Adjuvantes de Pulverização¶
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A pulverização é, na prática, um problema de interface.
O produto sai da ponta de pulverização como solução aquosa, percorre o ar e precisa se depositar e permanecer sobre superfícies que, na maioria dos alvos agronômicos do Cerrado, são recobertas de cera, repelentes à água e nada preparadas biologicamente para receber o ingrediente ativo.
Entre a formulação e o efeito esperado existem barreiras físicas e fisiológicas que a simples mistura de água e produto raramente supera sozinha.
É aí que o adjuvante entra: ele não age sobre a praga, o patógeno ou a planta daninha, mas decide se o ingrediente ativo vai ter a chance de agir.
O mercado responde a essa lógica com números que não deixam dúvida sobre a relevância comercial do tema.
A comercialização de adjuvantes no Brasil gira em torno de US$ 270 a 280 milhões por ano, cerca de 3% do volume nacional de produtos fitossanitários, com óleos minerais e vegetais na liderança das vendas, algo perto de US$ 170 milhões.
No plano mundial, adjuvantes representam de 4 a 5% do mercado total de fitossanitários, e o Brasil responde por 17% do volume comercializado globalmente e 65% do comercializado na América Latina.
Não é surpresa: a maioria dos fungicidas e inseticidas registrados para a sojicultura do Mato Grosso já traz recomendação explícita de óleo na bula.
Um adjuvante típico custa de 1% a 3% do preço do herbicida que acompanha, e há registro de cerca de dois dólares de adjuvante sustentando reduções de 20% a 50% no uso do produto, sem perda de controle.
A decisão de usar ou não um adjuvante, e qual deles, raramente é trivial, e quando bem feita paga por si.
Conceito e posição no sistema de aplicação¶
Adjuvante é qualquer substância que melhora o processo de aplicação sem ser, ela própria, o ingrediente ativo.
Adjuvante
Substância incorporada à formulação do produto fitossanitário pelo fabricante, ou adicionada pelo operador à calda de pulverização no tanque, com o propósito de melhorar a atividade do ingrediente ativo sobre o alvo biológico ou modificar propriedades físico-químicas da calda e do processo de aplicação, sem exercer por si ação fitossanitária direta.
A definição legal brasileira mudou de rumo mais de uma vez.
O Decreto 98.816/1990 definia adjuvante como a substância usada para imprimir as características desejadas às formulações.
O Decreto 4.074/2002 reformulou o conceito para produto utilizado em mistura com produtos formulados para melhorar sua aplicação, e com isso adjuvante deixou de ser oficialmente agrotóxico: não é afim, não é componente.
A ASTM, nos Estados Unidos, tem uma definição mais operacional, que prefiro por ser mais fácil de aplicar em campo: material adicionado a uma mistura em tanque para auxiliar ou modificar a ação de um produto fitossanitário, ou as características físicas da mistura.
O mercado costuma confundir aditivo com adjuvante, e a diferença real entre os dois é só o momento de adição.
O aditivo é incorporado na fábrica, como componente da formulação, e por isso também é chamado de adjuvante interno.
O que o operador acrescenta ao tanque é o adjuvante externo.
As funções se sobrepõem, os produtos comerciais podem até ser idênticos, mas a nomenclatura legal separa os dois.
Essa distinção tem consequência prática direta: um surfatante presente numa formulação de concentrado emulsionável já cumpre parte da função de espalhamento, e somar outro surfatante ao tanque sem calcular esse efeito cumulativo pode ser redundante ou, em casos piores, incompatível.
Adjuvante interno ≠ adjuvante externo
Interno: incorporado à formulação na fábrica, presença e dose fora do controle do operador. Externo: adicionado à calda no tanque pelo operador, escolha e dose são decisão de campo. Consequência: antes de avaliar a necessidade de um adjuvante externo, é preciso considerar o que a formulação já contém.
O adjuvante intervém em etapas específicas do sistema de aplicação, e saber em qual etapa cada classe atua evita recomendação genérica.
No preparo da calda, agem compatibilizantes, dispersantes, antiespumantes e condicionadores de pH.
Na formação da gota, na própria ponta de pulverização, atuam redutores de deriva e polímeros viscosificantes.
No transporte pelo ar, entre a ponta e o alvo, agem redutores de deriva e antievaporantes.
No impacto e na deposição sobre a folha, entram surfatantes, óleos, adesivos e agentes de deposição.
Na penetração pela cutícula, atuam surfatantes penetrantes, óleos e adjuvantes aminados.
E na persistência do depósito depois de formado, contra chuva, degradação por UV e reativação por orvalho, agem adesivos, protetores UV e umectantes.
Os três eixos de classificação¶
Um adjuvante pode ser descrito por três lentes diferentes, e o agrônomo que domina só uma delas escolhe mal.
A literatura técnica classifica adjuvante de três formas que não competem entre si, elas se complementam: o grande grupo, que descreve o propósito geral; a classe funcional, que descreve o que o adjuvante faz na prática; e a base química, que descreve o que o adjuvante é.
Conhecer apenas um desses eixos costuma levar a escolha equivocada, porque dois produtos com a mesma função podem ter custo e risco de fitotoxicidade completamente diferentes dependendo da química que carregam.
Eixo 1: grande grupo¶
A divisão mais aceita internacionalmente separa os adjuvantes em dois grandes grupos.
Os ativadores, também chamados de bioativadores ou biomelhoradores, melhoram diretamente a atividade do ingrediente ativo, aumentando absorção, espalhamento e penetração: surfatantes, óleos e adjuvantes aminados entram aqui.
Os utilitários facilitam o processo de aplicação sem interferir diretamente na eficácia biológica, embora possam contribuir de forma indireta: condicionadores de calda, redutores de deriva, antiespumantes, dispersantes, protetores UV, compatibilizantes e corantes formam esse grupo.
A separação não é rígida, e é bom desconfiar de quem trata como se fosse.
Um óleo vegetal atua ao mesmo tempo como penetrante (ativador) e como redutor de deriva e antievaporante (utilitário).
Essa sobreposição de funções é a regra no mercado comercial de adjuvantes, não a exceção.
Eixo 2: classificação funcional¶
A classe funcional descreve o problema específico que o adjuvante resolve no processo de aplicação.
| Classe funcional | Função na calda ou no processo | Quando recomendar |
|---|---|---|
| Surfatantes (tensoativos) | Molhamento dos alvos, dispersão de partículas, emulsificação, solubilização, estabilidade da mistura | Folhas cerosas ou pilosas de difícil molhamento, maior superfície foliar a cobrir, necessidade de emulsificação |
| Adesivos (óleos, derivados de látex) | Formação de filme na superfície alvo, resistência à lavagem pela chuva | Risco de chuva no intervalo pós-aplicação, fungicidas de contato |
| Penetrantes (óleos e surfatantes específicos) | Solubilização das ceras cuticulares, maior absorção foliar | Fungicidas sistêmicos, herbicidas pós-emergentes, insetos com tegumento ceroso |
| Umectantes (poliglicol, glicerol, sorbitol) | Redução da taxa de evaporação da gota depositada, reidratação de depósitos secos | Alta temperatura e baixa umidade relativa, produtos de absorção lenta |
| Condicionadores de calda (acidificantes, tamponantes, sequestrantes) | Correção e estabilização do pH e inativação de cátions da água de diluição | Água fora da faixa ideal de pH ou dureza, diagnóstico detalhado no tema de calda fitossanitária |
| Redutores de deriva (goma xantana, poliacrilamida) | Aumento do DMV e redução do percentual de gotas menores que 100 µm | Proximidade de culturas sensíveis, vento acima de 10 km/h, aplicações em baixo volume |
| Antiespumantes (organossilicones) | Prevenção ou eliminação de espuma no tanque | Misturas com formulações que espumam, agitação mecânica intensa |
| Protetores UV (polímeros com filtro UV) | Proteção contra fotodegradação do ingrediente ativo | Produtos fotolábeis aplicados sob alta radiação solar |
| Agentes de deposição | Redução de gotas muito finas, redução de evaporação, maior retenção sobre o alvo | Aplicações com alta taxa de evaporação e deriva simultâneas |
| Adjuvantes aminados (sulfato de amônio, ureia) | Bioativação da absorção, melhora da penetração de herbicidas pós-emergentes | Caldas com glifosato, situações de resistência cuticular aumentada |
| Corantes | Identificação visual da área tratada, controle de sobreposição e falhas | Treinamento de operadores, aplicações localizadas, lavouras com histórico de falha de cobertura |
| Multifuncionais | Combinam duas ou mais funções num único produto comercial | Situações complexas de calda, herbicidas com múltiplas exigências |
Eixo 3: base química¶
O eixo químico completa o quadro porque a mesma função, espalhamento, por exemplo, pode ser obtida por compostos de natureza muito distinta, com custo, risco de fitotoxicidade e compatibilidade diferentes entre si.
| Base química | Característica principal | Vantagem | Limitação |
|---|---|---|---|
| Surfatantes (tensoativos anfipáticos) | Reduzem tensão superficial, versáteis | Ampla compatibilidade quando não iônicos, múltiplas funções | Risco de incompatibilidade iônica, formação de espuma |
| Óleos minerais (hidrocarbonetos, cadeia C18 a C30) | Alta lipofilia, excelente penetrante e adesivo | Alta performance, maior eficiência sobre a cutícula | Maior risco de fitotoxicidade, custo mais alto |
| Óleos vegetais (ésteres de ácidos graxos, C16 a C18) | Biodegradáveis, boa penetração | Menor fitotoxicidade, custo mais baixo no Brasil (óleo de soja) | Menor eficiência cuticular que os minerais |
| Organossiliconados (trisiloxano, polidimetilsiloxano) | Superespalhamento, tensão superficial abaixo de 25 mN/m | Doses muito baixas, espalhamento extremo | Custo elevado, pode agravar a deriva |
| Nitrogenados (sulfato de amônio, ureia) | Bioativação da absorção, interação com o ingrediente ativo | Sinergia documentada com glifosato | Específicos, risco de volatilidade em mistura com dicamba |
| Poliméricos (poliacrilamida, goma xantana) | Aumento de viscosidade, redução de gotas finas | Redução de deriva entre 30% e 68% em ensaios documentados | Degradação por bombeamento excessivo |
Uso pouco esse tipo de afirmação categórica, mas aqui vale: quem escolhe adjuvante só pelo eixo funcional, sem checar o eixo químico, é o profissional que recomenda "um espalhante" sem saber se está indicando um organossilicone de alto desempenho e alto custo ou um tensoativo convencional bem mais barato para o mesmo efeito prático.
Mecanismos de ação: tensão superficial, espalhamento e retenção foliar¶
O adjuvante age sobre a física da gota, não sobre a biologia do alvo, e é essa a distinção que explica todo o resto.
O mecanismo central é a redução da tensão superficial, a propriedade que faz a superfície de um líquido se comportar como uma membrana elástica que minimiza sua própria área.
A água pura tem tensão superficial de aproximadamente 72 mN/m, valor alto o bastante para que a gota chegue à folha praticamente esférica, com pouca área de contato real com o tecido vegetal.
O adjuvante reduz esse valor e permite que a gota se achate ao atingir a superfície foliar, ganhando área de contato com o alvo e melhorando a cobertura.
A mesma redução de tensão superficial diminui o ângulo de contato entre a gota e a folha: quanto menor esse ângulo, mais a gota se espalha em vez de escorregar ou permanecer esférica.
Os surfatantes são compostos orgânicos anfipáticos, com uma porção hidrofílica (a cabeça, com afinidade pela água) e uma porção lipofílica (a cauda, com afinidade por óleo).
Essa arquitetura permite ao surfatante se posicionar nas interfaces entre substâncias de naturezas opostas, alterando as forças de superfície.
Além de estarem presentes nas misturas de tanque, surfatantes compõem a maioria das formulações comerciais: um concentrado emulsionável sem surfatante emulsificante não forma emulsão estável em água.
A classificação por ionização é a mais relevante para prever compatibilidade com o ingrediente ativo.
Surfatantes aniônicos (carga negativa, como o lauril sulfato sódico e os lignossulfonatos) são incompatíveis com o paraquat, que se ioniza positivamente.
Surfatantes catiônicos (sais de amônio quaternário) são incompatíveis com o glifosato, que se ioniza negativamente.
Surfatantes não iônicos (alquilfenol etoxilado, álcool etoxilado, organossilicones) são a classe mais segura para misturas de tanque, com menor risco de incompatibilidade iônica, e por isso predominam na formulação de adjuvantes agrícolas.
Surfatantes anfotéricos (betaínas, imidazolinas) têm carga que varia conforme o pH da solução, e por isso funcionam bem como compatibilizantes de mistura.
Nota técnica
O nonilfenol etoxilado, não iônico e muito eficaz como espalhante e molhante, está sendo descontinuado em vários países por suspeita de disrupção endócrina. Produtos que o listam como componente merecem atenção na renovação de registro.
O parâmetro HLB (Hydrophilic-Lipophilic Balance) orienta a escolha do surfatante conforme a função desejada.
| Faixa de HLB | Função indicada |
|---|---|
| 1,5 a 3,0 | Antiespumante |
| 3,0 a 8,0 | Emulsão de água em óleo |
| 7,0 a 9,0 | Agente umectante |
| 8,0 a 18,0 | Emulsão de óleo em água |
| 12,0 a 18,0 | Co-solvente |
| 13,0 a 15,0 | Detergente |
Dentro da classe surfatante existem cinco subclasses que se confundem na prática e que valem a pena separar com clareza.
Os molhantes reduzem o ângulo de contato e impedem a repulsão da água pela cera foliar, formando um filme sobre a superfície.
Os espalhantes promovem o espalhamento completo da gota além do diâmetro inicial de contato, e costumam ser os adjuvantes mais caros do mercado por incorporarem óleos metilados e compostos organossiliconados; o composto de destaque é o trisiloxano, capaz de fazer a gota se espalhar de 2 a 3 vezes o diâmetro inicial, com propriedade antiespumante adicional.
Os organossilicones têm ainda uma via de penetração exclusiva: reduzem a tensão superficial da calda o bastante para permitir infiltração estomática direta, fluxo de massa da solução pelo poro aberto do estômato, mecanismo distinto da penetração cuticular convencional.
Os aderentes aumentam a aderência e a retenção do depósito, resistindo à lavagem por chuva, formando filme ou modificando a cera cuticular.
Os emulsificantes permitem a mistura estável de líquidos imiscíveis, reduzindo a tensão interfacial entre óleo e água.
E os dispersantes impedem a aglomeração e a sedimentação de partículas sólidas em suspensão, reduzindo as forças de coesão do meio, sendo particularmente relevantes em formulações de pó molhável.
Uma distinção que a literatura trata como sinônima, mas que não é: molhante e umectante atacam problemas diferentes.
O molhante reduz a tensão superficial e o ângulo de contato no momento da deposição, vencendo a repulsão da cera.
O umectante atua depois, retardando a evaporação do depósito já formado.
Um resolve o contato, o outro resolve a permanência.
Um produto absorvido pela planta atravessa três barreiras entre a superfície foliar e o citoplasma: cutícula, parede celular e plasmalema.
A cutícula tem transição gradual de polaridade, da cera epicuticular externa e apolar até a celulose interna e polar, passando pela cutina e pela pectina, esta última com carga negativa.
Essa carga negativa soma um obstáculo extra ao glifosato, que por ser ânion enfrenta tanto a barreira apolar externa quanto a repulsão elétrica da pectina interna.
Óleos vegetais e minerais dissolvem as gorduras da cutícula e das membranas celulares, eliminando barreiras à absorção.
Óleos minerais têm cadeia parafínica de 18 a 30 carbonos, maior que a dos vegetais (16 a 18 carbonos), o que os torna mais efetivos na dissolução de barreiras apolares, mas também mais fitotóxicos, por isso recomendados em dose de 0,5% a 2,0%.
No Brasil, o óleo de soja refinado domina o uso como aditivo de penetração pelo baixo custo e pela disponibilidade.
A ureia atua como fonte de nitrogênio e como potente ativador de penetração, com efeito sinérgico documentado em muitos herbicidas.
O sulfato de amônio eleva a eficácia e a consistência do glifosato contra espécies difíceis de controlar, e facilita tanto a penetração foliar do herbicida quanto a penetração radicular de resíduos que atingem o solo.
Dois métodos de bancada avaliam essa performance antes do produto chegar ao campo.
O tensiômetro de Du Nouy mede a tensão superficial pela força necessária para separar um anel de platina da superfície do líquido, segundo a fórmula γ = F / (4πR), onde γ é a tensão superficial, F é a força medida e R é o raio do anel.
Um estudo com esse método mostrou que a mistura de glifosato com um adjuvante organossiliconado produziu a menor tensão superficial entre as combinações testadas, e também o melhor desempenho de resistência a uma chuva artificial simulada 60 minutos após a aplicação, contra o pior desempenho do glifosato aplicado sem adjuvante algum.
O goniômetro mede o ângulo de contato da gota sobre a superfície: deposita-se a gota, captura-se a imagem por câmera e mede-se o ângulo entre a tangente à interface gota-superfície e a superfície.
Organossiliconados produzem consistentemente os menores ângulos de contato, confirmando sua posição como a classe de maior capacidade de espalhamento, mas o resultado depende também da superfície foliar: tricomas e textura cerosa aumentam o ângulo mesmo com adjuvante de alta atividade.
Efeito sobre o tamanho e a estabilidade da gota¶
O mesmo adjuvante pode reduzir ou aumentar o risco de deriva dependendo da ponta de pulverização, da modalidade de aplicação e da dose usada.
O espectro de gotas de uma pulverização é descrito por três diâmetros volumétricos acumulados, chamados DV0,1, DV0,5 e DV0,9.
O DV0,5 é o próprio DMV (diâmetro mediano volumétrico), que divide o volume pulverizado em duas metades iguais.
O DMN (diâmetro mediano numérico) divide o número de gotas, não o volume, e a relação entre os dois indica a homogeneidade do espectro: quanto mais próxima de 1, mais uniforme o tamanho de gota produzido.
O efeito de um adjuvante sobre esse espectro não é linear nem uniforme, e varia conforme o tipo de ponta de pulverização e a modalidade de aplicação.
| Adjuvante | Efeito sobre o DMV (aplicação terrestre) | Efeito sobre % de gotas menores que 100 µm | Impacto sobre a deriva |
|---|---|---|---|
| Surfatante não iônico em alta concentração | Variável, pode reduzir | Pode aumentar | Pode agravar a deriva |
| Óleo vegetal ou mineral em emulsão | Aumenta, em geral | Reduz | Reduz a deriva |
| Redutor de deriva (polímero) | Aumenta | Reduz entre 30% e 68% | Reduz a deriva |
| Organossiliconado | Reduz, efeito superespalhante | Pode aumentar | Pode agravar a deriva |
Em aplicações terrestres, óleos em emulsão costumam aumentar o DMV e reduzir a fração de gotas muito finas, funcionando como redutor de deriva em quantidades reduzidas.
Só que gotas finas com grande quantidade de óleo tendem a ser mais leves que as de água pura, por causa da densidade menor do óleo, e ficam mais propensas a se deslocar por longas distâncias, o que pode aumentar a deriva em vez de reduzi-la.
Um exemplo documentado ilustra essa interação com a ponta: éster metilado de óleo de soja pulverizado com ponta de jato plano sem indução de ar, a menor pressão, produziu mais deriva que a mesma calda pulverizada com ponta de indução de ar a pressão mais alta, o que reforça que a seleção do adjuvante nunca deve ser feita isolada da ponta que vai aplicá-lo.
Em aplicações aéreas o comportamento costuma se inverter: a emulsão de óleo pode reduzir o DMV e aumentar o risco de deriva, e a recomendação do fabricante do fitossanitário para a modalidade específica de aplicação precisa prevalecer sobre a regra geral válida para terra.
Um dado que contraria a intuição de quem pensa que óleo, por ser mais viscoso, sempre gera gota maior: num estudo com um modelo específico de ponta de jato plano de impacto, calda com surfatante produziu DMV maior que calda com óleo mineral ou vegetal, porque nesse desenho específico o DMV é inversamente relacionado à viscosidade do líquido.
Líquidos mais viscosos escoam mais devagar sobre o defletor da ponta, gerando maior diferença de velocidade entre a gota e o vento relativo, o que produz mais cisalhamento e gotas menores.
Não generalizo esse achado para qualquer ponta de pulverização, mas ele mostra bem que a relação entre adjuvante e tamanho de gota depende do desenho do sistema de fragmentação, não é propriedade fixa do produto isolado.
Redutores de deriva à base de polímero carregam um risco operacional próprio: podem sofrer degradação mecânica por bombeamento excessivo em pulverizadores com sistema de agitação contínua, perdendo a eficácia como redutor de deriva de forma reversível ou não.
Gomas naturais são menos suscetíveis a essa degradação por cisalhamento do que polímeros sintéticos.
E vale registrar, para quem trata redutor de deriva como atalho: a seleção correta do tipo e do tamanho da ponta de pulverização continua sendo o método mais confiável para controlar o tamanho de gota, e usar redutor de deriva como substituto da escolha correta da ponta é tecnicamente inadequado.
Critérios técnicos de escolha conforme o alvo biológico e o produto¶
A pergunta certa nunca é qual o melhor adjuvante, é qual problema específico esta aplicação precisa resolver.
O mesmo adjuvante pode ser benéfico ou prejudicial conforme a combinação.
Em um estudo, alguns adjuvantes aumentaram em quase quatro vezes a absorção do fungicida azoxistrobina nas culturas de cebola e batata, em comparação com a aplicação apenas com água, enquanto outros adjuvantes, nas mesmas culturas, causaram redução de produtividade por fitotoxicidade.
A eficácia depende da interação entre produto, adjuvante e cultura, não é propriedade fixa do adjuvante isolado, e por isso o diagnóstico precede a escolha.
Esse diagnóstico exige olhar quatro dimensões independentes.
| Dimensão | Perguntas-chave | Adjuvante indicado |
|---|---|---|
| Produto fitossanitário | O produto já contém surfatante na formulação? A bula recomenda ou proíbe adjuvante? O ingrediente ativo é fotolábil? É de contato ou sistêmico? | Verificar a formulação antes de adicionar qualquer adjuvante externo |
| Alvo biológico | O alvo tem cutícula cerosa, pubescente, hidrofóbica? O produto é de contato ou sistêmico? O alvo está em posição de difícil acesso? | Superfície difícil pede espalhante ou penetrante, sistêmico aceita gota maior, contato exige cobertura máxima |
| Condições ambientais | Qual a umidade relativa e a temperatura no momento da aplicação? Há risco de chuva nas próximas horas? Qual a velocidade do vento? | Alta temperatura e baixa umidade pedem umectante, risco de chuva pede adesivo ou penetrante, vento pede redutor de deriva |
| Água de diluição | Qual o pH da fonte? Qual a dureza? Há ferro na água, em tanques de aço? | Fora da faixa ideal de pH, acidificante ou tamponante; água dura, sequestrante; presença de ferro, quelatizante |
A verificação de compatibilidade não termina na escolha da classe certa.
Alguns pares de adjuvante e produto são conhecidamente incompatíveis, e vale a pena ter essa lista sempre à mão antes de fechar uma recomendação.
| Adjuvante | Incompatível com | Consequência |
|---|---|---|
| Surfatante catiônico | Glifosato (ionização negativa) | Precipitação, perda de eficácia do herbicida |
| Surfatante aniônico | Paraquat (ionização positiva) | Precipitação, perda de eficácia do herbicida |
| Adjuvante aminado (sulfato de amônio) | Dicamba | Aumento da volatilidade do dicamba, risco de deriva por volatilização para culturas vizinhas |
| Óleo mineral ou vegetal sem emulsificante | Caldas aquosas sem surfatante emulsificante | Separação de fases, calda instável |
| Redutor de deriva (polímero) | Bombeamento excessivo e agitação prolongada | Degradação do polímero, perda da função redutora de deriva |
A distinção entre adjuvante interno e externo, já registrada na abertura deste texto, volta aqui como critério prático: se a formulação já resolve o problema diagnosticado, não há motivo técnico para adicionar mais nada ao tanque.
Quadro de decisão: quando NÃO usar adjuvante externo
A bula não recomenda ou proíbe adjuvante para a situação de uso. A formulação já contém surfatante emulsificante adequado, com emulsão estável. O alvo tem cutícula fina, caso de folhas jovens e plântulas, o que reduz o risco de fitotoxicidade. Não há problema identificado de pH, dureza ou qualidade da água. O produto é sistêmico e sua absorção não depende de penetração cuticular reforçada. Exceção: se a bula recomendar adjuvante específico, essa recomendação prevalece independentemente das condições acima.
Riscos agronômicos do uso inadequado ou desnecessário¶
A crença de que adjuvante sempre melhora o resultado é o erro mais caro cometido no campo.
Cada produto fitossanitário já contém seus próprios adjuvantes na formulação.
Somar outro adjuvante externo por hábito de rotina, sem diagnóstico das necessidades reais do sistema, é a origem de boa parte dos problemas documentados no uso de adjuvante, agravada pela pouca regulamentação técnica do setor e pela complexidade da interação entre planta, produto, ambiente, água e adjuvante.
Um caso que gosto de usar para desmontar a ideia de que redutor de tensão superficial sempre melhora o resultado: num ensaio de campo com um inseticida em soja, sob chuva simulada, um óleo mineral aumentou a mortalidade de lagartas em relação ao inseticida aplicado isolado, atribuída à maior penetração pela camada cerosa foliar; outro adjuvante teve resultado equivalente ao inseticida isolado, sem ganho nem perda; e dois organossiliconados, justamente os produtos com maior capacidade de reduzir tensão superficial, reduziram a mortalidade das lagartas.
Discordo de quem trata organossilicone como escolha segura por padrão: ele é o mais potente para reduzir tensão superficial, não o mais adequado em qualquer situação, e esse resultado prova o ponto.
| Risco | Mecanismo | Quem é mais afetado |
|---|---|---|
| Fitotoxicidade | Surfatante iônico inadequado ou óleo em excesso danifica a membrana celular | Culturas jovens, folhas novas |
| Redução de seletividade | Penetrante excessivamente ativo elimina a barreira que garante seletividade entre cultura e planta daninha | Herbicidas seletivos aplicados em pós-emergência |
| Favorecimento de fungos foliares | Remoção da cera pelo penetrante elimina proteção natural da folha | Ambientes de alta umidade e pressão de doenças |
| Aumento de resíduos internos | Maior penetração eleva a concentração do ingrediente ativo nos tecidos | Culturas com limite de resíduo crítico para exportação |
| Antagonismo sobre o ingrediente ativo | Surfatante iônico reage com produto ionizável, formando complexo inativo | Glifosato com catiônico, paraquat com aniônico |
| Degradação de redutor de deriva | Bombeamento excessivo decompõe o polímero | Aplicações longas, agitação intensa e prolongada |
| Aumento de volatilidade do herbicida | Adjuvante aminado misturado a dicamba | Culturas sensíveis nas áreas adjacentes |
| Espuma excessiva | Formulações com alta atividade de superfície geram espuma que impede leitura do nível e causa dosagem imprecisa | Tanques com agitação intensa |
| Aspectos positivos potenciais | Aspectos negativos potenciais |
|---|---|
| Absorção mais rápida do ingrediente ativo | Podem ser fitotóxicos |
| Maior cobertura e aderência sobre o alvo | Diminuem a seletividade de alguns herbicidas |
| Maior segurança e eficiência da aplicação | Podem favorecer o ataque de fungos, por remover a proteção da cera |
| Redução de perdas por deriva e evaporação | Podem aumentar o impacto ambiental, pela maior permeabilidade e pelo resíduo |
| Possibilidade de redução de dose do produto | Risco de antagonismo, anulando o efeito do ingrediente ativo |
Nota técnica
O ganho de eficiência que um adjuvante proporciona pode, de forma paradoxal, elevar o impacto ambiental. A maior penetração que beneficia o controle também eleva o resíduo nos tecidos e a presença da molécula do próprio adjuvante no ambiente. Eficiência de aplicação e segurança ambiental não são sinônimos automáticos.
Marco regulatório e mercado¶
O adjuvante deixou de ser tratado como agrotóxico no Brasil, e essa mudança regulatória segue moldando a qualidade do que chega à prateleira.
Adjuvantes foram entendidos como agrotóxicos, com exigência de registro, por mais de 27 anos.
Em novembro de 2017 o MAPA cancelou o registro de produtos classificados exclusivamente como adjuvante e espalhante adesivo, tornando-os insumos agrícolas de venda livre.
A Lei 14.785/2023, que reformulou todo o marco legal dos produtos fitossanitários no Brasil, manteve essa posição ao estabelecer que produtos com função adjuvante não são regulados pela nova legislação de agrotóxicos e serão regidos por regulamento próprio, ainda pendente de publicação.
Nos Estados Unidos, adjuvantes também não são registrados, mas a EPA e a CPDA certificam funcionalmente esses produtos, o que dá ao mercado americano um filtro de qualidade que o Brasil, por ora, não tem.
Convivem hoje, no mercado brasileiro, produtos que passaram pelos testes técnicos exigidos pelo MAPA para registro como agrotóxicos e afins e produtos vendidos como fertilizante foliar ou não saneante, sem as mesmas exigências.
Para o agrônomo que assina a receita, a ausência de registro específico e de resultado experimental transfere para ele boa parte da responsabilidade técnica sobre eventual dano.
Quem decide o adjuvante de uma aplicação decide, na prática, se o dinheiro gasto no herbicida, no fungicida ou no inseticida vai render o controle prometido no rótulo ou vai se perder no solo, na deriva ou na fotodegradação.
A escolha errada de adjuvante custa tanto quanto a escolha errada de dose, só que é bem menos discutida na pesquisa e na assistência técnica de campo do que deveria.
Referências¶
ANTUNIASSI, U. R. Entendendo a tecnologia de aplicação de defensivos agrícolas. Botucatu: FEPAF, 2022.
ANTUNIASSI, U. R. et al. Tecnologia de aplicação para culturas anuais. Passo Fundo: Aldeia Norte, 2019.
BRASIL. Decreto nº 4.074, de 4 de janeiro de 2002. Regulamenta a Lei nº 7.802, de 11 de julho de 1989. Diário Oficial da União, Brasília, 8 jan. 2002.
BRASIL. Lei nº 14.785, de 27 de dezembro de 2023. Dispõe sobre pesquisa, experimentação, produção, embalagem, rotulagem, transporte, armazenamento, comercialização, propaganda, utilização, inspeção, fiscalização e destinação final de produtos fitossanitários e afins. Diário Oficial da União, Brasília, 28 dez. 2023.
COSTA, A. G. F. Tecnologia de caldas fitossanitárias. Londrina: Embrapa, 2019.
MINGUELA, J. V.; CUNHA, J. P. A. R. da. Manual de aplicação de produtos fitossanitários. Viçosa: Aprenda Fácil, 2013.
SANTOS, F. et al. Adjuvantes agrícolas e seus componentes: uma revisão bibliográfica. Trabalho de conclusão de curso. [S.l.]: [s.n.], 2024.
BRANDT BRASIL. Guia de tecnologia de aplicação BRANDT Integras. [S.l.]: BRANDT Brasil, [s.d.].
Exercícios¶
Tip
Antes de olhar o gabarito, tente responder tudo. O esforço de recuperar a resposta da memória, mesmo quando ela não vem completa, é o que consolida a aprendizagem; ler a resposta pronta não produz o mesmo efeito. Reserve de 35 a 45 minutos, sem consultar o texto na primeira passada. O Bloco A não tem gabarito neste material: essas questões serão discutidas no início da próxima aula.
Bloco A: recuperação (discussão na próxima aula; traga por escrito)¶
A1. Na Aula 06, vimos que a água dura inativa o glifosato pela ligação dos cátions (Ca²⁺, Mg²⁺, Fe³⁺) à molécula, e que o sulfato de amônio a 3,0 kg por 100 L de calda é a correção mais usada para proteger a formulação. Na Aula 07, esse mesmo sulfato de amônio reaparece como adjuvante, aminado ou nitrogenado e condicionador de calda. Como um único produto pode, ao mesmo tempo, "proteger o herbicida da água" (Aula 06) e "ativar a absorção" do herbicida (Aula 07)? O que isso mostra sobre a fronteira entre tratar a água e usar adjuvante?
A2. O texto afirma que "o adjuvante age sobre a física da gota, não sobre a biologia do alvo" e, na mesma aula, que "a crença de que adjuvante sempre melhora o resultado é o erro mais caro cometido no campo". Como essas duas frases se conectam? Se o adjuvante nem toca o mecanismo biológico da praga, do fungo ou da planta daninha, por que ele pode fazer uma aplicação falhar em vez de melhorar?
A3. O texto mostra que um surfatante catiônico é incompatível com o glifosato, um surfatante aniônico é incompatível com o paraquat, e que somar um surfatante externo a uma formulação que já traz surfatante interno pode ser redundante ou incompatível. Se um único adjuvante mal escolhido já pode precipitar ou antagonizar o produto na própria calda, o que isso antecipa sobre juntar dois ou mais produtos no mesmo tanque? Como o agrônomo poderia saber, antes de aplicar, se a mistura vai "virar" no tanque?
Bloco B: consolidação da Aula 07¶
B1. (Múltipla escolha) A gota de água pura chega à folha praticamente esférica, com pouca área de contato real com o tecido. Ao adicionar um adjuvante espalhante à calda, o que ocorre fisicamente na superfície foliar?
(A) A tensão superficial aumenta e a gota se firma sobre a cera, ganhando retenção.
(B) A tensão superficial diminui, o ângulo de contato cai e a gota se espalha.
(C) O adjuvante age na fisiologia do alvo e ativa a absorção pela raiz.
(D) O ângulo de contato aumenta, a gota escorre e a cobertura diminui.
B2. (Múltipla escolha) Um operador vai preparar uma calda de glifosato e quer adicionar um surfatante ao tanque para melhorar o molhamento. Para não comprometer o herbicida, qual surfatante ele deve evitar?
(A) Catiônico, porque reage com o glifosato de ionização negativa e precipita.
(B) Não iônico, porque é o de maior risco de incompatibilidade iônica na calda.
(C) Anfotérico, porque sua carga fixa negativa antagoniza o glifosato aniônico.
(D) Aniônico, porque se liga ao glifosato positivo e forma complexo inativo.
B3. (Múltipla escolha) Sobre o efeito dos adjuvantes no espectro de gotas e no risco de deriva em aplicação terrestre, qual afirmação está correta?
(A) O organossiliconado, por reduzir a tensão superficial, sempre diminui a deriva.
(B) O redutor de deriva à base de polímero dispensa a escolha correta da ponta.
(C) O óleo, por ser mais viscoso, sempre gera gota maior do que o surfatante faria.
(D) A escolha correta da ponta é o meio mais confiável de controlar a gota.
B4. (Aberta) A literatura trata "molhante" e "umectante" como sinônimos, mas o texto insiste que eles atacam problemas diferentes. Explique a ação de cada um, indicando em que momento do processo cada um atua e a qual condição de aplicação cada um responde.
B5. (Aberta, "explique ao produtor") Um produtor adota como rotina "sempre adicionar um espalhante ao tanque, porque adjuvante nunca faz mal". Em linguagem de lavoura, explique por que essa prática pode comprometer, em vez de melhorar, a eficácia da aplicação.
B6. (Aberta) Um colega recomenda "um espalhante" para uma aplicação, sem especificar mais nada. Usando os três eixos de classificação de adjuvantes do texto, explique por que conhecer apenas o eixo funcional ("espalhante") é insuficiente para uma boa recomendação.
Bloco C: cálculo e diagnóstico¶
C1. (Cálculo) No tensiômetro de Du Nouy, a tensão superficial é obtida pela força necessária para separar um anel de platina da superfície do líquido, segundo:
onde γ é a tensão superficial, F é a força medida e R é o raio do anel. Um laboratório usa um anel de raio R = 0,0100 m e mede a força para descolar o anel de dois líquidos: água pura, F = 9,00 mN; calda com adjuvante organossiliconado, F = 3,00 mN.
(i) Calcule a tensão superficial de cada líquido (em mN/m).
(ii) Calcule a redução percentual da tensão superficial causada pelo adjuvante.
(iii) Comente o resultado à luz dos valores de referência do texto.
Use 4 casas decimais nos resultados.
C2. (Diagnóstico integrado) Numa aplicação de inseticida de contato (piretroide) em soja, para controle de lagartas, o operador propõe adicionar ao tanque um adjuvante organossiliconado superespalhante "para cobrir melhor a folha". Levantam-se ainda três informações: (a) o inseticida tem formulação que já contém surfatante emulsificante e forma emulsão estável; (b) a bula não recomenda adjuvante externo para essa situação; (c) a soja está em estádio vegetativo, com folhas novas. Diagnostique a proposta cruzando as dimensões de decisão do texto e recomende a conduta.