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Clima, Fenologia e Formação da Produtividade nos Cereais

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O ambiente estabelece o teto do que uma lavoura de cereal pode produzir, e o manejo apenas decide quanto desse teto será alcançado.

Radiação solar, temperatura e água chegam ao dossel numa quantidade que o produtor não controla, e a planta responde a cada uma delas de um jeito que muda conforme o estádio em que se encontra.

É por isso que a mesma seca de quinze dias pode passar despercebida num momento do ciclo e destruir metade da produtividade em outro: o que está em jogo não é a quantidade de estresse, mas o órgão que a planta está construindo quando o estresse chega.

Este texto trata as cinco culturas da Fitotecnia III (arroz, milho, sorgo, milheto e trigo) como um sistema comparável.

As cinco são gramíneas que formam grãos, mas percorrem o ciclo em ritmos diferentes, exigem faixas térmicas distintas, respondem de modo oposto ao comprimento do dia e definem a produtividade em janelas que não coincidem no calendário.

Entender essas diferenças é o que separa um calendário de operações copiado da folhinha de um calendário construído a partir da fenologia da cultura e do clima da região.


1. As três variáveis que definem o teto produtivo

Radiação, temperatura e água fixam o potencial; o metabolismo C3 ou C4 decide o aproveitamento.

A produção de matéria seca de um cereal é, em primeira aproximação, o produto da radiação solar interceptada pelo dossel pela eficiência com que a planta converte essa radiação em biomassa.

A temperatura governa a velocidade de todos os processos, da emergência ao enchimento de grãos.

A água é o recurso que, faltando, fecha os estômatos e interrompe a fotossíntese antes de qualquer outro fator.

Entre os cereais, a diferença mais estrutural nessa conversão está no tipo de metabolismo fotossintético.

As plantas C3 (trigo e arroz) fixam o carbono diretamente pela enzima Rubisco e sofrem fotorrespiração intensa sob calor e alta luminosidade, o que reduz sua eficiência exatamente nas condições do Cerrado.

As plantas C4 (milho, sorgo e milheto) concentram CO₂ nas células da bainha do feixe vascular antes da fixação, suprimem a fotorrespiração e mantêm alta eficiência acima de 25 °C. A consequência prática aparece na eficiência de uso da radiação e da água.

A tabela reúne o comportamento fisiológico de base das cinco culturas.

Ela explica, antes de qualquer dado agronômico, por que sorgo e milheto ocupam ambientes onde o arroz de sequeiro e o milho falham.

Atributo Trigo Arroz (terras altas) Milho Sorgo Milheto
Metabolismo fotossintético C3 C3 C4 C4 C4
Eficiência de uso da radiação Menor Menor (50–60% da do milho sob calor) Maior Maior Maior
Sensibilidade à seca Alta Alta Média-alta Baixa Muito baixa
Necessidade hídrica (mm/ciclo) 350–500 450–700 400–700 350–500 250–400
Adaptação ao Cerrado Média (exige altitude) Média Alta Muito alta Muito alta

Metabolismo C4

via fotossintética em que o CO₂ é fixado primeiro no mesófilo pela enzima PEP-carboxilase e concentrado nas células da bainha antes de entrar no ciclo de Calvin. Suprime a fotorrespiração e eleva a eficiência de uso da água e da radiação em temperaturas altas. Milho, sorgo e milheto são C4; trigo e arroz são C3.

A eficiência de uso da água separa as C4 entre si e explica a hierarquia de rusticidade do grupo.

A quantidade de água gasta para produzir um grama de matéria seca cai do trigo ao milheto: cerca de 505 g no trigo, perto de 370 g no milho, em torno de 270 a 320 g no sorgo e de 282 a 302 g no milheto.

Sorgo e milheto giram na mesma faixa, muito abaixo do milho e do trigo, e é essa economia hídrica que os leva a produzir grão onde as demais culturas do grupo falham.


2. Exigências climáticas comparadas das cinco culturas

Cada cereal opera numa faixa térmica e hídrica própria; sair dela custa produtividade.

Toda cultura tem uma temperatura basal inferior, abaixo da qual o desenvolvimento cessa, uma faixa ótima de crescimento e uma temperatura basal superior, acima da qual o rendimento despenca.

A necessidade hídrica total e o estádio em que o déficit mais pesa completam o quadro.

A tabela a seguir é a referência central de exigências climáticas das cinco culturas e deve ser lida antes de qualquer decisão de época de semeadura: ela indica, para cada cereal, o alvo térmico e o momento em que a água é inegociável.

Parâmetro Trigo Arroz Milho Sorgo Milheto
Temperatura basal inferior (°C) 5 (germinação 3–5,5) 10 10 10 10
Temperatura ótima (°C) 20–25 25–30 25–30 dia / 16–19 noite 29–33 31–34
Temperatura basal superior (°C) 30–32 35 35–38 35–38 35–38
Necessidade hídrica (mm/ciclo) 350–500 450–700 400–700 350–500 250–400
Estádio crítico de déficit hídrico Espigamento e enchimento Emborrachamento e florescimento Pendoamento e enchimento Florescimento Florescimento
Categoria agronômica Inverno Verão Verão Verão Verão

O trigo é o único cereal de inverno do grupo, com faixa térmica deslocada para baixo: germina perto de 3 °C a 5 °C e sofre esterilidade de espigas com calor acima de 30 °C. As quatro culturas de verão pedem calor para germinar e não toleram geada.

Entre elas, sorgo e milheto suportam as temperaturas mais altas (basal superior de 38 °C) e o milheto ainda fertiliza grãos sob calor extremo, o que o torna a cultura de fronteira térmica do sistema.

Cerrado / MT

o trigo de sequeiro só é viável acima de 800 m de altitude no estado; milho, sorgo e milheto ocupam a safrinha, semeados de janeiro a março; o arroz de terras altas depende de chuva bem distribuída e é o mais exposto a veranicos entre as C3 e C4 de verão do grupo.


3. Temperatura e soma térmica: o relógio interno da planta

A planta conta calor acumulado, não dias de calendário, para mudar de estádio.

Cada subperíodo do ciclo exige o acúmulo de uma quantidade definida de calor para se completar.

Esse acúmulo é medido pelo índice graus-dia (GD), a soma das temperaturas médias diárias acima da temperatura basal da cultura.

O conceito assume relação linear entre temperatura e velocidade de desenvolvimento dentro da faixa útil, com uma temperatura basal inferior abaixo da qual o crescimento para e uma basal superior acima da qual ele também é prejudicado.

A forma correta de cálculo diário parte da média entre a temperatura máxima e a mínima do dia, e não de uma "temperatura média" genérica:

GD do dia = (T máx + T mín) / 2 − Tb

onde T máx e T mín são as temperaturas máxima e mínima do dia e Tb a temperatura basal inferior da cultura.

Duas correções acompanham a fórmula.

Se a máxima ultrapassar a basal superior (TB), usa-se TB no lugar dela, porque o calor excedente não acelera o desenvolvimento.

Se a mínima cair abaixo da Tb, usa-se a própria Tb, porque abaixo dela não há desenvolvimento a computar.

Para o arroz, Tb = 10 °C e TB = 35 °C. A soma térmica de um período é o acúmulo desses valores diários:

GD acumulado = Σ [ (T máx + T mín) / 2 − Tb ]

Graus-dia (GD)

unidade de tempo térmico, expressa em °C-dia, que soma o calor diário disponível acima da temperatura basal da cultura. Substitui o "dias após a semeadura" na previsão de estádios, porque o desenvolvimento responde à temperatura acumulada, não ao tempo de calendário.

O acúmulo só faz sentido ao longo de vários dias.

A tabela mostra o cálculo para uma sequência de cinco dias numa lavoura de milho, com temperatura basal de 10 °C. Cada linha calcula o graus-dia do dia e a coluna final soma o que já foi acumulado desde o início da contagem.

Dia T máx (°C) T mín (°C) Média (°C) GD do dia (Tb = 10) GD acumulado
1 30 18 24,0 14,0 14,0
2 32 20 26,0 16,0 30,0
3 28 16 22,0 12,0 42,0
4 31 19 25,0 15,0 57,0
5 33 21 27,0 17,0 74,0

Ao fim de cinco dias, a lavoura acumulou 74 °C-dia.

A contagem prossegue dia após dia até o acumulado atingir a exigência do subperíodo em curso, e é aí que a planta transita para o estádio seguinte.

Se num desses dias a máxima tivesse chegado a 38 °C, o cálculo usaria a basal superior no lugar dela (da ordem de 35 °C para o milho), porque o calor acima desse limite não converte em desenvolvimento.

É por isso que o número de dias para completar uma fase muda de safra para safra, mas o total de graus-dia permanece aproximadamente constante.

O estádio ED2 do milheto ilustra o ponto: exige cerca de 450 °C-dia, o que se completa em cerca de 50 dias a 19 °C ou em apenas 21 dias a 31 °C (para a basal do milheto, Tb = 10 °C: 450 ÷ 9 ≈ 50 e 450 ÷ 21 ≈ 21).

A planta não conta dias, conta calor.

Classificação de ciclo por cultura

Classificar cultivares por soma térmica é mais estável do que classificá-las por dias.

A duração do ciclo varia entre cultivares, e cada cultura tem uma escala de classes que vai das mais precoces às mais tardias.

A classificação por soma térmica é mais confiável que a por dias, porque o número de dias muda com a temperatura da safra, enquanto o total de graus-dia de uma cultivar permanece relativamente estável.

O milho e o zoneamento agrícola já adotam essa base; nas demais culturas, as fontes brasileiras ainda expressam as classes em dias, convertíveis em graus-dia pelo acúmulo de (T máx + T mín)/2 menos a basal.

A tabela reúne a classificação de cada cultura na base em que a fonte a fornece.

Cultura Base da classificação Mais precoce Médio Mais tardio
Milho Unidades de calor (10–30 °C, emergência→florescimento) ≤ 780 U.C. 780–860 U.C. > 860 U.C.
Arroz Graus-dia (emergência→diferenciação do primórdio) 536 GD (ciclo curto) 638 GD (ciclo médio) 772 GD (ciclo longo)
Arroz Dias (ciclo total) ≤ 115 dias (precoce) 115–135 dias (intermediária) > 135 dias (tardia)
Sorgo Dias (emergência→maturação fisiológica) Grupo I: < 110 dias Grupo II: 100–120 dias Grupo III: > 120 dias
Trigo Dias (semeadura→maturação, Sul do Brasil) Superprecoce: ~120 dias Precoce a médio Tardio: 150–160 dias
Milheto Dias até o florescimento (exemplos de cultivares) ~45–50 dias ~50 dias ~53–58 dias

O milho classifica-se em precoce, médio e tardio pela soma de unidades de calor entre emergência e florescimento, e também é agrupado por dias da emergência à maturação fisiológica (Grupo I < 110 dias, Grupo II 110–145 dias, Grupo III > 145 dias).

O arroz mostra bem por que a soma térmica é preferível: cultivares de terras altas percorrem o ciclo completo em faixas amplas de graus-dia (a IAC 165 fecha com cerca de 1.030 GD, enquanto a IAC 47 exige cerca de 2.021 GD), diferença que o número de dias esconde.

O trigo, no Sul do Brasil, distribui-se em cinco classes, da superprecoce (~120 dias) à tardia (150 a 160 dias), passando por precoce, médio e semitardio.

No milheto, os poucos materiais disponíveis vão de precoces, que florescem por volta de 45 a 50 dias, a tardios, perto de 53 a 58 dias, faixa estreita coerente com o ciclo curto da cultura.

A tabela compara a temperatura basal e a soma térmica aproximada do ciclo das cinco culturas.

Ela mostra que o milheto fecha o ciclo com o menor acúmulo térmico, o que sustenta seu ciclo curto de safrinha, enquanto o trigo, apesar da basal mais baixa, exige a maior soma térmica total.

Cultura Temperatura basal inferior (°C) Soma térmica aproximada do ciclo (°C-dia) Ciclo médio (dias)
Trigo 5 1.600–2.200 110–130
Arroz 10 1.700–1.900 100–120
Milho 10 1.400–1.800 100–125
Sorgo 10 1.300–1.700 95–115
Milheto 10 1.000–1.500 75–95

No milho, a temperatura atua nos dois sentidos.

Noites e dias quentes aceleram o ciclo e reduzem o rendimento, porque a respiração noturna alta consome os fotoassimilados produzidos durante o dia.

Noites frias alongam o ciclo sem ganho, com metabolismo lento e menor acúmulo diário de matéria seca.

Essa relação entre temperatura noturna, respiração e rendimento é a chave para entender o efeito da altitude, tratado a seguir.


4. Altitude: o fator que decide onde cada cereal se cultiva no Cerrado

A altitude age pela temperatura, mudando a duração do ciclo e o risco.

A altitude não é uma variável climática independente.

Ela age sobre a temperatura, e é pela temperatura que afeta a fotossíntese, a respiração, a duração do ciclo e a exposição a doenças.

A cada centena de metros de elevação, a temperatura média cai, as máximas diurnas se aproximam da faixa ótima e as mínimas noturnas baixam.

Esse deslocamento térmico tem efeitos opostos conforme a cultura, e é por isso que a mesma altitude que viabiliza o trigo no Cerrado é a que impede o milho safrinha no extremo sul.

Milho

No milho, maior altitude significa maior produtividade dentro dos limites do Cerrado, e a causa é a temperatura mais baixa.

Como a planta avança por acúmulo de graus-dia, o clima mais frio faz cada fase acumular menos calor por dia e durar mais dias.

O pendoamento tardio é o sinal visível disso, mas não é ele que alonga o enchimento: a fase de enchimento vem depois e está submetida às mesmas temperaturas amenas, de modo que também se estende por mais dias, pela mesma razão.

É esse enchimento mais longo, somado às noites frias que reduzem a respiração e a perda de fotoassimilados, que aumenta a massa depositada em cada grão.

As temperaturas máximas ficam mais próximas do ótimo, e as mínimas noturnas mais baixas reduzem a taxa de respiração e o ponto de compensação, poupando fotoassimilados.

O resultado é um ciclo mais longo e mais produtivo.

O limite aparece no sul do país, onde altitude alta soma-se a inverno frio e o risco de geada passa a impedir a semeadura de safrinha.

Trigo

O trigo é o caso em que a altitude deixa de ser vantagem e vira condição de viabilidade.

No Cerrado de sequeiro, a cultura só é indicada acima de 800 m, e sob irrigação acima de 600 m em Mato Grosso.

Abaixo desses limiares, o calor durante o espigamento e o enchimento provoca esterilidade de espigas e favorece a brusone, a doença mais problemática do trigo no centro do país quando o espigamento coincide com ambiente quente e úmido.

A altitude é o que traz a temperatura do enchimento para uma faixa em que o grão se forma sem aborto e sem colapso sanitário.

Arroz

No arroz de terras altas, o termo "terras altas" designa o sistema de cultivo sem inundação, não a altitude em si.

A elevação, porém, importa pelo risco fitossanitário: em regiões de maior altitude e latitude, a combinação de amplitude térmica e orvalho eleva a pressão de brusone, a mesma doença que limita o trigo.

Em altitude e latitude baixas, a temperatura mais alta acelera o ciclo e favorece a competição de forrageiras em consórcio, mas reduz a incidência da doença.

Sorgo

No sorgo, a altitude entra pela porta do frio.

Por sua origem tropical, a cultura é sensível a baixas temperaturas noturnas, e regiões acima de 900 m aumentam o risco de duas perdas simultâneas: baixa temperatura na semeadura, que prejudica a germinação, e frio no florescimento, que causa esterilidade de espiguetas e abre porta para o ergot ou melado (Claviceps africana) quando o florescimento coincide com temperaturas abaixo de 20 °C. Para o sorgo, altitude alta no sul do país é fator de risco, não de ganho.

Milheto

O milheto é o menos dependente de altitude entre os cinco, porque tolera calor extremo e solos marginais, mas não tolera geada em nenhum estádio.

Sua exposição ao frio vem menos da altitude e mais do calendário: na safrinha tardia, o florescimento e o enchimento caem em junho e julho, quando as mínimas noturnas podem baixar de 15 °C, o que induz esterilidade floral e retarda a translocação para a panícula.

A altitude agrava esse risco onde soma frio noturno à estação já fria.

A tabela sintetiza o papel da altitude nas cinco culturas.

Ela deve ser lida na chave do risco: para o milho, altitude é oportunidade; para trigo e arroz, é condição sanitária e térmica; para sorgo e milheto, é fator de frio a evitar.

Cultura Papel da altitude Limiar de referência Efeito e consequência
Milho Favorável Quanto maior, melhor (até o limite da geada) Ciclo mais longo, enchimento estendido, noites frias poupam respiração, maior produtividade
Trigo Condição de viabilidade > 800 m sequeiro; > 600 m irrigado (MT) Reduz calor e brusone no espigamento; abaixo do limiar, esterilidade e doença
Arroz Ambivalente Alta altitude/latitude Mais brusone em altitude alta; ciclo acelerado e mais competição em altitude baixa
Sorgo Desfavorável (frio) > 900 m (sul) Frio na germinação e no florescimento; esterilidade e ergot
Milheto Pouco sensível, mas intolerante a geada Estação fria Frio noturno < 15 °C no enchimento induz esterilidade e trava translocação

Nota técnica

a altitude também estratifica doenças de modo independente da cultura. No milho, a ferrugem-comum (Puccinia sorghi) predomina acima de 700 a 900 m, enquanto a ferrugem-polissora (Puccinia polysora) domina abaixo de 700 m; os enfezamentos por molicutes seguem padrão parecido. Escolher altitude é, em parte, escolher o espectro de doenças que a lavoura vai enfrentar.


5. Fotoperíodo, juvenilidade e a resposta fotoperiódica das cinco culturas

O comprimento do dia controla a transição reprodutiva, e cada cereal responde diferente.

Fotoperíodo é o número de horas de luz entre o nascer e o pôr do sol; a resposta da planta a essa duração chama-se fotoperiodismo.

O ponto que costuma escapar é que a planta não mede a duração da luz, e sim a duração do escuro.

Uma planta de dias curtos floresce sob noites longas, e uma de dias longos floresce sob noites curtas.

Interromper a noite com um pulso de luz equivale a encurtá-la, com efeito oposto nos dois grupos.

A percepção ocorre nas folhas, por meio do fitocromo, e o sinal de florescimento é transportado ao meristema apical pelo floema.

Antes de responder ao fotoperíodo, porém, a planta precisa estar madura o bastante para percebê-lo.

Esse é o conceito de juvenilidade: existe uma fase inicial em que a planta não reage ao estímulo fotoperiódico por mais indutivo que ele seja, e só depois de atingir um número mínimo de folhas ou de acumular certo desenvolvimento é que se torna competente para florescer.

No arroz, essa fase tem nome próprio e é medida.

Juvenilidade (fase juvenil)

período inicial do desenvolvimento em que a planta é insensível ao estímulo fotoperiódico, independentemente do comprimento do dia. Só após completá-la a planta percebe o fotoperíodo e pode iniciar a transição para a fase reprodutiva. No arroz corresponde à Fase Vegetativa Básica (FVB).

O arroz divide a fase vegetativa em duas partes que traduzem esse conceito.

A Fase Vegetativa Básica (FVB) não é influenciada pelo fotoperíodo e tem duração relativamente constante; é a expressão da juvenilidade.

A Fase Sensível ao Fotoperíodo (FSF) vem depois, e sua duração varia conforme o comprimento do dia e a cultivar.

É a combinação das duas que classifica as cultivares de arroz, como mostra a tabela, e explica por que uma cultivar insensível pode ser semeada o ano todo enquanto uma muito sensível trava fora de sua janela.

Classe de arroz Fase sensível ao fotoperíodo (FSF) Comportamento
Insensível Curta (< 30 dias) Floresce e amadurece o ano todo, se água e temperatura permitirem; serve a cultivos múltiplos
Pouco sensível > 30 dias Ciclo aumenta muito quando o fotoperíodo passa de 12 h, mas ainda floresce
Muito sensível Grande Ciclo cresce muito com dias mais longos; não floresce além do fotoperíodo crítico

Cada cultura do grupo tem um perfil fotoperiódico distinto, e conhecê-lo é o que evita semear uma cultivar sensível numa época em que o dia a impede de florescer.

A tabela compara os cinco cereais.

O trigo é o único de dias longos; os demais são de dias curtos ou, no caso do milho, praticamente neutros na prática de campo brasileira.

Cultura Grupo fotoperiódico Sensibilidade prática no Brasil Consequência de manejo
Trigo Dias longos Sensível conforme genes Ppd; acelera até 20 h/dia Cultivares insensíveis (alelo Ppd-D1a) permitem cultivo tropical; sensíveis atrasam a antese fora da janela fria
Arroz Dias curtos Variável (insensível a muito sensível); ótimo em 9–10 h Insensíveis servem a qualquer época; sensíveis travam fora da janela tradicional
Milho Neutro na prática (origem de dias curtos) Sensível só acima de 33° S No Cerrado e no Brasil Central, fotoperíodo não limita; dias longos só alongam a fase vegetativa no extremo sul
Sorgo Dias curtos Híbridos modernos insensíveis A conversão de germoplasma eliminou a fotossensibilidade dos materiais africanos, liberando a safrinha
Milheto Dias curtos Sensível Na safrinha floresce cedo (~50 dias), e o atraso da semeadura antecipa ainda mais o florescimento, cortando biomassa e grão

O trigo merece detalhe porque nele três sistemas de genes operam juntos e é comum confundi-los.

Os genes Vrn determinam a necessidade de frio (vernalização); os genes Ppd determinam a resposta ao comprimento do dia; e os genes Eps controlam a precocidade intrínseca, aquela que persiste mesmo com frio e fotoperíodo plenamente satisfeitos.

No Brasil Central, o fotoperíodo pesa mais que a vernalização para explicar a adaptação das cultivares, porque o frio invernal é insuficiente para satisfazer trigos de inverno, e semear uma cultivar sensível fora de época pode gerar perfilhamento vegetativo prolongado sem diferenciação floral, reduzindo o número de espigas férteis por metro quadrado.

Fotoperíodo contra soma térmica: dois relógios simultâneos

O calor acumulado marca o ritmo; o dia decide quando a reprodução começa.

Soma térmica e fotoperíodo governam o desenvolvimento ao mesmo tempo, mas coisas diferentes.

A soma térmica controla a velocidade com que a planta percorre cada subperíodo: mais calor acumulado, avanço mais rápido entre estádios.

O fotoperíodo controla o momento da transição da fase vegetativa para a reprodutiva, adiantando ou atrasando a iniciação floral conforme o comprimento do dia seja indutivo ou não.

Em cultivares insensíveis ao fotoperíodo, a soma térmica sozinha prevê bem a data de florescimento, e é por isso que o milho e os híbridos modernos de sorgo se planejam por graus-dia.

Em cultivares sensíveis, os dois relógios precisam ser considerados juntos, e no trigo essa integração aparece no quociente fototermal, a razão entre a radiação disponível e a temperatura média no período crítico.

A tabela contrasta os dois mecanismos.

Aspecto Soma térmica (graus-dia) Fotoperíodo
O que controla Velocidade de avanço entre estádios Momento da transição vegetativo→reprodutivo
O que a planta percebe Temperatura acumulada acima da basal Duração do período de escuro (via fitocromo, nas folhas)
Onde domina Culturas e cultivares insensíveis ao fotoperíodo Cultivares sensíveis fora de sua latitude de origem
Uso prático Previsão de estádios por acúmulo térmico Escolha de cultivar por época e latitude

6. Fenologia: as escalas oficiais e como reconhecer o estádio no campo

Manejar por estádio, não por data, garante a operação no momento fisiológico certo.

A fenologia descreve o ciclo por estádios de desenvolvimento, marcos morfológicos que a planta atinge independentemente da data.

Como o clima muda de ano para ano, duas lavouras semeadas no mesmo dia podem estar em estádios diferentes semanas depois, e é o estádio, não o calendário, que define quando aplicar nitrogênio de cobertura, quando entrar com herbicida ou fungicida e quando colher.

Existe um critério comum às escalas modernas das cinco culturas: um estádio só é atribuído à lavoura quando 50% ou mais das plantas o atingiram ou o superaram, porque uma população nunca está inteiramente sincronizada.

Determinar o estádio a campo depende de olhar a estrutura certa.

Nas gramíneas, o marco vegetativo é o colar (ou lígula, ou aurícula), a linha descolorida no verso da folha, no ponto onde a lâmina se separa da bainha.

Uma folha só é contada como completamente desenvolvida quando seu colar está visível.

No milho, o estádio vegetativo é a folha de inserção mais alta com o colar visível; depois de cerca de seis folhas, as basais degeneram e é preciso dissecar o colmo longitudinalmente e contar a partir do nó da quinta folha, um internódio que costuma ter perto de 1 cm.

No arroz e no sorgo, conta-se o colar da folha mais alta do colmo principal.

No trigo, a escala de Feekes marca a formação dos nós do colmo, palpáveis na base da planta.

Emborrachamento: o estádio que os alunos não enxergam

A inflorescência já existe, escondida na bainha, e é aí que tudo se decide.

O emborrachamento é o estádio que mais confunde, e a razão da confusão é justamente o que o torna importante.

Nesse ponto, a inflorescência (a espiga do trigo, a panícula do arroz, do sorgo e do milheto) já está formada, mas permanece encerrada dentro da bainha da folha-bandeira, a última folha antes da inflorescência.

A bainha incha e forma uma dilatação no ápice do colmo, a "barriga" que dá nome ao estádio.

Nada aparece por fora, e é esse o problema: o aluno olha a planta, não vê inflorescência nenhuma e conclui que ainda está na fase vegetativa, quando na verdade a planta atravessa o momento reprodutivo mais sensível de todo o ciclo.

Reconhecer o emborrachamento no campo se faz pela palpação.

Apalpa-se o topo do colmo, logo abaixo da folha-bandeira, e sente-se uma estrutura firme e alongada dentro da bainha, a inflorescência encerrada.

No arroz, esse estádio corresponde ao R2 e é descrito como o "gargalo invisível" da produção, porque nele ocorre a microsporogênese, a formação dos grãos de pólen, no período de 14 a 7 dias antes da emissão da panícula.

É quando o frio causa mais esterilidade, e é por isso que, no arroz irrigado do Sul, eleva-se a lâmina de água para 20 a 25 cm durante o emborrachamento: a massa de água amortece as variações térmicas noturnas e protege o pólen em formação.

O emborrachamento antecede a exserção, o momento em que a inflorescência finalmente emerge da bainha e se torna visível.

Emborrachamento (estádio de bota)

fase em que a inflorescência já formada permanece encerrada dentro da bainha da folha-bandeira, que incha e forma uma dilatação visível ("barriga") no ápice do colmo. Antecede a exserção da inflorescência. É o período da microsporogênese e o mais sensível ao frio e ao déficit hídrico. Detecta-se por palpação, não por inspeção visual externa.

As escalas oficiais das cinco culturas

O milho usa a escala de Ritchie, Hanway e Benson, com estádios vegetativos (V) numerados pela folha de colar mais alto e estádios reprodutivos (R) do florescimento à maturidade.

Estádios vegetativos Estádios reprodutivos
VE: emergência R1: florescimento (emissão dos estilos-estigmas)
V1, V2, V3… V(n): folhas por colar visível R2: grão leitoso
VT: pendoamento R3: grão pastoso
R4: grão farináceo
R5: grão farináceo-duro
R6: maturidade fisiológica (camada preta)

O trigo dispõe de duas escalas complementares.

A de Feekes e Large usa numeração simples de 1 a 11.4; a de Zadoks é decimal, de 00 a 99, preferida na pesquisa por sua precisão.

A tabela alinha as duas nos marcos principais.

Estádio Feekes/Large Zadoks
Emergência 1 10
Início do perfilhamento 2 20–21
Alongamento (1º nó visível) 6 31
Emborrachamento (folha-bandeira, bainha inchada) 8–10 41–49
Espigamento 10.1–10.5 51–59
Florescimento (antese) 10.5.1–10.5.4 60–69
Maturação fisiológica 11.4 87–92

O arroz é codificado no material da disciplina em plântula (S0–S3), vegetativo (V1–V13, pelo colar de cada folha) e reprodutivo (R0–R9), com marcadores morfológicos diretos e contáveis, mais adequados ao campo que os graus-dia.

Código Estádio Fase
S0–S3 Da semente seca à emergência da primeira folha Plântula
V1–V13 Colar formado em cada folha do colmo principal Vegetativa
R0 Diferenciação do primórdio floral Reprodutiva
R2 Emborrachamento (panícula encerrada, "barriga") Reprodutiva
R3 Exserção da panícula Reprodutiva
R4 Antese (floração, das 9 h às 13 h) Reprodutiva
R5–R9 Enchimento e maturação do grão Maturação

O sorgo organiza-se em três estádios de crescimento (EC1, EC2, EC3), cada um responsável por um componente de produtividade, detalhados em dez códigos (E0 a E9).

A correspondência entre eles é a chave para saber o que a planta está definindo em cada momento.

Código Estádio Fase (EC) O que define
E0 Emergência EC1 n.a.
E1–E2 Colar da 3ª e da 5ª folha visível EC1 Tamanho potencial da panícula
E3 Diferenciação do ponto de crescimento EC1→EC2 n.a.
E4 Folha-bandeira visível EC2 Número de grãos por panícula
E5 Emborrachamento EC2 Número de grãos por panícula
E6 Florescimento EC2→EC3 Fecundação
E7–E8 Grão leitoso e pastoso EC3 Peso do grão
E9 Maturidade fisiológica EC3 Peso do grão

O milheto segue a escala de Vanderlip, com três fases de crescimento (FC1, FC2, FC3) e nove estádios de desenvolvimento (ED1 a ED9).

Estádio Marco morfológico Fase
ED1 Germinação até a segunda folha FC1 (estabelecimento)
ED2 Segunda folha até diferenciação da panícula (~450 °C-dia) FC1
ED3 Diferenciação da panícula até elongação do colmo FC1
ED4 Elongação do colmo FC1
ED5 Emborrachamento (panícula na bainha, folha-bandeira expandida) FC1
ED6 50% de florescimento FC2 (reprodutiva)
ED7–ED9 Enchimento à maturidade fisiológica (camada preta no hilo) FC3

Nota técnica

no milheto convivem duas numerações da escala, a de Vanderlip (ED1–ED9) usada na pesquisa e a numeração do material da disciplina, com definições morfológicas próprias. Ao comparar estádios entre trabalhos, manter sempre a mesma origem de escala para evitar erro de correspondência.

Apesar das numerações distintas, as cinco culturas percorrem a mesma sequência biológica.

A tabela de equivalência alinha os marcos que importam para o manejo e é a ferramenta mais direta para transferir uma decisão de uma cultura para outra.

Evento fisiológico Trigo (Feekes/Zadoks) Milho (V/R) Arroz (S/V/R) Sorgo (E) Milheto (ED)
Emergência 1 / Z10 VE S3 / V1 E0 ED1
Perfilhamento / folhas iniciais 2–3 / Z20–29 V1–V5 V3–V7 E1–E2 ED2
Emborrachamento 8–10 / Z41–49 não clássico (pré-VT) R2 E5 ED5
Florescimento / antese 10.5 / Z60–69 R1 (VT precede) R4 E6 ED6
Maturidade fisiológica 11.4 / Z87–92 R6 R9 E9 ED9

O milho é a exceção quanto ao emborrachamento.

Como a espiga se desenvolve encerrada nas palhas e o pendão emerge no pendoamento (VT), não há no milho uma "bota" externa análoga à das demais; o momento crítico equivalente concentra-se entre o pendoamento e a emissão dos estilos-estigmas (VT a R1).

O fluxograma resume a progressão comum das três fases que todas as cinco culturas atravessam.

flowchart TD
    A[Germinação e emergência] --> B[Fase vegetativa: folhas e perfilhos]
    B --> C[Iniciação floral: transição vegetativo para reprodutivo]
    C --> D[Emborrachamento: inflorescencia encerrada na bainha]
    D --> E[Exserção e florescimento antese]
    E --> F[Enchimento de graos]
    F --> G[Maturidade fisiologica]
    G --> H[Maturidade de colheita]

7. Períodos críticos de sensibilidade

O mesmo estresse pesa pouco na fase vegetativa e destrói a produtividade na floração.

Aqui se resolve a pergunta de abertura.

Quinze dias sem chuva na fase vegetativa reduzem o crescimento, mas a planta compensa depois; os mesmos quinze dias no florescimento comprometem a fecundação e a produtividade de forma irreversível.

A razão é que cada componente de rendimento se define numa janela específica, e o estresse que cai dentro dela não se recupera.

Os dois momentos de maior vulnerabilidade, comuns às cinco culturas, são a microsporogênese, no emborrachamento, quando o frio causa esterilidade, e a antese, quando o calor e o déficit hídrico impedem a fecundação.

A tabela reúne o estádio crítico de cada cultura e o tipo de estresse que mais pesa nele.

Ela é o mapa de risco por cultura: indica quando a irrigação, se disponível, é inegociável, e quando a época de semeadura precisa afastar o florescimento das condições adversas.

Cultura Estádio crítico Estresse mais danoso Efeito
Trigo Espigamento e enchimento Calor > 30 °C; geada na antese Esterilidade de espigas; grão abortado
Arroz Emborrachamento e florescimento Frio < 15–20 °C na microsporogênese; calor > 35 °C na antese Esterilidade de espiguetas
Milho Pendoamento a enchimento (VT–R1) Déficit hídrico; calor > 30 °C no pólen Falha de fecundação; grãos não fixados
Sorgo Florescimento (EC2/E6) Déficit hídrico; frio < 20 °C Redução de grãos por panícula; ergot
Milheto Florescimento e enchimento Frio < 15 °C; déficit hídrico Esterilidade floral; translocação travada

O milho quantifica bem o custo do estresse no momento errado.

A maior redução de rendimento por déficit hídrico ocorre nas duas semanas antes e nas duas semanas depois do florescimento, período de cerca de quatro semanas que é o mais importante para irrigar.

Nota técnica

no florescimento do milho, dois dias de déficit hídrico reduzem a produtividade em mais de 20%; de quatro a oito dias, em mais de 50%. O mecanismo é o ressecamento dos estilos-estigmas, que perdem a umidade necessária para sustentar a germinação do pólen e o crescimento do tubo polínico até o óvulo. Nenhuma aplicação posterior recupera o grão que não foi fixado.


8. Formação dos componentes de produtividade

A produtividade é um produto de fatores definidos em janelas que fecham em sequência.

A produtividade de um cereal não se forma de uma vez.

Ela é o produto de componentes construídos em momentos distintos do ciclo, e a lógica é multiplicativa: a queda em qualquer um deles propaga-se diretamente para o resultado final.

O modelo geral é:

Produtividade = inflorescências/m² × grãos/inflorescência × fração de grãos férteis × massa do grão

onde a inflorescência é a espiga no trigo e no milho e a panícula no arroz, no sorgo e no milheto.

Cada componente tem uma janela de determinação, e o manejo que chega depois que a janela fechou não recupera o que se perdeu nela.

A tabela mostra essa sequência, e é a base do calendário de manejo: ela diz o que a planta está definindo em cada fase e, por consequência, qual estresse evitar e qual insumo priorizar em cada momento.

Componente Janela de determinação Consequência de estresse na janela
Número de inflorescências/m² Emergência ao fim do perfilhamento Menos espigas ou panículas por área
Número de grãos/inflorescência Alongamento até a antese mais ~10 dias Panícula ou espiga menor; menos grãos
Fração de grãos férteis Microsporogênese (emborrachamento) e antese Esterilidade; grãos que não vingam
Massa do grão Enchimento, até a maturidade fisiológica Grãos leves; menor massa de mil grãos

As culturas têm plasticidade e compensam dentro de limites: menor densidade de panículas pode ser seguida de mais grãos por panícula ou de grãos mais pesados, desde que água, nutrientes e radiação permitam.

Mas o limite existe, e forçar um componente além do ótimo reduz outro, elevando a esterilidade ou baixando a massa do grão.

Quando dois componentes são atingidos ao mesmo tempo, a recuperação é mínima.

Sobre esse conjunto pesa a Lei do Mínimo: o componente mais limitado determina a produtividade, por melhores que estejam os demais.

Uma lavoura com muitas panículas por metro quadrado, mas com esterilidade alta por frio no emborrachamento, rende menos que outra com menos panículas e alta fertilidade.

O modelo multiplicativo conversa com a partição de matéria seca por meio do índice de colheita (IC), a fração da biomassa total que vira grão.

A produção econômica é a produção biológica multiplicada pelo IC, e foi sobretudo aumentando o IC, pela redução da estatura das plantas com os genes de nanismo (Rht no trigo, sd1 no arroz), que a Revolução Verde elevou os rendimentos, e não pela produção de mais biomassa total.

O fluxograma ordena o fechamento das janelas ao longo do ciclo.

flowchart TD
    A[Perfilhamento: define inflorescencias por m2] --> B[Alongamento a antese: define graos por inflorescencia]
    B --> C[Emborrachamento e antese: define fracao fertil]
    C --> D[Enchimento: define massa do grao]
    D --> E[Produtividade final: produto dos quatro componentes]

9. ZARC: traduzir clima e fenologia em época de semeadura em Mato Grosso

O zoneamento afasta o florescimento do risco e condiciona o crédito e o seguro.

Tudo o que foi tratado até aqui converge numa decisão prática: quando semear.

O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), instrumento do Ministério da Agricultura implantado em 1996 tendo o trigo como primeira cultura, é a ferramenta oficial dessa decisão.

Ele indica, por município, cultura, tipo de solo e grupo de cultivar, os períodos de semeadura em que a probabilidade de êxito é maior, posicionando as fases críticas do ciclo longe dos riscos climáticos previsíveis.

O critério de aptidão é objetivo: um município entra no zoneamento quando existe época de semeadura em que ao menos 80% das safras obtenham êxito, ou seja, oito anos favoráveis em cada dez de histórico climático.

Cada portaria anual do ZARC é composta por quatro peças.

A primeira classifica os solos pela capacidade de retenção de água em três tipos (arenoso, textura média e argiloso).

A segunda divide o ano em 36 períodos de cerca de dez dias, os decêndios, numerados de 1 (1 a 10 de janeiro) a 36 (21 a 31 de dezembro).

A terceira lista as cultivares indicadas, todas inscritas no Registro Nacional de Cultivares.

A quarta relaciona os municípios aptos com seus períodos por tipo de solo e grupo de cultivar.

A tabela reúne as janelas de semeadura das cinco culturas em Mato Grosso, que resultam de combinar a exigência climática de cada cereal com o regime de chuvas do estado.

Cultura Janela de semeadura em MT Racional climático
Arroz (terras altas) Outubro a dezembro Aproveita o início e o pico da estação chuvosa
Trigo (sequeiro, > 800 m) Janeiro a fevereiro Maturação e colheita caem na estação seca, fugindo da brusone
Milho safrinha Janeiro a fevereiro (risco crescente após 1º de março) Semeadura logo após a soja, antes do fim das chuvas
Sorgo granífero Fevereiro a março Tolera o déficit hídrico do fim da estação; opção para semeadura tardia
Milheto Fevereiro a março Ciclo curto e tolerância à seca fecham o ciclo na transição seca

O fluxograma representa a árvore de decisão da época de semeadura via ZARC, o caminho que o produtor percorre para saber se sua semeadura estará amparada.

flowchart TD
    A[Definir municipio e cultura] --> B[Classificar o solo: arenoso, medio ou argiloso]
    B --> C[Escolher grupo de cultivar no RNC]
    C --> D{Ha decendio indicado para essa combinacao?}
    D -- Sim --> E[Semear dentro do decendio indicado]
    D -- Nao --> F[Municipio ou epoca sem aptidao: risco nao coberto]
    E --> G[Acesso a Proagro e subvencao ao seguro rural]

O vínculo com o crédito e o seguro é o que dá força ao instrumento.

Seguir o calendário do ZARC é pré-requisito para o Proagro, para o Proagro Mais da agricultura familiar e para a subvenção federal ao seguro rural, na qual o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) cobre parte do prêmio (atualmente 40% para a maioria das culturas e 20% para a soja, conforme a regra vigente desde 2022 e dentro de limites por CPF), cabendo ao produtor o restante, com alguns estados complementando essa parcela.

Quem semeia fora do calendário perde a cobertura.

Vale reter um limite conceitual do instrumento.

Nota técnica

o ZARC minimiza o risco climático, não maximiza o rendimento. O período que dá a maior produtividade pode não coincidir com o de menor risco, e buscá-lo exige considerações além do calendário. As portarias são revistas a cada ano; consultar sempre a do ano corrente no Diário Oficial da União.


A fenologia e o ZARC transformam o clima, que ninguém controla, numa decisão que se controla: a data de semeadura e o calendário de operações que decorre dela.

O agrônomo que planeja por data fixa de folhinha aplica nitrogênio quando o calendário manda, não quando a planta está no perfilhamento; entra com fungicida por rotina, não no emborrachamento em que a espiga se decide; e semeia na janela que sempre usou, não na que posiciona o florescimento longe do frio ou da seca.

A diferença entre as duas posturas não aparece no dia da semeadura.

Aparece na colheita, quando a lavoura que respeitou a fenologia da cultura e o zoneamento da região entrega o que o ambiente permitia, e a outra descobre, tarde demais, qual janela deixou fechar.


Referências

BORÉM, Aluízio; SCHEEREN, Pedro Luiz. Trigo: do plantio à colheita. Viçosa, MG: Editora UFV, 2015. 260 p.

COMO a planta de arroz se desenvolve. Informações Agronômicas, Piracicaba: POTAFOS, n. 99, set. 2002. Encarte técnico.

CRUZ, José Carlos et al. (ed.). Milho: o produtor pergunta, a Embrapa responde. Brasília, DF: Embrapa Informação Tecnológica, 2011. 338 p. (Coleção 500 perguntas, 500 respostas).

EMBRAPA MILHO E SORGO. Cultivo do milheto. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo. (Sistema de Produção). Disponível na Infoteca-e da Embrapa.

KERBAUY, Gilberto Barbante. Fisiologia vegetal. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.

PEREIRA FILHO, Israel Alexandre; RODRIGUES, José Avelino Santos (ed.). Sorgo: o produtor pergunta, a Embrapa responde. Brasília, DF: Embrapa, 2015. 327 p. (Coleção 500 perguntas, 500 respostas).

RITCHIE, Steven W.; HANWAY, John J.; BENSON, Garren O. Como a planta de milho se desenvolve. Piracicaba: POTAFOS, 2003. Encarte de Informações Agronômicas, n. 103.

SANTIAGO, Carlos Martins; BRESEGHELLO, Heloisa Celis de Paiva; FERREIRA, Carlos Magri (ed.). Arroz: o produtor pergunta, a Embrapa responde. 2. ed. rev. e ampl. Brasília, DF: Embrapa, 2013. (Coleção 500 perguntas, 500 respostas).

YOSHIDA, Shouichi. Fundamentals of rice crop science. Los Baños: International Rice Research Institute, 1981. 269 p.


Aula 04: Clima, Fenologia e Formação da Produtividade nos Cereais · Lista de exercícios (perguntas)

Tip

Tente responder antes de olhar o gabarito das respostas, ao final desta página. O esforço de recuperar o conteúdo de memória, mesmo com erro, é o que consolida a aprendizagem; ver a resposta pronta cedo demais rouba esse ganho. O gabarito comentado dos Blocos B e C está no gabarito das respostas, ao final desta página. As questões do Bloco A não têm gabarito: serão discutidas em sala.


Bloco A: Recuperação (será discutido no início da Aula 05; sem gabarito neste material)

A1. Na Aula 03 você viu que sorgo e milheto (C4) gastam cerca de 271 g e 282 a 302 g de água por grama de matéria seca, contra 505 g do trigo e 372 g do milho. Na Aula 04, a tabela de exigências climáticas mostra sorgo e milheto com a maior temperatura basal superior (38 °C) e a menor necessidade hídrica do grupo. (i) Junte os dois conjuntos de dados para explicar por que sorgo e milheto produzem grão em ambientes onde o arroz de terras altas e o milho falham. (ii) Por que essa mesma vantagem fisiológica não faz do trigo uma boa cultura de sequeiro no Cerrado de baixa altitude?

A2. O Ponto de Partida da Aula 04 pergunta por que quinze dias sem chuva podem ser inofensivos numa fase e devastadores em outra. (i) Usando o conceito de fonte e dreno e a ideia de que o teto de peso do grão é fixado cedo, na divisão celular do endosperma (Aula 03), explique por que o déficit na fase vegetativa se recupera e o déficit na floração não. (ii) Ligue essa resposta ao modelo multiplicativo de componentes de produtividade e diga qual componente cada momento de estresse compromete.

A3. Na Aula 04 você classificou cultivares por soma térmica (graus-dia) e viu que o número de dias muda com a temperatura da safra, enquanto o total de graus-dia permanece relativamente estável. A próxima aula pergunta como escolher a cultivar certa entre dezenas de opções. (i) Por que a classificação de ciclo por graus-dia é mais confiável que a por dias na hora de encaixar uma cultivar na janela de semeadura do ZARC? (ii) Que ligação existe entre o grupo de ciclo da cultivar e o posicionamento do florescimento longe do frio ou da seca, decisão que a escolha de cultivar (Aula 05) precisa respeitar?


Bloco B: Consolidação

B1. (múltipla escolha) Um produtor de milho no Cerrado tem irrigação de capacidade limitada e só consegue garantir água plena por um período de cerca de quatro semanas em todo o ciclo. Para minimizar a perda de rendimento, esse período deve cobrir:

(a) A fase vegetativa inicial, quando se define o número de fileiras e a planta ainda compensa depois.
(b) O perfilhamento, que fixa o número de espigas por metro quadrado sem recuperação posterior.
(c) As quatro semanas ao redor do florescimento, quando o déficit hídrico mais reduz o rendimento.
(d) O enchimento de grãos, do grão leitoso à camada preta, por ser a fase mais longa do ciclo.

B2. (múltipla escolha) Subir algumas centenas de metros de altitude muda a temperatura e, com ela, o desempenho de cada cereal, às vezes em sentidos opostos. Assinale a leitura correta desse efeito:

(a) Para o sorgo a altitude maior é vantagem, pois o frio noturno concentra mais açúcar no grão.
(b) Para o milho é favorável: o clima frio alonga o enchimento e as noites frias poupam respiração.
(c) Para o trigo é indiferente, pois sua faixa térmica baixa já o protege do calor em qualquer cota.
(d) Para o milheto quanto maior a altitude, menor o risco de frio no florescimento e no enchimento.

B3. (múltipla escolha) Um estudante percorre uma lavoura de arroz de terras altas, não vê nenhuma panícula e conclui que a planta ainda está na fase vegetativa. O agrônomo apalpa o topo do colmo, logo abaixo da folha-bandeira, e discorda. A leitura correta é:

(a) O estudante acertou: sem panícula visível, a planta ainda produz folhas e não iniciou a reprodução.
(b) A palpação não vale para o arroz, cuja fenologia se determina só por soma térmica acumulada, e não por estrutura.
(c) A planta está no espigamento, pois é a panícula já exserida que se sente à palpação do colmo.
(d) A planta está no emborrachamento: panícula formada e encerrada na bainha, em plena microsporogênese.

B4. (múltipla escolha) Um produtor atrasa a semeadura do milheto safrinha de fevereiro para o fim de março, achando que "dá mais tempo de planta". Sobre o efeito no florescimento e na produção, é correto afirmar:

(a) O atraso antecipa o florescimento (planta de dias curtos), encurta o ciclo e corta biomassa e grão.
(b) O atraso adia o florescimento, pois dias mais curtos alongam a fase vegetativa do milheto.
(c) O atraso não altera o florescimento, porque o milheto é neutro ao fotoperíodo, como o milho no Brasil Central.
(d) O atraso antecipa o florescimento, mas eleva o grão, pois concentra o enchimento na estação seca favorável.

B5. (aberta) Um agrônomo precisa indicar uma cultura para uma gleba de solo raso, sujeita a veranicos, em região quente e de baixa altitude no Cerrado, onde uma tentativa anterior de arroz de terras altas de sequeiro quebrou por seca. Usando temperatura basal, necessidade hídrica e tipo de metabolismo, justifique por que arroz e trigo são maus candidatos e qual grupo de culturas é o indicado.

B6. (aberta) Uma lavoura de trigo apresentou muitas espigas por metro quadrado, mas rendeu abaixo do esperado; a análise apontou alta esterilidade por um pulso de calor no espigamento. (i) Escreva o modelo multiplicativo dos componentes de produtividade e diga qual componente foi atingido e em que janela ele se define. (ii) Explique, com a Lei do Mínimo, por que o excesso de espigas não compensou a perda. (iii) Relacione o ganho histórico de produtividade da Revolução Verde ao índice de colheita, e não ao aumento de biomassa total.

B7. (aberta) Um produtor de MT pergunta por que deveria semear "na janela do ZARC" se conhece uma época que, em anos bons, rende mais. (i) Explique o critério objetivo de aptidão do ZARC e o que ele minimiza. (ii) Diga por que a época de maior produtividade pode não ser a indicada. (iii) Aponte a consequência prática de semear fora da janela quanto a crédito e seguro rural.


Bloco C: Cálculo e diagnóstico

C1. (cálculo) Numa lavoura de arroz de terras altas (temperatura basal inferior Tb = 10 °C; basal superior TB = 35 °C), registraram-se cinco dias com as seguintes temperaturas:

Dia 1: T máx 33 °C, T mín 21 °C. Dia 2: T máx 38 °C, T mín 23 °C. Dia 3: T máx 31 °C, T mín 19 °C. Dia 4: T máx 37 °C, T mín 25 °C. Dia 5: T máx 30 °C, T mín 16 °C.

(i) Calcule o graus-dia de cada dia e o acumulado nos cinco dias, aplicando a correção da basal superior quando couber. (ii) Sabendo que o subperíodo emergência até diferenciação do primórdio de uma cultivar de ciclo curto exige 536 GD, e supondo que o ritmo médio desses cinco dias se mantenha, estime em quantos dias esse subperíodo se completaria. (iii) Explique por que o número de dias para completar essa fase muda de safra para safra, mas o total de graus-dia permanece aproximadamente constante. Use as fórmulas da fonte e arredonde a 4 casas decimais.

C2. (diagnóstico ZARC / época de semeadura em MT) Um agrônomo planeja a próxima safra numa propriedade de Mato Grosso e traz três decisões para você avaliar.

(i) Quer semear trigo de sequeiro numa gleba a 500 m de altitude. (ii) Pretende semear milho safrinha em 20 de março, porque a colheita da soja atrasou; identifique o decêndio dessa data (decêndio 1 = 1 a 10 de janeiro; decêndio 36 = 21 a 31 de dezembro) e diagnostique o risco. (iii) Pergunta por que sorgo granífero e milheto aparecem como a opção de semeadura tardia em fevereiro e março no estado. Diagnostique cada ponto usando os limiares e as janelas do ZARC para MT.


Gabarito

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