brisa leve que move as folhas), o que elimina (A).
A alternativa (C) inverte a situação: 2,5 km/h está muito abaixo, não acima, de qualquer limite de ponta.
A (D) confunde com a faixa de 6,5 a 9,6 km/h (força 3), na qual se evitam herbicidas.
B3: Resposta esperada.
Vento nulo não é segurança, é alto risco, por dois fenômenos sutis.
Inversão térmica: ar frio e denso perto do solo preso sob ar mais quente; gotas finas e muito finas não descem, dissipam-se lateralmente e podem percorrer quilômetros carregadas por brisa suave até um alvo sensível. É frequente em manhãs frias de céu limpo, ao entardecer e de madrugada. Identifica-se pela fumaça: se sobe e se dispersa, condição normal; se se inclina em camada horizontal definida, há inversão e a aplicação com gota fina para na hora (um vento de só 3 km/h já quebra a estratificação).
Corrente convectiva ascendente: nas tardes muito quentes, o solo aquecido cria bolsões de ar quente que sobem e levam a gota para cima e para longe do alvo, praticamente invisíveis sem vento. Por isso calor intenso mais vento zero é condição proibida para gota fina.
B4: Resposta esperada.
O ΔT mede o quanto o ar está seco e faminto por água: quanto maior, mais rápido a gota perde massa e encolhe. Ao meio-dia, com 33 °C e 40% de umidade, o ΔT alto faz a gota fina evaporar antes de chegar à folha: parte do produto some no ar como partícula seca e vira deriva, e o alvo recebe menos do que deveria.
Aumentar a gota reduziria a cobertura de que o produto precisa; então a saída não é forçar a aplicação fora da janela. A conduta correta é esperar o horário em que as condições permitem (tipicamente fim de tarde, início da noite ou primeiras horas da manhã, sem inversão térmica nem orvalho), mesmo que isso comprima a operação num intervalo estreito e exija dimensionar a frota para ele.
B5: (A). A deriva causada pelo vento não isenta o aplicador: se a condição climática tornava a aplicação inadequada ou a faixa de segurança foi ignorada, a responsabilidade recai sobre quem decidiu aplicar, inclusive o responsável técnico que assinou a Ordem de Serviço (Lei 14.785/2023, art. 49: responsabilidade solidária; art. 50: por esfera de atuação).
A (B) invoca um "caso fortuito" que o texto expressamente afasta; a (C) transfere indevidamente a responsabilidade ao fabricante; a (D) ignora que a responsabilidade alcança o RT, não é exclusiva do usuário.
B6: Resposta esperada.
Três ordens de problema:
(1) Perda de eficácia: parte do produto não chega ao alvo, reduz a dose efetiva, desperdiça insumo e, pela subdosagem repetida, favorece a seleção de biótipos resistentes.
(2) Dano a áreas não alvo: fitotoxicidade na soja vizinha sensível, contaminação do córrego, exposição de polinizadores, fauna e pessoas, além de resíduo em colheita de propriedade que nunca recebeu o produto, com risco de não conformidade em certificação e rastreabilidade.
(3) Contaminação ambiental difusa: o produto carregado atinge corpo d'água superficial e área de proteção ambiental, biodegradando em condição diferente da prevista nos estudos de registro.
Referência: o caso do dicamba (EUA, 2016-2018), com cerca de 1,4 milhão de hectares de soja sensível prejudicados em 2017 e 1/250.000 da dose de bula já bastando para causar sintoma; o risco cresce com a atividade biológica do produto e com a presença de cultivo sensível no entorno.
Bloco C¶
C1: Resolução (4 casas decimais).
Tempo de vida: t = d² / (80 × ΔT), com ΔT = 6,0, portanto denominador = 80 × 6,0 = 480.
Gota de 100 µm: t = 100² / 480 = 10.000 / 480 = 20,8333 s.
Gota de 200 µm: t = 200² / 480 = 40.000 / 480 = 83,3333 s.
Razão: 83,3333 / 20,8333 = 4,0000.
Comentário: o tempo de vida cresce com o quadrado do diâmetro: dobrar o diâmetro (100 para 200 µm) quadruplica o tempo disponível para a gota atingir o alvo antes de evaporar. A gota maior sobrevive muito mais e tem chance de se depositar; a menor evapora depressa, encolhe e vira deriva. Como o ΔT está no denominador, ele funciona como multiplicador do efeito do tamanho de gota: dobrar o ΔT reduziria o tempo à metade.
C2: Diagnóstico esperado.
Parâmetro a parâmetro, alguns "passam": bulbo seco 34 °C ainda está abaixo do teto absoluto de 36 °C, e a cultura sensível a 40 m fica acima da faixa mínima de referência de 30 m.
Cruzando os parâmetros, porém, acumulam-se condições que impedem a aplicação:
(1) vento abaixo de 3 km/h ao meio-dia, com sol forte e solo aquecido, é a assinatura da corrente convectiva ascendente, invisível mas capaz de roubar a gota do alvo;
(2) ΔT aproximadamente 9 °C está na faixa marginal a inadequada, e para gota fina o limite é ainda mais restritivo: a ponta leque convencional produz gota média a fina, com vento máximo recomendado de apenas 6 km/h e alto potencial de deriva;
(3) calor intenso mais vento zero é condição proibida para gota fina.
Conduta: não aplicar agora. Aguardar a janela de fim de tarde, início da noite ou primeiras horas da manhã, com brisa leve constante (3,2 a 6,5 km/h), umidade acima de aproximadamente 55% e temperatura abaixo de 30 °C, sem inversão térmica nem orvalho, e monitorar continuamente, porque a condição muda ao longo do dia sem aviso visual.