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Germinação de Sementes

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A semente que vai para o sulco carrega uma contradição só aparente: é um organismo vivo em quiescência profunda, com metabolismo próximo de zero, mas capaz de retomar o crescimento em poucas horas quando as condições viram favoráveis.

Essa retomada não é um evento único, é uma cascata de fases físicas e bioquímicas que se sobrepõem no tempo, e o resultado dessa cascata decide se a semente vai virar plântula normal ou vai sucumbir antes de emergir.

Toda lavoura do Cerrado mato-grossense nasce desse evento que ninguém vê acontecer debaixo do solo, e um agrônomo que não domina essa sequência de eventos vai sempre chegar atrasado no diagnóstico de um estande ruim.


Três formas de definir germinação

Uma mesma palavra cobre três eventos distintos, com consequências técnicas diferentes entre si.

O termo germinação muda de sentido dependendo de quem fala e do propósito da fala.

No sentido botânico, germinação é a retomada do crescimento do eixo embrionário depois de um período de quiescência ou dormência, encerrada com a protrusão da radícula.

É critério estritamente morfológico.

Germinação (conceito botânico)

Retomada do crescimento do eixo embrionário após quiescência ou dormência, encerrada com a protrusão da raiz primária. Critério: evento morfológico visível.

O conceito agronômico e tecnológico exige mais do que isso.

Não basta a radícula romper o tegumento, a plântula precisa desenvolver estruturas suficientes para indicar capacidade de virar planta normal em condições favoráveis de campo.

Uma semente deteriorada pode protruir a radícula e ainda assim originar plântula anormal, incapaz de sobreviver, e é por isso que o conceito tecnológico incorpora a avaliação do desenvolvimento das estruturas essenciais como critério de normalidade.

Germinação (conceito agronômico e tecnológico)

Processo iniciado com a absorção de água pela semente seca e concluído com plântula funcional, apta a se desenvolver em planta normal sob condições favoráveis de campo. Critério: funcionalidade da plântula.

No laboratório, o critério é o da RAS.

O resultado do teste de germinação é expresso como percentual de plântulas normais, sob condições e período padronizados por espécie.

Germinação (conceito analítico, RAS)

Emergência e desenvolvimento das estruturas essenciais do embrião em teste de laboratório, demonstrando aptidão para produzir planta normal. Resultado expresso em percentual de plântulas normais no Boletim de Análise de Sementes.

Plântula normal (RAS)

Sistema radicular com raiz primária, e em certos gêneros raízes seminais; parte aérea com hipocótilo, epicótilo, mesocótilo ou coleóptilo conforme a espécie; gema apical funcional; número específico de cotilédones e folhas primárias verdes e em expansão. Inclui plântulas com pequenos defeitos que não comprometam o desenvolvimento e plântulas com infecção secundária de origem externa.

Ao final do teste, cada semente cai numa de cinco categorias, e confundir uma com outra distorce o boletim inteiro.

Categoria Definição (RAS)
Plântula normal Desenvolvimento equilibrado das estruturas essenciais, apta a originar planta produtiva
Plântula anormal Uma ou mais estruturas essenciais ausentes, deformadas, deterioradas ou desproporcionais
Semente dura Não absorveu água ao final do teste; tegumento impermeável
Semente dormente Absorveu água, não está obviamente morta, mas não germinou; verificar viabilidade pelo tetrazólio quando a proporção for igual ou superior a 5%
Semente morta Obviamente inviável: mole, mofada ou sem resposta

Nota técnica

Em lotes de soja com incidência de dormência, a RAS determina que, quando sementes dormentes ocorrem em proporção igual ou superior a 5%, a viabilidade deve ser verificada pelo teste de tetrazólio ou por dissecação antes de classificá-las como mortas. A soma das sementes dormentes viáveis com as plântulas normais compõe o potencial germinativo real do lote.

Germinação, emergência e estabelecimento são três eventos sequenciais, com determinismo próprio cada um, e capazes de falhar de forma independente.

A germinação ocorre quando a radícula rompe o tegumento, um processo interno.

A emergência ocorre quando a plântula aparece na superfície do solo, um processo visível.

O estabelecimento vem depois, e só termina quando a plântula deixa de depender das reservas da semente e passa a se sustentar pela própria fotossíntese.


Pré-requisitos para a germinação

Quatro condições externas e uma condição interna são insubstituíveis.

Uma semente viável e não dormente germina quando encontra, ao mesmo tempo, água disponível em quantidade suficiente, temperatura dentro da faixa tolerada pela espécie, oxigênio para a respiração aeróbica e, em espécies fotoblásticas positivas, luz.

A ausência de qualquer uma dessas condições bloqueia o processo em algum ponto da sequência.

Requisito Base fisiológica Consequência da ausência
Água Potencial hídrico matricial e osmótico diferencial Embebição não ocorre ou estagna na fase I
Temperatura adequada Atividade enzimática dentro da faixa funcional Reações metabólicas lentas ou nulas
Oxigênio Respiração aeróbica como fonte de ATP para o crescimento Protrusão radicular bloqueada ou retardada
Ausência de dormência Embrião com capacidade de resposta a sinais de crescimento Germinação bloqueada mesmo com condições externas favoráveis
Embrião viável Estrutura celular e capacidade metabólica preservadas Fase I sem progressão para fase III
Luz (espécies fotoblásticas) Resposta ao fitocromo, conversão de Pr para Pfr Germinação inibida em fotoblásticas positivas

A condição mais básica de todas é a viabilidade do embrião, e ela é também a mais difícil de enxergar de fora.

Semente morta absorve água na fase I exatamente como semente viva, com curva de embebição inicial idêntica.

O critério de morte não é a ausência de captação de água, é a incapacidade de retomar o metabolismo e progredir para o crescimento celular.

A dormência, quando presente, bloqueia a germinação mesmo com todas as condições externas favoráveis, seja por tegumento impermeável, por bloqueio fisiológico no embrião ou pela combinação dos dois, tema tratado com profundidade na aula própria sobre dormência.


Embebição: o padrão trifásico

A absorção de água segue um padrão de três fases com significados fisiológicos distintos entre si.

A embebição é dirigida pelo diferencial de potencial hídrico entre a semente e o meio, descrita por Bewley e Black como modelo de referência para a hidratação de sementes.

O potencial hídrico da semente seca é dado por:

Ψ semente = Ψπ + Ψm + ΨP

onde Ψπ é o potencial osmótico, negativo, função da concentração de solutos; Ψm é o potencial matricial, negativo, função da capacidade de ligação de água pelas macromoléculas; ΨP é o potencial de pressão ou turgor, positivo em células túrgidas.

Em sementes secas o potencial hídrico pode atingir valores entre -50 e -400 MPa, um gradiente enorme frente a qualquer substrato úmido.

flowchart TD
    A[Semente seca, potencial hídrico muito negativo] --> B[Fase I: absorção rápida, domínio do potencial matricial]
    B --> C{Semente viva e não dormente?}
    C -- Não --> D[Estagna na fase I, sem progressão]
    C -- Sim --> E[Fase II: plateau metabólico, potencial matricial tende a zero]
    E --> F[Reparo de membranas, reparo de DNA, síntese proteica via mRNAs pré-formados]
    F --> G[Fase III: nova absorção, enfraquecimento dos tecidos ao redor da radícula]
    G --> H[Protrusão radicular: germinação concluída no sentido botânico]
    H --> I[Início do crescimento do eixo embrionário e da mobilização de reservas]

A fase I é absorção rápida e predominantemente física, dirigida pelo potencial matricial elevado da semente seca.

Ocorre em sementes vivas e mortas, dormentes ou não, desde que o tegumento seja permeável, e dura de 8 a 16 horas na maioria dos casos.

É nela que aparecem os primeiros sinais de reativação metabólica, como aumento da respiração e síntese de proteínas a partir de mRNA armazenado.

Sementes inteiras com reserva cotiledonar atingem mais de 45% de água em base úmida; sementes endospermáticas ficam entre 30 e 35%; eixos embrionários chegam a pelo menos 50%.

A fase II é a estabilização do teor de água, quando o potencial matricial se anula e o equilíbrio se instala entre potencial osmótico e potencial de pressão.

É a fase mais subestimada por quem olha de fora, porque parece inatividade, mas é onde acontecem os eventos mais decisivos: reparo de membranas, reparo de DNA, síntese proteica, preparação das vias enzimáticas, tudo isso sem crescimento celular líquido.

A duração varia muito entre espécies.

Soja, feijão, milho e amendoim podem ficar nessa fase de 8 a 10 vezes mais tempo que na fase I, enquanto trigo, cevada, arroz e aveia costumam nem apresentar uma fase II pronunciada.

Sementes mortas estagnam aqui e nunca saem.

A fase III é a retomada da absorção, associada à expansão celular do embrião.

O potencial osmótico do embrião fica mais negativo à medida que as reservas são hidrolisadas, aumentando a concentração de solutos, e o enfraquecimento enzimático dos tecidos ao redor da radícula reduz a resistência mecânica ao crescimento.

A protrusão marca o fim da germinação no sentido botânico, e só sementes vivas e não dormentes chegam até aqui.

Nota técnica

A velocidade de embebição depende da composição da semente (alto teor de proteína embebe mais rápido), da temperatura, da área de contato entre semente e substrato e do potencial osmótico do substrato. Solos argilosos têm condutividade hidráulica maior que solos arenosos em estresse hídrico moderado, o que coloca a soja em Latossolos argilosos do Cerrado mato-grossense em condição de contato hídrico geralmente mais favorável do que em solos arenosos.


Reativação metabólica na fase II

A fase de plateau não é inércia, é onde a semente prepara a retomada do crescimento.

A respiração evolui em duas etapas.

Nos primeiros momentos, antes da plena atividade mitocondrial, a resposta é anaeróbica, com glicólise parcial produzindo etanol e lactato.

Conforme a hidratação avança e o acesso ao oxigênio melhora, a respiração mitocondrial assume, passando pelo ciclo de Krebs e pela cadeia transportadora de elétrons.

Evento Momento na fase II Relação com o vigor do lote
Ativação respiratória anaeróbica Início Presente em todos os lotes viáveis
Reorganização de membranas Primeiras horas Mais rápida em lotes de alto vigor
Ativação de enzimas de reparo de DNA Início a meio Reduzida em sementes deterioradas
Síntese proteica via mRNAs pré-formados Início a meio Amplitude depende do vigor
Transição para respiração mitocondrial Meio Marcador de hidratação adequada
Síntese de novo de mRNAs Final da fase II Depende de DNA funcional

O reparo de membranas é um dos eventos mais relevantes dessa fase para quem trabalha com vigor.

Durante a dessecação final da maturação, os fosfolipídios perdem a organização em bicamada fluida e passam a um estado gel desordenado.

Reidratação abrupta provoca extravasamento de metabólitos antes que a membrana se reorganize, e lotes de alto vigor reparam esse dano mais rápido e de forma mais completa que lotes de baixo vigor, o mesmo princípio que sustenta o teste de condutividade elétrica.

O reparo do DNA ativa enzimas que corrigem lesões acumuladas no armazenamento, como quebras de fita simples e oxidações de base, com eficiência proporcional ao vigor do lote.

A síntese proteica começa a partir de mRNAs já formados na semente seca, e só depois passa a depender de transcrição nova, já na transição para a fase III.


Mobilização de reservas

As reservas cotiledonares e endospérmicas alimentam o eixo embrionário até que a fotossíntese assuma o trabalho.

A mobilização começa ainda na fase II e se intensifica depois da protrusão radicular.

O padrão muda conforme a espécie tenha predominância de amido, lipídio ou proteína, e muda também entre gramíneas e leguminosas.

Carboidratos

O amido é degradado por duas amilases com papéis diferentes.

A alfa-amilase hidrolisa as cadeias de amilose e amilopectina por dentro, gerando oligossacarídeos; a beta-amilase atua nas pontas não redutoras, gerando maltose.

Em sementes endospérmicas como cevada e milho, a síntese dessas enzimas na camada de aleurona depende de sinalização hormonal vinda do embrião.

flowchart TD
    A[Embrião hidratado] --> B[Síntese de giberelinas no embrião e escutelo]
    B --> C[Giberelinas difundem para a camada de aleurona]
    C --> D[Ativação do fator de transcrição GA-MYB]
    D --> E[Transcrição do gene da alfa-amilase]
    E --> F[Síntese e secreção da alfa-amilase para o endosperma]
    F --> G[Hidrólise do amido em glicose e maltose]
    G --> H[Glicose transportada ao eixo embrionário]
    G --> I[Maltose difunde de volta à aleurona]
    H --> J[ATP e crescimento embrionário]
    I --> K[Degradação da maltose a glicose pela maltase]
    K --> H

Nota técnica

Em dicotiledôneas com reserva nos cotilédones, como soja e feijão, a mobilização ocorre nos próprios cotilédones sem depender de sinalização hormonal do eixo embrionário para ativar as enzimas. O eixo embrionário continua indispensável como destino que recebe os produtos da hidrólise, e a remoção do eixo paralisa a mobilização mesmo com as enzimas já ativas.

Lipídios

Em oleaginosas como soja e girassol, lipases hidrolisam os lipídios dos corpos de óleo em ácidos graxos livres e glicerol.

Os ácidos graxos passam por beta-oxidação nos glioxissomas, virando acetil-CoA, e o ciclo do glioxilato, via exclusiva de plantas e microrganismos, converte esse acetil-CoA em malato e succinato.

Etapa Compartimento Produto
Hidrólise dos triglicerídeos Corpo de óleo, glioxissoma Ácidos graxos livres e glicerol
Beta-oxidação Glioxissoma Acetil-CoA
Ciclo do glioxilato Glioxissoma Malato e succinato
Gluconeogênese reversa Citossol Sacarose
Translocação Floema cotiledonar Sacarose ao eixo embrionário

É essa rota, convertendo lipídio em sacarose, que permite a uma semente de soja sustentar o crescimento inicial a partir da reserva de óleo, mesmo sem um endosperma amiláceo volumoso.

Proteínas

Proteases hidrolisam as proteínas de reserva em aminoácidos livres, que são transaminados e convertidos principalmente em asparagina e glutamina antes de serem translocados ao eixo embrionário, onde viram aminoácidos específicos para a síntese de proteínas novas nas células em divisão.

O destino final de todas essas rotas é o mesmo: fornecer carbono, nitrogênio e energia ao eixo embrionário até que a plântula tenha folhas fotossinteticamente ativas.


Crescimento do eixo embrionário e protrusão radicular

A expansão celular por absorção de água é o primeiro evento de crescimento visível; a divisão celular vem depois.

A protrusão da radícula ocorre por expansão celular, impulsionada pelo aumento de turgor da fase III.

O relaxamento da parede celular, mediado por expansinas e outras enzimas de degradação, permite o aumento de volume das células.

A divisão celular por mitose é evento posterior, nos meristemas radicular e apical.

Para a radícula atravessar as estruturas que a envolvem, essas estruturas precisam ser enfraquecidas primeiro.

As giberelinas estimulam a síntese de endo-beta-mananase e outras hidrolases que degradam a parede das células do endosperma na região da cápsula radicular, reduzindo a resistência mecânica.

Esse enfraquecimento libera açúcares que aumentam o potencial osmótico do embrião, o que intensifica a absorção de água e a pressão de expansão.

Depois da protrusão, a radícula cresce com geotropismo positivo, penetrando no substrato, enquanto a parte aérea, epicótilo ou coleóptilo conforme a espécie, inicia o crescimento em direção à superfície.

A transição para autotrofia, quando a plântula passa a depender da própria fotossíntese, costuma acontecer de duas a três semanas depois da emergência.

Germinação e vigor

A velocidade e a uniformidade da fase III são atributos de vigor do lote. Sementes de alto vigor retomam o crescimento mais rápido, com menor dispersão temporal entre indivíduos, o que tem consequência direta sobre a qualidade do estande.


Padrões de emergência: epígea e hipógea

O padrão de emergência determina a sensibilidade a danos mecânicos e a profundidade de semeadura viável.

Na germinação epígea, o hipocótilo se alonga rápido e forma um gancho protetor, primeira estrutura a atingir a superfície.

Ao detectar luz, o gancho se desfaz e os cotilédones são trazidos acima do solo, ganham cor verde e cumprem função fotossintética transitória, enquanto plúmula e epicótilo ficam protegidos por eles durante a travessia.

Na germinação hipógea, os cotilédones permanecem abaixo ou no nível do solo, e é o epicótilo que promove a emergência da parte aérea.

Em gramíneas, o coleóptilo é empurrado para cima pelo alongamento do mesocótilo, e ao atingir a luz interrompe o crescimento para que as primeiras folhas emerjam por dentro dele.

Espécie Tipo de emergência Estrutura de proteção Órgão que emerge primeiro após a raiz
Phaseolus vulgaris Epígea Gancho hipocotiledonar, cotilédones Hipocótilo arqueado
Glycine max Epígea Gancho hipocotiledonar, cotilédones Hipocótilo arqueado
Zea mays Hipógea Coleóptilo Mesocótilo
Triticum aestivum Hipógea Coleóptilo Coleóptilo
Oryza sativa Hipógea Coleóptilo Coleóptilo
Pisum sativum Hipógea Gancho epicotiledonar Epicótilo arqueado

A soja é classificada como epígea.

Marcos Filho (2005) descreve e ilustra a germinação da soja dessa forma, com os cotilédones sendo trazidos acima da superfície pelo alongamento do hipocótilo, e essa é a referência primária adotada nesta disciplina.

Sou direto nesse ponto porque acho que rotular a soja de "comportamento intermediário", como às vezes aparece em roteiro de aula, cria uma nuance que a fonte primária já resolveu.

Manter a ambiguidade não ajuda o estudante a decorar o padrão certo, só adia uma decisão que a literatura de referência já tomou.

A implicação agronômica é direta: sementes de emergência epígea são mais sensíveis a dano mecânico no hipocótilo durante a travessia do solo.

Soja semeada a mais de 8 centímetros de profundidade pode falhar na emergência porque o hipocótilo não tem energia de reserva suficiente para completar o percurso, e o vigor do lote amplifica ou atenua essa limitação.

Em gramíneas de padrão hipógeo, o coleóptilo protege a plúmula durante a travessia, o que dá mais margem para semeaduras um pouco mais profundas.


Fatores que afetam a germinação

Água, temperatura e oxigênio definem o domínio viável de germinação; luz e substrato refinam o resultado dentro desse domínio.

Água

A absorção depende do diferencial de potencial hídrico entre semente e substrato.

Quanto mais negativo o potencial hídrico do substrato, mais lenta a embebição e mais longa a fase II, e se o potencial do substrato ficar mais negativo que o do embrião na fase III, a protrusão não acontece.

A disponibilidade hídrica afeta percentual, velocidade e uniformidade de germinação, e em solos com baixa condutividade hidráulica a área de contato entre semente e solo limita o fluxo de água.

Cerrado / MT

Os Latossolos argilosos típicos do Cerrado mato-grossense têm condutividade hidráulica maior que solos arenosos em estresse hídrico moderado, o que protege parcialmente a germinação da soja em períodos de estiagem.

Temperatura

A germinação ocorre dentro de uma faixa delimitada pelas temperaturas cardeais: mínima, abaixo da qual não há germinação visível em tempo razoável; máxima, acima da qual a germinação cessa; e ótima, a melhor combinação entre percentual e velocidade.

A temperatura ótima costuma ficar mais perto da máxima do que da mínima.

Espécie Mínima (°C) Ótima (°C) Máxima (°C)
Alface 2 20 30
Aveia 4 19-27 40
Beterraba 5 30 35
Café 10 32 41
Cebola 10 20 35
Cenoura 5 25 35
Cevada 4 19-27 40
Ervilha 5 25 30
Feijão-caupi 10 36 40
Milho 9 32-35 44
Quiabo 15 30 40
Repolho 5 30 35
Soja 8 25-30 40
Tomate 10 25 40
Trigo 4 15-31 43

Na soja, a faixa de germinação vai de aproximadamente 8 a 40 graus, com ótima entre 25 e 30 graus, e não convém generalizar esses valores para outras espécies, já que a RAS fixa temperatura de teste própria por espécie.

Baixas temperaturas reduzem a velocidade de embebição e a mobilização de reservas, deixando a semente mais tempo exposta a microrganismos em contato com solo úmido.

Cerrado / MT

A semeadura da soja em Mato Grosso, entre outubro e novembro, costuma coincidir com temperatura de solo favorável. O risco maior é a semente que fica dias no solo antes da primeira chuva: solo quente e seco acelera a deterioração antes da embebição, e a reembebição abrupta depois de um período seco pode causar dano por embebição rápida.

Oxigênio

A respiração aeróbica é a fonte primária de ATP para o crescimento embrionário.

Nas primeiras horas de embebição a respiração é parcialmente anaeróbica, e conforme o oxigênio penetra os tecidos reidratados, a respiração aeróbica assume e a demanda por oxigênio cresce depressa.

Excesso de água no solo reduz a difusão de oxigênio e pode bloquear a germinação mesmo com água disponível.

O arroz tolera alagamento durante a germinação; soja e milho são bem mais sensíveis a essa condição.

Luz e fotoblastismo

A maioria das espécies cultivadas é fotoblástica neutra, germinando com ou sem luz.

Algumas têm fotoblastismo positivo, como a alface, em que a luz estimula a germinação, e outras têm fotoblastismo negativo, em que a luz inibe.

O mecanismo passa pelo fitocromo: luz vermelha converte a forma inativa em forma ativa, que promove a germinação, e luz vermelho-distante reverte essa conversão.

A profundidade de semeadura interfere justamente porque filtra luz vermelho-distante no solo, alterando essa proporção.

Profundidade de semeadura

A profundidade adequada resulta da interação entre tamanho da semente, vigor do lote, padrão de emergência e resistência mecânica do solo.

Sementes maiores com mais reserva suportam profundidades maiores, sementes de emergência epígea são mais sensíveis ao excesso de profundidade, e solos compactados ou com crosta aumentam o gasto energético da emergência.

Promotores químicos usados em análise de sementes

O nitrato de potássio atua como receptor de elétrons na via da pentose-fosfato, favorecendo processos oxidativos envolvidos na superação da dormência, numa faixa efetiva entre 0,1% e 1%, e age em sinergismo com luz, ácido giberélico e cinetina.

A água oxigenada aumenta a taxa respiratória e pode inibir microrganismos, beneficiando espécies como tomate, cevada, beterraba, espinafre e cebola.

O ácido sulfúrico é usado para escarificação química em forrageiras como as braquiárias, aumentando a permeabilidade do tegumento à água e aos gases.


Regulação hormonal da germinação

O balanço entre ácido abscísico e giberelinas é o determinante primário; outros hormônios modulam ou interferem nessa relação.

A decisão de germinar ou permanecer dormente é regulada principalmente pela razão entre ABA e giberelinas, não pelo nível absoluto de cada hormônio isoladamente.

O ABA é sintetizado em cloroplastos e amiloplastos a partir de precursores carotenoides, e inibe a germinação por múltiplos mecanismos: inibe a síntese de mRNAs de alfa-amilase, bloqueia a expressão de genes de crescimento celular e promove fatores de transcrição que mantêm a dormência.

O papel do ABA como guardião da dormência fica claro em mutantes deficientes de milho, que germinam precocemente ainda na espiga.

Nos estádios iniciais do desenvolvimento da semente, a sensibilidade ao ABA é alta, e declina progressivamente com o avanço da maturação.

As giberelinas são sintetizadas pelo embrião e liberadas ao endosperma via escutelo.

Promovem a germinação por três vias: ativam a síntese de alfa-amilase e outras hidrolases na aleurona, via degradação das proteínas DELLA pelo complexo receptor GID1; enfraquecem enzimaticamente as estruturas que circundam a radícula; e promovem a expansão celular no eixo embrionário.

Inibir a síntese de giberelina bloqueia a germinação mesmo em semente não dormente com embrião intacto.

Balanço ABA e GA na germinação

  • Estádios iniciais do desenvolvimento: alta sensibilidade ao ABA, baixa à GA, dormência favorecida
  • Maturação avançada: sensibilidade ao ABA declina, à GA aumenta, germinação favorecida
  • Germinação: síntese e sinalização por GA predominam sobre ABA
  • Dormência: síntese e sinalização por ABA predominam sobre GA

O enfraquecimento do endosperma que recobre a radícula é o principal fator que limita a protrusão quando esse tecido oferece resistência física, mais determinante do que a redução do potencial osmótico das células embrionárias ou o aumento da extensibilidade da parede celular.

ABA e GA regulam de forma antagônica a expressão das enzimas envolvidas nesse enfraquecimento.

Enzima Efeito do ABA Efeito da GA
Endo-beta-mananase Sem efeito Promove
Celulase Sem efeito Promove
Arabinosidase Sem efeito Promove
Beta-1,3-glucanase Inibe Promove
Expansina Sem efeito Promove
Quitinase Sem efeito Promove
H+-ATPase vacuolar Inibe Promove

A GA nunca inibe a expressão dessas enzimas, só promove ou é neutra, enquanto o ABA nunca promove, só inibe ou é neutro.

É um sistema de sinalização assimétrico, e essa assimetria é o que sustenta o papel do ABA como guardião da dormência.

Outros hormônios entram como moduladores.

O etileno promove a germinação em sementes dormentes, sobretudo em interação com a luz, e sua produção começa logo depois da hidratação, crescendo com o progresso da embebição.

As citocininas promovem a germinação por antagonismo ao ABA e por estímulo à divisão celular nos meristemas, e no modelo de Khan a giberelina é o promotor primário, a citocinina bloqueia a ação dos inibidores, e o ABA é o próprio inibidor, de modo que giberelina mais citocinina permite germinação mesmo na presença de inibidores.

Os brassinosteroides estimulam a germinação e antagonizam o ABA, possivelmente promovendo a própria síntese de GA, ainda que sejam bem menos estudados que o eixo ABA e GA.

O fitocromo entra como regulador indireto: a conversão da forma inativa para a forma ativa pela luz vermelha estimula a síntese de giberelinas, ligando a percepção luminosa à cascata hormonal.


Condicionamento osmótico de sementes

O priming mantém a semente na fase II da embebição pelo tempo necessário para completar os reparos metabólicos, sem deixar a protrusão radicular acontecer.

O princípio é hidratar a semente até um potencial hídrico baixo o bastante para ativar o metabolismo da fase II, sem chegar a permitir a fase III.

Em solução com potencial osmótico levemente mais negativo que o do embrião, a fase I ocorre normalmente, mas a fase II se prolonga porque não se atinge o potencial necessário para a expansão celular da fase III.

A semente fica hidratada e metabolicamente ativa, mas não germina, completando reparo de membranas, reparo de DNA, síntese proteica a partir de mRNAs pré-formados e início da mobilização de reservas sem crescimento celular líquido.

Depois de seca e semeada, ela retoma esse estado metabólico avançado e germina com mais velocidade, uniformidade e tolerância a estresse.

Modalidade Agente de hidratação Controle do potencial hídrico Vantagem Limitação
Hidropriming Água pura Volume ou tempo controlado Baixo custo Controle menos preciso
Osmopriming PEG 6000 ou 8000 Concentração da solução Controle preciso Custo alto, restrição de aeração
Halopriming KNO3, NaCl, CaCl2 Concentração salina Baixo custo, praticidade Risco de fitotoxicidade em excesso
Matripriming Vermiculita ou turfa úmida Potencial mátrico do substrato Aplicável em escala comercial Menor controle do potencial

Para o osmopriming com PEG 6000, o potencial osmótico da solução é calculado pela equação de Michel e Kaufmann:

P0 = -(1,18 x 10-2)C - (1,18 x 10-4 x C2) + (2,67 x 10-4) x C x T + (8,39 x 10-7) x C2 x T

onde C é a concentração de PEG 6000 em gramas por quilo de água, T é a temperatura em graus Celsius e P0 é o potencial osmótico resultante em bar.

Priming e vigor

Melhora o desempenho de sementes de vigor médio, mas não reverte deterioração já instalada. Lotes de vigor muito baixo respondem menos ao tratamento. Sementes primadas e ressecadas têm longevidade reduzida em relação às não tratadas, e por isso devem ser usadas em prazo relativamente curto depois do tratamento. Custo e necessidade de controle preciso limitam a aplicação em grande escala; o maior uso prático fica em culturas de alto valor, sementes de hortaliças e situações em que a uniformidade de emergência é decisiva, como produção de mudas em bandeja.


Germinação sob estresse

O desempenho da semente sob condição adversa é o que discrimina o vigor real do lote.

No estresse hídrico, potenciais muito negativos retardam ou impedem a fase I e prolongam a fase II além do viável, e o limiar varia por espécie e, dentro da espécie, pelo vigor do lote.

Lotes de maior vigor mantêm germinação em déficit hídrico que já bloqueia lotes de menor vigor com o mesmo percentual de germinação em laboratório.

No estresse salino, o efeito osmótico da redução do potencial hídrico soma-se ao efeito iônico específico da toxicidade de sódio e cloreto, e a tolerância varia entre espécies e cultivares.

O estresse térmico por frio afeta principalmente sementes sensíveis, como soja e milho, que podem sofrer dano durante a embebição em temperatura muito baixa.

Esse dano está ligado à composição em ácidos graxos das membranas: quanto maior o teor de ácidos graxos saturados, mais cedo a membrana transita para o estado gel durante o resfriamento, e nesse estado ela não barra bem a saída de solutos.

Se a reidratação for rápida, a água entra antes que a membrana consiga reverter para o estado fluido, e o resultado é extravasamento celular, o que explica por que aquecer a semente não hidratada antes da semeadura reduz esse tipo de dano.

O estresse térmico por calor causa desnaturação enzimática, dano ao DNA e pode induzir dormência secundária.

O estresse de alagamento soma déficit de oxigênio ao acúmulo de etileno no solo, e embora esse acúmulo possa em certas situações promover a germinação de sementes dormentes, a ausência de oxigênio limita o crescimento depois da protrusão radicular.


Germinação em laboratório e emergência em campo: o papel do vigor

A percentagem de germinação em laboratório é o teto do desempenho; o vigor decide o que acontece quando o campo não colabora.

O teste de germinação é conduzido em condições ótimas e padronizadas justamente para determinar o potencial máximo de um lote.

É exatamente isso que ele entrega, não mais que isso: não informa como o lote vai se comportar quando o solo estiver seco, frio ou compactado.

Lote Germinação em laboratório (%) Emergência em condições subótimas (%)
1 93 84
2 92 71
3 95 68
4 97 82

Esses dados, obtidos para arroz, mostram lotes com germinação parecida em laboratório resultando em emergências bem diferentes em campo.

O mesmo padrão se repete em soja: quatro lotes com 90% de germinação em laboratório chegaram a apresentar emergências entre 66% e 90% em condições subótimas, diferença grande demais para ser explicada por acaso amostral.

Germinação como condição necessária, mas insuficiente

  • Alta germinação em laboratório com baixa emergência em campo indica baixo vigor
  • Germinação semelhante entre lotes com emergências diferentes indica vigor diferente
  • Em condição de campo favorável, diferenças de vigor podem não se expressar
  • Em condição de campo desfavorável, o vigor é o discriminador decisivo

O estande é o número de plantas estabelecidas por metro de sulco, resultado da interação entre percentual de germinação do lote, taxa de emergência e perdas pós-emergência.

Aumentar a taxa de semeadura para compensar baixo vigor é estratégia de alcance limitado: pode até garantir um número final de plantas aceitável, mas não resolve a desuniformidade de emergência, que compromete a competição intraespecífica e prejudica o manejo da lavoura ao longo do ciclo.

A germinação em laboratório informa o que a semente pode fazer no melhor dos casos.

O vigor informa o que ela vai fazer quando as coisas não estiverem no melhor dos casos, e em Mato Grosso, com semeadura em período de solo quente, déficit hídrico intermitente e solo com variabilidade de estrutura, os melhores casos são exceção, não regra.


Aspectos comparativos entre grupos de espécies

O conhecimento do padrão específico é necessário para ajustar tanto a condição de análise quanto a de semeadura.

Nas gramíneas de interesse agronômico, Zea mays, Triticum aestivum, Oryza sativa e Sorghum bicolor, a germinação é hipógea com proteção pelo coleóptilo, a mobilização do amido depende de alfa-amilases induzidas por giberelina na aleurona, a beta-amilase já está preexistente na semente seca, e a sensibilidade ao frio na embebição é diferenciada, com o milho mais sensível que o trigo.

A raiz primária do milho tem vida curta, e o sistema radicular definitivo é formado por raízes adventícias.

Nas leguminosas, Glycine max e Phaseolus vulgaris têm germinação epígea em ambas, com os cotilédones levados acima da superfície pelo hipocótilo.

A mobilização de proteínas e lipídios nos cotilédones não depende de sinalização hormonal do eixo embrionário para ativar as hidrolases, e as duas espécies apresentam sensibilidade a dano mecânico no hipocótilo durante a emergência, com implicação direta para a profundidade de semeadura.

Nas oleaginosas, Helianthus annuus e Brassica napus dependem do funcionamento pleno do ciclo do glioxilato para converter lipídio em sacarose.

A canola apresenta sensibilidade marcada a estresse na germinação, em parte por causa do tamanho pequeno da semente e da reserva reduzida disponível para sustentar a emergência.


Da protrusão da radícula ao estande fechado no talhão existe uma cadeia inteira de decisões que dependem do que se sabe sobre a germinação daquele lote específico.

Um boletim que só informa percentual de germinação, sem cruzar com vigor e sem levar em conta o padrão de emergência da espécie, entrega meia informação para quem vai decidir taxa de semeadura, época de semeadura ou necessidade de tratamento de sementes.

Fica a pergunta que deveria abrir qualquer análise de lote antes da semeadura em Mato Grosso: o boletim que está na sua mão foi feito para dizer o que a semente pode fazer no melhor dos casos, e a pergunta que interessa de verdade é outra: o que ela vai fazer no seu solo, na sua época de semeadura, no ano que está vindo?


Referências

BARROS NETO, J. J. S.; ALMEIDA, F. A. C.; QUEIROGA, V. de P.; GONÇALVES, C. C. Sementes: estudos tecnológicos. Aracaju: IFS, 2014. 285 p. ISBN 978-85-68801-58-1.

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Regras para análise de sementes. Brasília, DF: MAPA/SDA, 2025.

GUIMARÃES, R. M. Fisiologia de sementes. Lavras: UFLA/FAEPE, 1999. 132 p.

KERBAUY, G. B. (org.). Fisiologia vegetal. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.

MARCOS FILHO, J. Fisiologia de sementes de plantas cultivadas. Piracicaba: FEALQ, 2005. 495 p.

PESKE, S. T. et al. Ciência e tecnologia de sementes. Pelotas: ABEAS: UFPel, 2007.

PESKE, S. T.; LUCCA FILHO, O. A.; BARROS, A. C. S. A. (ed.). Sementes: fundamentos científicos e tecnológicos. 2. ed. Pelotas: Ed. Universitária/UFPel, 2006. 472 p.

PRODUÇÃO, tecnologia e armazenamento de sementes. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional, 2019. ISBN 978-85-522-1432-8.

TAIZ, L.; ZEIGER, E.; MØLLER, I. M.; MURPHY, A. Fisiologia e desenvolvimento vegetal. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. 858 p.


Exercícios

Tip

Tente resolver antes de abrir o gabarito. O esforço de recuperar e raciocinar é o que consolida o aprendizado, consultar a resposta cedo demais desperdiça esse ganho. O Bloco A não tem gabarito neste material: são questões de discussão, retomadas no início da próxima aula.

Bloco A: Para discutir na próxima aula

Responda por escrito, de forma breve. Não há resposta divulgada: traga suas respostas para a discussão em sala.

A1. Dois lotes de soja trazem 90% de germinação no boletim de laboratório. Semeados em outubro no Cerrado mato-grossense, em solo quente e seco, um emerge bem e o outro falha. Se a germinação de laboratório é a mesma, o que explica a diferença de emergência em campo, e por que aumentar a taxa de semeadura não resolve o problema por completo?

A2. Olhando de fora, a fase II da embebição parece inatividade: o teor de água estabiliza e nada visível acontece. Por que essa fase é, ao contrário, decisiva para o destino da semente, e o que distingue nela uma semente morta de uma viável?

A3. Na aula anterior vimos que a soja guarda suas reservas nos cotilédones (exalbuminosa) e o milho, no endosperma (albuminosa). Como essa diferença de localização das reservas se traduz em modos distintos de mobilização durante a germinação, e por que o eixo embrionário é indispensável nos dois casos?

Bloco B: Consolidação da aula

B1. Um produtor antecipa a semeadura de soja e as sementes embebem em solo que amanheceu muito frio. Parte do lote sofre dano ainda na fase de embebição. A base fisiológica desse dano é:

(A) O frio induz dormência secundária no embrião, revertida apenas por giberelina exógena.
(B) A baixa temperatura inativa em definitivo a alfa-amilase de reserva dos cotilédones.
(C) As membranas resfriadas passam ao estado gel e extravasam solutos na reidratação.
(D) A água fria dissolve menos oxigênio, e a asfixia mata o embrião antes da fase II.

B2. No início do teste de germinação, uma semente morta de soja absorve água na fase I com curva praticamente idêntica à de uma semente viva. A leitura correta desse fato é:

(A) A absorção de água na fase I não distingue viva de morta; a diferença surge na progressão.
(B) A semente morta, por ter absorvido água, ainda pode ser recuperada com mais oxigênio no meio.
(C) A curva idêntica confirma que ambas são viáveis, faltando só descartar a presença de dormência.
(D) Como as duas embebem igual, a fase I já permite estimar o percentual de germinação do lote.

B3. Um talhão de soja semeado a cerca de 10 cm de profundidade apresenta falhas de emergência, apesar de o boletim do lote ser bom. A explicação coerente com o padrão de germinação da soja é:

(A) A soja é hipógea, e o coleóptilo não alcança a superfície a partir dessa profundidade.
(B) Sendo epígea, o hipocótilo esgota a reserva antes de levar os cotilédones à superfície.
(C) A profundidade excessiva induziu dormência física por impermeabilidade do tegumento.
(D) O excesso de profundidade elevou a temperatura da semente acima da máxima da espécie.

B4. Um viveiro busca emergência mais uniforme de mudas em bandeja e adota o condicionamento osmótico (priming) das sementes. O princípio fisiológico do tratamento é:

(A) Levar a semente até a fase III e interrompê-la, deixando a radícula já protrusa ao semear.
(B) Elevar o teor de água acima de 45% para acelerar a fase I e encurtar a germinação total.
(C) Substituir as reservas internas da semente por solutos externos que nutrem o embrião.
(D) Manter a semente na fase II pelo tempo dos reparos, sem permitir a protrusão radicular.

B5. (Aberta) Explique por que a decisão de germinar ou permanecer dormente depende da razão ABA/GA, e não do nível absoluto de cada hormônio. Cite um efeito assimétrico entre os dois hormônios descrito no texto.

B6. (Aberta) Uma semente de soja tem reserva predominante de óleo e pouco amido, e ainda assim sustenta o crescimento inicial da plântula com açúcar. Explique a rota que torna isso possível e por que ela importa para o vigor inicial.

Bloco C: Cálculo e diagnóstico

C1. (Cálculo) No preparo de um osmopriming com PEG 6000, o potencial osmótico da solução é dado pela equação de Michel e Kaufmann:

\[P_0 = -(1{,}18 \times 10^{-2})\,C - (1{,}18 \times 10^{-4})\,C^2 + (2{,}67 \times 10^{-4})\,C\,T + (8{,}39 \times 10^{-7})\,C^2\,T\]

onde C é a concentração de PEG 6000 (g/kg de água), T a temperatura (°C) e P₀ o potencial osmótico (bar). Para T = 25°C, calcule P₀ de duas soluções, C = 200 g/kg e C = 300 g/kg.

(i) Apresente os resultados com 4 casas decimais.

(ii) Diga qual impõe restrição osmótica maior.

(iii) Relacione o resultado ao princípio do priming (por que essa restrição é justamente o que se quer).

C2. (Diagnóstico integrado) Um lote de soja com 92% de germinação no boletim (sementes comprovadamente viáveis) foi semeado em outubro, no Cerrado de MT. As sementes ficaram 6 dias no solo quente e seco antes da primeira chuva; a semeadura foi a cerca de 8 cm; depois da chuva, o solo formou crosta. A emergência final ficou em torno de 55%. Diagnostique as causas possíveis cruzando os fatores da aula e recomende a conduta.


Gabarito

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