Fertilidade do Solo e Nutrição de Plantas nos Cereais de Sequeiro¶
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A pergunta que organiza a nutrição de plantas não é quanto de nutriente existe no solo, e sim como a planta absorve esse nutriente, como o transporta dentro de si e o que faz com ele depois.
Um solo pode ser rico e a lavoura passar fome, porque o nutriente não chegou à raiz, não subiu até a folha ou não foi incorporado à molécula certa no momento certo.
A fertilidade do solo é o ponto de partida; o que decide produtividade é o que a planta consegue fazer com o que o solo oferece.
Esse percurso, da solução do solo ao grão, se comporta de forma diferente em cada cereal.
Trigo e arroz fixam carbono por uma rota fotossintética; milho, sorgo e milheto por outra, mais eficiente no uso de nitrogênio e de água.
O milheto extrai e recicla nutriente numa escala que o trigo não alcança; o arroz exporta na casca um cálcio que o milho quase não retira no grão.
Comparar como as cinco culturas absorvem, translocam e assimilam nutrientes é o que separa uma recomendação genérica de uma decisão agronômica ajustada à espécie em campo.
Como o nutriente chega à raiz: os três mecanismos de contato¶
O nutriente precisa encontrar a raiz antes de ser absorvido, e isso ocorre por três caminhos.
Antes de qualquer absorção, o íon precisa alcançar fisicamente a superfície da raiz.
Isso acontece por três mecanismos de contato, e saber qual predomina para cada nutriente explica por que uns respondem à arquitetura radicular e outros à disponibilidade de água (Malavolta, 2006; Taiz et al., 2017).
Os três mecanismos de contato íon-raiz
- Interceptação radicular: a raiz cresce e encontra o íon no seu caminho; contribuição pequena para a maioria dos nutrientes
- Fluxo de massa: o íon é arrastado até a raiz junto com a água absorvida, movida pela transpiração
- Difusão: o íon caminha por gradiente de concentração da solução mais concentrada para a zona empobrecida junto à raiz
A tabela reúne o mecanismo dominante e a forma iônica em que cada macronutriente é absorvido.
A leitura prática está na coluna do mecanismo: nutriente que chega por difusão depende de a raiz explorar o volume de solo, porque o íon caminha distâncias curtíssimas, de modo que sistema radicular vigoroso e adubo bem localizado decidem o suprimento; nutriente que chega por fluxo de massa depende da transpiração e da água no solo, e por isso um veranico corta seu fornecimento mesmo com o nutriente presente.
| Macronutriente | Forma absorvida | Mecanismo dominante de contato |
|---|---|---|
| Nitrogênio (N) | NO₃⁻ (nitrato) e NH₄⁺ (amônio) | Fluxo de massa |
| Fósforo (P) | H₂PO₄⁻ e HPO₄²⁻ (fosfatos) | Difusão |
| Potássio (K) | K⁺ | Difusão |
| Cálcio (Ca) | Ca²⁺ | Fluxo de massa |
| Magnésio (Mg) | Mg²⁺ | Fluxo de massa |
| Enxofre (S) | SO₄²⁻ (sulfato) | Fluxo de massa |
Entre os micronutrientes, o fósforo tem companhia numerosa na difusão: cobre, ferro, manganês, molibdênio e zinco também chegam à raiz por esse caminho lento, enquanto boro e cloro vêm por fluxo de massa.
A consequência agronômica é que o fósforo e os micronutrientes metálicos, todos de difusão, respondem fortemente à exploração radicular e à localização do adubo, e é justamente aí que as culturas divergem.
Cerrado / MT
sorgo e milheto desenvolvem sistema radicular mais agressivo e profundo que o trigo e o arroz, o que sustenta sua rusticidade e a baixa sensibilidade à seca. Raiz que explora mais volume de solo alcança melhor os nutrientes de difusão (P e micronutrientes) e a água que carrega os nutrientes de fluxo de massa. Essa diferença de sistema radicular é uma das razões físicas por que o milheto extrai e recicla tanto nutriente.
Formas de absorção, funções e mobilidade dos nutrientes¶
Absorvido o nutriente, sua mobilidade no solo e na planta governa onde ele age e onde falta.
Os cereais exigem catorze nutrientes minerais essenciais, separados por quantidade, não por importância: a falta de um micronutriente desorganiza o metabolismo tanto quanto a falta de nitrogênio.
Um elemento é essencial quando a planta não completa o ciclo sem ele, ele participa diretamente do metabolismo e nenhum outro o substitui.
Depois de absorvido, o nutriente tem dois eixos de mobilidade independentes que decidem seu comportamento: a mobilidade no solo, que governa risco de perda e estratégia de aplicação, e a mobilidade na planta, que governa onde o sintoma de falta aparece.
Os dois eixos frequentemente se opõem.
O fósforo é imóvel no solo, fortemente retido pelos óxidos de ferro e alumínio da argila, mas móvel na planta, redistribuído das folhas velhas para o grão.
O cálcio é o oposto exato: móvel o bastante para chegar à raiz por fluxo de massa, mas imóvel dentro da planta depois de depositado na parede celular.
A tabela reúne, para os macronutrientes, a mobilidade nos dois eixos e a função bioquímica central, base da seção de assimilação adiante.
A leitura combina duas colunas: mobilidade no solo indica se o nutriente lixivia ou se fixa; mobilidade na planta prevê se o sintoma surge em folha velha ou nova.
| Macronutriente | Mobilidade no solo | Mobilidade na planta | Função bioquímica central |
|---|---|---|---|
| N | Móvel (lixivia) | Móvel | Aminoácidos, proteínas, ácidos nucleicos, coenzimas |
| P | Imóvel (fixado) | Móvel | Açúcares-fosfato, ácidos nucleicos, fosfolipídios, ATP |
| K | Móvel | Móvel | Cofator de mais de 40 enzimas, turgor, eletroneutralidade |
| Ca | Imóvel | Imóvel | Lamela média da parede celular, mensageiro secundário |
| Mg | Imóvel | Móvel | Átomo central da clorofila, transferência de fosfato |
| S | Móvel | Pouco móvel | Cisteína, metionina, coenzima A, biotina |
Os micronutrientes seguem a mesma lógica de dois eixos.
A tabela abaixo reúne forma absorvida, mobilidade na planta e função, com a mesma leitura: mobilidade baixa na planta joga o sintoma para as folhas novas.
| Micronutriente | Forma absorvida | Mobilidade na planta | Função bioquímica central |
|---|---|---|---|
| Boro (B) | BO₃³⁻ e B₄O₇²⁻ | Imóvel | Paredes celulares, elongação celular, metabolismo de ácido nucleico |
| Cloro (Cl) | Cl⁻ | Móvel | Reações fotossintéticas |
| Cobre (Cu) | Cu⁺ e Cu²⁺ | Pouco móvel | Ascórbico oxidase, citocromo oxidase, plastocianina |
| Ferro (Fe) | Fe²⁺ e Fe³⁺ | Pouco móvel | Proteínas da fotossíntese, fixação de N₂, respiração |
| Manganês (Mn) | Mn²⁺ | Pouco móvel | Desidrogenases, descarboxilases, quinases, oxidases |
| Molibdênio (Mo) | MoO₄²⁻ | Móvel | Nitrogenase, nitrato redutase, xantina desidrogenase |
| Zinco (Zn) | Zn²⁺ | Pouco móvel | Álcool desidrogenase, anidrase carbônica |
| Níquel (Ni) | Ni²⁺ | Pouco móvel | Urease, hidrogenases, fixação de N₂ |
A presença do nutriente no solo não garante absorção, porque a disponibilidade ainda depende das quantidades relativas dos outros elementos.
Quando dois nutrientes se reforçam, a interação é sinérgica; quando um atrapalha o outro, é antagônica.
Os antagonismos documentados para o milho (Fancelli; Dourado Neto, 2000) mostram por que uma adubação desequilibrada induz deficiência mesmo com o nutriente presente.
| Teor elevado de | Reduz a absorção de |
|---|---|
| Mg | K (e vice-versa) |
| K | Ca |
| Ca | Cu |
| Zn | Cu (e vice-versa) |
| Fe | Mn |
| Fosfato (H₂PO₄⁻) | Zn, Cu e Mn |
Nota técnica
o antagonismo fosfato–zinco é o de maior impacto prático no Cerrado. A adubação fosfatada pesada, necessária em solo que fixa fósforo, induz deficiência de zinco no milho. Por isso o manejo de zinco acompanha a construção de fósforo, e não se corrige a falta de Zn apenas repondo Zn sem olhar a dose de P.
Absorção ao longo do ciclo e as diferenças entre as culturas¶
A demanda não é constante no ciclo, e cada cereal a distribui de um jeito.
A absorção não se reparte de modo uniforme ao longo do ciclo.
No milho, o padrão é bem documentado (Ritchie; Hanway; Benson, 2003): a absorção nas primeiras semanas é desproporcionalmente alta frente à massa seca acumulada, ou seja, a planta ainda pequena já retirou uma fração grande do nutriente do ciclo.
Nitrogênio e fósforo seguem um padrão bimodal, com dois picos, um na fase vegetativa e outro na formação da espiga; o potássio segue um padrão unimodal, concentrado no crescimento vegetativo inicial, funcionando como elemento de arranque.
A implicação prática é direta: o requerimento nutricional precisa estar disponível cedo, e deficiência que aparece em estádio avançado não é totalmente reversível por aplicação corretiva de emergência.
A primeira grande diferença entre os cinco cereais é fotossintética, e ela governa a eficiência com que cada um converte nutriente em grão.
Trigo e arroz são plantas C3; milho, sorgo e milheto são plantas C4.
A rota C4 concentra CO₂ no sítio da enzima que o fixa, reduz a fotorrespiração e, com isso, produz mais biomassa por unidade de nitrogênio absorvido e por unidade de água transpirada.
Traduzindo para nutrição: as espécies C4 têm maior eficiência de uso do nitrogênio e da água, o que sustenta seu desempenho em ambiente quente e sob restrição hídrica, condição típica do sequeiro no Cerrado.
A tabela cruza o metabolismo, a saturação por bases considerada ideal e a relação carbono-nitrogênio da palhada de cada cultura.
Ela concentra três diferenças nutricionais de uma vez: eficiência fotossintética, tolerância à acidez e velocidade de reciclagem dos restos culturais.
| Indicador | Trigo | Arroz (terras altas) | Milho | Sorgo | Milheto |
|---|---|---|---|---|---|
| Metabolismo fotossintético | C3 | C3 | C4 | C4 | C4 |
| Saturação por bases ideal (V%) | 50-60 | 40-50 | 50-60 | 50-60 | 40-50 |
| Relação C/N da palhada | 40:1 a 70:1 | 50:1 a 70:1 | 50:1 a 70:1 | 60:1 a 80:1 | 70:1 a 100:1 |
| Potencial de ciclagem de nutrientes | Médio | Médio | Alto | Alto | Muito alto |
A segunda diferença está na quantidade de nutriente que cada grão carrega para fora da lavoura.
A tabela compara a exportação de nutrientes no grão, em quilos por tonelada, com metodologia uniforme entre as culturas.
A leitura revela personalidades nutricionais distintas: o trigo é o mais exigente em nitrogênio, fósforo e potássio por tonelada; o arroz exporta muito cálcio, concentrado na casca rica em sílica; o milho quase não exporta cálcio no grão, coerente com a baixíssima translocação desse elemento para a espiga.
| Nutriente (kg/t de grão) | Arroz (com casca) | Milho | Sorgo | Trigo |
|---|---|---|---|---|
| N | 14,60 | 12,40 | 24,00 | 33,00 |
| P | 2,40 | 4,00 | 4,10 | 4,60 |
| K | 4,90 | 3,50 | 6,30 | 7,60 |
| Ca | 7,30 | 0,03 | 0,10 | 1,10 |
| Mg | 1,70 | 0,80 | 2,00 | 1,80 |
| S | 2,20 | 0,80 | 2,00 | 1,80 |
Fonte: compilado de Souza et al. (2023); dados primários de Crusciol, Soratto e Arf (2007) para o arroz, Silva et al. (2018) para o milho, Albuquerque, Camargo e Souza (2013) para o sorgo e Sgobi (2016) para o trigo.
Nota técnica
a fonte comparativa (Souza et al., 2023) não traz valores de exportação para o milheto granífero. As quatro culturas acima usam a mesma base metodológica; o milheto fica sem dado quantitativo confiável de exportação por tonelada de grão nesta referência, e a lacuna não deve ser preenchida por analogia com outro cereal.
As cinco culturas podem ser lidas, então, por sua personalidade nutricional.
O trigo (C3) é o mais exigente por tonelada e o mais sensível a solo distrófico não corrigido, o que restringe seu cultivo no Cerrado a áreas de maior altitude e melhor fertilidade.
O arroz de terras altas (C3) tolera saturação por bases mais baixa e é rústico quanto a bases, mas exporta muito cálcio na casca.
O milho (C4) tem o maior teto produtivo e a absorção precoce mais intensa, o que o torna dependente de nutriente disponível cedo e vulnerável ao antagonismo fósforo-zinco sob adubação fosfatada pesada.
O sorgo (C4) é tolerante e de boa ciclagem, com palhada de relação C/N alta.
O milheto (C4) leva ao extremo a extração e a reciclagem de nutriente na biomassa, com relação C/N muito alta que imobiliza temporariamente o nitrogênio da cultura seguinte, característica que o consagra como planta de cobertura.
Nota técnica
o arroz cultivado em solo alagado favorece a absorção de nitrogênio na forma amoniacal, adaptação à condição reduzida do solo inundado. No arroz de terras altas, em solo aerado de sequeiro, predomina a nutrição nítrica, semelhante à dos demais cereais tratados aqui. A forma preferencial de nitrogênio é também função do sistema de cultivo, não só da espécie.
Extração de nutrientes: a ordem e a intensidade não são iguais entre as culturas¶
Cada cereal demanda os nutrientes em uma ordem e numa quantidade próprias, não num padrão único.
A tabela anterior mostrou a exportação, o que cada grão leva para fora da lavoura.
A extração conta outra história, maior e diferente.
Confundir as duas leva a dimensionar mal a adubação, porque a demanda total da planta não é o que sai no grão.
Extração ≠ Exportação
a extração é todo o nutriente que a planta inteira acumula ao longo do ciclo, a demanda real da cultura. A exportação é apenas a fração contida no grão colhido. A diferença fica no campo, na palhada, e retorna ao solo pela ciclagem. A extração é sempre bem maior que a exportação, e é ela que mede a exigência da lavoura.
A resposta à pergunta prática é direta: não, as cinco culturas não extraem os nutrientes na mesma ordem nem no mesmo grau.
Três culturas com extração completa e bem documentada deixam isso evidente.
A tabela abaixo traz a extração total, por tonelada de grão, de arroz de terras altas, milho e trigo.
| Nutriente (kg/t de grão, extração total) | Arroz (terras altas) | Milho | Trigo |
|---|---|---|---|
| N | 30,0 | 24,9 | 35,0 |
| P | 5,0 | 5,9 | 5,8 |
| K | 30,0 | 26,7 | 18,3 |
| Ca | 6,0 | 6,6 | 11,7 |
| Mg | 2,5 | 7,9 | 8,3 |
| S | 4,0 | 2,5 | 4,5 |
Fonte: extração do arroz, Embrapa Arroz e Feijão (Agência de Informação Tecnológica); extração do milho, Ritchie, Hanway e Benson (2003); extração do trigo, Wiethölter (2011).
Os valores do trigo são o ponto médio da faixa para 3 t/ha, convertidos de P₂O₅ e K₂O para P e K elementares, para tornar a comparação uniforme.
A comparação, agora com três culturas, denuncia a diferença de ordem.
No arroz, a extração cai na sequência N ≈ K, depois Ca, P, S e, por último, Mg.
No milho, a sequência é K, N, Mg, Ca, P, S. No trigo, é N, K, Ca, Mg, P, S. Três gramíneas, três ordens distintas: o milho lidera pelo potássio, o trigo pelo nitrogênio, e o arroz empata os dois no topo.
O magnésio é o macronutriente menos extraído pelo arroz, mas figura entre os quatro primeiros no milho e no trigo.
E o trigo, embora seja o que mais extrai nitrogênio, é o que menos extrai potássio dos três, além de retirar quase o dobro de cálcio do arroz e do milho.
A personalidade nutricional não é herança genérica da família das poáceas, é característica da espécie.
Estendendo às cinco culturas o que as fontes permitem afirmar, o nitrogênio e o potássio são sempre os dois nutrientes mais extraídos pelos cereais, mas a ordem entre eles e a posição dos demais mudam de cultura para cultura.
| Cultura | Ordem de extração dos macronutrientes | Mais extraído |
|---|---|---|
| Arroz (terras altas) | N ≈ K > Ca > P > S > Mg | Potássio |
| Milho | K > N > Mg > Ca > P > S | Potássio |
| Sorgo | N e K > Ca > Mg > P | Nitrogênio e potássio |
| Trigo | N > K > Ca > Mg > P > S | Nitrogênio |
| Milheto | grande e rápido acúmulo na parte aérea, com N e K dominantes | Nitrogênio e potássio |
Fonte: arroz, Embrapa Arroz e Feijão (Agência de Informação Tecnológica); milho, Ritchie, Hanway e Benson (2003); sorgo, Coelho (2023); trigo, Wiethölter (2011); milheto, padrão geral dos cereais (Malavolta, 2006).
O ponto mais importante para a decisão de campo separa duas ideias que o senso comum funde: a quantidade extraída não é a ordem de importância agronômica.
O nutriente que a planta mais absorve não é necessariamente o que mais limita a produtividade.
O arroz de terras altas é o exemplo clássico: o potássio é o nutriente que a planta mais absorve, mas a deficiência de nitrogênio é a que mais reduz o rendimento.
Extrair muito de um elemento não significa que ele seja o fator limitante; significa apenas que a planta o acumula em grande quantidade.
Nota técnica
a intensidade da extração acompanha a produtividade e a biomassa, não só a espécie. Uma lavoura de milho de 8 t/ha extrai o dobro de nutriente de uma de 4 t/ha da mesma cultura. O milheto ilustra o outro extremo: produz pouco grão, mas acumula enorme quantidade de nutriente na parte aérea, quase toda reciclada na palhada, o que o torna extrator e reciclador intenso apesar da baixa exportação no grão.
Translocação e redistribuição: o transporte dentro da planta¶
Nutriente móvel na planta é reaproveitado; imóvel fica onde chegou e falta no crescimento novo.
Absorvido pela raiz, o nutriente sobe pelo xilema com a corrente transpiratória e, se for móvel no floema, pode ser redistribuído depois de um órgão para outro.
Essa mobilidade na planta é o que permite à planta remobilizar nutriente das folhas velhas para os grãos em formação durante o enchimento.
Nutriente móvel, como nitrogênio, fósforo, potássio e magnésio, é transferido para onde a demanda é maior; nutriente imóvel, como cálcio e boro, permanece onde foi depositado, e por isso o crescimento novo depende de suprimento contínuo pela raiz.
A tabela mostra quanto de cada nutriente absorvido o milho translocou para o grão.
Os valores confirmam a regra da mobilidade: fósforo e nitrogênio migram fortemente para o grão, enquanto cálcio e potássio quase não migram e ficam na palhada.
| Nutriente | Translocado para o grão (milho, % do absorvido) |
|---|---|
| Fósforo (P) | 77% a 86% |
| Nitrogênio (N) | 70% a 77% |
| Enxofre (S) | 60% |
| Magnésio (Mg) | 47% a 69% |
| Potássio (K) | 26% a 43% |
| Cálcio (Ca) | 3% a 7% |
Nota técnica
os percentuais de translocação (aqui, 3% a 7% do Ca absorvido chegando ao grão) e a exportação de cálcio no grão da seção anterior (0,03 kg/t no milho) vêm de estudos distintos e não devem ser multiplicados ou confrontados diretamente entre si. Ambos convergem no mesmo ponto qualitativo: o cálcio, imóvel no floema, quase não é redistribuído para o grão e permanece na palhada. O valor absoluto exato varia com a fonte, a cultivar e a produtividade; o que importa reter é a ordem de grandeza (translocação baixa) e a consequência de manejo: o Ca sai pouco no grão e retorna ao solo pela ciclagem dos restos culturais.
A baixa translocação de potássio e cálcio para o grão tem consequência direta no sistema de produção.
Como esses dois elementos ficam quase todos na palhada, a incorporação dos restos culturais devolve ao solo grande parte do que a planta absorveu, alimentando a ciclagem entre safras.
É por isso que a colheita para silagem, que remove a planta inteira, empobrece o solo muito mais rápido que a colheita de grão: leva embora o potássio e o cálcio que ficariam reciclando.
Aqui reaparece a diferença entre culturas, agora pela via da palhada: milheto e sorgo, de biomassa abundante e relação C/N alta, reciclam mais nutriente e por mais tempo que trigo e arroz.
A remobilização também explica um ponto de diagnose.
Durante o enchimento de grãos, a planta retira nitrogênio e fósforo das folhas mais velhas para abastecer a espiga; se o suprimento pela raiz não acompanha, as folhas baixeiras amarelecem por serem drenadas, e não por doença.
Reconhecer que esse amarelecimento é remobilização, e não patógeno, é parte da leitura de campo.
Assimilação: o que a planta faz com o nutriente¶
Absorver e transportar não bastam; o nutriente só rende quando entra na molécula certa.
Chegar à folha não é o fim do percurso.
O nutriente só cumpre sua função quando é assimilado, isto é, incorporado a uma molécula orgânica ou colocado a operar num processo metabólico.
Assimilar é diferente de absorver, e é nessa etapa que o nutriente vira crescimento, proteína e grão (Malavolta, 2006; Taiz et al., 2017).
O nitrogênio ilustra a assimilação com clareza.
Absorvido como nitrato, ele precisa primeiro ser reduzido dentro da planta, do nitrato ao nitrito e do nitrito ao amônio, para só então ser incorporado a aminoácidos, que se organizam em proteínas, clorofila e ácidos nucleicos.
A primeira etapa dessa redução depende da enzima nitrato redutase, e aqui um micronutriente entra em cena: o molibdênio é constituinte dessa enzima.
Sem molibdênio, a planta absorve nitrato mas não o assimila com eficiência, e um sintoma de deficiência de N pode ter raiz em falta de Mo.
É o tipo de conexão que a leitura isolada de um nutriente nunca revela.
O fósforo é assimilado sobretudo na moeda energética da célula.
Ele compõe o ATP, os açúcares-fosfato, os nucleotídeos e os fosfolipídios das membranas, e participa de praticamente toda reação que envolve transferência de energia.
Uma planta com fósforo suficiente no tecido mas com o metabolismo energético travado ainda cresce mal, porque o papel do P é justamente mover energia.
O enxofre entra na composição dos aminoácidos sulfurados, cisteína e metionina, logo na estrutura das proteínas, além de compor a coenzima A e a biotina; sua assimilação, como a do nitrogênio, passa por uma redução do sulfato antes da incorporação.
O magnésio tem a função assimilatória mais visível de todas: é o átomo central da molécula de clorofila, de modo que sua falta se traduz diretamente em perda de verde e de fotossíntese, além de ativar enzimas de transferência de fosfato.
O potássio é a exceção que confirma a regra: ele não é assimilado a nenhuma estrutura orgânica, permanece na forma iônica dentro da célula e atua como cofator de mais de quarenta enzimas, no controle do turgor, na abertura dos estômatos e na manutenção da eletroneutralidade.
Sua mobilidade e sua função puramente iônica explicam por que ele circula tanto e por que responde rápido.
O cálcio, por fim, é assimilado como elemento estrutural, na lamela média que cimenta as paredes celulares, e opera como mensageiro secundário na regulação do metabolismo, papel que combina com sua imobilidade: uma vez montado na parede, não sai.
Os micronutrientes atuam quase todos como cofatores enzimáticos, o que explica seu impacto desproporcional à quantidade minúscula exigida.
O ferro compõe proteínas da fotossíntese e da respiração; o cobre, enzimas de oxidação como a citocromo oxidase e a plastocianina; o zinco, a anidrase carbônica e desidrogenases; o manganês, várias oxidases e o próprio complexo fotossintético; o boro participa da elongação celular e da integridade das paredes; o níquel é constituinte da urease.
Uma enzima sem seu cofator metálico é uma engrenagem sem eixo: presente, porém parada.
Sintomas de deficiência e de excesso: a diagnose pela mobilidade¶
A mobilidade na planta prevê onde o sintoma aparece, e o excesso também deixa marca.
A diagnose visual não é decorar sintomas, é aplicar um princípio: a mobilidade do nutriente na planta determina onde a falta se manifesta primeiro.
Nutriente móvel no floema é redistribuído das folhas velhas para as novas quando escasseia, e o sintoma surge nas folhas velhas, sacrificadas para nutrir o crescimento.
Nutriente imóvel não pode ser redistribuído, e o sintoma surge nas folhas novas e nos meristemas, dependentes de suprimento contínuo.
Regra da mobilidade e do sintoma
- Sintoma em folha velha (nutrientes móveis): N, P, K, Mg
- Sintoma em folha nova e meristema (nutrientes imóveis ou pouco móveis): Ca, S, B, Fe, Mn, Zn, Cu
- A regra identifica o grupo do nutriente limitante antes de nomear o elemento
A tabela reúne, para os macronutrientes, onde o sintoma aparece primeiro e o quadro de deficiência e de excesso, conforme a literatura clássica de nutrição mineral (Malavolta, 2006).
O excesso importa porque adubação desequilibrada não só desperdiça, mas induz carência de outro elemento, como mostra a coluna da direita.
| Nutriente | Sintoma aparece em | Deficiência | Excesso |
|---|---|---|---|
| N | Folhas velhas | Amarelecimento e morte das folhas; menor crescimento | Parte aérea exagerada, favorecendo acamamento |
| P | Folhas velhas | Menos folhas e menor expansão; verde mais escuro | Pintas vermelho-escuras nas folhas velhas |
| K | Folhas velhas | Clorose e necrose de folhas e colmos velhos | Pintas necróticas nas folhas velhas |
| Ca | Folhas novas | Morte dos pontos de crescimento; podridão apical | Induz deficiência de Mg e/ou K |
| Mg | Folhas velhas | Clorose e necrose das folhas velhas | Induz deficiência de K e/ou Ca |
| S | Folhas novas | Plantas cloróticas, espigadas, de pouco crescimento | Clorose internerval em algumas espécies |
Para os micronutrientes, a diagnose segue a mesma lógica, e alguns quadros são característicos em cereais.
O ferro e o manganês faltam nas folhas novas com clorose entre as nervuras; o zinco produz encurtamento e faixas cloróticas nas folhas novas, com a conhecida gema branca do milho; o boro mata a gema terminal e compromete a formação do grão; o cobre dá mosaico verde-escuro nas folhas novas.
O excesso de zinco, por sua vez, induz carência de fósforo e de cobre, fechando o círculo dos antagonismos.
A distinção entre deficiência de nitrogênio e de enxofre é o exemplo clássico do valor da regra.
As duas dão clorose, mas o nitrogênio, móvel, começa nas folhas velhas, enquanto o enxofre, pouco móvel na planta, aparece nas folhas novas.
Confundir os dois leva a aplicar nitrogênio onde falta enxofre, sem resposta.
Reconhecer a localização do sintoma resolve o diagnóstico antes de qualquer análise foliar.
Silício: o elemento benéfico que fortalece os cereais¶
Não é essencial, mas o silício enrijece a planta, e as gramíneas o acumulam.
Os catorze nutrientes tratados até aqui são essenciais: sem qualquer um deles a planta não completa o ciclo.
O silício está numa categoria diferente, a dos elementos benéficos, e por isso não entra na lista dos essenciais nem no quadro de sintomas de deficiência.
Sua falta não impede o ciclo, mas sua presença traz vantagens agronômicas concretas, sobretudo nas gramíneas, o que o torna relevante numa disciplina de cereais (Malavolta, 2006; Taiz et al., 2017).
Elemento benéfico
elemento que não é essencial, ou seja, a planta completa o ciclo sem ele, mas que melhora o crescimento, a produtividade ou a tolerância a estresses quando disponível. O silício é o exemplo clássico para as gramíneas.
A planta absorve o silício como ácido monossilícico (H₄SiO₄), forma neutra presente na solução do solo, e o transporta pelo xilema com a corrente transpiratória.
Ao chegar às folhas, o silício se deposita nas paredes celulares e na epiderme como sílica polimerizada, formando corpos silicosos e uma dupla camada de sílica sob a cutícula.
É um destino estrutural, não metabólico: o silício não é incorporado a enzimas ou moléculas orgânicas como os nutrientes assimilados, ele endurece fisicamente o tecido onde se deposita.
A capacidade de acumular silício separa as culturas, e é uma diferença nutricional real entre os cinco cereais.
As gramíneas em geral são acumuladoras de silício, e o arroz se destaca como um dos maiores acumuladores entre as culturas de grão.
É por isso que a casca do arroz é tão rica em sílica, um fato que já aparece na sua exportação elevada.
As demais gramíneas, milho, sorgo, milheto e trigo, também acumulam silício, porém em grau menor que o arroz.
O benefício do silício vem justamente do seu depósito estrutural, e se traduz em quatro efeitos documentados na literatura de nutrição mineral.
Efeitos agronômicos do silício nos cereais
- Reforço mecânico das paredes celulares, que aumenta a resistência ao acamamento
- Barreira física na epiderme, que dificulta a penetração de fungos e o ataque de insetos mastigadores
- Melhora das relações hídricas, com redução da transpiração excessiva e maior tolerância à seca
- Atenuação de estresses abióticos, como a toxidez de alumínio e de manganês
O recorte prático liga o silício diretamente aos desafios do sequeiro no Cerrado.
No arroz de terras altas, onde o acamamento, a brusone e o veranico limitam o rendimento, o silício reúne, num só elemento, reforço de colmo, barreira a doença e tolerância hídrica.
A adubação silicatada, com fontes como silicatos de cálcio e magnésio, é uma ferramenta considerada nesse contexto, mais promissora nas culturas acumuladoras.
Nota técnica
o silício não substitui nem compensa a falta de nutriente essencial. Ele é uma ferramenta complementar, de maior retorno esperado nas culturas acumuladoras como o arroz, e não deve ser tratado como item central de um programa nutricional antes de os essenciais estarem supridos.
Fertilidade do solo: a leitura da análise¶
A análise de solo traduz a disponibilidade em índices, e a ordem de leitura decide o diagnóstico.
Toda a nutrição descrita até aqui parte de um pressuposto: o nutriente tem de estar disponível na solução do solo.
A análise de solo é o instrumento que mede essa disponibilidade e a traduz em índices interpretáveis.
Ler um laudo é converter uma coluna de números no retrato químico do solo, e esse retrato antecede qualquer recomendação de correção ou adubação, tema da próxima aula.
O primeiro parâmetro é a textura, porque a classe textural comanda a interpretação de matéria orgânica, fósforo e capacidade de troca.
A fração argila carrega quase toda a capacidade de reter cátions e água, além de fixar fósforo.
Errar a textura propaga erro para a leitura de três nutrientes.
A classificação segue a Instrução Normativa SPA/MAPA nº 2/2021, pela porcentagem de argila e pelo delta.
Textura (classes operacionais, IN SPA/MAPA nº 2/2021)
- Δ = % de areia − % de argila
- Arenosa (tipo 1): argila < 15%; ou 15% ≤ argila < 35% com Δ ≥ 50%
- Média (tipo 2): 15% ≤ argila < 35% com Δ < 50%
- Argilosa (tipo 3): argila entre 35% e 60%
- Muito argilosa: argila > 60%
A acidez do solo não é um número único.
A acidez ativa é a concentração de H⁺ na solução, medida pelo pH.
A acidez trocável é o alumínio e o hidrogênio adsorvidos aos coloides, sendo o Al³⁺ a fração que intoxica a raiz.
A acidez potencial (H⁺ + Al³⁺) é todo o hidrogênio e alumínio que se manifestaria ao elevar o pH a 7,0.
Distinguir as três é o que separa um solo apenas ácido de um solo ácido e tóxico.
O pH costuma vir em cloreto de cálcio (CaCl₂), cerca de 0,5 a 0,6 unidade abaixo do pH em água no mesmo solo, mais estável entre laboratórios, padrão no Cerrado.
Os índices que sintetizam o diagnóstico exigem cálculo, e cada um abre o próximo.
As faixas de interpretação seguem Sousa e Lobato (2004), a referência para solos de Cerrado.
Índices calculados a partir do laudo
- Soma de bases: SB = K + Ca + Mg (cátions em cmolc/dm³)
- Acidez potencial = H⁺ + Al³⁺
- CTC a pH 7 (T) = SB + H⁺ + Al³⁺
- Saturação por bases: V (%) = (100 × SB) ÷ T
- Saturação por alumínio: m (%) = (100 × Al³⁺) ÷ (Al³⁺ + SB)
O fluxograma resume a ordem obrigatória de leitura, do parâmetro físico ao diagnóstico.
A sequência importa porque a tabela de matéria orgânica, de fósforo, de CTC e de potássio depende de um valor lido ou calculado antes.
flowchart TD
A[Textura: converte fracoes e calcula delta] --> B[pH: acidez ativa]
B --> C[Materia organica: le pela textura]
C --> D[Fosforo: le pela faixa de argila]
D --> E[Ca e Mg: teor e relacao Ca:Mg]
E --> F[Aluminio trocavel: acidez toxica]
F --> G[Converte K de mg para cmolc]
G --> H[SB e acidez potencial]
H --> I[CTC a pH 7 pela textura]
I --> J[Classifica K pela CTC]
J --> K[Calcula V e m]
K --> L[Diagnostico: fertilidade natural e nutriente limitante]
Duas classificações de fertilidade natural saem direto dos índices.
Solo com V ≥ 50% é eutrófico; com V < 50% é distrófico.
Solo com m ≥ 50% é álico, onde o alumínio domina a troca e intoxica a raiz; com m < 50% é não álico.
No Cerrado, o distrófico é a regra, e a leitura do alumínio é o que separa o solo que só precisa de bases daquele que também precisa de desintoxicação.
As faixas de interpretação de cada índice, por classe textural e por faixa de argila, estão nas tabelas de referência de Sousa e Lobato (2004).
O ponto conceitual a reter é que a classificação de um índice descreve o estado do solo, mas o alvo depende da cultura: cada cereal tem uma saturação por bases em que rende melhor, e é contra esse alvo, não contra a régua genérica, que se lê o laudo.
A tradução desse diagnóstico em dose de corretivo e de adubo é o objeto da próxima aula.
Um laudo interpretado, do físico ao diagnóstico¶
A sequência só faz sentido aplicada; um laudo real amarra os índices em um retrato único.
Toda a lógica da seção anterior se condensa na leitura de um laudo.
Considere o talhão TH-07, camada de 0 a 20 cm.
Cátions em cmolc/dm³, fósforo e potássio nas unidades indicadas.
| Areia | Silte | Argila | pH CaCl₂ | M.O. (g/dm³) | P Mehlich-1 | K | Ca²⁺ | Mg²⁺ | Al³⁺ | H⁺ |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 456 g/kg | 173 g/kg | 371 g/kg | 4,7 | 25,3 | 9,5 mg/dm³ | 29,4 mg/dm³ | 1,53 | 0,78 | 0,13 | 3,52 |
A leitura segue a ordem obrigatória.
A argila de 37,1% passa de 35%, então a textura é argilosa sem precisar do delta, e é essa classe que comanda as tabelas seguintes.
O pH 4,7 é médio.
A matéria orgânica 25,3, na linha argilosa, é média.
O fósforo 9,5, na faixa de argila de 36 a 60%, é adequado. Cálcio 1,53 e magnésio 0,78 são adequados, com relação Ca:Mg de 1,96:1, dentro da faixa.
O alumínio 0,13 é muito baixo: apesar do pH ácido, este solo não tem toxidez de alumínio.
Entram os cálculos, na ordem em que um índice abre o próximo.
TH-07: cálculos encadeados
- K em cmolc/dm³: 29,4 ÷ 391 = 0,0752
- SB = 0,0752 + 1,53 + 0,78 = 2,3852
- Acidez potencial (H + Al) = 3,52 + 0,13 = 3,6500 (média)
- T (CTC a pH 7) = 2,3852 + 3,6500 = 6,0352 → argilosa, baixa
- K classificado (CTC ≥ 4,0): 29,4 mg/dm³ cai em 26,00 a 50,99 → médio
- V = (100 × 2,3852) ÷ 6,0352 = 39,52%
- m = (100 × 0,13) ÷ (0,13 + 2,3852) = 5,17%
O retrato sai da leitura conjunta.
O solo é distrófico (V < 50%) e não álico (m < 50%): ácido e pobre em bases, mas sem alumínio para envenenar a raiz.
A CTC baixa, apesar da textura argilosa, denuncia argila de baixa atividade típica de Cerrado, o que pede adubação parcelada em vez de dose única.
O fósforo e as bases já em nível adequado sugerem histórico de manejo.
O nutriente que mais limita este solo é a própria saturação por bases, aquém do alvo das culturas de grão exigentes.
Como corrigir esse quadro, e quanto aplicar, é o que a aula de adubação e manejo nutricional trata a seguir.
O diagnóstico, aqui, está fechado.
Erros comuns de interpretação e de manejo nutricional¶
A maioria dos erros vem de ordem de leitura trocada e de nutriente lido fora de contexto.
Os erros de nutrição e de leitura de solo concentram-se em poucos pontos previsíveis, e todos têm consequência direta na decisão.
Conhecê-los é a diferença entre quem lê números e quem decide manejo.
Erros comuns e sua consequência
- Interpretar fósforo sem citar o extrator: Mehlich-1, resina e Mehlich-3 têm faixas diferentes; leitura errada
- Ler o potássio antes de calcular a CTC: a tabela de K depende da capacidade de troca
- Somar o K em mg/dm³ com Ca e Mg em cmolc/dm³: sem dividir por 391, a SB vira ficção
- Ler o pH antes do alumínio no Cerrado: não distingue solo apenas ácido de solo ácido e tóxico
- Interpretar matéria orgânica e CTC sem a textura: régua errada, teor adequado lido como baixo
- Repor um nutriente sem olhar o antagonista: repor Zn sem revisar a dose de P não resolve a deficiência de Zn
- Confundir deficiência com remobilização: folha baixeira amarela no enchimento pode ser dreno para o grão, não doença
O erro de ordem de leitura merece destaque porque é invisível para quem não conhece a lógica das tabelas.
A textura comanda matéria orgânica, fósforo e CTC; a CTC comanda o potássio.
Cada índice depende de um anterior, e a análise lida fora de ordem produz um diagnóstico internamente inconsistente, mesmo com todos os números certos no laudo.
No lado da planta, o erro espelhado é tratar cada nutriente isoladamente, ignorando que absorção, translocação e assimilação estão amarradas: um sintoma de nitrogênio pode nascer de falta de molibdênio, e um de zinco, de excesso de fósforo.
Um solo rico não garante uma planta bem nutrida, e é essa distância que a nutrição mineral preenche.
Entre a solução do solo e o grão há um percurso de absorção, transporte e assimilação, e cada cereal o cumpre à sua maneira: o milho com absorção precoce voraz, o milheto reciclando na palhada o que extraiu do solo, o trigo cobrando exigência por tonelada, o sorgo e o arroz suportando o que os outros não suportam.
Diante de uma lavoura que definha, a pergunta do agrônomo não é apenas o que falta no solo, mas onde o percurso se interrompeu: o nutriente não chegou à raiz, não subiu à folha ou não entrou na molécula certa.
Responder a isso, cultura por cultura, é o que transforma a leitura de um laudo em manejo.
Referências¶
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Aula 07: Fertilidade do Solo e Nutrição de Plantas · Lista de Exercícios¶
Tip
Tente responder antes de olhar o gabarito das respostas, ao final desta página. O esforço de recuperar da memória é o que consolida a aprendizagem; consultar a resposta cedo demais desperdiça esse ganho. O gabarito comentado dos Blocos B e C está no gabarito das respostas, ao final desta página. O Bloco A não tem gabarito: será discutido no início da Aula 08.
Bloco A: Recuperação (sem gabarito; discussão no início da Aula 08)¶
A1. Na Aula 06 você viu que o Azospirillum brasilense não é o rizóbio da soja: estabelece uma associação (sem nódulo, sem grande fixação de N) e seu benefício central em gramínea é a arquitetura radicular, com raízes mais numerosas e profundas. A Aula 07 mostra que fósforo e micronutrientes metálicos chegam à raiz por difusão, um caminho lento que depende de a raiz explorar o volume de solo. (i) Ligue as duas aulas: por que uma raiz maior muda mais o suprimento de fósforo (difusão) do que o de cálcio (fluxo de massa)? (ii) Se o benefício do inoculante é enraizamento, e não nitrogênio, por que quem corta a adubação nitrogenada contando com a bactéria colhe lavoura subnutrida?
A2. A Aula 06 insistiu que manter a palhada sobre o solo é um dos três princípios do SPD, e que milheto e sorgo são os grandes produtores de palha do sistema em Mato Grosso. A Aula 07 explica o outro lado dessa palha: ela devolve nutriente ao solo pela ciclagem. (i) Distinga extração de exportação e explique por que a colheita para silagem empobrece o solo muito mais rápido que a colheita de grão. (ii) O arroz de terras altas é o que a fonte chama de exemplo clássico: o potássio é o nutriente que ele mais absorve, mas a deficiência de nitrogênio é a que mais reduz o rendimento. Por que "o mais extraído" não é "o mais limitante", e o que isso muda numa recomendação de adubação?
A3. O texto fecha a Aula 07 lendo um laudo do físico ao diagnóstico e afirma que "a tradução desse diagnóstico em dose de corretivo e de adubo é o objeto da próxima aula". (i) Por que a ordem de leitura da análise não é indiferente, ou seja, por que a textura tem de ser lida antes da matéria orgânica, do fósforo e da CTC, e a CTC antes do potássio? (ii) Um solo distrófico e não álico e um solo distrófico e álico têm o mesmo problema de bases, mas pedem correções diferentes. Que diferença é essa, e como ela prepara a decisão de calagem que a Aula 08 vai calcular?
Bloco B: Consolidação da Aula 07¶
B1. (múltipla escolha) Numa lavoura de trigo, as folhas novas (superiores) apresentam clorose uniforme, a planta está clorótica e de pouco crescimento. O técnico, supondo tratar-se de nitrogênio, quer aplicar ureia. Considerando a regra da mobilidade, o nutriente mais provavelmente limitante e a justificativa são:
(a) Nitrogênio, pois a clorose foliar em cereal costuma responder à adubação nitrogenada.
(b) Enxofre, que, pouco móvel na planta, manifesta a falta nas folhas novas.
(c) Magnésio, átomo central da clorofila, cuja falta clorosa as folhas.
(d) Potássio, cuja deficiência produz clorose e necrose nas folhas.
B2. (múltipla escolha) Um laudo traz K = 39 mg/dm³, Ca²⁺ = 2,1 cmolc/dm³ e Mg²⁺ = 0,9 cmolc/dm³. Para obter a soma de bases (SB), um técnico somou 39 + 2,1 + 0,9. Sobre esse procedimento, a orientação correta é:
(a) Converter o K de mg/dm³ para cmolc/dm³ (dividir por 391) antes de somar.
(b) A soma direta é válida, pois K, Ca e Mg são todos cátions trocáveis.
(c) Multiplicar Ca e Mg por 391 para igualar suas unidades às do potássio informado.
(d) O erro afeta apenas o m%, não a soma de bases nem o V%.
B3. (múltipla escolha) Dois laudos de Cerrado trazem: solo A com V = 62% e m = 8%; solo B com V = 41% e m = 63%. A classificação de fertilidade natural correta é:
(a) A é distrófico; B é eutrófico, pois o maior m de B indica mais bases.
(b) Os dois são álicos, porque o V está abaixo de 70% em ambos.
(c) A é eutrófico e não álico; B é distrófico e álico.
(d) A é álico e B é eutrófico e não álico.
B4. (múltipla escolha) Um milho no Cerrado recebeu adubação fosfatada pesada. Semanas depois, as folhas novas mostram encurtamento e faixas cloróticas, com a conhecida gema branca. O produtor quer apenas pulverizar zinco. A leitura correta do caso é:
(a) O sintoma é de excesso de zinco, que induz deficiência de fósforo.
(b) Basta aplicar zinco via foliar, pois a dose de fósforo aplicada no sulco não interfere na absorção de zinco pela planta.
(c) A gema branca indica deficiência de ferro, corrigida com sulfato ferroso.
(d) O excesso de fósforo induziu a falta de zinco; a correção exige rever a dose de P.
B5. (aberta) Um produtor diz que "cereal é tudo igual na adubação, o que muda é a dose". Usando as tabelas de exportação e de extração da fonte, conteste a afirmação. (i) Compare trigo, arroz de terras altas e milho quanto ao que cada grão exporta por tonelada, destacando quem é o mais exigente em N, P e K e a exportação de cálcio de arroz e milho. (ii) Explique por que a ordem de extração dos macronutrientes não é a mesma nas três culturas e por que o nutriente mais extraído não é necessariamente o mais limitante.
B6. (aberta) O texto afirma que o nutriente tem "dois eixos de mobilidade independentes" e que eles "frequentemente se opõem", usando fósforo e cálcio como opostos exatos. (i) Descreva o fósforo e o cálcio em cada eixo (mobilidade no solo e mobilidade na planta). (ii) Explique o que cada eixo prevê na prática: o que a mobilidade no solo decide e o que a mobilidade na planta decide.
B7. (aberta) Numa palestra, ouve-se que "o silício é o nutriente que falta ao arroz". Corrija e qualifique a frase com a fonte. (i) Por que o silício não é classificado como nutriente essencial, e como isso se define? (ii) Por que a adubação silicatada é considerada mais promissora no arroz de terras altas do que nos demais cereais, e qual ressalva a fonte faz sobre seu papel no programa nutricional?
Bloco C: Cálculo e diagnóstico¶
C1. (cálculo) Considere o talhão TH-11, camada de 0 a 20 cm. Cátions em cmolc/dm³; potássio em mg/dm³.
| Areia | Silte | Argila | pH CaCl₂ | K | Ca²⁺ | Mg²⁺ | Al³⁺ | H⁺ |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 620 g/kg | 160 g/kg | 220 g/kg | 4,3 | 39,1 mg/dm³ | 0,45 | 0,20 | 0,90 | 4,10 |
Seguindo a ordem obrigatória de leitura e as fórmulas da fonte: (i) classifique a textura pela porcentagem de argila e pelo delta; (ii) converta o K para cmolc/dm³ e calcule SB, acidez potencial (H + Al), CTC a pH 7 (T), V% e m%; (iii) classifique o solo em eutrófico/distrófico e álico/não álico e diga qual é o fator que mais limita este solo. Arredonde a 4 casas decimais.
C2. (diagnóstico integrado) Dois vizinhos planejam a safra no Cerrado de MT. - Produtor 1: vem colhendo milho para grão e quer passar a colher a lavoura inteira para silagem, imaginando que "sai a mesma coisa do solo". - Produtor 2: vai semear milheto como planta de cobertura e, na sequência, um cereal em grão; pensa em não mexer no nitrogênio da cultura seguinte, "já que o milheto devolve tudo".
Diagnostique o risco nutricional de cada decisão cruzando translocação, ciclagem e relação C/N, e recomende a conduta.