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Pulverização Agrícola e Pulverizadores Terrestres

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A eficiência de uma pulverização não está no produto dentro do tanque.

Está no que sobra no alvo depois que tudo acontece: a gota se forma, percorre o ar, atinge a folha, adere a ela e libera o ingrediente ativo no lugar certo, na concentração certa.

Dois pulverizadores lado a lado, com a mesma calda e a mesma dose no tanque, entregam aplicações de qualidade completamente diferente conforme cada elo dessa cadeia foi controlado ou ignorado.

Um controla a praga.

O outro deixa reboleira e paga a conta na colheita, sobretudo no Cerrado mato-grossense em ano de alta pressão de doença fúngica na soja.

Um pulverizador em mau estado, com pontas desgastadas, não é um equipamento que aplica mal.

É um equipamento que não aplica o que o produtor pagou.

Este texto percorre o sistema de pulverização terrestre do mecanismo de formação da gota até a decisão de equipamento e ponta para cada situação de campo, passando pelo espectro de gotas, pelo circuito hidráulico e pelos erros que mais comprometem a uniformidade.


Da calda à gota: sistemas de fracionamento e parâmetros do espectro

A energia que fragmenta a calda decide o espectro antes de qualquer regulagem.

O que classifica um equipamento de aplicação por via líquida é a forma de energia usada para fracionar a calda em gotas.

Essa escolha define a faixa de tamanho de gota possível, a vazão típica de trabalho e o tipo de cultura em que o equipamento faz sentido.

São cinco os sistemas, e cada um ocupa um nicho distinto.

Sistema Princípio de fracionamento Faixa de gota / vazão Configurações usuais
Hidráulico (pulverizador) Líquido bombeado sob pressão atravessa um orifício em alta velocidade, forma uma lâmina fina e se desintegra em gotas Depende da ponta Costal manual, tratorizado de barra, pistola, jato assistido por ar, avião
Pneumático (atomizador) Injeção de pouca calda numa corrente de ar de ventilador; efeito venturi succiona e quebra o líquido Gotas de 90 a 100 µm; vazão de 10 a 15 L/ha em água Costal motorizado ou tratorizado do tipo canhão; culturas arbustivas
Centrífugo (ULVA) Líquido cai sobre disco ou gaiola em alta rotação; a rotação controla o diâmetro da gota Gotas de 60 a 70 µm; vazão de 0,5 a 2,0 L/ha Manual, motorizado costal, tratorizado ou avião
Eletrostático (Electrodyn) Descarga elétrica de alta voltagem no ponto de saída; gotas carregadas positivamente são atraídas pela planta aterrada Vazão de 0,2 a 2,0 L/ha Bocais e barras com eletrodo de carregamento
Térmico (nebulizador) Gás quente da combustão de óleo diesel arrasta o líquido Gotas de 15 a 50 µm, ficam em suspensão Ambientes fechados, armazéns, florestas

Na maioria das pontas do mercado, o mecanismo é a pulverização hidráulica.

A calda sob pressão atravessa o orifício calibrado, forma uma lâmina líquida que se estende no ar e, pela instabilidade do movimento, se desintegra numa população de tamanhos variados.

Esse conjunto é o espectro de gotas, e uma ponta hidráulica em operação normal nunca produz gota de tamanho único: a distribuição se aproxima de uma curva normal, com a maior parte do volume numa faixa central.

Todo o resto do texto gira em torno desse sistema, porque é onde o agrônomo tem mais controle e mais chance de errar.

Quatro parâmetros descrevem o espectro com precisão suficiente para decisão técnica.

Diâmetro Mediano Volumétrico (DMV)

Diâmetro da gota que divide o volume total pulverizado em duas partes iguais, metade em gotas menores e metade em gotas maiores. É o principal parâmetro para classificar a pulverização e comparar pontas.

Diâmetro Mediano Numérico (DMN)

Diâmetro que divide o número de gotas ao meio. Numa pulverização ideal de gotas uniformes, DMV e DMN coincidem; na prática o DMV é maior, porque poucas gotas grandes concentram muito volume, e a razão DMV/DMN próxima de 1 indica espectro mais homogêneo.

Amplitude relativa (AR)

Índice de homogeneidade calculado a partir dos diâmetros volumétricos acumulados DV0,1, DV0,5 e DV0,9. Quanto maior a AR, mais heterogêneo o espectro e maior a coexistência de gotas muito finas e muito grossas. O DMV lido sem a AR esconde risco de deriva real.

V100

Percentual do volume pulverizado formado por gotas menores que 100 µm. Gotas nessa faixa têm velocidade terminal baixíssima e são praticamente arrastadas pelo vento em campo. É o indicador mais direto de risco de deriva de uma ponta específica.

Cinco fatores determinam o tamanho de gota que uma ponta produz, e saber a direção de cada um permite prever o efeito de qualquer ajuste antes de fazê-lo.

Fator Efeito sobre o tamanho de gota Direção
Tipo de ponta Cônico cheio produz as maiores gotas, seguido de jato plano e cônico vazio não se aplica
Vazão Maior vazão, na mesma pressão, produz gotas maiores Direta
Pressão Mais pressão produz gotas menores Inversa
Ângulo do jato Ângulo maior, na mesma vazão e pressão, produz gotas menores Inversa
Propriedades do líquido Maior viscosidade e tensão superficial exigem mais energia e geram gotas maiores Direta

A relação inversa entre pressão e tamanho de gota é a que mais confunde quem opera.

Subir a pressão para aplicar "mais forte" afina a gota e aumenta a fração que deriva, e isso reaparece adiante como origem de boa parte dos erros de campo.

Vale um registro que desmonta uma crença comum.

Comparando um pulverizador costal motorizado hidráulico com um bocal eletrostático da Embrapa, ambos calibrados para a mesma dose de ingrediente ativo por hectare em tomate estaqueado, o hidráulico aplicou 1.000 L/ha de calda contra apenas 20 L/ha do eletrostático.

Mesmo com cinquenta vezes menos volume, o resíduo depositado nas plantas foi cerca de dezesseis vezes maior no eletrostático, 1,93 µg/cm² contra 0,12 µg/cm².

Volume alto de calda não significa deposição boa.

Muitas vezes é o contrário.


Comportamento da gota no ar: queda, deriva e evaporação

No ar, a massa da gota governa se ela chega ao alvo ou não.

A massa é o fator central do comportamento da gota no ar.

Pela lei de Stokes, gotas menores têm velocidade terminal muito mais baixa e ficam suspensas por muito mais tempo, expostas ao vento.

O quadro torna isso concreto.

Diâmetro (µm) Velocidade terminal (m/s) Tempo de queda de 3 m Deslocamento lateral com vento de 5 km/h
1 0,000036 28 horas mais de 100 km
10 0,003 17 minutos 1.400 m
50 0,075 40 s 54 m
100 0,279 11 s 14,6 m
200 0,721 4 s 5,7 m
500 2,139 1,4 s 2,1 m
1.000 n.d. cerca de 1 s 1,4 m

A leitura que costuma passar despercebida está na linha dos 100 µm.

Uma gota classificada como muito fina precisa de 11 segundos para cair 3 metros com vento de 5 km/h, e nesse tempo já andou quase 15 metros na horizontal.

Com umidade relativa baixa e temperatura acima de 30 °C, condições habituais no Cerrado durante as aplicações de fungicida em soja, essa mesma gota pode evaporar por completo antes de tocar o alvo.

A evaporação é um mecanismo separado da deriva por arraste, e amplia os efeitos dela.

Uma gota de 100 µm em ar seco, a 30% de umidade relativa e 26 °C, reduz o diâmetro à metade enquanto cai apenas 0,8 m, o que significa perder sete oitavos do volume original.

Gotas de 50 µm ou menores evaporam por inteiro antes de atingir o alvo em pulverização terrestre de barra.

Gotas acima de 200 µm sofrem redução insignificante nas mesmas condições.

O tempo de vida da gota no ar até evaporar pode ser estimado por:

\[t = \frac{d^2}{80 \cdot \Delta T}\]

onde \(d\) é o diâmetro em µm e \(\Delta T\) é a diferença entre os termômetros de bulbo seco e úmido, em °C.

O tempo de vida cresce com o quadrado do diâmetro e é inversamente proporcional ao \(\Delta T\): ar mais seco e quente aumenta o \(\Delta T\) e derruba o tempo de vida da gota.

Cerrado / MT

Temperatura acima de 35 °C e umidade relativa abaixo de 40%, comuns na safra de soja entre agosto e outubro, reduzem drasticamente o tempo de vida das gotas finas no ar. A janela segura para aplicar com gotas menores que 200 µm no Mato Grosso é de poucos dias, concentrada no início da manhã antes das 9h e no fim da tarde após as 16h30. Fora dessa janela, mesmo pontas de gota grossa perdem fração maior por evaporação do que em clima temperado.


Classificação do espectro: norma ASABE S572

Classificar por comparação com pontas de referência elimina o erro do instrumento de medida.

A norma ASABE S572 estabelece as classes de tamanho de gota para pulverização hidráulica.

A classificação não usa valor fixo de DMV: compara os parâmetros DV0,1, DV0,5 e DV0,9 da pulverização avaliada com os de pontas de referência operando em pressões definidas.

Esse método relativo elimina o erro de comparar equipamentos de medição diferentes.

A versão ASABE S572.1, de 2009, estabelece oito classes, acrescentando a extremamente fina e a ultra grossa às seis originais.

A tabela traz as classes com o DMV aproximado e o potencial de risco de deriva pelo sistema BCPC, que usa como critério o percentual de volume em gotas abaixo de 150 µm.

Classe Símbolo Cor DMV aproximado (µm) PRD (gotas < 150 µm) Risco de deriva
Extremamente fina XF Roxa < 60 n.d. Extremamente alto
Muito fina VF Vermelha 60 a 145 > 57% Muito alto
Fina F Laranja 145 a 225 20 a 57% Alto
Média M Amarela 226 a 325 5,7 a 20% Moderado
Grossa C Azul 326 a 400 2,9 a 5,7% Baixo
Muito grossa VC Verde 401 a 500 < 2,9% Muito baixo
Extremamente grossa XC Branca 501 a 650 n.d. Muito baixo
Ultra grossa UC Preta > 650 n.d. Muito baixo

A cor identifica a classe de gota, não a cor da ponta física, que codifica a vazão.

Uma pulverização de gotas muito finas tem mais da metade do volume em gotas sujeitas a alta deriva; uma de gotas grossas tem menos de 3%.

Não é diferença marginal.

É a diferença entre aplicar e não aplicar.

Nota técnica

Em 2018 a ISO publicou a ISO 25358 e em 2020 a ASABE atualizou para S572.3, alinhada à ISO. A revisão mudou os limites entre as faixas grossa/muito grossa, muito grossa/extremamente grossa e extremamente grossa/ultra grossa, e inverteu os códigos de cor dessas classes em alguns fabricantes, com destaque para a TeeJet. Catálogos recentes já adotam a S572.3/ISO 25358; os antigos ainda usam a S572.1. Ao selecionar ponta por tabela de fabricante, confira qual versão gerou os dados.

A faixa que interessa reter para penetração em dossel é de 100 a 300 µm.

Abaixo de 100 µm as gotas derivam e evaporam antes de chegar; acima de 300 µm elas respingam e escorrem.


DMV, cobertura e número de gotas por área

Gota menor cobre mais e deriva mais; a escolha equilibra os dois lados.

Reduzir o tamanho da gota tem efeito geométrico direto sobre o número de impactos por área.

Mantida a taxa de aplicação, o número de gotas por cm² é inversamente proporcional ao cubo do diâmetro:

\[N \propto \frac{Q}{d^{3}}\]

onde \(Q\) é a taxa de aplicação em L/ha e \(d\) é o diâmetro em µm.

Reduzir o DMV à metade multiplica o número de gotas por oito; reduzir a um terço, por vinte e sete.

É por isso que produto de contato depende de gota menor: o que cobre o alvo não é o volume depositado, é o número de impactos espalhados por unidade de área.

A tabela traduz essa geometria em comportamento de campo.

Característica Gotas finas (VF a F) Gotas grossas (C a VC)
Cobertura na superfície foliar, mesma taxa Alta Moderada a baixa
Penetração no dossel sob turbulência Alta Baixa
Risco de evaporação antes do alvo Elevado Baixo
Sensibilidade ao vento Elevada Baixa
Velocidade terminal de deposição Baixa Elevada
Risco de escorrimento da folha Baixo Elevado para gotas acima de 800 µm
Janela climática segura Estreita, com umidade alta e vento abaixo de 8 km/h Ampla
Aplicação em pré-emergência sobre solo e palhada Inadequada, retida na palhada Adequada

Existe um tamanho de gota ideal para a biologia de cada alvo, mas a tabela biológica não pode ser seguida ao pé da letra, porque abaixo de 100 µm a perda por deriva e evaporação supera o ganho teórico sobre o alvo.

Alvo Tamanho de gota ótimo (µm)
Insetos em voo 10 a 15
Insetos em folhagem 30 a 50
Cobertura de folhagens 10 a 100
Solo ou redução de deriva 250 a 500

A decisão sobre a classe de gota parte do alvo biológico e do modo de ação.

Produto sistêmico transloca pela planta após a absorção e depende menos de cobertura homogênea.

Produto de contato exige toque direto com o alvo e cobertura mais intensa.

A tabela organiza essa lógica.

Produto / alvo Modo de ação Cobertura necessária Classe de gota indicada Observação
Herbicida sistêmico em pós-emergência Sistêmico Moderada Média a grossa Gota maior reduz deriva perto de cultura sensível
Herbicida auxínico em pós-emergência Sistêmico Moderada Grossa a muito grossa Gota grossa reduz deriva de vapor; o rótulo é determinante
Herbicida de contato em pós-emergência Contato Alta Fina a média Cobertura foliar direta para o controle
Herbicida em pré-emergência sobre solo e palhada Solo Baixa Grossa a muito grossa Gota maior tem inércia para atravessar a palhada
Inseticida sistêmico Sistêmico Moderada Média a grossa A translocação compensa distribuição menos uniforme
Inseticida de contato na face inferior Contato Alta Fina a muito fina Cobertura na face abaxial; exige clima favorável
Fungicida de contato preventivo Contato Alta Fina Alta densidade de cobertura em toda a folha
Fungicida sistêmico ou mesostêmico Sistêmico Moderada a alta Média Penetração no dossel com compromisso de deriva
Acaricida de contato Contato Muito alta Muito fina a fina Ácaros na face inferior; cobertura extensiva

A indicação de classe de gota do rótulo prevalece sobre qualquer generalização desta tabela.


Deposição, retenção foliar e cobertura

Cobrir o alvo não é encharcá-lo; a gota certa precisa aderir, não escorrer.

Três termos costumam ser tratados como sinônimos e não são.

Deposição é a quantidade de produto que fica no alvo, resultado da interação entre a gota, o clima e a superfície.

Retenção foliar é a capacidade de a gota permanecer sobre a folha após o impacto, sem escorrer nem ricochetear.

Cobertura é a fração do alvo atingida pelas gotas, medida em percentual de área ou em gotas por cm².

Uma aplicação pode ter boa deposição e cobertura ruim, e cada falha pede correção diferente.

A cobertura cai muito da parte alta para a baixa da planta, e o número expõe o tamanho do problema.

Um estudo comparativo com quatro tipos de ponta em aplicação terrestre a 100 L/ha mostrou cobertura de 70 a 83% na parte alta e de apenas 3 a 14% na parte baixa.

A melhor penetração veio da ponta de jato cônico vazio, seguida do jato plano duplo, e a ponta de indução de ar, apesar de cobrir bem o topo, produziu a pior penetração nas regiões média e baixa.

Essa assimetria tem consequência direta no controle da ferrugem asiática da soja, causada por Phakopsora pachyrhizi, que se instala primeiro nas folhas do terço inferior e médio.

Para fungicida de contato aplicado em preventivo, combinar taxa de aplicação maior com gota fina aumenta a penetração nesses estratos, desde que o clima permita.

Para fungicida sistêmico, a menor dependência de cobertura viabiliza gota maior, com menos deriva.

Gotas precisam de turbulência para alcançar a face inferior das folhas.

O movimento ascendente das gotas finas dentro do dossel é o que permite a deposição na face abaxial, e é por isso que pontas de jato duplo e cônico vazio, que lançam gotas em ângulos diferentes, superam o jato plano simples em cultura de dossel fechado para inseticida e acaricida.

A retenção foliar depende do ângulo de contato entre a calda e a folha: ângulo menor significa melhor molhabilidade e maior chance de a gota permanecer.

Folhas de monocotiledônea, como milho, sorgo e trigo, são estreitas, inclinadas e frequentemente cerosas, com alto ângulo de contato, o que dificulta a adesão.

Folhas de dicotiledônea, como soja, algodão e feijão, são mais horizontais e menos hidrofóbicas, e retêm gotas com mais facilidade.

Gotas acima de 800 µm tendem a escorrer antes de completar a absorção; gotas abaixo de 100 µm evaporam antes de liberar o ingrediente ativo em ar seco.

A relação entre densidade de gotas, cobertura e DMV é conhecida e serve para planejar.

Quanto mais grossa a gota, menos gotas por cm² para o mesmo percentual de cobertura.

Densidade (gotas/cm²) Cobertura DMV aproximado
85 10% 250 µm
70 20% 275 µm
60 30% 300 µm
55 40% 312 µm
40 50% 325 µm

Recobrimento de 20 a 30% já basta na maioria dos tratamentos, o que contraria de frente a prática de encharcar a folha até escorrer, que não melhora o controle e ainda desperdiça produto.

Critério mínimo de cobertura

  • Herbicidas e inseticidas sistêmicos: 20 a 30 gotas/cm² com boa distribuição.
  • Fungicidas sistêmicos e mesostêmicos: 30 a 40 gotas/cm² (o patógeno ainda precisa ser alcançado na superfície foliar).
  • Inseticidas de contato: 50 a 70 gotas/cm² com cobertura uniforme.
  • Fungicidas de contato e multissítio: acima de 70 gotas/cm², a maior exigência de cobertura da disciplina.
  • Acaricidas de contato: acima de 70 gotas/cm², com ênfase na face inferior.
  • Exceção: quando o rótulo especifica critério diferente, prevalece o rótulo.

A cobertura se avalia em campo com papel hidrossensível, amarelo, que fica azul-escuro ao contato com a calda aquosa e permite estimar densidade e distribuição antes de tratar a lavoura inteira.

A ferramenta tem limite que precisa ser conhecido.

A gota se espalha ao bater no papel, com fator de expansão que varia conforme o tamanho, e o papel não reproduz com fidelidade científica o DMV, a amplitude relativa nem o percentual de gotas abaixo de 100 µm.

Serve para comparação relativa a campo, não para caracterizar o espectro de forma absoluta.

Para isso só um analisador por difração de laser resolve.


Tipos de pulverizadores terrestres

O porte do pulverizador define a capacidade operacional, não a física da gota.

Os pulverizadores terrestres se classificam pelo sistema de propulsão, pelo dispositivo porta-pontas e pela fonte de energia do circuito hidráulico.

Os três grupos que dominam as lavouras de grãos e fibras são o costal, o tratorizado de barra e o autopropelido.

O pulverizador costal é transportado nas costas do operador, em versão manual, acionada por alavanca de compressão, ou motorizada, com motor de dois tempos ou sistema elétrico a bateria.

Tanque de 10 a 20 L, usado em áreas pequenas, bordas de talhão e controle localizado.

No modelo manual, a uniformidade depende inteiramente da constância de passo e de pressão do operador, a ponto de dois operadores no mesmo equipamento e talhão aplicarem taxas bem diferentes sem perceber.

Para qualquer uso além do pontual, a pressão de trabalho tem que ser conferida com manômetro antes de começar.

O pulverizador tratorizado de barra é acoplado ao trator por engate de três pontos, montado, dois pontos, semimontado, ou barra de tração, arrastado.

O circuito é acionado pela tomada de força, a 540 rpm na maioria dos modelos.

A barra horizontal leva as pontas em espaçamento de 0,35 a 0,50 m, com tanques de 400 a 2.000 L, e é o padrão nas lavouras de pequeno e médio porte.

A largura da barra define a faixa e a capacidade operacional, mas barra longa exige suspensão robusta, porque a oscilação muda continuamente a altura e a sobreposição dos jatos e produz distribuição irregular mesmo com pontas perfeitas.

O pulverizador autopropelido reúne veículo e implemento num só equipamento com motor e tração próprios, e é o padrão das grandes lavouras do Cerrado.

A transmissão hidrostática permite controle fino de velocidade sem troca de marcha, o que favorece a uniformidade, e os controladores eletrônicos mantêm o volume de aplicação constante mesmo com variação de velocidade, ajustando a pressão ou a rotação da bomba.

A bitola é regulável para o espaçamento da cultura, com variação de 2,2 a 3,8 m nos modelos de grande porte.

A barra assistida por ar, do tipo Vortex, induz uma corrente que transporta a gota até o alvo em vez de deixá-la depender só da energia cinética da ponta, o que melhora a penetração em dossel denso e permite operar com vento acima do limite usual.

A cabine pressurizada, vedada e com entrada de ar apenas pelo filtro de carvão ativado, dispensa o EPI interno mediante certificação, enquanto cabine não pressurizada ou sem filtro de carvão ativado exige EPI durante toda a operação.

Característica Costal manual Costal motorizado Tratorizado de barra Autopropelido
Capacidade do tanque 10 a 20 L 10 a 20 L 400 a 2.000 L 1.500 a 5.000 L e mais
Largura de trabalho 1 a 2 m 1 a 2 m até cerca de 28 m 24 a 42 m
Capacidade operacional Muito baixa Baixa Média Alta a muito alta
Controle de pressão Depende do operador Mecânico Mecânico ou eletrônico Eletrônico com fluxômetro
Uniformidade Variável com o operador Boa com calibração Alta com regulagem correta Alta, com compensação automática
Vão livre n.a. n.a. Limitado pelo trator Ajustável, de 0,9 a 2,4 m ou mais
Uso principal Bordas, áreas pequenas Bordas, capina química Médio porte, lavouras diversas Grande escala, grãos e fibras

O turbopulverizador é um tratorizado projetado para cultura arbórea ou arbustiva, como citros, café, maçã e uva.

Um ventilador gera corrente de ar de alta velocidade que transporta as gotas das pontas hidráulicas até o interior do dossel tridimensional, com circuito semelhante ao da barra, mais o ventilador acionado pela tomada de força.

O pulverizador de mangueira e pistola substitui a barra por mangueiras longas com pistola manual na ponta, e a uniformidade depende inteiramente do operador.

Não é o equipamento de escolha para grande lavoura de grãos.


Circuito hidráulico: do tanque à ponta

Todo pulverizador de barra segue o mesmo fluxo, do tanque à ponta.

O circuito de qualquer pulverizador, costal, tratorizado ou autopropelido, segue a mesma lógica: o líquido parte do tanque, passa pelos componentes de controle e proteção, chega à barra e sai pelas pontas.

flowchart TD
    A[Tanque com agitação] --> B[Filtro de sucção]
    B --> C[Bomba de pistão, diafragma ou centrífuga]
    C --> D[Câmara de compensação]
    D --> E[Regulador de pressão]
    E --> F[Manômetro]
    E --> G[Filtros de linha e de seção]
    G --> H[Filtros individuais da ponta]
    H --> I[Ponta de pulverização]
    E --> J[Retorno ao tanque para manter a agitação]

O tanque precisa garantir agitação contínua.

Formulações de pó molhável e suspensão concentrada sedimentam em repouso; sem agitação adequada, a concentração da calda varia ao longo do tanque e a taxa de aplicação efetiva fica imprecisa, com subdose no início e superdose no fim.

A agitação pode ser mecânica, por hélice acionada dentro do tanque, ou hidráulica, pelo retorno de parte da calda bombeada.

A tampa deve ter respiro desobstruído para evitar vácuo interno que reduza o fluxo de saída.

Os filtros protegem os componentes a jusante.

Há três posições essenciais, sucção, linha e individual na ponta, com posições adicionais possíveis na boca do tanque e em cada seção da barra, de modo que um pulverizador completo pode ter de 3 a 6 filtros.

Eles respondem por quatro funções ao mesmo tempo.

Função do filtro Como atua
Uniformidade da aplicação Impede que o entupimento de pontas isoladas altere a vazão em posições da barra
Capacidade operacional Reduz parada para desentupir e limpar pontas durante a operação
Segurança do operador Diminui o contato com pontas entupidas e calda contaminada
Durabilidade das pontas Retém areia e impurezas abrasivas e evita o uso de objeto rígido para desentupir

A malha é medida em mesh, o número de furos por polegada: quanto maior o mesh, menor a abertura e maior a retenção, com maior risco de entupimento em produto com sólidos.

A escolha depende da formulação e do modelo de ponta ao mesmo tempo.

Combinação ponta e formulação Malha do filtro individual
Pontas de gota grossa, indução de ar ou pré-orifício, com qualquer formulação 30 a 50 mesh
Pontas de jato plano convencional ou duplo com soluções 80 a 100 mesh
Pontas de qualquer modelo com formulação de partícula sólida 30 a 50 mesh, acima disso há risco de pasta no filtro
Pontas de menor vazão, laranja, verde, amarela Malha mais fina, até 100
Pontas de maior vazão, vermelha, marrom, cinza, branca Malha mais grossa, 50 a 80

Filtro de linha e filtro individual devem ter a mesma malha, e a indicação do fabricante da ponta prevalece sobre a recomendação genérica.

Regra de sequência para abrir filtros

  1. Entre o tanque e o filtro de sucção há sempre um registro.
  2. A sequência correta é tanque, registro, filtro, bomba.
  3. Sem fechar o registro antes, abrir o filtro com o tanque cheio derrama calda e expõe o operador.

A bomba fornece pressão e vazão.

Dominam dois tipos: a de pistão ou diafragma, que gera pressão pulsada e exige câmara de compensação para amortecer, e a centrífuga, de fluxo contínuo e sem câmara, mas com eficiência menor em pressão muito alta.

Em qualquer caso, a bomba deve fornecer vazão maior que a soma das pontas, e o excedente volta ao tanque pelo regulador e mantém a agitação.

O regulador de pressão divide o fluxo entre as pontas e o retorno: fechar mais o retorno aumenta a pressão.

O manômetro fica depois do regulador, indicando a pressão real na entrada das pontas, e a agulha oscilante denuncia pulsação excessiva ou câmara de compensação com defeito.


Pontas de pulverização: tipos, geometria e seleção

A ponta concentra espectro, distribuição, vazão e pressão compatível num só componente.

A ponta de pulverização é o componente que fragmenta a calda em gotas e determina quatro parâmetros ao mesmo tempo: o padrão de deposição, área total ou faixa, o ângulo e a geometria do jato, a vazão de líquido e o espectro de gotas.

Nenhum outro componente concentra tanta influência sobre a qualidade da aplicação.

Bico e ponta não são a mesma coisa

O bico é o conjunto montado no fim do circuito, formado por corpo, filtro individual, ponta e capa. A ponta de pulverização é o componente terminal, onde o orifício calibrado fragmenta a calda em gotas. Em tecnologia de aplicação, o termo correto para o elemento gerador das gotas é sempre ponta de pulverização; bico designa o conjunto ou a saída genérica de um equipamento.

Função da ponta Fatores determinantes Relação com a pressão
Vazão Tamanho e geometria do orifício; densidade e viscosidade do líquido Proporcional à raiz quadrada da pressão
Padrão de distribuição sob a barra Modelo da ponta; ângulo do jato; característica do líquido Sensível dentro da faixa recomendada
Tamanho das gotas Modelo da ponta; característica do líquido; vazão Inversa, pressão maior gera gota menor
Velocidade inicial das gotas Modelo e ângulo da ponta Direta

Um aspecto ignorado na seleção de ponta de jato plano: para o mesmo modelo, vazão e pressão, o ângulo do jato muda o tamanho da gota.

Ponta de 110° produz gota menor que a mesma ponta de 80°, porque o ângulo maior espalha o líquido numa área maior e fragmenta mais a lâmina.

Ponta de ângulo maior permite barra mais baixa com boa uniformidade, mas gera mais gota fina; ponta de ângulo menor precisa de barra mais alta para a mesma sobreposição, com menos gota fina.

Tipo de ponta Geometria do jato Pressão típica (bar) Espectro predominante Risco de deriva Padrão de deposição Uso principal
Jato plano convencional (XR, UF) Leque simétrico, 80° a 110° 1 a 4 Fina a média Médio a alto em pressão alta Área total Herbicidas, fungicidas e inseticidas em clima favorável
Jato plano com pré-orifício ou turbo (TT, DG, LD) Leque com câmara interna, 80° a 110° 1 a 5 Média a grossa Médio Área total Herbicidas sistêmicos; versatilidade de pressão
Jato plano com indução de ar (AI, AVI, AIXR, TTI) Leque com bolhas de ar, 80° a 140° 2 a 8 Grossa a extremamente grossa Baixo Área total Herbicidas e fungicidas sistêmicos; clima adverso
Jato plano duplo (TJ, ADI) Dois leques em ângulo 1 a 5 Muito fina a grossa Médio a alto Área total Fungicidas e inseticidas com alvo na face inferior
Jato plano duplo com indução de ar (JGT, AI 3070) Dois leques com bolhas de ar 2 a 7 Fina a muito grossa Médio a baixo Área total Penetração maior com menor deriva
Jato plano de grande ângulo (acima de 110°) Leque amplo 1 a 6 Média a grossa Baixo Área total Menos sensível à variação de altura de barra
Jato plano defletor ou impacto (TK, FloodJet) Leque por impacto em anteparo 1 a 6 Grossa a extremamente grossa Muito baixo Área total ou faixa Herbicidas pré-emergentes; bordaduras; volumes altos
Jato cônico vazio (TX, série D) Cone oco, difusor helicoidal 3 a 20 Muito fina a média Alto a muito alto Tridimensional Fungicidas e inseticidas de contato; turbopulverizador
Jato cônico vazio com indução de ar (TVI, AITXA) Cone oco com bolhas de ar 5 a 15 Muito fina a grossa Médio Tridimensional Fungicidas e inseticidas sistêmicos em dossel
Jato cônico cheio (DC, FC) Cone sólido, difusor com orifício central 3 a 10 Média a grossa Moderado Tridimensional Cultura arbórea; inseticida de contato

As pontas de jato plano têm perfil de distribuição triangular, com pico no centro e queda nas bordas, e por isso os jatos vizinhos precisam se sobrepor para a barra entregar distribuição uniforme. A sobreposição correta muda com o tipo.

Tipo de ponta Sobreposição recomendada Observação
Jato plano convencional, com pré-orifício e com indução de ar cerca de 30% em cada lado Padrão para barra em cultura baixa
Jato plano duplo cerca de 30% em cada lado Ângulo divergente preserva a distribuição
Jato cônico vazio em barra até 20% Sobreposição maior gera choque entre jatos e altera o espectro
Jato cônico em turbopulverizador Jatos tangentes Distribuição tridimensional, não em área total

A altura da barra depende do ângulo do jato e do espaçamento entre pontas.

Para ponta de 110° com espaçamento de 0,50 m, a altura mínima que garante o cruzamento dos jatos fica em torno de 35 cm, e a altura usual de trabalho fica entre 0,45 e 0,55 m acima do alvo; ponta de 80° precisa de barra mais alta, próxima de 60 cm, para a mesma sobreposição.

Para evitar o choque entre jatos vizinhos, as pontas são montadas com pequeno ângulo em relação ao plano da barra, o que as capas de engate rápido já garantem.

A qualidade da distribuição transversal se mede pelo coeficiente de variação sob a barra, com mesa de distribuição: o critério de aceitação no Brasil é CV de até 15%, e na Europa a exigência chega a 7%.

Valor acima de 15% denuncia ponta desgastada, pontas de tipos diferentes na barra, altura incorreta ou espaçamento irregular.

Oscilação vertical ou horizontal da barra altera a sobreposição de forma contínua e gera faixas alternadas de subdose e superdose mesmo com pontas novas; autopropelidos modernos usam sensor de ultrassom nas extremidades e cilindro hidráulico para manter a altura constante.

O coeficiente de descarga (K) caracteriza a eficiência hidráulica da ponta, a relação entre a vazão real e a teórica.

Ponta de jato plano, sem câmara de turbulência, tem K de 0,85 a 0,90, perda pequena.

Ponta de jato cônico, com helicoide e câmara de turbulência, tem K menor, porque parte da energia vira movimento rotacional do líquido, que é o que forma o cone na saída.

Na ponta cônica, seis fatores governam a formação do jato: diâmetro do orifício de saída, número de canais do helicoide, altura da câmara de turbulência, espessura do orifício, pressão de trabalho e o próprio K.


Material e durabilidade das pontas

Ponta desgastada aplica mais do que foi planejado, não menos.

As pontas são fabricadas em materiais de resistência distinta ao desgaste abrasivo do fluxo de calda sob pressão.

A vida útil varia quatro vezes entre o pior e o melhor material.

Material Resistência ao desgaste Vida útil estimada (horas) Observação
Latão Baixa cerca de 100 Mais antigo; evitar com pó molhável e suspensão abrasiva
Náilon Baixa a média cerca de 200 Orifício danifica fácil na limpeza com objeto duro
Poliacetal Média a boa cerca de 400 Resistência próxima do aço inox, mais leve e barato
Aço inoxidável Boa cerca de 400 Orifício durável e consistente
Aço inoxidável endurecido Alta mais de 400 Indicado para pressão alta e formulação abrasiva
Cerâmica (óxido de alumínio) Muito alta mais de 400 A mais resistente ao desgaste; frágil a impacto mecânico

Uma ponta é considerada desgastada e deve ser trocada quando a vazão excede em 10% a de uma ponta nova do mesmo modelo e pressão.

A partir daí, além da superdose por ponta, o ângulo do jato e o perfil de distribuição também mudam e comprometem a uniformidade da barra.

A cerâmica de alta dureza resiste muito à abrasão mas não suporta impacto: pancada no solo em manobra ou limpeza com objeto rígido fratura o material.

Se eu tivesse que apontar o componente que mais decide a aplicação e menos recebe atenção na operação, seria a ponta.

O preço dela é irrelevante diante do custo do produto que passa por ela ao longo de uma safra.

Uma ponta de quinze reais que desgasta em 50 horas sai mais cara que uma de sessenta reais que dura 400, mesmo antes de contar o prejuízo agronômico da aplicação irregular durante todo o período de desgaste progressivo.


Código de identificação e curva de vazão

O código impresso na ponta traz ângulo e vazão, nunca a classe de gota.

A norma ISO 10625 padroniza a identificação da ponta por cor e número, e dois padrões convivem no mercado brasileiro.

O sistema americano exprime a vazão em galões por minuto a 40 psi, ou 2,76 bar, pulverizando água: uma ponta 11003 tem 110° de ângulo e vazão nominal de 0,3 galão por minuto, cor azul.

O sistema internacional ISO 10625 exprime a vazão em litros por minuto a 3 bar, ou 43,5 psi.

A diferença de pressão de referência faz as vazões equivalentes não baterem exatamente.

Cor da ponta Código americano Vazão a 40 psi (gal/min) Vazão a 40 psi (L/min) Vazão a 3 bar, ISO (L/min)
Laranja 01 0,10 0,38 0,39
Verde 015 0,15 0,57 0,59
Amarela 02 0,20 0,76 0,79
Violeta 025 0,25 0,95 0,99
Azul 03 0,30 1,14 1,18
Vermelha 04 0,40 1,51 1,58
Marrom 05 0,50 1,89 1,97
Cinza 06 0,60 2,27 2,37
Branca 08 0,80 3,03 3,16
Preta 10 1,00 3,78 4,00

A cor identifica a vazão nominal, não a classe de gota.

Alguns fabricantes ainda codificam o material no sufixo: a TeeJet usa VP para polímero, VK para cerâmica, VS para aço inoxidável e VH para aço inoxidável endurecido.

Uma ponta TT11003VP é uma Turbo TeeJet, ângulo 110°, código 03, azul, 0,3 galão por minuto, de polímero.

Nota técnica

Para ponta cônica das séries TX e D, a nomenclatura não segue o padrão ISO de vazão em galão por minuto a 40 psi. A série TX usa galões por hora a 40 psi, com TX-4 igual a 4 galões por hora, ou 0,25 L/min. A série D usa combinação de disco e difusor com identificação própria. Para essas séries, consulte sempre o catálogo do fabricante.

Na barra, todas as pontas devem ser do mesmo tipo e da mesma cor.

Misturar cores diferentes gera distribuição heterogênea, com seções que aplicam mais calda e outras menos, sem sinal visível durante a operação, o que produz faixas alternadas de superdose e subdose.


Pressão, vazão e tamanho de gota

Pressão, vazão e tamanho de gota são interdependentes; mexer num muda os três.

A relação entre pressão e vazão numa ponta hidráulica segue a raiz quadrada: para dobrar a vazão com a mesma ponta é preciso quadruplicar a pressão.

\[\frac{V_2}{V_1} = \sqrt{\frac{P_2}{P_1}}\]

A consequência prática é decisiva.

Pequena variação de pressão mexe pouco na vazão, mas mexe muito no tamanho da gota.

Subir a pressão dentro da faixa recomendada eleva a vazão de forma moderada e, ao mesmo tempo, fragmenta mais a lâmina e gera gota menor.

Subir a pressão além da faixa não é estratégia para aumentar a taxa de aplicação: o resultado é mais deriva e desgaste acelerado da ponta, não mais depósito no alvo.

Quando o objetivo é mudar a classe de gota, trocar a série ou o orifício da ponta funciona melhor que variar a pressão.

A seleção de ponta por vazão individual usa:

\[\text{vazão (L/min)} = \frac{\text{L/ha} \times \text{km/h} \times E}{600}\]

onde \(E\) é o espaçamento entre pontas em metros.

Com a vazão calculada, consulta-se o catálogo para achar a cor que, na faixa de pressão do modelo, entrega o espectro adequado ao alvo.

Para aplicação em faixa, em cultura perene ou linha de plantio, troca-se o espaçamento pela largura da faixa tratada.

Há um limite físico que a pressão não vence.

Em dossel de alta densidade foliar, aumentar a pressão para penetrar mais fundo gera o efeito guarda-chuva: as folhas superiores barram a calda e o produto se perde para o solo sem alcançar o terço inferior.

A solução real para penetração não é pressão, é assistência de ar.

Regra operacional de pressão

  • Abaixo de 1,5 a 2,0 bar a população de gotas fica desuniforme; evite operar aí.
  • Jato cônico vazio precisa de pressão acima de 4 bar para formar o cone.
  • Não ultrapasse 10 a 15 bar em ponta cônica, mesmo que o modelo suporte mais.
  • Escolha a pressão na zona plana da curva da ponta, não no limite.

Adequação do equipamento ao alvo e à cultura

A seleção começa no alvo e termina na pressão, nessa ordem.

A seleção de pulverizador e ponta começa pelo alvo biológico e pela arquitetura da cultura, nunca pelo equipamento que está no barracão.

Existe uma hierarquia clara: primeiro o alvo e o produto determinam a classe de gota; depois a classe de gota e a taxa de aplicação determinam a ponta; depois a ponta e a velocidade determinam a pressão.

O equipamento disponível é o último filtro, e quando ele não atende o requisito do alvo, a aplicação deve ser reprogramada.

Aplicar no momento errado com a ponta errada para não perder o turno de trabalho é o tipo de decisão que, somada a centenas de hectares, derruba a produtividade da lavoura inteira.

flowchart TD
    A[Definir alvo e modo de ação do produto] --> B[Selecionar a classe de gota conforme alvo, produto e clima]
    B --> C[Calcular a vazão necessária por ponta]
    C --> D[Consultar o catálogo, cor pela vazão e modelo pelo espectro]
    D --> E{A ponta entrega a classe de gota na pressão correta}
    E -- Sim --> F[Instalar e conferir a pressão no manômetro]
    E -- Não --> G[Trocar série ou orifício, ou ajustar taxa e velocidade]
    G --> C
    F --> H[Conferir a uniformidade da barra e substituir ponta fora do padrão]

Para herbicida em pré-emergência sobre palhada no plantio direto, o alvo é a superfície do solo, e o produto precisa atravessar a palhada para atuar nas sementes em germinação.

Gota grossa tem inércia para isso; gota fina fica retida na palhada.

Para inseticida em soja com alta população de lagartas no terço inferior do dossel, como Spodoptera frugiperda e Chrysodeixis includens, a ponta de jato plano duplo ou de jato cônico vazio com gota fina melhora a penetração, ao custo de uma janela climática mais estreita, com menor temperatura, maior umidade e vento fraco.

Para herbicida auxínico como 2,4-D e dicamba, a exigência é de ponta que produza gota grossa a muito grossa, para reduzir deriva e fitointoxicação em cultura sensível vizinha, e o pulverizador precisa de lavagem e descontaminação completas após o uso, pelo risco de resíduo na aplicação seguinte.

No Cerrado mato-grossense, onde soja e milho safrinha dominam a escala, a maioria das operações é conduzida com autopropelido de barra larga, configuração adequada para herbicida, fungicida e inseticida em área total, que exige adaptação quando o alvo está na face inferior das folhas ou quando o dossel é muito denso, na soja de R4 a R6.

A relação com o rótulo é hierárquica: quando o rótulo especifica a classe de gota, essa indicação prevalece sobre qualquer generalização técnica.

A rastreabilidade legal de uma aplicação começa no cumprimento do rótulo.


Erros comuns e suas consequências

Quase todo erro de aplicação tem causa verificável antes de ligar o pulverizador.

Avaliações de campo com 395 pulverizadores em quatro estados brasileiros, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, encontraram proporção elevada de equipamentos em condição ruim ou razoável, com distribuição sob a barra comprometida em parcela grande da amostra.

Em Mato Grosso, 18,8% das máquinas foram avaliadas como ruins e 54% como razoáveis.

Ponta desgastada ou inadequada, sozinha, pode chegar a desperdiçar até 50% do produto aplicado, com um agravante silencioso: o controle falha sem que a causa apareça, gera falsa impressão de resistência da praga, e o produtor troca de produto quando o problema estava na ponta.

Erro de operação Mecanismo de falha Consequência técnica
Pressão acima da faixa recomendada Fragmenta mais a lâmina e desgasta o orifício Gota menor, mais deriva e desgaste acelerado
Pressão abaixo da faixa recomendada Lâmina mal fragmentada e vazão reduzida Gota maior que o planejado e cobertura insuficiente para contato
Pontas de cores diferentes na barra Vazões diferentes por posição Subdose e superdose em faixas alternadas
Pontas desgastadas, acima de 10% de variação Orifício alargado, vazão maior e ângulo alterado Superdose por ponta e risco de fitotoxicidade
Velocidade de deslocamento incorreta Altera diretamente a taxa de aplicação Subdose em velocidade alta ou superdose em velocidade baixa
Altura de barra incorreta Baixa demais deixa faixa descoberta; alta demais expõe a gota ao vento Distribuição irregular ou aumento de deriva
Filtro individual entupido Reduz pressão e vazão nas pontas a jusante Faixa de subdose imperceptível sem papel hidrossensível
Câmara de compensação com defeito Pulsação de pressão em alta frequência Distribuição irregular e espectro oscilante
Agitação insuficiente do tanque A concentração da calda varia ao longo do tanque Subdose no início e superdose no fim da mesma batelada
Barra com oscilação excessiva Variação contínua de altura muda a sobreposição Faixas de subdose e superdose mesmo com ponta nova

Nenhuma dessas causas exige laboratório para ser detectada.

Medir a vazão de cada ponta com uma proveta e um cronômetro, conferir a pressão no manômetro e olhar a barra em movimento resolve a maioria antes de a máquina entrar no talhão.


Escolher ponta e pressão para uma aplicação específica é o momento em que toda a teoria deste texto vira decisão de campo, e é onde a maior parte do dinheiro de uma safra de defensivo se ganha ou se perde.

Quando abrir uma reboleira num talhão pulverizado, resista à primeira pergunta, que é sempre qual produto trocar.

Meça as pontas primeiro.

A resposta costuma estar no orifício de trinta reais que ninguém olhou, não no produto de trezentos reais por hectare que levou a culpa.


Referências

AMERICAN SOCIETY OF AGRICULTURAL AND BIOLOGICAL ENGINEERS. ASABE S572.1: spray nozzle classification by droplet spectra. St. Joseph: ASABE, 2009.

ANTUNIASSI, Ulisses Rocha et al. Entendendo a tecnologia de aplicação: equipamentos terrestres. 2. ed. Botucatu: FCA-UNESP; AgroEfetiva, 2022.

ANTUNIASSI, Ulisses Rocha; BOLLER, Wanderley. Tecnologia de aplicação para culturas anuais. Botucatu: FEPAF; Assis: Céleres, 2019.

CHAIM, Aldemir. Manual de tecnologia de aplicação de agroquímicos. Jaguariúna: Embrapa Meio Ambiente, 2009.

COSTA, A. G. F. Tecnologia de caldas fitossanitárias. Londrina: Embrapa, 2019.

MACIEL, C. D. G.; GAZZIERO, D. L. P.; THEISEN, R.; BRIDI, L. G. H.; ADEGAS, F. S. Tecnologia de aplicação de pesticidas. Londrina: Embrapa Soja, 2025. (Embrapa Soja. Documentos, 477).

INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 25358: crop protection equipment: droplet-size spectra from atomizers, measurement and classification. Geneva: ISO, 2018.

MINGUELA, Jorge Vicente; CUNHA, João Paulo Arantes Rodrigues da (org.). Manual de aplicação de produtos fitossanitários. Viçosa: Aprenda Fácil, 2013. 588 p.

PIONEER; DUPONT. Tecnologia de aplicação de defensivos agrícolas. [S. l.]: Pioneer Sementes, 2002.

SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM RURAL. Mecanização: operação de pulverizadores autopropelidos. Brasília: SENAR, 2016. (Coleção SENAR, 170).

SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM RURAL. Aplicação de agrotóxicos. Brasília: SENAR-PR, 2013.

SPRAYING SYSTEMS CO. (TeeJet Technologies). Informações técnicas de pulverização. Wheaton: Spraying Systems Co., [s.d.].

MATUO, T.; PIO, L. C.; RAMOS, H. H.; FERREIRA, M. C. Proteção de plantas: tecnologia de aplicação dos agroquímicos e equipamentos. Jaboticabal: FUNEP, 2010.


Exercícios

Tip

Tente resolver antes de abrir o gabarito. O esforço de recuperar e raciocinar é o que consolida o aprendizado; consultar a resposta cedo demais desperdiça esse ganho. O Bloco A não tem gabarito: são questões de discussão, retomadas no início da próxima aula.

Bloco A: para discutir na próxima aula

Responda por escrito, de forma breve. Não há resposta divulgada: traga suas respostas para a discussão em sala.

A1. Na Aula 08 você viu que a calda brasileira ficou de 15 a 30 vezes mais concentrada em duas décadas e que essa concentração crescente é a razão prática por trás da recomendação de ponta com vazão mínima de 0,2 gal/min e do cuidado redobrado com a malha do filtro, pois calda concentrada entope filtro e ponta com muito mais facilidade. Na Aula 09, a malha do filtro é medida em mesh (número de furos por polegada) e a escolha depende ao mesmo tempo da formulação e do modelo de ponta, enquanto a cor da ponta identifica a vazão nominal, não a classe de gota. Ligando as duas aulas: por que a decisão sobre filtro e ponta não pode ser tomada olhando só o equipamento, e sim a partir do que já foi decidido no preparo da calda (formulação, número de produtos, taxa de aplicação)?

A2. O texto repete que gota menor cobre mais e deriva mais, e que existe uma tabela de tamanho de gota ótimo por alvo biológico que, mesmo assim, não pode ser seguida ao pé da letra. Explique por que a decisão de classe de gota é sempre um compromisso entre cobertura e perda, por que abaixo de 100 µm a perda por deriva e evaporação supera o ganho teórico sobre o alvo, e por que subir a pressão "para aplicar mais forte" é justamente o ajuste que mais confunde quem opera.

A3. O texto encerra com uma ordem prática: diante de uma reboleira num talhão pulverizado, resista à primeira pergunta, que é sempre qual produto trocar; meça as pontas primeiro. Ele afirma que nenhuma das causas mais comuns de erro (pressão fora da faixa, velocidade incorreta, altura de barra errada, ponta desgastada, filtro entupido) exige laboratório para ser detectada, bastam proveta e cronômetro para medir a vazão, o manômetro para conferir a pressão e olhar a barra em movimento. Se todos esses erros são verificáveis antes de a máquina entrar no talhão, o que isso antecipa sobre a próxima aula, que trata de calibração (conferir o volume de calda efetivamente aplicado) e do diagnóstico de erros de regulagem?

Bloco B: consolidação da aula

B1. Um analisador por difração de laser mediu, para uma ponta em operação, um DMV aproximado de 380 µm. Pela classificação da norma ASABE S572.1, essa pulverização é:

(A) grossa (C), risco de deriva baixo.
(B) média (M), risco de deriva moderado.
(C) muito grossa (VC), risco de deriva muito baixo.
(D) fina (F), risco de deriva alto.

B2. Um operador dobra a pressão de trabalho na barra "para aplicar mais forte", achando que assim aumenta a taxa de aplicação. Pela relação hidráulica entre pressão, vazão e tamanho de gota, o que de fato ocorre?

(A) a vazão dobra e a gota fica maior no alvo.
(B) a vazão sobe pouco e a gota afina, com mais deriva.
(C) a taxa de aplicação dobra, proporcional à pressão.
(D) a gota não muda e só a vazão sobe muito.

B3. Para um fungicida de contato preventivo, que exige alta densidade de cobertura, um técnico decide reduzir o DMV à metade, mantendo a mesma taxa de aplicação. Pela relação geométrica entre número de gotas, taxa e diâmetro, o número de gotas por cm²:

(A) reduz-se à metade.
(B) mantém-se igual, muda só o volume.
(C) multiplica-se por oito.
(D) multiplica-se por dois.

B4. Um agrônomo vai recomendar um inseticida de contato para controlar lagartas (Spodoptera frugiperda e Chrysodeixis includens) alojadas no terço inferior de um dossel de soja já fechado. Indique a classe de gota, o tipo de ponta e o tipo de pulverizador mais adequados, e explique o custo operacional que essa escolha impõe.

B5. Numa soja de dossel fechado, o papel hidrossensível mostrou cobertura de cerca de 78% na parte alta e 8% na parte baixa da planta. A ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi) começa pelo terço inferior e médio. Avalie a qualidade dessa deposição, aponte a limitação do papel hidrossensível como ferramenta e recomende ajustes conforme o modo de ação do fungicida.

B6. Um produtor vai aplicar herbicida auxínico (2,4-D e dicamba) numa área vizinha a uma lavoura sensível. Explique que classe de gota e que tipo de ponta a operação exige, por que essa exigência existe, e que cuidado adicional o pulverizador demanda antes da próxima aplicação.

Bloco C: cálculo e diagnóstico

C1. (Cálculo) Um agrônomo vai selecionar a ponta pela vazão individual para uma operação com taxa de aplicação de 150 L/ha, velocidade de deslocamento de 6 km/h e espaçamento entre pontas de 0,50 m. Calcule:

(i) a vazão necessária por ponta, em L/min;

(ii) a cor da ponta aproximada no catálogo (vazão nominal a 40 psi);

(iii) usando a relação raiz quadrada, a vazão que essa mesma ponta entregaria se a pressão passasse de 3 bar para 6 bar, e o efeito sobre o tamanho de gota.

Use 4 casas decimais.

C2. (Diagnóstico) Diante de uma reboleira num talhão de soja, em vez de trocar o fungicida, o agrônomo mediu a vazão de uma ponta suspeita com proveta e cronômetro: a ponta nova do mesmo modelo e pressão entrega 0,80 L/min e a ponta em uso entrega 0,90 L/min. Calcule o excesso de vazão, decida se a ponta deve ser trocada e explique as consequências técnicas de mantê-la e o "agravante silencioso" associado.


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