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Adubação e Manejo Nutricional dos Cereais: da Correção do Solo à Regulagem da Adubadora

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Existe uma frase de campo que resume o assunto desta aula melhor que qualquer definição: adubação bem feita é a operação em que mais gente gasta dinheiro sem saber quanto está colhendo de volta.

O produtor compra o fertilizante caro, contrata a operação, roda a máquina na lavoura inteira, e ainda assim colhe menos do que poderia porque errou uma conta boba, escolheu a fonte errada, aplicou na época errada ou deixou o adubo salgar a semente no sulco.

Nada disso aparece no saco.

Aparece na balança da colheita, quando já não dá para consertar.

Esta aula fecha a corrente que começou na interpretação da análise de solo e passou pela correção com calcário e gesso.

Interpretar diz o que o solo tem.

Corrigir conserta o ambiente químico, sobe o pH, desarma o alumínio, repõe cálcio e magnésio, cria a casa onde a raiz vai morar.

Adubar mobília essa casa, entrega o nitrogênio que faz a planta crescer, o fósforo que faz ela arrancar e o potássio que enche o grão.

A pergunta que organiza tudo que vem a seguir é simples e incômoda: por que nem toda adubação vira produtividade?

A resposta é que a planta responde ao fator mais limitante, não ao nutriente que você aplicou.

Jogar nitrogênio num solo ácido de alumínio tóxico é como abastecer um carro com o freio de mão puxado.

O combustível está lá, a planta não anda.


A corrente da recomendação: corrigir o ambiente antes de nutrir

Correção e adubação resolvem problemas diferentes e nunca se substituem.

O maior erro conceitual que um estudante carrega para o campo é achar que calcário e adubo fazem a mesma coisa em graus diferentes.

Não fazem.

Calcário e gesso mexem no ambiente químico do solo, no pH, na saturação por bases, na toxidez de alumínio, na profundidade que a raiz consegue explorar.

Fertilizante entrega nutriente para a planta.

São camadas distintas da recomendação, e elas obedecem a uma ordem que não pode ser invertida.

A ordem importa por um motivo prático.

Um solo ácido, com pH baixo e alumínio ativo, fixa o fósforo que você aplica, trava a absorção de nutrientes e mantém a raiz presa numa camada rasa.

Adubar antes de corrigir é desperdiçar adubo num ambiente que não deixa a planta usá-lo.

Corrige-se primeiro para que a adubação, depois, encontre uma planta capaz de responder.

A sequência lógica da recomendação segue sempre o mesmo caminho.

O fluxograma abaixo mostra a corrente inteira, do laudo bruto até a máquina calibrada.

Vale segui-lo visualmente porque cada etapa depende da anterior, e pular uma delas compromete todas as seguintes.

flowchart TD
    A[Análise de solo 0 a 20 e 20 40 cm] --> B[Interpretar teores e índices]
    B --> C{Superfície precisa de correção?}
    C -- Sim --> D[Calcular calagem: 3 métodos, escolher a maior]
    C -- Não --> E[Seguir para adubação]
    D --> F{Subsolo hostil? Ca, m ou Al no limite?}
    E --> F
    F -- Sim --> G[Calcular gessagem pela CTC efetiva]
    F -- Não --> H[Definir doses de N, P2O5, K2O por cultura]
    G --> H
    H --> I[Montar fórmula NPK e calcular dose por hectare]
    I --> J[Converter em gramas por metro de sulco]
    J --> K[Regular e calibrar a semeadora-adubadora]

Nesta aula trabalho com o mesmo talhão que atravessou toda a apresentação, o TH-07, camada de 0 a 20 cm para a correção de superfície e adubação, camada de 20 a 40 cm para a decisão de gesso.

Os dados vêm da interpretação já fechada na aula anterior.

Corrente da recomendação

  • Interpretar: o laudo diz o que o solo tem.
  • Corrigir: calcário sobe pH e desarma alumínio na superfície; gesso leva cálcio e amansa alumínio no subsolo.
  • Adubar: fertilizante entrega N, P e K para a planta.
  • A ordem é fixa. Adubo em solo não corrigido é dinheiro parado no perfil.

Por que calcariar: os três motivos e a química de cada um

Calcário não melhora o solo em geral; faz três coisas concretas e específicas.

Antes de calcular qualquer dose, o estudante precisa saber o que o calcário faz, porque existem três fórmulas de dose diferentes e cada uma persegue um desses efeitos.

Quem decora as fórmulas sem entender os motivos escolhe a errada na hora da prova e na hora do laudo.

Os três motivos aparecem a seguir, cada um com a química que o sustenta.

Primeiro motivo: corrigir a acidez ativa

O primeiro efeito é corrigir a acidez ativa, o excesso de H⁺ solto na solução do solo que baixa o pH.

Aqui preciso que você separe na cabeça os quatro rostos da acidez, porque eles não são a mesma coisa e a confusão entre eles produz recomendação errada.

Acidez ativa

H⁺ livre na solução do solo, o que o pHmetro lê diretamente.

Acidez trocável

Al³⁺ (e H⁺, quando houver) adsorvido nos sítios de troca, pronto para voltar à solução.

Acidez não-trocável

H⁺ preso em ligações covalentes na matéria orgânica e nos minerais, liberado bem devagar.

Acidez potencial

soma de tudo que pode virar acidez, Al³⁺ trocável mais H⁺ trocável mais H⁺ de ligação covalente, ou seja, o H⁺ + Al³⁺ do laudo.

A tabela abaixo organiza os quatro tipos, porque a distinção entre eles decide qual fórmula de calagem responde a qual pergunta.

Leia da esquerda para a direita: o que é, onde está, e como se comporta.

Tipo de acidez O que é Onde está Comportamento
Ativa H⁺ livre Solução do solo Lida pelo pHmetro; é o alvo direto da correção
Trocável Al³⁺ (e H⁺) adsorvido Sítios de troca (CTC) Volta à solução com facilidade; é a que intoxica a raiz
Não-trocável H⁺ em ligação covalente Matéria orgânica e minerais Libera-se lentamente; funciona como reserva de acidez
Potencial H⁺ + Al³⁺ total Solução + sítios + ligações Soma tudo; entra na CTC a pH 7

A química de como o calcário sobe o pH merece ser vista de perto, porque ela explica por que o mesmo produto neutraliza o alumínio ao mesmo tempo.

O carbonato de cálcio, ao encontrar água, se dissocia e gera bases:

CaCO₃ + H₂O → Ca²⁺ + HCO₃⁻ + OH⁻

A hidroxila e o bicarbonato consomem o H⁺ da solução:

HCO₃⁻ + H⁺ → CO₂ + H₂O
OH⁻ + H⁺ → H₂O

O resultado é claro: o H⁺ da solução some, vira água e gás carbônico, e o pH sobe.

O cálcio fica no sistema, ocupando os sítios de troca que o hidrogênio e o alumínio abandonam.

Isso conduz direto ao segundo motivo.

Segundo motivo: neutralizar o alumínio tóxico

O segundo efeito é reduzir a disponibilidade do alumínio tóxico.

Conforme a solução perde H⁺ e o pH sobe, o alumínio trocável reage com as hidroxilas e precipita:

Al³⁺ + 3 OH⁻ → Al(OH)₃ ↓

O hidróxido de alumínio é insolúvel, e alumínio precipitado não intoxica raiz.

Por isso uma única aplicação de calcário resolve dois problemas de uma vez, sobe o pH e desarma o alumínio.

Onde o alumínio é o vilão principal, é este o motivo que manda calcariar.

Terceiro motivo: fornecer cálcio e magnésio

O terceiro efeito é nutricional.

O calcário não é só neutralizador, ele é adubo de cálcio e, se for dolomítico, de magnésio.

Cálcio e magnésio são nutrientes que a planta consome em quantidade, e em muitos solos de Cerrado eles estão baixos.

A calagem repõe.

Vale a ressalva sobre o alvo, porque ela derruba a intuição de que quanto mais alto o pH, melhor.

A disponibilidade da maioria dos nutrientes é máxima numa faixa de pH intermediária, algo em torno de 6,0 a 7,0 em água.

Abaixo disso o fósforo é fixado por ferro e alumínio e some da solução, e o alumínio e o manganês ficam tóxicos.

Acima disso os micronutrientes metálicos, ferro, cobre, manganês e zinco, travam a disponibilidade.

Calcariar demais induz deficiência de micronutriente e custa dinheiro.

É por isso que a gente mira um V2 de 60% para a maioria das lavouras de grãos, não um V de 100%.

O objetivo é equilíbrio, não neutralidade química.

Nota técnica

o que o calcário NÃO faz. Ele não desce sozinho no perfil (é pouco solúvel, fica onde foi incorporado), não corrige o subsolo, não fornece enxofre nem os demais macronutrientes, e não substitui a adubação. Esperar que o calcário resolva um subsolo tóxico de alumínio é o erro que a gessagem existe para corrigir.


O PRNT: o número que liga a teoria ao saco de calcário

O PRNT converte a dose teórica de neutralizante puro na dose real do produto comprado.

Duas propriedades definem quanto um calcário neutraliza.

A primeira é a composição química, medida pelo Poder de Neutralização (PN), que expressa a capacidade de neutralizar ácido em relação ao carbonato de cálcio puro.

Carbonato de cálcio puro tem PN de 100%.

Um calcário com muita impureza, areia ou argila, tem PN menor, porque parte do peso do saco não neutraliza nada.

A segunda propriedade é a granulometria, medida pela Reatividade (RE).

Partícula fina reage rápido e por inteiro dentro de uma safra.

Partícula grossa reage devagar, ou nem reage a tempo de servir para a cultura daquele ano.

Dois calcários com o mesmo PN, um moído fino e outro grosso, entregam correção diferente no mesmo prazo.

O Poder Relativo de Neutralização Total junta as duas:

PRNT = (PN × RE) ÷ 100

Um PRNT de 90% quer dizer que aquele calcário neutraliza 90% do que o carbonato de cálcio puro e fino neutralizaria, no mesmo peso e no mesmo prazo.

Ele entra dividindo nas fórmulas de dose por um motivo direto: as fórmulas calculam quanto de neutralizante puro (PRNT 100%) o solo precisa, e nenhum calcário comercial é puro.

Se o solo precisa do equivalente a 1 tonelada de material 100%, e você tem em mãos um calcário de PRNT 90%, precisa aplicar mais que 1 tonelada dele, porque cada tonelada rende só 90% do trabalho.

Multiplicar por (100 ÷ PRNT) corrige isso.

Aqui cabe uma posição que vai contra o hábito de muita revenda: comparar calcário por preço da tonelada é erro de agrônomo iniciante.

O que importa é o preço por unidade de PRNT.

Um calcário barato de PRNT 60% pode custar mais caro por unidade de neutralização que um calcário aparentemente caro de PRNT 95%.

Quem compra pela tonelada, sem olhar o PRNT, às vezes paga mais para corrigir menos.

Propriedade O que mede Sigla Depende de
Poder de Neutralização Composição química vs. CaCO₃ puro PN Pureza do material
Reatividade Velocidade de reação na safra RE Granulometria (finura)
Poder Relativo de Neutralização Total Efeito real no peso e no prazo PRNT PN × RE ÷ 100

As três fórmulas de necessidade de calagem e por que escolher a maior

Cada fórmula estima a dose para vencer um obstáculo diferente; a maior contém as menores.

Existem três métodos porque existem os três motivos da calagem.

Vou calcular os três para o TH-07, camada de 0 a 20 cm, com um calcário de PRNT 90%.

Da interpretação anterior já temos V1 = 39,5215%, T = 6,0352 cmolc/dm³, Ca = 1,53, Mg = 0,78 e Al³⁺ = 0,13 cmolc/dm³.

Método 1: correção da acidez ativa pela saturação por bases

Este método pergunta quanto de calcário eleva a saturação por bases do valor atual (V1) até o alvo da cultura (V2).

Corrige a acidez ativa de forma indireta, porque V e pH andam juntos.

Subir o V sobe o pH.

NC (t/ha) = [(V2 − V1) × T] ÷ PRNT

Com V2 = 60%:

NC = [(60 − 39,5215) × 6,0352] ÷ 90
NC = [20,4785 × 6,0352] ÷ 90
NC = 123,5918 ÷ 90 = 1,3732 t/ha

A diferença (V2 − V1) diz quantos pontos de saturação faltam, o T diz o tamanho do complexo de troca a preencher, e o PRNT ajusta para o produto real.

No Cerrado este é quase sempre o método que manda, porque o alvo de V2 costuma ser alto e a distância para o V atual costuma ser grande.

Método 2: neutralização do alumínio tóxico

Este método pergunta quanto de calcário neutraliza o alumínio trocável deixando uma reserva de cálcio.

NC (t/ha) = Al³⁺ × 2 × (100 ÷ PRNT)

Com Al³⁺ = 0,13:

NC = 0,13 × 2 × (100 ÷ 90) = 0,26 × 1,1111 = 0,2889 t/ha

O fator 2 embute margem de segurança.

Neutralizar o alumínio não é uma conta de um para um, porque o solo tem poder tampão e o alumínio sai dos sítios aos poucos conforme o pH sobe.

A gente não quer só precipitar o alumínio de hoje, quer manter cálcio suficiente para ele não voltar.

Referências usam multiplicadores um pouco distintos conforme o solo (1,5, 2 ou 3), mas a ideia é sempre neutralizar com folga.

Método 3: elevação dos teores de cálcio e magnésio

Este método pergunta quanto de calcário neutraliza o alumínio, ponderado pela textura, e ainda leva o Ca + Mg até o mínimo que a cultura exige.

NC (t/ha) = {(Al³⁺ × Y) + [X − (Ca + Mg)]} × (100 ÷ PRNT)

Os coeficientes Y e X carregam teoria e estão tabelados.

O Y pondera o alumínio pela textura, porque solo com mais argila tampona mais e precisa de mais corretivo para o mesmo efeito.

O X é o teor mínimo de Ca + Mg que a cultura quer no solo.

Coeficiente Situação Valor
Y (textura) Solo arenoso 1
Y (textura) Solo de textura média 2
Y (textura) Solo argiloso 3
X (cultura) Eucalipto 1
X (cultura) Maioria das culturas 2
X (cultura) Cafeeiro 3

Para o TH-07, solo argiloso (Y = 3), maioria das culturas (X = 2), Ca = 1,53 e Mg = 0,78:

NC = {(0,13 × 3) + [2 − (1,53 + 0,78)]} × (100 ÷ 90) NC = {0,39 + [2 − 2,31]} × 1,1111
NC = {0,39 + (−0,31)} × 1,1111
NC = 0,08 × 1,1111 = 0,0889 t/ha

Repare no segundo termo.

O Ca + Mg do solo (2,31) já passou do alvo X (2), então [X − (Ca + Mg)] deu negativo.

O solo não precisa de calcário para suprir cálcio e magnésio, já tem de sobra para a maioria das culturas.

Sobrou só o pedacinho de neutralização do alumínio, por isso a dose ficou minúscula.

Não é erro de conta, é o método dizendo, corretamente, que sob a ótica de nutrição de Ca e Mg este solo quase não pede calcário.

A escolha da maior dose

Temos três doses, cada uma medindo a superação de um obstáculo diferente:

Método Objetivo NC (t/ha)
1. Saturação por bases Corrigir acidez ativa, subir V até V2 1,3732
2. Neutralização do Al Desarmar o alumínio com margem 0,2889
3. Elevação de Ca + Mg Suprir Ca + Mg e neutralizar Al 0,0889

A regra é escolher a maior, 1,3732 t/ha, e o porquê precisa ser entendido, não decorado.

Como mais calcário ajuda nos três objetivos ao mesmo tempo (sobe V, precipita Al, fornece Ca e Mg), a dose que satisfaz o objetivo mais exigente automaticamente satisfaz os outros dois, que exigiam menos.

A maior dose contém as menores.

Se você escolhesse a menor (0,0889 t/ha do método 3), o solo teria cálcio e magnésio suficientes, mas o V continuaria lá embaixo, o pH não subiria, e você teria deixado o problema principal de pé.

É a lógica do elo mais fraco: dimensiona-se pelo que exige mais.

No TH-07 a saturação por bases dominou com folga, o padrão do Cerrado.

Ainda assim a boa prática manda calcular os três, porque em solo com alumínio muito alto e V já razoável o método 2 pode ganhar, e você não descobre isso sem fazer a conta.


Escolher o tipo de calcário por critério objetivo

O magnésio do solo, e não o preço, decide entre calcítico e dolomítico.

Definida a dose, falta o produto.

Os calcários se classificam pelo teor de óxido de magnésio.

Tipo % de MgO
Calcítico 0% a 5%
Magnesiano 5% a 12%
Dolomítico > 12%

A escolha é critério, não gosto.

Você olha o magnésio do solo e a relação Ca:Mg.

Magnésio baixo (Mg < 0,5 cmolc/dm³) manda escolher dolomítico, para repor magnésio junto com a correção.

Magnésio adequado e relação Ca:Mg em ordem liberam o calcítico ou magnesiano, que custam menos e corrigem a acidez igual.

No TH-07 o magnésio é 0,78 cmolc/dm³, adequado.

A relação Ca:Mg é 1,53 ÷ 0,78 = 1,9615, considerada estreita (abaixo de 2), o que significa que há proporcionalmente pouco cálcio frente ao magnésio, não o contrário.

Juntando as leituras, o solo não precisa de magnésio extra e até se beneficiaria de mais cálcio para abrir a relação.

A escolha aqui é calcítico ou magnesiano, nunca dolomítico.

Comprar dolomítico para este talhão seria pagar por um magnésio que o solo já tem e ainda estreitar mais uma relação já apertada.

A recomendação de calcário do TH-07 fecha assim: aplicar 1,3732 t/ha (a maior das três doses, do método da saturação por bases) de calcário calcítico ou magnesiano de PRNT 90%, incorporado na camada de 0 a 20 cm, para elevar o V de 39,5215% para 60%.

Se o calcário disponível tiver outro PRNT, refaz-se só a divisão final e a dose muda proporcionalmente.


Gessagem: o subsolo que ninguém olha

Gesso leva cálcio e amansa alumínio em profundidade, mas não corrige pH.

O gesso agrícola é a ferramenta mais subutilizada da agricultura de Cerrado.

Muita gente se obceca pela correção dos 20 cm de cima e ignora o que acontece embaixo, deixando a raiz presa numa camada rasa.

Aí vem o veranico de quinze dias em pleno enchimento de grão, a raiz não desce porque o subsolo está tóxico de alumínio e pobre de cálcio, e a lavoura murcha com água disponível a 40 cm de profundidade que a planta não alcança.

O gesso é sulfato de cálcio (CaSO₄·2H₂O).

Ele é solúvel e desce no perfil com a água, coisa que o calcário, pouco solúvel, não faz.

No subsolo, o gesso fornece cálcio (nutriente e sinalizador de crescimento radicular) e o sulfato reage com o alumínio, reduzindo sua atividade tóxica e carregando cálcio para baixo.

O que o gesso não faz é corrigir pH.

Ele é um sal neutro, não uma base.

Calcário corrige acidez e fica na superfície; gesso leva cálcio e amansa alumínio em profundidade.

São ferramentas complementares, não substitutas.

Critérios de indicação da gessagem (camada de 20 a 40 cm)

  • Cálcio abaixo de 0,5 cmolc/dm³, ou
  • Saturação por alumínio (m) acima de 20%, ou
  • Alumínio trocável acima de 0,5 cmolc/dm³.
  • Basta uma condição para justificar a aplicação.

No subsolo do TH-07, primeiro converto o potássio:

K = 24,3 ÷ 391 = 0,0621 cmolc/dm³

A CTC efetiva (CTCe) é a capacidade de troca no pH atual do solo, somando as bases e o alumínio trocável, sem o hidrogênio de ligação covalente:

CTCe = Ca + Mg + K + Al³⁺ = 1,25 + 0,47 + 0,0621 + 1,42 = 3,2021 cmolc/dm³

A saturação por alumínio da camada confirma a necessidade:

m = (100 × Al³⁺) ÷ CTCe = (100 × 1,42) ÷ 3,2021 = 44,3459%

Com m de 44,3459% (acima de 20%) e alumínio de 1,42 (acima de 0,5), o gesso está indicado com sobra.

A dose vem do método da CTC efetiva:

NG (t/ha) = [(CTCe₍₂₀₋₄₀₎ × 0,6) − Ca] × 6,4

O 0,6 é o alvo de saturação de cálcio, a gente quer que o cálcio ocupe 60% da CTC efetiva do subsolo, criando o ambiente onde a raiz desce.

O termo (CTCe × 0,6) é o cálcio-alvo, e subtrair o Ca atual dá o quanto falta.

O 6,4 converte esse déficit em tonelagem de gesso para a camada, embutindo a profundidade e a composição do sulfato de cálcio.

NG = [(3,2021 × 0,6) − 1,25] × 6,4
NG = [1,9213 − 1,25] × 6,4
NG = 0,6713 × 6,4 = 4,2960 t/ha

Repare na assimetria: a calagem do TH-07 deu pouco mais de 1 tonelada e a gessagem deu mais de 4.

São camadas e objetivos diferentes.

A superfície estava razoável, o subsolo estava hostil.

O laudo de 0 a 20 cm sozinho esconderia esse problema por completo, e é por isso que quem amostra só a camada de cima recomenda pela metade.

O gesso vai em superfície, sem incorporação, porque desce sozinho com a água.


Fontes de fertilizantes nitrogenados, fosfatados e potássicos

A fonte escolhida decide concentração, acidez residual, risco de perda e enxofre de brinde.

Corrigido o solo, começa a adubação, e a primeira decisão é material: qual fertilizante comprar.

A dose de nutriente é calculada em N, P₂O₅ e K₂O, mas quem se compra é a fonte comercial, com sua concentração, seu comportamento no solo e seus elementos acompanhantes.

Conhecer as fontes evita dois erros comuns, escolher uma fonte de baixa concentração que obriga a transportar e aplicar peso morto, e ignorar que algumas fontes acidificam o solo ou carregam enxofre útil.

As fontes nitrogenadas se diferenciam pela forma do nitrogênio (amídica, amoniacal, nítrica) e pela concentração.

A ureia é a mais concentrada e a mais usada, e por isso mesmo a mais sujeita a perda por volatilização, tratada mais adiante.

O sulfato de amônio é menos concentrado, mas entrega enxofre e é útil onde esse nutriente falta.

Fonte nitrogenada Forma do N Concentração aproximada Observação
Ureia Amídica 44% a 46% de N Mais concentrada; alta volatilização em superfície
Sulfato de amônio Amoniacal 20% a 21% de N Carrega 22% a 24% de S; acidifica o solo
Nitrato de amônio Amoniacal e nítrica 32% a 33% de N Pronta absorção; menor volatilização
MAP Amoniacal 9% a 11% de N Também fonte fosfatada
DAP Amoniacal 16% a 18% de N Também fonte fosfatada

As fontes fosfatadas se diferenciam pela solubilidade e pela concentração de P₂O₅.

As solúveis em água (superfosfatos, MAP, DAP) são as indicadas para a adubação anual das culturas anuais, porque entregam fósforo prontamente.

O superfosfato simples tem a vantagem de carregar cálcio e enxofre, apesar da baixa concentração de fósforo.

Fonte fosfatada Concentração de P₂O₅ Acompanhantes Solubilidade
Superfosfato simples (SSP) 18% a 21% Cálcio e enxofre Solúvel em água
Superfosfato triplo (TSP) 41% a 46% Cálcio Solúvel em água
MAP 48% a 52% Nitrogênio Solúvel em água
DAP 45% a 46% Nitrogênio Solúvel em água
Fosfatos naturais reativos Variável Cálcio Baixa, liberação lenta

As fontes potássicas são poucas.

O cloreto de potássio domina o mercado por ser o mais barato por unidade de K₂O, apesar do alto índice salino e do cloreto que carrega.

O sulfato de potássio é a alternativa de menor índice salino e com enxofre, usado onde o cloreto é indesejado ou onde a salinidade preocupa.

Fonte potássica Concentração de K₂O Acompanhantes Índice salino
Cloreto de potássio (KCl) 58% a 60% Cloreto Alto
Sulfato de potássio 48% a 52% Enxofre Menor que o KCl

Índice salino: nem toda fonte sala igual

Fertilizante é sal, e cada fonte concentra a solução do solo em grau diferente.

Todo fertilizante mineral é um sal que, ao se dissolver, aumenta a concentração de solutos na água ao redor da semente e da raiz.

O índice salino mede exatamente isso, o quanto uma fonte eleva a salinidade da solução em relação a um padrão.

Ele varia muito entre as fontes, e essa variação decide onde cada uma pode ser colocada com segurança.

Fontes nitrogenadas amoniacais e amídicas (ureia, sulfato de amônio, nitrato de amônio) e a principal fonte potássica (cloreto de potássio) têm índice salino alto.

Fontes fosfatadas (MAP, superfosfatos) têm índice salino baixo.

Essa é a razão química de você poder empilhar fósforo junto da semente sem medo, mas não poder empilhar nitrogênio e potássio no mesmo lugar.

Fonte Nutriente principal Índice salino relativo
Cloreto de potássio (KCl) K₂O Alto
Nitrato de amônio N Alto
Ureia N Alto
Sulfato de amônio N Médio a alto
MAP / DAP P₂O₅ (e N) Baixo a médio
Superfosfato simples e triplo P₂O₅ Baixo

Guarde esse ordenamento, porque ele reaparece na decisão de quanto adubo cabe no sulco.

O fósforo quase não sala e pode ir concentrado; o nitrogênio e o potássio salam e têm limite.


Como cada nutriente se comporta no solo e por que isso decide tudo

A mobilidade de N, P e K no perfil comanda posição, época e parcelamento.

Esta é a seção que destrava todas as decisões seguintes.

Nitrogênio, fósforo e potássio se movem de formas radicalmente diferentes no perfil, e é essa diferença que define onde cada um entra, quando entra e se é parcelado.

Quem entende a mobilidade não precisa decorar regra de parcelamento, deduz cada uma delas.

O nitrogênio é o andarilho.

Na forma de nitrato (NO₃⁻) é um ânion que não se prende aos coloides do solo, também negativos, e desce com a água da chuva.

Lixivia com facilidade.

Somado a isso, a planta não consome nitrogênio de uma vez: a demanda cresce ao longo do ciclo e explode no perfilhamento e no alongamento.

Jogar todo o nitrogênio na semeadura é duplamente ruim, parte lixivia antes da planta precisar e o resto fica concentrado num momento de baixa demanda.

Por isso o nitrogênio é parcelado, uma dose de arranque na semeadura e o grosso em cobertura.

O fósforo é o oposto.

Em solo de Cerrado, rico em óxidos de ferro e alumínio, ele é fixado com força e quase não se move nem lixivia.

Como não anda, não faz sentido parcelar.

Uma aplicação em cobertura ficaria parada na superfície, longe das raízes.

O fósforo vai todo na semeadura, junto da semente, onde a raiz nova o encontra antes que o solo o fixe.

O potássio é o intermediário.

É um cátion (K⁺) que se prende aos sítios de troca, o que o segura mais que o nitrogênio.

Em solo argiloso de CTC razoável fica retido; em solo arenoso de CTC baixa lixivia parecido com o nitrogênio.

A decisão de parcelar potássio depende da dose e do tipo de solo, e também da salinidade, que o índice salino já anunciou.

Nutriente Forma no solo Mobilidade Lixiviação Decisão que impõe
Nitrogênio NO₃⁻ (ânion) Alta Alta Parcelar: arranque + cobertura
Fósforo Fixado por óxidos Muito baixa Desprezível Tudo na semeadura, localizado
Potássio K⁺ (cátion) Intermediária Alta em solo arenoso Parcelar conforme dose, solo e salinidade

As três seções seguintes são consequência direta desta tabela.

A salinidade no sulco sai da coluna do potássio e do nitrogênio; a época de aplicação sai da mobilidade do nitrogênio; a escolha entre sulco e lanço sai da fixação do fósforo.


Salinidade no sulco: por que o sulco tem limite

Sal demais junto da semente inverte a osmose e puxa água de dentro dela.

A física aqui é implacável.

A água caminha do meio menos concentrado para o mais concentrado, por osmose.

Se você concentra sal demais junto da semente, inverte o fluxo.

Em vez de a semente puxar água do solo para germinar, é a solução salina que puxa água de dentro da semente e da plântula, desidratando e matando.

É a queima do adubo no sulco, e ela mata o estande antes de a lavoura começar.

Junte agora as duas seções anteriores.

O índice salino disse que nitrogênio e potássio salam muito e o fósforo quase não sala.

O comportamento no solo disse que o nitrogênio já é parcelado por lixiviar e por demanda escalonada.

A salinidade acrescenta um terceiro motivo para o nitrogênio ser parcelado, e o principal motivo para limitar o potássio no sulco.

O fósforo, de índice salino baixo, é a exceção que pode ir concentrado junto da semente.

A regra prática é objetiva e memorizável.

Limite de parcelamento do potássio

  • Doses de K₂O acima de 50 kg/ha no sulco devem ser parceladas.
  • Doses de K₂O acima de 80 kg/ha a lanço devem ser parceladas.
  • Acima desses limites, o excedente vai para a cobertura.

No TH-07 o K₂O total era 60 kg/ha, acima do limite de 50 no sulco.

Por isso 50 foram para a semeadura, no limite, e 10 escorreram para a cobertura.

Não foi capricho, foi para não queimar o trigo na largada.


Volatilização de amônia e inibidores de urease

Ureia na superfície do solo perde nitrogênio para o ar antes de a planta usar.

A perda por volatilização é o vazamento silencioso do nitrogênio, e ela ataca principalmente a ureia aplicada em superfície.

O processo tem uma sequência química clara.

A ureia aplicada sofre hidrólise pela enzima urease, presente no solo e na palhada, transformando-se em carbonato de amônio.

Esse carbonato é instável e libera amônia (NH₃) na forma gasosa, que escapa para a atmosfera.

O nitrogênio que virou gás não volta.

O fluxograma abaixo mostra o caminho do nitrogênio da ureia e o ponto onde a perda acontece, porque entender a sequência é o que permite bloqueá-la.

flowchart TD
    A[Ureia aplicada na superfície] --> B[Urease do solo e da palhada]
    B --> C[Hidrólise: carbonato de amônio]
    C --> D{Ureia incorporada ou choveu?}
    D -- Sim --> E[Amônio retido no solo, absorvido pela planta]
    D -- Não --> F[Liberação de amônia gasosa NH3]
    F --> G[Perda por volatilização para a atmosfera]

As condições que agravam a volatilização são conhecidas e somam-se: ureia aplicada em superfície sem incorporação, ausência de chuva ou irrigação logo após a aplicação, temperatura alta, pH do solo elevado e presença de palhada, que concentra atividade de urease.

O plantio direto, por manter palhada na superfície, é justamente o sistema onde a perda tende a ser maior, o que exige atenção redobrada na hora de aplicar a cobertura nitrogenada.

Em condições desfavoráveis, as perdas podem ser expressivas, ultrapassando um terço do nitrogênio aplicado.

As estratégias de mitigação atacam pontos diferentes dessa cadeia.

A incorporação mecânica ou a aplicação antes de uma chuva prevista levam a ureia para dentro do solo, onde o amônio fica retido.

A troca da fonte por nitrato de amônio ou sulfato de amônio reduz o problema, porque essas fontes não dependem da hidrólise da urease.

E os inibidores de urease, com destaque para o NBPT, bloqueiam temporariamente a enzima, atrasando a hidrólise por alguns dias e dando tempo para que a chuva incorpore o nitrogênio antes de ele virar gás.

O inibidor não elimina a perda, ele compra tempo, e esse tempo só vira ganho se a chuva vier.

Nota técnica

o inibidor de urease não é seguro contra qualquer manejo. Se a janela de proteção passar (alguns dias) e não chover nem houver incorporação, a volatilização acontece assim como aconteceria sem o inibidor. Ele desloca o prazo, não anula a física da perda.


Semeadura ou cobertura, e a época de aplicação

O que vai no sulco é arranque; o que vai em cobertura é o pico de demanda.

A adubação de semeadura, também chamada de base ou de plantio, vai junto com a semente, geralmente depositada no sulco.

Ela entrega o fósforo inteiro, o potássio (parte ou todo) e uma dose de arranque de nitrogênio, o suficiente para a plântula sair bem nos primeiros dias, antes de as raízes se espalharem.

A adubação de cobertura é aplicada depois da emergência, com a cultura já estabelecida, distribuída sobre a superfície ou ao lado das linhas.

Ela entrega o grosso do nitrogênio no momento de maior demanda e, quando a dose de potássio foi alta demais para caber no sulco, o potássio que sobrou.

O fósforo raramente aparece em cobertura, pelo motivo de mobilidade já discutido.

A época da cobertura nitrogenada segue a fenologia da cultura, o nitrogênio entra quando a demanda dispara, no perfilhamento e no alongamento das gramíneas.

No milho, quando a dose de nitrogênio em cobertura é alta, ela costuma ser rachada em duas aplicações.

A tabela de recomendação do milho traz uma regra explícita: para doses superiores a 100 kg/ha de N, parcelar metade entre os estádios V4 e V6 e metade entre V8 e V10.

O objetivo é acompanhar a curva de absorção da planta e reduzir a exposição do nitrogênio à lixiviação e à volatilização.


Sulco ou lanço: o fósforo do solo decide

Fósforo baixo obriga a localização no sulco; fósforo adequado ou alto libera o lanço.

Adubar no sulco é depositar o fertilizante numa linha estreita, junto da semente.

Adubar a lanço é espalhar na superfície de toda a área, sem localizar.

O lanço é muito mais rápido e barato de operar, cobre muito hectare por dia, não depende de calibrar dosador de sulco.

A tentação de largar tudo a lanço é enorme, e aí mora o problema.

O fator que decide é o fósforo do solo, e a razão está na fixação que a seção de comportamento já estabeleceu.

Quando você espalha fósforo a lanço num solo pobre em fósforo, maximiza o contato do adubo com toda a superfície fixadora do Cerrado, e o solo sequestra o fósforo antes de a planta usar.

Você paga por fósforo que vira estátua no perfil.

Para vencer a fixação num solo de fósforo baixo, é preciso localizar, concentrar o fósforo numa linha estreita no sulco, reduzindo a superfície de contato e entregando o nutriente direto na zona de raiz nova.

Localizar é a forma de enganar a fixação.

Num solo que já tem fósforo adequado ou alto, construído por anos de adubação, a planta não depende do filete de fósforo do sulco, porque há fósforo disponível espalhado no perfil inteiro.

Nesse caso, e só nesse caso, dá para adubar a lanço com tranquilidade, ganhando velocidade sem perder produtividade.

O critério é objetivo: fósforo do solo baixo obriga o sulco; fósforo adequado ou alto libera o lanço.

Aqui vai uma crítica ao hábito.

O lanço vem sendo recomendado com frequência na busca por eficiência operacional, mesmo em solos onde o fósforo ainda é baixo e a localização faria diferença de sacas.

É uma economia de diesel que custa grão.

Antes de liberar o lanço, olhe o teor de fósforo do laudo.

Se ele não estiver pelo menos adequado, você está trocando produtividade por conveniência.

flowchart LR
    A[Teor de P no solo] --> B{P baixo?}
    B -- Sim --> C[Sulco obrigatório]
    B -- Não --> D[Lanço liberado]

Duas filosofias antes de qualquer número de adubação

Repor o que a lavoura exporta é diferente de construir a fertilidade do solo.

Antes de abrir a tabela e escolher a dose, existe uma bifurcação que precede a conta, e quem pula ela recomenda no automático.

Adubar segue duas lógicas que respondem a perguntas distintas, e a escolha entre elas decide qual coluna da tabela de recomendação você vai ler.

A adubação de manutenção repõe o que a lavoura vai exportar.

Você olha a expectativa de rendimento e devolve ao solo, mais ou menos, o que aquela produtividade vai retirar, mantendo o teor onde está.

É a filosofia para solo já corrigido e com fertilidade construída, onde o objetivo é sustentar.

A adubação corretiva gradual aplica mais do que a cultura exporta, com a intenção de subir o teor do solo ao longo dos anos, safra após safra, até chegar ao nível adequado.

É a filosofia para solo ainda pobre, em fase de construção.

Você paga a mais agora para colher um solo melhor no futuro.

Critério Adubação de manutenção Adubação corretiva gradual
Objetivo Manter o teor atual Elevar o teor ao longo dos anos
Solo alvo Já corrigido, fertilidade construída Ainda pobre, em construção
Dose vs. exportação Repõe o que a lavoura exporta Aplica acima da exportação
Coluna da tabela "Adequado a alto" Correção por classe de solo
Horizonte Safra a safra Vários anos

Para o TH-07, o fósforo já está adequado e o potássio está médio, então trabalha-se numa lógica de manutenção com um empurrão corretivo no potássio, que ainda não chegou ao ideal.

Com a filosofia definida, o passo seguinte é ler as tabelas.


As tabelas de referência das cinco culturas

A dose de N, P e K sai da produtividade esperada cruzada com o teor do solo.

Todas as recomendações desta aula saem de tabelas construídas por classe de fertilidade do solo e por expectativa de rendimento.

Elas se dividem em dois grupos, seguindo as duas filosofias.

As tabelas de manutenção valem para solos com teores de adequado a alto, e trazem as doses para sustentar a produtividade.

As tabelas de correção valem para solos de baixa a média fertilidade, e trazem doses mais altas para construir o teor ao longo dos anos.

Antes das tabelas por cultura, vale registrar as classes de interpretação que servem de porta de entrada, porque é o teor do solo que aponta a coluna certa.

Interpretação: as classes que definem a coluna da tabela

A leitura do laudo classifica cada atributo numa faixa, e é essa classe que manda na recomendação.

As tabelas a seguir são as de interpretação para culturas anuais de sequeiro, camada de 0 a 20 cm.

Acidez ativa pela leitura de pH:

Classe pH (CaCl₂) pH (H₂O)
Baixo ≤ 4,49 ≤ 5,19
Médio 4,50 a 4,89 5,20 a 5,59
Adequado 4,90 a 5,59 5,60 a 6,39
Alto 5,60 a 5,89 6,40 a 6,69
Muito alto ≥ 5,90 ≥ 6,70

Teor de fósforo pelo extrator Mehlich 1, que varia com a argila porque o solo argiloso fixa mais fósforo e exige teor maior para a mesma classe:

Argila (%) Muito baixo Baixo Médio Adequado Alto
≤ 15,99 0 a 6,0 6,1 a 12,0 12,1 a 18,0 18,1 a 25,0 > 25,0
16,00 a 35,99 0 a 5,0 5,1 a 10,0 10,1 a 15,0 15,1 a 20,0 > 20,0
36,00 a 60,00 0 a 3,0 3,1 a 5,0 5,1 a 8,0 8,1 a 12,0 > 12,0
> 60 0 a 2,0 2,1 a 3,0 3,1 a 4,0 4,1 a 6,0 > 6,0

Teor de fósforo pelo extrator resina, para sequeiro (mg/dm³): muito baixo 0 a 5,99; baixo 6,00 a 8,99; médio 9,00 a 14,99; adequado 15,00 a 20,00; alto acima de 20,00.

Teor de potássio, que depende da CTC a pH 7 do solo.

Para expressar o potássio em cmolc/dm³, divide-se o valor em mg/dm³ por 391:

CTC a pH 7 Baixo (mg/dm³) Médio Adequado Alto
< 4,0 cmolc/dm³ ≤ 15,99 16,00 a 30,99 31,00 a 40,00 > 40,00
≥ 4,0 cmolc/dm³ ≤ 25,99 26,00 a 50,99 51,00 a 80,00 > 80,00

Cálcio e magnésio, saturações e relações, os índices que fecham o diagnóstico de fertilidade:

Atributo Baixo/Baixa Adequado/Adequada Alto/Alta
Ca (cmolc/dm³) < 1,5 1,5 a 7,0 > 7,0
Mg (cmolc/dm³) < 0,5 0,5 a 2,0 > 2,0
Saturação por bases V (%) ≤ 20 (baixa); 21 a 35 (média) 36 a 60 > 60
Saturação por alumínio m (%) ≤ 20 (baixa) não se aplica > 20 (alta)
Relação (Ca + Mg)/K < 10 20 a 30 > 30
Relação Ca/K < 7 15 a 25 > 25
Relação Mg/K < 2 5 a 15 > 15

Nota técnica

nas relações catiônicas, os valores entre a coluna "baixo" e a coluna "adequado" (por exemplo, (Ca+Mg)/K de 10 a 20, Ca/K de 7 a 15 e Mg/K de 2 a 5) constituem uma faixa de transição, não intervalos sem classificação. Uma relação baixa indica potássio em excesso relativo a cálcio e magnésio; a faixa de transição marca a passagem gradual desse excesso até o equilíbrio da faixa "adequada"; e a relação alta sinaliza o oposto, potássio deficiente frente a Ca e Mg. Ao interpretar um laudo, confira as faixas exatas na tabela-fonte de Sousa e Lobato (2004) para a cultura e a classe de solo específicas, porque os limites variam entre referências.

As fórmulas de cálculo que amarram esses índices, para consulta:

Soma de bases: SB = Ca + Mg + K
CTC efetiva: CTCe = Ca + Mg + K + Al
CTC a pH 7: T = Ca + Mg + K + H + Al
Saturação por bases: V = (100 × SB) ÷ T
Saturação por alumínio: m = (100 × Al) ÷ (Al + SB) Relação argila e CTC: RC = T ÷ (argila ÷ 1.000)

Adubação corretiva para solos de baixa a média fertilidade

Esta tabela vale para construir o teor de fósforo e potássio.

O fósforo entra por classe de argila e por classe de teor de P no solo.

O nitrogênio varia de 10 a 30 kg/ha na semeadura e de 20 a 70 kg/ha em cobertura, conforme a cultura e a expectativa.

Teor de argila (%) P₂O₅ muito baixo P₂O₅ baixo P₂O₅ médio
≤ 15,99 70 65 63
16,00 a 35,99 80 70 65
36,00 a 60,00 100 80 70
> 60 120 90 75

Correção do potássio (kg/ha de K₂O):

CTC a pH 7 K baixo K médio
< 4,0 cmolc/dm³ 70 60
≥ 4,0 cmolc/dm³ 80 60

Adubação de manutenção do trigo sequeiro

Para solos com níveis de adequado a alto.

O fósforo e o potássio têm duas colunas cada, uma para teor adequado e outra para teor alto do solo.

Expectativa N semeadura N cobertura P₂O₅ adequado P₂O₅ alto K₂O adequado K₂O alto
3,0 t/ha 20 10 60 30 30 15
4,0 t/ha 20 40 70 35 40 20
5,0 t/ha 20 70 80 40 50 25

O trigo tem duas particularidades registradas na fonte.

O controle de chochamento (esterilidade masculina) é feito com boro na adubação de semeadura, em dose de 0,65 a 1,3 kg/ha de boro, o que equivale a 5,9 a 11,8 kg/ha de bórax ou 35 a 70 kg/ha de FTE BR 12 (1,8% de boro).

E a inoculação de sementes com bactérias fixadoras é uma prática disponível:

Produto Microrganismo Estirpes Concentração Dose
Azototal Azospirillum brasilense AbV5 e AbV6 2 × 10⁸ UFC/mL 100 mL/50 kg de semente
Masterfix gramíneas Azospirillum brasilense AbV5 e AbV6 2 × 10⁸ UFC/mL 100 mL/ha

Adubação de manutenção do arroz sequeiro

Para solos de adequado a alto.

O nitrogênio entra na faixa de 10 a 30 kg/ha na semeadura e de 20 a 70 kg/ha em cobertura, conforme o ajuste da lavoura.

Expectativa N semeadura N cobertura P₂O₅ adequado P₂O₅ alto K₂O adequado K₂O alto
3,0 t/ha 10 a 30 20 a 70 40 20 40 20
4,0 t/ha 10 a 30 20 a 70 60 30 50 30
5,0 t/ha 10 a 30 20 a 70 70 35 60 40

Adubação de manutenção do milho sequeiro

Para solos de adequado a alto.

O milho é a cultura mais exigente e a única com coluna de potássio dividida entre semeadura e cobertura, além de trazer duas linhas para a expectativa de 10,0 t/ha, correspondentes a diferentes níveis de manejo.

Expectativa N semeadura N cobertura P₂O₅ adequado P₂O₅ alto K₂O sem. adequado K₂O sem. alto K₂O cobertura
6,0 t/ha 20 40 60 30 60 30 0
8,0 t/ha 30 70 80 40 60 40 30
10,0 t/ha 30 130 100 50 60 50 60
10,0 t/ha 30 180 120 60 60 60 90

Para doses superiores a 100 kg/ha de N, parcelar metade entre V4 e V6 e metade entre V8 e V10.

O enxofre entra com 20 kg/ha para expectativa de até 8 t/ha e 30 kg/ha para expectativas de 8 a 12 t/ha.

Adubação de manutenção do milheto granífero

Para solos de adequado a alto.

Expectativa N semeadura N cobertura P₂O₅ adequado P₂O₅ alto K₂O adequado K₂O alto
2,0 t/ha 20 40 60 30 40 20
3,0 t/ha 20 60 80 40 60 30

Enxofre: 20 kg/ha.

Adubação de manutenção do sorgo granífero

Para solos de adequado a alto.

Expectativa N semeadura N cobertura P₂O₅ adequado P₂O₅ alto K₂O adequado K₂O alto
4,0 t/ha 20 30 60 30 40 20
5,0 t/ha 20 70 70 35 50 25
6,0 t/ha 20 110 80 40 60 30

Enxofre: 20 kg/ha.

A leitura comparativa das cinco culturas revela o que a fenologia e o hábito de cada cereal exigem.

O milho puxa a maior demanda de nitrogênio em cobertura, chegando a 180 kg/ha nas altas produtividades, porque acumula muita matéria seca e enche um grão de alta exigência.

O trigo e o arroz de sequeiro trabalham com nitrogênio de cobertura mais moderado.

O sorgo e o milheto, cereais rústicos, têm exigência de fósforo e potássio menor por tonelada esperada.

O nitrogênio de semeadura é baixo e parecido entre todas, porque é só arranque, e o fósforo sempre concentrado na semeadura, coerente com a mobilidade que discutimos.


A fórmula NPK: o que é e como escolher

A grade comercial precisa reproduzir a proporção que você calculou, dentro da tolerância.

Definidas as doses de N, P₂O₅ e K₂O pela tabela, o próximo passo é achar o produto que as entrega.

Uma fórmula NPK, ou grade, é a composição percentual do fertilizante em nitrogênio, fósforo (como P₂O₅) e potássio (como K₂O).

A fórmula 08-28-20 quer dizer 8% de N, 28% de P₂O₅ e 20% de K₂O em massa.

Cem quilos dela contêm 8 kg de N, 28 kg de P₂O₅ e 20 kg de K₂O.

O resto é matéria de enchimento e outros elementos.

O desafio é que o mercado não vende uma fórmula com a proporção exata que você calculou.

Você precisa achar uma grade comercial cuja proporção entre os três nutrientes bata com a que você precisa, e depois calcular quantos quilos dela aplicar.

O método é reduzir a sua necessidade à proporção mais simples e procurar uma grade com a mesma cara.

Para a semeadura do TH-07 a necessidade é 20-70-50.

Dividindo por 20 para enxergar a proporção:

20 ÷ 20 = 1,0000
70 ÷ 20 = 3,5000
50 ÷ 20 = 2,5000

A proporção procurada é 1,0000 : 3,5000 : 2,5000.

Multiplico por fatores crescentes até bater numa fórmula que existe:

Fator N P₂O₅ K₂O
× 4 4,0000 14,0000 10,0000
× 5 5,0000 17,5000 12,5000
× 6 6,0000 21,0000 15,0000
× 7 7,0000 24,5000 17,5000
× 8 8,0000 28,0000 20,0000

No fator 8 apareceu 8,0000 - 28,0000 - 20,0000, exatamente a fórmula comercial 08-28-20.

A proporção dela é idêntica à necessária.

A escolha entre grades possíveis segue três critérios objetivos.

O primeiro é a proporção, que precisa reproduzir a relação entre os três nutrientes.

O segundo é a concentração, porque uma grade muito diluída obriga a jogar toneladas de produto por hectare, cara e desconfortável de operar.

O terceiro é a disponibilidade real na região, porque a fórmula perfeita no papel que ninguém vende não serve.

E há a régua de tolerância que fecha a decisão: a variação entre o desejado e o entregue, para cada nutriente, deve ficar em no máximo mais ou menos 10 kg/ha.

As tabelas abaixo trazem as grades comerciais mais comuns, separadas por uso.

Elas servem de banco de consulta na hora de casar a proporção calculada com um produto que existe.

Fórmulas comerciais comuns para semeadura:

00-14-14 00-15-30 00-20-10 00-20-20
00-20-25 00-20-30 00-25-20 00-25-25
00-28-20 00-30-10 00-30-15 02-10-28
02-15-30 02-18-28 02-20-10 02-20-20
02-20-30 02-22-10 02-25-20 02-25-25
02-28-18 02-28-20 02-30-05 02-30-10
02-30-15 03-15-15 03-15-30 03-23-23
03-25-20 03-25-25 03-30-15 04-12-16
04-14-08 04-16-08 04-24-08 04-24-12
04-30-10 04-30-15 05-10-20 05-15-15
05-15-30 05-20-10 05-20-20 05-20-30
05-23-23 05-24-12 05-25-20 05-25-25
05-30-10 05-30-15 06-24-12 06-26-16
06-30-06 07-11-09 07-22-22 07-30-15
08-15-15 08-15-25 08-16-12 08-16-16
08-16-24 08-18-28 08-20-20 08-20-30
08-26-26 08-28-16 08-28-20 08-28-28
08-30-30 09-12-27 09-13-19 09-33-12

Fórmulas comerciais comuns para cobertura:

10-05-20 10-06-20 10-10-10 10-10-20
10-15-25 10-16-20 10-18-20 10-20-10
10-20-15 10-20-20 10-20-30 10-24-12
10-25-25 10-26-25 10-28-20 10-30-10
10-30-20 12-00-12 12-02-12 12-06-12
12-06-18 12-11-18 12-14-12 12-15-12
12-15-15 12-31-20 13-13-13 13-19-19
14-07-28 15-00-14 15-00-15 15-05-30
15-06-15 15-08-10 15-09-20 16-16-16
18-00-27 18-18-18 19-04-19 20-00-10
20-00-15 20-00-20 20-00-30 20-05-20
20-10-10 20-10-15 20-10-20 21-07-14
22-00-20 22-00-30 25-00-25 26-00-25
30-00-15 30-00-18 30-00-20 30-03-03
36-00-12

Da dose por hectare aos gramas por metro de sulco

A recomendação só vira realidade quando traduzida para a regulagem da máquina.

Escolhida a fórmula 08-28-20, calcula-se quantos quilos dela aplicar por hectare para entregar os 70 kg/ha de P₂O₅.

Ancoro a regra de três no fósforo, porque na semeadura ele é o nutriente que quero acertar com precisão, vai inteiro aqui e não terá segunda chance na cobertura.

Cem quilos da fórmula têm 28 kg de P₂O₅:

100 kg de 08-28-20 entregam 28 kg de P₂O₅
x kg de 08-28-20 entregam 70 kg de P₂O₅

x = (100 × 70) ÷ 28 = 250,0000 kg/ha de 08-28-20

Confiro se essa dose entrega os outros dois dentro da tolerância:

N: 250 × 0,08 = 20,0000 kg/ha (desejado 20, diferença 0) P₂O₅: 250 × 0,28 = 70,0000 kg/ha (desejado 70, diferença 0) K₂O: 250 × 0,20 = 50,0000 kg/ha (desejado 50, diferença 0)

Os três bateram exatos.

Se algum estourasse a margem de mais ou menos 10 kg/ha, testaria outra grade.

O passo seguinte é o mais negligenciado e o mais decisivo.

Uma recomendação de 250 kg/ha impecável no papel não vale nada se o dosador da semeadora despejar a quantidade errada no sulco.

O produtor não regula a máquina em quilos por hectare, regula em gramas por metro de linha.

Traduzir uma coisa na outra é o que faz a recomendação virar realidade.

Preciso saber quantos metros de sulco existem em um hectare, e isso depende do espaçamento entre fileiras.

Para o trigo, com espaçamento de 0,17 m, em um hectare (10.000 m²):

Metros de sulco por hectare = 10.000 ÷ 0,17 = 58.823,5294 m/ha

Distribuo os 250 kg/ha ao longo desses metros, convertendo para gramas:

Quantidade por metro = (250 × 1.000) ÷ 58.823,5294 = 4,2500 g/m de 08-28-20

O produtor calibra a semeadora para largar 4,2500 gramas da fórmula a cada metro de linha.

Repare como o espaçamento mexe em tudo: se fosse milho a 0,50 m, os metros de sulco por hectare despencariam e a grama por metro subiria na mesma proporção.

Errar o espaçamento nessa conta é errar a dose real na lavoura inteira, mesmo com a recomendação por hectare correta.

Falta a cobertura do TH-07, que entrega 40 kg/ha de N e os 10 kg/ha de K₂O que sobraram, fósforo zero.

A necessidade é 40-0-10, proporção 4 : 0 : 1.

A grade comercial 36-00-12 se aproxima o bastante.

Ancoro no nitrogênio:

x = (100 × 40) ÷ 36 = 111,1111 kg/ha de 36-00-12

Confiro o potássio:

N: 111,1111 × 0,36 = 40,0000 kg/ha (desejado 40, diferença 0) K₂O: 111,1111 × 0,12 = 13,3333 kg/ha (desejado 10, diferença 3,3333)

O potássio saiu em 13,3333, acima dos 10, mas a diferença está dentro do mais ou menos 10 kg/ha.

Aprovado.

Somando as etapas, a lavoura recebe 60 kg/ha de N, 70 de P₂O₅ e 63,3333 de K₂O, batendo com o planejado de 60-70-60, com a pequena sobra de potássio dentro da tolerância.


Eficiência de uso dos nutrientes e adubação de sistema

Adubar o sistema de rotação rende mais que adubar cada cultura isolada.

A eficiência de uso de um nutriente é a fração do que você aplicou que a planta de fato transforma em grão.

Ela nunca é de 100%, e as perdas têm endereço: o nitrogênio lixivia e volatiliza, o fósforo é fixado, o potássio lixivia em solo arenoso.

Tudo o que foi discutido até aqui, o parcelamento do nitrogênio, a localização do fósforo, o limite de salinidade do potássio, o combate à volatilização, é manejo de eficiência de uso.

Cada decisão dessas empurra a fração aproveitada para cima e a fração perdida para baixo.

A eficiência difere entre as culturas e entre os nutrientes.

O nitrogênio é o de menor eficiência de recuperação, justamente por ser o mais móvel e o mais sujeito a perda, e por isso concentra as estratégias de mitigação.

O fósforo tem baixa eficiência no ano da aplicação em solo pobre, porque boa parte é fixada, mas constrói um efeito residual que a cultura seguinte aproveita.

Essa diferença de comportamento leva ao conceito de adubação de sistema.

Adubar o sistema, em vez de adubar cada cultura isolada, significa planejar a correção e a adubação pensando na rotação inteira, não numa safra só.

O fósforo aplicado e parcialmente fixado numa safra fica de reserva para a próxima.

O potássio de uma adubação farta pode atender duas culturas.

A palhada da cultura anterior devolve nutrientes ao solo.

Em vez de reabastecer do zero a cada plantio, você constrói e mantém um estoque no solo, ajustando cada safra em cima do que a anterior deixou.

Essa é a lógica que separa o manejo nutricional de altas produtividades do manejo safra a safra: em produtividade alta, a correção do ambiente e a construção da fertilidade do solo precisam estar prontas antes, porque a planta não tem tempo de esperar o solo melhorar enquanto tenta produzir muito.


O planejamento completo: correção e adubação num só programa

O programa do talhão junta calagem, gessagem, semeadura e cobertura numa receita só.

Fechar um planejamento nutricional é juntar todas as decisões numa receita que se assina para o produtor.

Para o TH-07, trigo sequeiro, o programa completo fica assim.

Correção da superfície: aplicar 1,3732 t/ha de calcário calcítico ou magnesiano de PRNT 90%, incorporado na camada de 0 a 20 cm, para elevar o V de 39,5215% para 60%.

Correção do subsolo: aplicar 4,2960 t/ha de gesso agrícola em superfície, sem incorporação, para levar cálcio à camada de 20 a 40 cm e reduzir a saturação por alumínio de 44,3459%, abrindo caminho para a raiz descer.

Adubação de semeadura: aplicar 250,0000 kg/ha da fórmula 08-28-20 no sulco, o que equivale a calibrar a semeadora em 4,2500 g/m de linha no espaçamento de 0,17 m.

Isso entrega 20 kg/ha de N de arranque, os 70 kg/ha de P₂O₅ inteiros e 50 kg/ha de K₂O.

Adubação de cobertura: aplicar 111,1111 kg/ha da fórmula 36-00-12, entregando 40 kg/ha de N no momento de maior demanda e completando 13,3333 kg/ha de K₂O.

O fluxograma da corrente, no início deste texto, é a espinha desse programa.

Cada número saiu de uma etapa, e cada etapa dependeu da anterior.

O laudo virou dose, a dose virou fórmula, a fórmula virou quilos por hectare, e os quilos por hectare viraram gramas por metro na máquina.

Essa é a tradução completa, do papel ao campo.

Vale um exercício de contraste com o milho para fixar que a adubação não é uma tabela copiada, é uma conversa entre o que a planta quer e o que o solo tem.

Tome um talhão de milho, o TH-20, com fósforo do solo classificado como alto e as necessidades de 30-90-30 na semeadura e 90-0-40 na cobertura, espaçamento de 0,50 m.

A proporção da semeadura, 1 : 3 : 1, casa com a fórmula 10-30-10.

Ancorando no fósforo, x = (100 × 90) ÷ 30 = 300,0000 kg/ha de 10-30-10, que entrega os três nutrientes exatos.

Como o fósforo do solo está alto, essa adubação pode ir a lanço, ganhando velocidade, porque a planta não depende do fósforo localizado no sulco.

Se optar pelo sulco no espaçamento de 0,50 m: metros de sulco por hectare = 10.000 ÷ 0,50 = 20.000, e a quantidade por metro = (300 × 1.000) ÷ 20.000 = 15,0000 g/m.

Repare como o mesmo procedimento do trigo, aplicado a um espaçamento maior, mais que triplica a grama por metro, embora a dose por hectare seja parecida.

A cobertura, 90-0-40, casa com a 30-00-15: x = (100 × 90) ÷ 30 = 300,0000 kg/ha, entregando 90 de N e 45 de K₂O, o potássio 5 kg/ha acima do desejado e dentro da tolerância.


Erros comuns e o que eles custam

Cada erro de adubação tem um preço que só aparece na balança da colheita.

A tabela abaixo reúne os erros que mais se repetem no campo, o mecanismo por trás de cada um e o prejuízo que geram.

Ela funciona como uma lista de verificação antes de assinar uma recomendação.

Erro Mecanismo Consequência
Adubar antes de corrigir o solo Nutriente entra em ambiente ácido que trava a absorção e fixa o fósforo Adubo desperdiçado, resposta baixa
Comprar calcário pela tonelada, ignorando o PRNT Material de baixo PRNT neutraliza menos por peso Correção insuficiente, custo real maior
Amostrar só a camada de 0 a 20 cm O subsolo hostil fica invisível Raiz presa em camada rasa, murcha no veranico
Jogar todo o nitrogênio na semeadura Lixivia antes da demanda e sala a semente Perda de N e queima da plântula
Empilhar K₂O acima de 50 kg/ha no sulco Índice salino alto desidrata a semente Falha de estande por queima
Adubar fósforo a lanço em solo de P baixo Máximo contato com a superfície fixadora Fósforo imobilizado, perda de sacas
Aplicar ureia em superfície sem chuva nem incorporação Urease hidrolisa e a amônia volatiliza Perda de parte expressiva do N
Errar o espaçamento no cálculo de gramas por metro Metros de sulco por hectare mudam Dose real errada na lavoura inteira
Comprar dolomítico com magnésio já adequado Repõe magnésio desnecessário e estreita a relação Ca:Mg Gasto inútil e desequilíbrio de cátions
Ignorar o gesso com subsolo tóxico Falta cálcio e sobra alumínio em profundidade Sistema radicular raso, perda em estresse hídrico

Fechamento

A pergunta que separa o agrônomo que adubina do que entende adubação aparece no dia em que o preço do fertilizante dispara e o cliente pede para cortar custo.

Quem não domina o assunto corta linearmente de todo mundo, tira dez por cento de cada nutriente em cada talhão e reza.

Quem domina abre o laudo, olha o teor de fósforo talhão a talhão, identifica onde o solo já construiu reserva e onde ainda depende do adubo do ano, e corta com precisão de onde dá para tirar sem perder um grão.

A diferença entre os dois não está na conta, que é simples, está na leitura do que o solo já tem.

É por isso que a adubação começa na análise de solo e termina na regulagem da máquina, e o elo que falha em qualquer ponto dessa corrente custa produtividade que não volta.


Referências

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa nº 2, de 9 de outubro de 2008. Estabelece as classes de solo, segundo a textura, para fins de Zoneamento Agrícola de Risco Climático. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 10 out. 2008.

CANTARELLA, H. Nitrogênio. In: NOVAIS, R. F.; ALVAREZ V., V. H.; BARROS, N. F. de; FONTES, R. L. F.; CANTARUTTI, R. B.; NEVES, J. C. L. (ed.). Fertilidade do solo. Viçosa, MG: Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 2007. p. 375-470.

MALAVOLTA, E. ABC da adubação. 4. ed. São Paulo: Agronômica Ceres, 1979.

QUAGGIO, J. A. Critérios para calagem em solos do Estado de São Paulo. 1983. Dissertação (Mestrado em Solos e Nutrição de Plantas). Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo, Piracicaba, 1983.

QUAGGIO, J. A.; RAIJ, B. van; MALAVOLTA, E. Alternative use of the SMP-buffer solution to determine lime requirement of soils. Communications in Soil Science and Plant Analysis, v. 16, n. 3, p. 245-260, 1985.

SOUSA, D. M. G. de; LOBATO, E. (ed.). Cerrado: correção do solo e adubação. 2. ed. Brasília, DF: Embrapa Informação Tecnológica, 2004. 416 p.


Aula 08: Adubação e Manejo Nutricional · Lista de Exercícios

Tip

Tente resolver antes de abrir o gabarito das respostas, ao final desta página. O esforço de recuperar e raciocinar é o que consolida o aprendizado: consultar a resposta cedo demais desperdiça esse ganho.

  • Bloco A não tem gabarito: são questões de discussão, retomadas no início da próxima aula (Aula 09). Traga suas respostas escritas.
  • Blocos B e C têm gabarito comentado no gabarito das respostas, ao final desta página.

Bloco A: Para discutir na próxima aula

Responda por escrito, de forma breve. Não há resposta divulgada: traga suas respostas para a discussão em sala.

A1. Na Aula 07 você separou os nutrientes pelo mecanismo de contato com a raiz: fósforo e potássio chegam por difusão, enquanto nitrogênio, cálcio e magnésio chegam por fluxo de massa. Na Aula 08, essa mesma física decide onde e quando cada adubo entra. (i) Por que o fósforo, que chega por difusão e ainda é fixado pelos óxidos do Cerrado, precisa ir localizado no sulco num solo de P baixo, ao passo que o nitrogênio (nitrato, que lixivia) precisa ser parcelado em arranque mais cobertura? (ii) Mostre como o mecanismo de contato e a mobilidade de cada nutriente, e não uma regra decorada, sustentam a decisão "fósforo todo na semeadura, localizado; nitrogênio dividido no tempo".

A2. O texto da Aula 08 abre dizendo que jogar nitrogênio num solo ácido de alumínio tóxico é como abastecer o carro com o freio de mão puxado, porque a planta responde ao fator mais limitante. (i) Explique por que a ordem corrigir depois adubar é fixa e por que adubar antes de corrigir é dinheiro parado no perfil. (ii) Ligando ao laudo interpretado na Aula 07 (o TH-07 saiu distrófico, V de 39,52%, e não álico, m de 5,17%), como os índices V, m e Al³⁺ decidem se um talhão precisa de calagem, de gessagem, ou das duas coisas, antes de qualquer quilo de adubo?

A3. A adubação a lanço num solo de fósforo baixo maximiza o contato do adubo com a superfície fixadora, e por isso a localização no sulco é o que engana a fixação. A próxima aula pergunta em que momento as plantas daninhas começam a reduzir a produtividade, competindo por recursos. (i) Além da fixação, como a decisão entre sulco e lanço muda o quanto as plantas daninhas da entrelinha se beneficiam do adubo aplicado, e por que isso importa para a competição que a Aula 09 vai tratar? (ii) A palhada do plantio direto apareceu nesta aula agravando a volatilização da ureia em cobertura; na Aula 09 ela reaparece como método cultural de supressão de daninhas. Discuta esse duplo papel da palhada e o que ele ensina sobre decidir manejo olhando o sistema inteiro, não uma operação isolada.


Bloco B: Consolidação da Aula 08

B1. (múltipla escolha) No subsolo de um talhão (camada de 20 a 40 cm) o laudo aponta pH baixo, saturação por alumínio de 40% e Al³⁺ de 1,3 cmolc/dm³. O agrônomo cogita aplicar gesso agrícola para "corrigir a acidez do subsolo". Sobre essa ideia, a avaliação correta é:

(a) O gesso corrige o pH do subsolo ácido porque é solúvel e desce no perfil junto com a água da chuva.
(b) O gesso leva cálcio e amansa o alumínio no subsolo, mas não corrige o pH, por ser sal neutro.
(c) O gesso substitui o calcário no subsolo ácido, dispensando a calagem de superfície do talhão.
(d) O gesso não fornece nutriente nem atua sobre o alumínio, então não há motivo para aplicá-lo.

B2. (múltipla escolha) Numa revenda, o produtor compara dois calcários: o calcário A, de PRNT 60%, custa menos por tonelada; o calcário B, de PRNT 90%, custa mais por tonelada. Para decidir qual compensa, o critério agronômico correto é:

(a) Comparar pelo preço por unidade de PRNT, pois o de PRNT baixo pode custar mais por neutralização.
(b) Escolher o de menor preço por tonelada, pois ambos neutralizam a mesma acidez por peso aplicado.
(c) Escolher sempre o de maior PRNT, qualquer que seja o preço, porque reage mais rápido no solo.
(d) Escolher pelo maior Poder de Neutralização, que sozinho já define o efeito real do produto no campo.

B3. (múltipla escolha) Para um sorgo, a recomendação fechou em 70 kg/ha de K₂O. O agrônomo quer colocar todo esse potássio no sulco de semeadura, junto da semente, para simplificar a operação. A conduta correta é:

(a) Pode aplicar todo o K₂O no sulco, pois o potássio tem índice salino baixo e não queima a semente.
(b) Deve trocar o cloreto de potássio por superfosfato no sulco, para reduzir a salinidade junto da semente.
(c) Parte do K₂O vai para cobertura: acima de 50 kg/ha no sulco o índice salino alto pode queimar a semente.
(d) Pode aplicar tudo no sulco desde que respeite o limite de 80 kg/ha, que é o que vale para essa decisão.

B4. (múltipla escolha) Em plantio direto, com palhada na superfície, o agrônomo vai aplicar ureia em cobertura, mistura um inibidor de urease (NBPT) e a previsão é de calor e sem chuva por dez dias. Sobre o resultado esperado, é correto afirmar:

(a) O NBPT elimina a volatilização e torna a chuva desnecessária depois da aplicação da ureia.
(b) Como há palhada na superfície cobrindo o solo, a volatilização é baixa e o inibidor é dispensável.
(c) Trocar a ureia por sulfato de amônio aumentaria ainda mais a perda por volatilização deste talhão sob palhada.
(d) O NBPT só adia a hidrólise por alguns dias; sem chuva nem incorporação no prazo, a perda ocorre igual.

B5. (aberta) Um produtor precisa fechar dois pontos da compra de fertilizante. (i) No talhão A, a análise acusou enxofre baixo e ele hesita entre ureia e sulfato de amônio para o nitrogênio; compare as duas fontes por concentração, elemento acompanhante e efeito no solo, e diga qual resolve também o enxofre. (ii) Para o potássio de um talhão onde a salinidade preocupa, compare cloreto de potássio e sulfato de potássio e justifique a escolha.

B6. (aberta) No talhão TH-07 o fósforo do solo está adequado e o potássio está médio. (i) Diferencie a adubação de manutenção da adubação corretiva gradual quanto a objetivo, solo-alvo e dose frente à exportação. (ii) Explique por que, nesse talhão, o texto trabalha em manutenção com um empurrão corretivo no potássio, e o que isso significa para a coluna da tabela que se vai ler para cada nutriente.

B7. (aberta) Um colega afirma: "Adubação é tabela copiada, todas as cinco culturas se adubam praticamente igual." Usando a leitura comparativa das cinco culturas e o conceito de eficiência de uso de nutrientes, avalie a afirmação. Aponte (i) por que o nitrogênio concentra as estratégias de mitigação de perda e qual cultura mais o exige em cobertura, e (ii) em que o sorgo e o milheto diferem do milho e do trigo na exigência, e por que o fósforo de semeadura é semelhante em todas.


Bloco C: Cálculo e diagnóstico

C1. (cálculo de correção) Um talhão de grãos, o TH-45, solo argiloso, será corrigido com um calcário de PRNT 85%, mirando V2 = 60%. Da interpretação já fechada tem-se, na camada de 0 a 20 cm: V1 = 40%, T = 7,0 cmolc/dm³, Ca = 2,0, Mg = 0,6 e Al³⁺ = 0,4 cmolc/dm³. Na camada de 20 a 40 cm: Ca = 0,8, Mg = 0,3, Al³⁺ = 1,0 cmolc/dm³ e K = 19,55 mg/dm³.

(i) Calcule a necessidade de calagem pelos três métodos e escolha a dose a recomendar, justificando a escolha. (ii) Indique o tipo de calcário (calcítico, magnesiano ou dolomítico) pelo critério do magnésio do solo. (iii) Verifique se a gessagem está indicada pelos critérios da camada de 20 a 40 cm, calculando a saturação por alumínio. (iv) Calcule a dose de gesso pelo método da CTC efetiva. Use as fórmulas e os coeficientes da fonte e arredonde a 4 casas decimais.

C2. (cálculo de recomendação) Fechada a correção, monta-se a adubação de um sorgo granífero, o TH-31, com expectativa de 5,0 t/ha, em solo cujo laudo trouxe fósforo e potássio na classe adequada, espaçamento de 0,45 m. As doses saem da tabela de manutenção do sorgo.

(i) Escreva as necessidades de semeadura e de cobertura (N, P₂O₅, K₂O), e justifique se todo o K₂O cabe no sulco. (ii) Para a semeadura, reduza a necessidade à proporção mais simples, confirme que a grade comercial 08-28-20 a reproduz, e calcule a dose em kg/ha ancorando no P₂O₅; confira N e K₂O na tolerância de mais ou menos 10 kg/ha. (iii) Converta a dose de semeadura em gramas por metro de sulco no espaçamento de 0,45 m. (iv) Converta os 70 kg/ha de N de cobertura em kg/ha de ureia (adote 45% de N, valor dentro da faixa de 44% a 46% da fonte) e comente por que essa cobertura, em plantio direto, exige cuidado com a volatilização. Arredonde a 4 casas decimais.


Gabarito

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