Interpretação da Análise de Solo¶
Por que ninguém te contratará para "ler" uma análise de solo¶
Deixa eu começar tirando uma ilusão do caminho.
Interpretar uma análise de solo não é ler os números do laudo em voz alta.
Qualquer pessoa consegue dizer que o pH é 4,7 e que o potássio deu 29,4.
O que o produtor paga para você fazer é transformar uma coluna de valores em uma decisão de manejo: quanto de calcário, quanto de fósforo, se dá para plantar direto ou se aquele talhão vai comer adubo sem devolver produtividade.
Ao longo deste texto eu vou pegar um laudo real, o talhão TH-07, e percorrer cada linha com você.
Não me interessa só o "o quê", me interessa o "por quê".
Quando terminar, quero que você consiga pegar uma análise que nunca viu, sem professor por perto, e dizer com segurança o que aquele solo tem, o que falta e o que fazer.
Vamos usar o laudo abaixo o tempo todo.
Guarde-o, porque cada seção puxa uma coluna dele.
| Talhão | Prof. (cm) | Areia (g/kg) | Silte (g/kg) | Argila (g/kg) | pH CaCl₂ | M.O. (g/dm³) | P* (mg/dm³) | K⁺ (mg/dm³) | Ca²⁺ | Mg²⁺ | Al³⁺ | H⁺ |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| TH-07 | 0-20 | 456 | 173 | 371 | 4,7 | 25,3 | 9,5 | 29,4 | 1,53 | 0,78 | 0,13 | 3,52 |
Ca²⁺, Mg²⁺, Al³⁺ e H⁺ estão em cmolc/dm³.
O asterisco no fósforo indica o extrator Mehlich-1, e eu quero que você já grave uma coisa que muita gente ignora: o número do fósforo só significa alguma coisa porque sabemos qual extrator o gerou.
Um "9,5 de P" sem o extrator é um número órfão.
Mehlich-1, resina e Mehlich-3 lêem o fósforo do solo de formas diferentes, com faixas de interpretação diferentes.
Trocar o extrator sem trocar a tabela de interpretação é o erro silencioso mais comum que eu vejo em relatório de estagiário.
Fica o aviso.
As classes de textura seguem a Instrução Normativa SPA/MAPA nº 2, de 9 de novembro de 2021.
As faixas de fertilidade seguem Sousa e Lobato (2004), a referência para solos de Cerrado.
Primeiro passo: a textura, porque ela destrava todo o resto¶
Antes de tocar em pH, calcário ou adubo, eu sempre determino a textura.
Parece estranho começar pela física, mas há uma razão prática forte: a classe textural é a chave que abre a coluna certa em várias tabelas de interpretação química mais adiante (matéria orgânica, fósforo, CTC).
Se você errar a textura, erra a leitura de três nutrientes de uma vez só.
O laudo traz areia, silte e argila em g/kg.
Converter para porcentagem é dividir por dez, porque 1.000 g equivalem a 100%.
Areia: 456 ÷ 10 = 45,6000% Silte: 173 ÷ 10 = 17,3000% Argila: 371 ÷ 10 = 37,1000%
Confira sempre se a soma fecha em 100%: 45,6000 + 17,3000 + 37,1000 = 100,0000%.
Fechou.
Se não fechar, algo entrou errado no laudo, e você já detectou o problema antes de recomendar nada.
Existe um método gráfico clássico para nomear a textura, mas eu vou deixar ele de lado de propósito e trabalhar com o critério normativo, que é objetivo e não depende de você acertar o ponto num diagrama.
A IN SPA/MAPA nº 2/2021 classifica o solo pela porcentagem de argila e por um cálculo auxiliar, o delta:
Δ = % de areia − % de argila
As classes operacionais ficam assim:
- Textura arenosa (solo tipo 1): argila < 15%; ou 15% ≤ argila < 35% com Δ ≥ 50%.
- Textura média (solo tipo 2): 15% ≤ argila < 35% com Δ < 50%.
- Textura argilosa (solo tipo 3): argila entre 35% e 60%.
- Textura muito argilosa: argila > 60%.
O delta só entra em cena quando a argila está naquela faixa ambígua de 15% a 35%.
Ele existe para separar um solo que é arenoso "de verdade" de um que tem argila suficiente para se comportar como textura média.
Fora dessa faixa, o valor de argila resolve sozinho.
No nosso talhão a argila deu 37,1000%, acima de 35%.
Não preciso nem calcular o delta: é textura argilosa (tipo 3).
Por que isso importa tanto?
Porque a fração argila carrega quase toda a capacidade do solo de reter cátions e água.
Um solo argiloso segura mais nutriente, resiste mais à lixiviação e, ao mesmo tempo, fixa mais fósforo.
Cada uma dessas consequências vai reaparecer nas próximas seções.
A textura não é um detalhe descritivo, é o contexto que muda o significado de todos os outros números.
pH: a acidez que você mede, e a que você não vê¶
O pH do laudo veio em CaCl₂, e deu 4,7.
Você vai ver laudos em água (H₂O) também, e precisa saber a diferença, senão vai comparar coisas incomparáveis.
O pH em água mede a acidez atual da solução do solo.
O pH em CaCl₂ adiciona um sal que desloca parte do alumínio e do hidrogênio adsorvidos, revelando uma acidez um pouco maior, mais próxima do que a raiz enfrenta em condições reais de adubação.
Por isso o pH em CaCl₂ costuma dar cerca de 0,5 a 0,6 unidade abaixo do pH em água no mesmo solo.
Ele também é menos sensível a variações de umidade e época de coleta, o que o torna mais estável entre laboratórios.
É por isso que Cerrado, na prática, roda quase tudo em CaCl₂.
A interpretação segue esta tabela (Sousa e Lobato, 2004):
| Acidez ativa | Baixo | Médio | Adequado | Alto | Muito alto |
|---|---|---|---|---|---|
| pH (CaCl₂) | ≤ 4,49 | 4,50 a 4,89 | 4,90 a 5,59 | 5,60 a 5,89 | ≥ 5,90 |
| pH (H₂O) | ≤ 5,19 | 5,20 a 5,59 | 5,60 a 6,39 | 6,40 a 6,69 | ≥ 6,70 |
Nosso valor, 4,7, cai na faixa médio.
Note o detalhe que confunde o aluno: um pH classificado como "médio" ainda é um solo ácido que provavelmente precisará de calagem.
As classes aqui descrevem a acidez ativa, não dizem sozinhas se você vai calcariar.
A decisão de calagem sai mais adiante, da saturação por bases.
Guarde essa distinção, porque ela separa quem decora de quem entende.
Matéria orgânica: por que a mesma quantidade vale diferente¶
A matéria orgânica (M.O.) deu 25,3 g/dm³.
Repare que a tabela de M.O. não é única: ela depende da textura.
E aqui está o motivo, que muita gente lê e não pensa.
Solo arenoso não consegue segurar muita matéria orgânica, então nele um teor "baixo" em números absolutos já pode ser aceitável.
Solo argiloso protege fisicamente a matéria orgânica dentro dos agregados, acumula mais, e por isso a régua sobe.
| Textura | Baixa | Média | Adequada | Alta |
|---|---|---|---|---|
| Arenosa | < 8 | 8 a 10 | 11 a 15 | > 15 |
| Média | < 16 | 16 a 20 | 21 a 30 | > 30 |
| Argilosa | < 24 | 24 a 30 | 31 a 45 | > 45 |
| Muito argilosa | < 28 | 28 a 35 | 36 a 52 | > 52 |
Como o TH-07 é argiloso, uso a linha "Argilosa".
O valor 25,3 está entre 24 e 30, então a M.O. é média.
Se este mesmo solo fosse arenoso, 25,3 g/dm³ seria um teor altíssimo.
A textura, de novo, mudando o veredito.
Uma implicação prática que vale a pena carregar: em solo argiloso, matéria orgânica média já contribui de forma relevante para a CTC e para o suprimento lento de nitrogênio e enxofre.
Não espere milagre, mas também não trate 25,3 como pouco.
Fósforo: o nutriente que a argila esconde¶
Chegamos ao ponto onde a textura mostra a cara de novo, e de forma mais dramática.
O fósforo (Mehlich-1) deu 9,5 mg/dm³.
A tabela de P é organizada por faixa de argila, não por classe textural nomeada:
| Argila (%) | Muito baixo | Baixo | Médio | Adequado | Alto |
|---|---|---|---|---|---|
| ≤ 15,99 | 0 a 6,0 | 6,1 a 12,0 | 12,1 a 18,0 | 18,1 a 25,0 | > 25,0 |
| 16,00 a 35,99 | 0 a 5,0 | 5,1 a 10,0 | 10,1 a 15,0 | 15,1 a 20,0 | > 20,0 |
| 36,00 a 60,00 | 0 a 3,0 | 3,1 a 5,0 | 5,1 a 8,0 | 8,1 a 12,0 | > 12,0 |
| > 60 | 0 a 2,0 | 2,1 a 3,0 | 3,1 a 4,0 | 4,1 a 6,0 | > 6,0 |
Nossa argila é 37,1000%, então uso a linha "36,00 a 60,00".
O valor 9,5 cai entre 8,1 e 12,0, logo o fósforo é adequado.
Agora olhe as colunas com atenção, porque aqui mora um conceito que separa o agrônomo do técnico de bancada.
Repare que, quanto mais argila, menor o valor de P necessário para ser "adequado".
Num solo com ≤ 15,99% de argila, você precisa de 18,1 a 25,0 mg/dm³ para atingir "adequado".
Num solo com 36 a 60% de argila, bastam 8,1 a 12,0.
Por que menos fósforo em um solo que fixa mais fósforo?
A resposta é o extrator.
O Mehlich-1 extrai uma parte do fósforo lábil, e em solo muito argiloso, rico em óxidos de ferro e alumínio, a argila "compete" com o extrator pelo fósforo.
O número que sai do laboratório subestima o fósforo realmente disponível justamente onde há mais argila.
A tabela corrige isso baixando o limiar.
Ou seja, a faixa de interpretação não é arbitrária, ela compensa uma limitação química do próprio método de medida.
Quem não sabe disso acha a tabela esquisita e recomenda fósforo demais.
Minha opinião, e aqui eu me posiciono: interpretar fósforo sem citar o extrator deveria ser considerado erro grave em qualquer parecer técnico.
Não é preciosismo, é o alicerce da leitura.
Cálcio e magnésio: teor e relação¶
O cálcio deu 1,53 e o magnésio 0,78 cmolc/dm³.
A tabela é direta:
| Nutriente | Baixo | Adequado | Alto |
|---|---|---|---|
| Ca | < 1,5 | 1,5 a 7,0 | > 7,0 |
| Mg | < 0,5 | 0,5 a 2,0 | > 2,0 |
Ca = 1,53 está entre 1,5 e 7,0: adequado (por pouco, quase na fronteira do baixo). Mg = 0,78 está entre 0,5 e 2,0: adequado.
Além do teor de cada um, existe a relação Ca:Mg, que deve ficar entre 1:1 e no máximo 10:1, respeitando sempre o mínimo de 0,5 cmolc/dm³ de Mg.
No TH-07, a relação é 1,53 ÷ 0,78 = 1,9615, ou seja, aproximadamente 1,96:1.
Está dentro da faixa considerada estreita e sem problema.
Uma relação muito larga, tipo 8:1, indicaria excesso de cálcio frente ao magnésio, algo que costuma aparecer depois de calagens pesadas com calcário calcítico.
Aqui não é o caso.
Alumínio tóxico: o número que eu leio primeiro no Cerrado¶
Confissão de professor.
Em análise de Cerrado, eu não começo minha leitura pelo pH.
Começo pela dupla alumínio e saturação por alumínio, porque é ela que me diz se o solo é apenas ácido ou se é ácido e tóxico, dois problemas de manejo bem diferentes.
Um pH baixo com alumínio zero é chateação.
Um pH baixo com alumínio alto é raiz que não desce, é planta que definha em veranico.
O Al³⁺ deu 0,13 cmolc/dm³.
Essa é a acidez trocável, o alumínio que está de fato ocupando os sítios de troca e podendo intoxicar a raiz.
| Acidez | Muito baixa | Baixa | Média | Alta | Muito alta |
|---|---|---|---|---|---|
| Trocável (Al³⁺) | ≤ 0,20 | 0,21 a 0,50 | 0,51 a 1,00 | 1,01 a 2,00 | > 2,0 |
| Potencial (H⁺ + Al³⁺) | ≤ 1,00 | 1,01 a 2,50 | 2,51 a 5,00 | 5,01 a 9,00 | > 9,00 |
Al³⁺ = 0,13 é ≤ 0,20, portanto muito baixa.
Ótima notícia: apesar do pH ácido, este solo praticamente não tem alumínio tóxico nos sítios de troca.
A raiz não está sendo envenenada, está apenas num ambiente de baixa fertilidade.
São coisas distintas, e a recomendação muda por causa disso.
A acidez potencial (H⁺ + Al³⁺) a gente vai calcular na próxima seção, porque ela entra no cálculo da CTC total.
Os cálculos que amarram tudo: K em cmolc, SB, acidez potencial, CTC¶
Até aqui foi leitura de tabela.
Agora vem a parte que exige conta, e é onde o aluno mais tropeça.
Vou devagar.
Convertendo o potássio para cmolc/dm³¶
O K veio em mg/dm³ (29,4), mas para somar com Ca e Mg ele precisa estar na mesma unidade de carga, cmolc/dm³.
A conversão usa a massa equivalente do potássio (39,1 g/mol, valência 1), multiplicada por 10:
K = 29,4 ÷ 391 = 0,0752 cmolc/dm³
Se você esquecer essa conversão e somar 29,4 diretamente com 1,53 e 0,78, o resultado vira ficção científica.
É o erro clássico de prova.
Soma de bases (SB)¶
A soma de bases junta os cátions básicos trocáveis, potássio, cálcio e magnésio:
SB = K + Ca + Mg SB = 0,0752 + 1,53 + 0,78 SB = 2,3852 cmolc/dm³
A SB mede quanto de "coisa boa" (cátions que a planta usa e que combatem a acidez) está ocupando o complexo de troca.
Acidez potencial (H⁺ + Al³⁺)¶
A acidez potencial soma o hidrogênio e o alumínio, os cátions "ácidos" que ocupam sítios de troca.
No laudo, H⁺ = 3,52 e Al³⁺ = 0,13:
H⁺ + Al³⁺ = 3,52 + 0,13 = 3,6500 cmolc/dm³
Pela tabela da seção anterior, 3,6500 cai entre 2,51 e 5,00, então a acidez potencial é média.
CTC a pH 7 (T), a CTC total¶
A CTC a pH 7, chamada de T ou CTC total, é a capacidade máxima de troca de cátions do solo, considerando todos os sítios que se abririam se levássemos o pH a 7,0.
Ela é a soma das bases mais a acidez potencial:
T = SB + H⁺ + Al³⁺ T = 2,3852 + 3,52 + 0,13 T = 6,0352 cmolc/dm³
A interpretação da CTC também depende da textura, pela mesma lógica da matéria orgânica: mais argila, mais capacidade de troca esperada, régua mais alta.
| Textura | Baixa | Média | Adequada | Alta |
|---|---|---|---|---|
| Arenosa | < 3,2 | 3,2 a 4,0 | 4,1 a 6,0 | > 6,0 |
| Média | < 4,8 | 4,8 a 6,0 | 6,1 a 9,0 | > 9,0 |
| Argilosa | < 7,2 | 7,2 a 9,0 | 9,1 a 13,5 | > 13,5 |
| Muito argilosa | < 9,6 | 9,6 a 12,0 | 12,1 a 18,0 | > 18,0 |
TH-07 é argiloso.
T = 6,0352 é menor que 7,2, então a CTC é baixa.
Isso me diz uma coisa importante: apesar de argiloso, este solo tem argila de baixa atividade (típica de Cerrado, dominada por caulinita e óxidos) e matéria orgânica apenas média.
A capacidade de segurar nutriente é modesta.
Traduzindo para manejo: adubação parcelada faz mais sentido aqui do que jogar tudo de uma vez, porque o solo não tem "estoque" grande para segurar.
Potássio, agora sim classificado¶
Só agora eu consigo classificar o teor de potássio, porque a tabela de K depende da CTC.
Faz sentido: em solo com CTC maior, você precisa de mais potássio para atingir a mesma saturação relativa.
| CTC a pH 7 | Baixo | Médio | Adequado | Alto |
|---|---|---|---|---|
| < 4,0 cmolc/dm³ | ≤ 15,99 | 16,00 a 30,99 | 31,00 a 40,00 | > 40,00 |
| ≥ 4,0 cmolc/dm³ | ≤ 25,99 | 26,00 a 50,99 | 51,00 a 80,00 | > 80,00 |
Nossa CTC (6,0352) é ≥ 4,0, então uso a segunda linha.
O K de 29,4 mg/dm³ cai entre 26,00 e 50,99: médio.
Veja como o mesmo valor de K seria classificado de outra forma num solo de CTC menor.
Ordem de leitura importa.
Saturação por bases (V): a régua que decide a calagem¶
Aqui está, na minha visão, o índice mais mal compreendido do laudo, e também o mais poderoso.
A saturação por bases (V) diz qual porcentagem da CTC total está ocupada por bases (K, Ca, Mg), em vez de por acidez (H, Al):
V = (100 × SB) ÷ T V = (100 × 2,3852) ÷ 6,0352 V = 39,5215%
Vou visualizar isso, porque ajuda a entender.
Da CTC total de 6,0352:
- Ocupado por bases (K + Ca + Mg) = 2,3852 cmolc/dm³, ou 39,5215%.
- Ocupado por acidez (H + Al) = 3,6500 cmolc/dm³, ou 60,4785%.
Some as duas partes: 39,5215% + 60,4785% = 100,0000%.
Elas repartem exatamente o complexo de troca.
Mais da metade dos sítios deste solo está ocupada por hidrogênio e alumínio, e não por nutriente.
É essa a leitura visceral do V.
A relação entre V e pH não é coincidência.
Quaggio et al. (1983) mostraram correlação altíssima entre saturação por bases e pH (com r acima de 0,90), o que faz sentido: quanto mais bases ocupam a troca, menos acidez sobra, maior o pH.
É por isso que a calagem, que sobe o V, sobe o pH junto.
Um índice puxa o outro.
Pela tabela de interpretação:
| Saturação | Baixa | Média | Adequada | Alta |
|---|---|---|---|---|
| Por bases (V) | ≤ 20 | 21 a 35 | 36 a 60 | > 60 |
| Por alumínio (m) | ≤ 20 | (não se aplica) | (não se aplica) | > 20 |
V = 39,5215% cai entre 36 e 60, classificado como adequada por essa tabela genérica.
E agora vem a armadilha que eu prometi lá no pH.
Classificação genérica não é decisão agronômica.
Cada cultura tem um alvo de saturação por bases (o famoso V2) para render bem.
Para muitas culturas de grãos, esse alvo é V2 = 60%.
Se a cultura pede 60% e o solo está em 39,5215%, você calcariar mesmo com o V "adequado" na tabela.
A tabela descreve o estado do solo.
O V2 da cultura define a meta.
São camadas diferentes de leitura, e é por confundir as duas que muito aluno recomenda calcário errado.
Há ainda uma classificação de fertilidade natural do solo que sai direto do V.
Solos com V ≥ 50% são chamados eutróficos (férteis por natureza), e solos com V < 50% são distróficos (pobres em bases).
Com V = 39,5215%, o TH-07 é um solo distrófico, o que é regra e não exceção no Cerrado.
Saturação por alumínio (m): o solo é álico ou não?¶
O V olha o lado bom da troca.
O m olha o lado tóxico.
A saturação por alumínio mede quanto do alumínio pesa dentro do conjunto bases mais alumínio:
m = (100 × Al³⁺) ÷ (Al³⁺ + SB) m = (100 × 0,13) ÷ (0,13 + 2,3852) m = (100 × 0,13) ÷ 2,5152 m = 5,1686%
Visualizando de novo, dentro do total de 2,5152 cmolc/dm³ (bases mais alumínio):
- K + Ca + Mg = 2,3852 cmolc/dm³, ou 94,8314%.
- Al³⁺ = 0,13 cmolc/dm³, ou 5,1686%.
Some: 94,8314% + 5,1686% = 100,0000%.
Pela tabela, m ≤ 20 é baixa.
Nosso m de 5,1686% é baixíssimo.
Isso confirma, por um caminho independente, o que o Al³⁺ já tinha me dito: o alumínio não é problema aqui.
Existe uma classificação de caráter álico ligada ao m.
Solos com m ≥ 50% são álicos (alumínio domina a troca e intoxica raiz).
Com m = 5,1686%, o TH-07 está muito longe disso, é um solo não álico.
Repito o ponto porque ele é a espinha do diagnóstico de Cerrado: temos um solo ácido, pobre em bases, distrófico, mas sem toxidez de alumínio.
A calagem aqui trabalha para nutrir e elevar o pH, não para desintoxicar.
Se o m fosse alto, a urgência e a estratégia seriam outras.
O laudo TH-07, interpretado por inteiro¶
Junto tudo numa leitura só, do jeito que eu escreveria num parecer:
| Parâmetro | Valor | Classificação |
|---|---|---|
| Textura | Argila 37,1000% | Argilosa (tipo 3) |
| pH (CaCl₂) | 4,7 | Médio (acidez ativa média) |
| Matéria orgânica | 25,3 g/dm³ | Média |
| Fósforo (Mehlich-1) | 9,5 mg/dm³ | Adequado |
| Potássio | 29,4 mg/dm³ | Médio |
| Cálcio | 1,53 cmolc/dm³ | Adequado |
| Magnésio | 0,78 cmolc/dm³ | Adequado |
| Alumínio trocável | 0,13 cmolc/dm³ | Muito baixa |
| Acidez potencial (H+Al) | 3,6500 cmolc/dm³ | Média |
| Soma de bases (SB) | 2,3852 cmolc/dm³ | - |
| CTC a pH 7 (T) | 6,0352 cmolc/dm³ | Baixa |
| Saturação por bases (V) | 39,5215% | Adequada (mas abaixo do V2 de 60%) |
| Saturação por alumínio (m) | 5,1686% | Baixa (não álico) |
| Fertilidade natural | V < 50% | Distrófico |
O retrato em uma frase: solo argiloso de Cerrado, ácido, com CTC baixa e saturação por bases aquém do alvo de cultura, sem toxidez de alumínio, com fósforo e bases já em nível adequado graças a algum histórico de manejo.
É um solo que responde bem à calagem para chegar no V2, e que pede adubação de manutenção parcelada por causa da CTC modesta.
Da interpretação à decisão: calculando o calcário¶
Interpretar sem recomendar é meio caminho.
A aplicação prática mais imediata da saturação por bases é o método da saturação por bases para calagem, que usa exatamente os números que já calculamos.
A necessidade de calagem (NC) para a camada de 0 a 20 cm é:
NC (t/ha) = [T × (V2 − V1)] ÷ 100
Onde V2 é o alvo da cultura, V1 é a saturação atual e T é a CTC a pH 7.
Para o TH-07, com V2 = 60% e V1 = 39,5215%:
NC = [6,0352 × (60 − 39,5215)] ÷ 100 NC = [6,0352 × 20,4785] ÷ 100 NC = 1,2359 t/ha (para um calcário de PRNT 100%)
Calcário comercial raramente tem PRNT de 100%.
Corrigimos dividindo pela reatividade real.
Para um calcário de PRNT 85%:
NC corrigida = 1,2359 × (100 ÷ 85) = 1,4540 t/ha
Repare no bônus.
Ao elevar o V até 60%, essa mesma calagem vai deslocar o pouco alumínio existente (0,13) e subir o pH junto, porque V, pH e m andam de mãos dadas no complexo de troca.
Uma decisão, três efeitos.
É por isso que a saturação por bases virou o método padrão de recomendação de calcário em boa parte do Brasil: ela conecta a leitura química a uma dose, sem precisar de curva de incubação para cada talhão.
Agora é com você: um talhão novo, do zero¶
Chega de me ver resolvendo.
A prova de que você aprendeu é interpretar sozinho.
Aqui está o talhão TH-12, que você nunca viu.
Faça a leitura completa antes de olhar o gabarito, na mesma ordem que eu usei: textura primeiro, depois pH, M.O., P, Ca, Mg, Al, converte o K, calcula SB, acidez potencial, T, classifica o K, calcula V e m, e por fim a necessidade de calcário.
| Talhão | Prof. (cm) | Areia (g/kg) | Silte (g/kg) | Argila (g/kg) | pH CaCl₂ | M.O. (g/dm³) | P* (mg/dm³) | K⁺ (mg/dm³) | Ca²⁺ | Mg²⁺ | Al³⁺ | H⁺ |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| TH-12 | 0-20 | 780 | 60 | 160 | 4,3 | 12,0 | 8,0 | 40,0 | 0,80 | 0,30 | 0,60 | 2,80 |
Adote V2 = 50% para este talhão e calcário de PRNT 100%.
Cátions em cmolc/dm³, P por Mehlich-1.
Tente antes de descer.
Gabarito do TH-12¶
Textura: areia 78,0000%, silte 6,0000%, argila 16,0000%.
A argila está na faixa ambígua (15% a 35%), então calculo o delta: Δ = 78,0000 − 16,0000 = 62,0000%, que é ≥ 50%.
Logo, textura arenosa (tipo 1).
Já muda tudo, porque agora leio M.O. e CTC pela linha "arenosa".
pH CaCl₂ = 4,3, que é ≤ 4,49: baixo (acidez ativa alta, solo bem mais ácido que o TH-07).
M.O. = 12,0 g/dm³, linha arenosa (11 a 15): adequada.
Doze de matéria orgânica seria pobre num argiloso, mas num arenoso é bom.
A textura de novo comandando a leitura.
Fósforo = 8,0 mg/dm³, argila 16,0000% (linha 16,00 a 35,99), faixa 5,1 a 10,0: baixo.
Cálcio = 0,80 (< 1,5): baixo.
Magnésio = 0,30 (< 0,5): baixo.
E olho para a relação: com Mg de apenas 0,30, já estamos abaixo do mínimo de 0,5 cmolc/dm³, um sinal de que a calagem precisa incluir magnésio (calcário dolomítico).
Alumínio trocável = 0,60 (0,51 a 1,00): média.
Diferente do TH-07, aqui existe alumínio para incomodar.
Conversão do K: 40,0 ÷ 391 = 0,1023 cmolc/dm³.
Soma de bases: SB = 0,1023 + 0,80 + 0,30 = 1,2023 cmolc/dm³.
Acidez potencial: H + Al = 2,80 + 0,60 = 3,4000 cmolc/dm³ (faixa 2,51 a 5,00, média).
CTC a pH 7: T = 1,2023 + 2,80 + 0,60 = 4,6023 cmolc/dm³.
Linha arenosa (4,1 a 6,0): adequada.
Potássio, agora com T ≥ 4,0: 40,0 mg/dm³ cai em 26,00 a 50,99: médio.
Saturação por bases: V = (100 × 1,2023) ÷ 4,6023 = 26,1239%.
Faixa 21 a 35: média.
Com V abaixo de 50%, é solo distrófico.
Saturação por alumínio: m = (100 × 0,60) ÷ (0,60 + 1,2023) = (100 × 0,60) ÷ 1,8023 = 33,2907%.
Como m > 20, é alta.
Aqui está a diferença central entre os dois talhões: o TH-12 tem toxidez de alumínio para tratar, o TH-07 não tinha.
Mesma família de solos, decisões distintas.
Necessidade de calagem, com V2 = 50% e PRNT 100%: NC = [4,6023 × (50 − 26,1239)] ÷ 100 = [4,6023 × 23,8761] ÷ 100 = 1,0988 t/ha.
Se a sua leitura bateu com essa, do primeiro ao último número, você já sabe interpretar uma análise de solo.
Se travou em algum ponto, volte na seção correspondente e refaça só aquela parte, porque cada índice tem uma lógica própria e é essa lógica que você precisa carregar, não os valores decorados.
Uma provocação para levar para o campo¶
Percebeu que os dois talhões tinham pH parecido no primeiro olhar (4,7 e 4,3, ambos "ácidos"), e mesmo assim exigem manejos diferentes?
O TH-07 pede calagem para nutrir, o TH-12 pede calagem para nutrir e desintoxicar, com magnésio no pacote.
O pH sozinho nunca teria contado essa história.
Foi a leitura conjunta de m, V, Ca, Mg e textura que separou os dois.
Fica então a pergunta que eu quero que você leve para o próximo laudo que cair na sua mão: se você só pudesse ver três linhas da análise antes de recomendar, quais três você escolheria, e o que a sua escolha revela sobre o tipo de agrônomo que você está se tornando?