Formulações de Produtos Fitossanitários: da Base Legal ao Comportamento na Calda¶
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Duas embalagens com o mesmo ingrediente ativo, mesma concentração e mesmo fabricante podem se comportar de forma completamente diferente dentro do tanque do pulverizador.
Uma forma uma suspensão que sedimenta em minutos se a agitação parar.
A outra gera uma emulsão estável, tolerante a variações de temperatura e compatível com uma gama maior de produtos em mistura.
A diferença está na formulação, e entender o que ela é, o que carrega além do princípio ativo e como cada tipo se comporta na calda é o que decide, na prática, se uma aplicação vai entupir ponta, sedimentar no fundo do tanque ou correr sem sobressalto do início ao fim.
Hierarquia regulatória, da lei à embalagem¶
Antes de qualquer formulação existe uma molécula, antes do produto comercial existe um produto técnico, e a cadeia regulatória define cada elo com precisão.
A Lei nº 14.785/2023, com as alterações da Lei nº 15.070/2024, estabelece definições que não são tecnicismo de bula.
Cada termo corresponde a uma categoria de registro com exigência própria.
Ingrediente ativo
Agente químico, isolado ou em mistura com biológicos, que confere eficácia ao produto fitossanitário. É a fração biologicamente responsável pelo controle do alvo.
Produto técnico
Produto obtido diretamente de matérias-primas por processo físico ou químico, destinado à obtenção de produtos formulados ou de pré-misturas, com teor definido de ingrediente ativo e de impurezas. Pode conter estabilizantes e isômeros, e não é embalado para o agricultor.
Pré-mistura
Produto obtido a partir do produto técnico, usado como matéria-prima intermediária para a fabricação do produto formulado. Identificada nas fontes técnicas pela sigla TK.
Produto formulado
Produto obtido a partir de produto técnico ou pré-mistura, por processo físico ou químico. É o que o agricultor compra na embalagem, identificado por siglas como EC, SC ou WG no rótulo.
Outros ingredientes
Substâncias não ativas em relação à eficácia, usadas como veículo, diluente ou para conferir características próprias à formulação. É o termo legal que a bula usa para o que a prática de campo chama de inerte.
A distinção entre produto técnico, técnico equivalente, genérico e idêntico tem implicação direta no portfólio comercial disponível:
| Categoria | Definição (Lei nº 14.785/2023) | Implicação prática |
|---|---|---|
| Produto técnico de referência | Produto técnico cujo registro serve de base para registros futuros por equivalência | Geralmente o primeiro registrado para aquele ingrediente ativo |
| Produto técnico equivalente | Mesmo ingrediente ativo do de referência, com teor e impurezas que não alteram o perfil toxicológico ou ecotoxicológico | Permite registro mais rápido, sem repetir todos os estudos |
| Produto genérico | Produto formulado a partir de produto técnico equivalente | Concorrência por preço, mesma molécula, formulação pode variar |
| Produto idêntico | Composição qualitativa e quantitativa idêntica a outro já registrado, mesmo fabricante, formulador e indicação | Registro em prazo reduzido |
Nota técnica
Dois produtos comerciais com o mesmo ingrediente ativo, mesma concentração e mesma sigla de formulação, de empresas diferentes, podem entregar desempenho de campo distinto. A norma exige equivalência toxicológica e ecotoxicológica, mas não exige identidade entre as formulações. Os surfatantes e solventes específicos costumam ser segredo industrial de cada fabricante.
Concentração e equivalente ácido¶
A concentração informa quanto de ingrediente ativo há no produto comercial, e o equivalente ácido corrige essa informação para permitir comparação entre formas químicas distintas do mesmo ativo.
Concentração é a quantidade de ingrediente ativo presente no produto comercial, expressa em porcentagem ou em massa por volume.
Um rótulo de glifosato 480 g/L contém 480 gramas do sal de glifosato, geralmente isopropilamina, em cada litro do produto comercial.
Um fungicida rotulado como mancozebe 800 g/kg contém essa massa de ingrediente ativo em cada quilograma de pó molhável ou granulado dispersível.
Concentração não é sinônimo de equivalente ácido.
Muitos ingredientes ativos chegam ao mercado como sais ou ésteres, não como o ácido livre, e o equivalente ácido (e.a.) é a massa do ingrediente ativo expressa como se estivesse na forma de ácido livre, independentemente da forma química real da formulação.
Isso resolve um problema concreto: o mesmo ingrediente ativo pode existir como sal de isopropilamina, sal potássico, sal de amônio ou éster etil-hexílico, cada forma com massa molecular distinta, de modo que a mesma massa de produto formulado entrega quantidades diferentes de molécula biologicamente ativa.
O glifosato ilustra o caso mais didático.
A molécula original (ácido N-fosfonometil-glicina) tem massa molar de 169 g/mol.
O sal de isopropilamina tem 228 g/mol.
Em 228 g do sal há 169 g de equivalente ácido, o que corresponde a aproximadamente 74% da massa do sal (os 26% restantes são o íon isopropilamina, que solubiliza a molécula em água mas não tem ação biológica).
Recomendações de dose em bula e em pesquisa de eficácia costumam vir expressas em g e.a./ha, não em quantidade de produto comercial. Uma dose de 720 g e.a./ha resulta em volumes de produto comercial bem diferentes conforme a concentração de cada formulação:
| Produto comercial | Concentração | Cálculo para 720 g e.a./ha | Dose de produto comercial |
|---|---|---|---|
| A (sal de isopropilamina) | 360 g e.a./L | 720 ÷ 360 | 2,0 L/ha |
| B (sal potássico) | 540 g e.a./L | 720 ÷ 540 | 1,33 L/ha |
| C (sal de amônio, WG) | 720 g e.a./kg | 720 ÷ 720 | 1,0 kg/ha |
Comparar dois produtos pela concentração do sal, sem olhar o equivalente ácido, é o caminho mais direto para um erro grave de dose.
O mesmo princípio se aplica a outros herbicidas com formas químicas múltiplas, como o 2,4-D, que aparece no mercado como éster etil-hexílico, com maior volatilidade, ou como sal de dimetilamina, com menor risco de deriva por vapor.
O que é uma formulação e o que ela carrega¶
Uma formulação é um sistema desenvolvido para tornar o ingrediente ativo aplicável com segurança e eficácia, não apenas o ativo embalado.
Formulação
Forma física e composição final em que um ingrediente ativo é apresentado para comercialização, resultado da combinação do princípio ativo com outros ingredientes que definem o comportamento do produto na calda, identificada por um código de duas letras conforme padronização do MAPA.
Uma formulação simples costuma ter de cinco a sete componentes além do ingrediente ativo, e formulações modernas podem ter muito mais.
Cada família de inerte cumpre uma função específica:
| Componente | Função na formulação |
|---|---|
| Surfatantes emulsificantes | Reduzem a tensão interfacial entre fases incompatíveis, viabilizando emulsão estável |
| Surfatantes dispersantes | Impedem que partículas sólidas em suspensão se aglomerem e decantem |
| Surfatantes molhantes | Favorecem o molhamento de superfícies hidrofóbicas, como folhas cerosas ou pó hidrofóbico |
| Solventes orgânicos | Dissolvem ingredientes ativos hidrofóbicos, viabilizando formulações líquidas como EC, EW e ME |
| Veículos sólidos (argilas, talco, sílica) | Adsorvem ingredientes ativos sólidos, formando WP, GR e DP |
| Estabilizantes | Impedem degradação química do ativo durante o armazenamento |
| Antiespumantes | Reduzem a formação de espuma na agitação do tanque |
| Conservantes antimicrobianos | Impedem proliferação de microrganismo em formulação aquosa |
| Anticongelantes | Mantêm a fluidez em temperatura baixa, durante armazenamento e transporte |
| Corantes e aromatizantes | Identificação visual e olfativa do produto, prevenindo ingestão acidental |
Por que dois produtos iguais são diferentes
Dois produtos com o mesmo ingrediente ativo, mesma concentração e mesma sigla de formulação, por exemplo dois SC de tebuconazol 200 g/L, podem ter desempenho operacional distinto. Os emulsificantes, dispersantes e espessantes são definidos por cada fabricante e raramente revelados, e é essa combinação específica que determina o comportamento na calda, a compatibilidade em mistura e até a deposição foliar.
Uma formulação mal conservada por armazenamento inadequado sofre consequências previsíveis: formação de grumos por empedramento em formulações sólidas, dissociação da emulsão por qualidade ruim da água ou baixa estabilidade, formação de cristais em soluções aquosas e concentrados emulsionáveis sob baixa temperatura, e floculação por incompatibilidade química quando um concentrado emulsionável é misturado a um pó molhável ou a uma suspensão concentrada em alta concentração ou após repouso prolongado.
Panorama regulatório das formulações¶
A norma ABNT NBR 12697/2018, adotada pelo MAPA, organiza mais de oitenta formulações em cinco grupos funcionais reconhecidos pela Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins.
O MAPA, via Departamento de Fiscalização de Insumos Agrícolas, classifica as formulações fitossanitárias em cinco grupos: para diluição em água, para diluição em solventes orgânicos, para aplicação direta, para tratamento de sementes e formulações especiais.
Ao todo são mais de oitenta códigos reconhecidos pela Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins (CGAA), mas cerca de vinte têm relevância comercial efetiva.
Segundo Knowles (2008), as nove formulações mais populares no mundo são três sólidas (WP, WG, GR) e seis líquidas (SL, SC, EC, ME, OD, CS).
Formulações para diluição em água¶
| Código | Denominação |
|---|---|
| SC | Suspensão concentrada |
| SE | Suspo-emulsão |
| SG | Granulado solúvel |
| SL | Concentrado solúvel |
| SP | Pó solúvel |
| WG | Granulado dispersível |
| WP | Pó molhável |
| DC | Concentrado dispersível |
| ME | Microemulsão |
| CS | Suspensão de encapsulado |
| ZC | Formulação mista de CS e SC |
| ZE | Formulação mista de CS e SE |
| ZW | Formulação mista de CS e EW |
| ED | Líquido para pulverização eletrostática ou eletrodinâmica |
| SU | Suspensão a ultrabaixo volume |
| UL | Ultrabaixo volume |
Formulações para diluição em solventes orgânicos¶
| Código | Denominação |
|---|---|
| EC | Concentrado emulsionável |
| EO | Emulsão de água em óleo |
| EW | Emulsão de óleo em água |
| OD | Dispersão de óleo ou suspensão concentrada em óleo |
| OF | Suspensão concentrada dispersível ou miscível em óleo |
| OI | Solução miscível em óleo |
| OP | Pó dispersível em óleo |
Formulações para aplicação direta¶
| Código | Denominação |
|---|---|
| TB | Tablete |
| DT | Tablete para aplicação direta |
| ST | Tablete para dissolução em água |
| WT | Tablete para dispersão em água |
| BR | Bloco |
| PC | Gel ou concentrado em pasta |
| GL | Gel emulsionável |
| GW | Gel solúvel em água |
| EG | Grânulo emulsionável |
| EP | Pó emulsionável |
| CG | Granulado encapsulado |
| DP | Pó seco |
| GR | Granulado |
| SO | Óleo para pulverização ou espalhamento |
| MG | Microgranulado |
| GP | Pó fino |
| FG | Granulado fino |
| GG | Macrogranulado |
| CP | Pó de contato |
| CL | Líquido ou gel de contato |
| SD | Suspensão concentrada para aplicação direta |
| AL | Outros líquidos para aplicação direta |
| AP | Outros pós |
| RB | Isca |
| AB | Iscas em grãos |
| BB | Iscas em blocos |
| PB | Iscas em placas |
| SB | Iscas em aparas |
| VP | Produtor de vapor |
| GS | Pasta oleosa |
| FB | Saco formulado |
| LA | Laca |
| PR | Bastonete vegetal |
| PA | Pasta |
Vale registrar que o código CG designa duas denominações distintas conforme o contexto: granulado encapsulado, tratado na seção sobre formulações de liberação controlada, e iscas granuladas, no grupo de iscas para controle de pragas específicas.
Formulações para tratamento de sementes¶
| Código | Denominação |
|---|---|
| DS | Pó para tratamento a seco de sementes |
| ES | Emulsão para tratamento de sementes |
| FS | Suspensão concentrada para tratamento de sementes |
| LS | Solução para tratamento de sementes |
| SS | Pó solúvel para tratamento de sementes |
| WO | Pó para preparação de pasta em óleo |
| WS | Pó para preparação de pasta em água |
| CF | Suspensão de encapsulado para tratamento de sementes |
| GF | Gel para tratamento de sementes |
Formulações especiais¶
| Código | Denominação |
|---|---|
| AE | Aerosol |
| FU | Fumigante |
| FD | Pastilha fumigante |
| FK | Vela fumigante |
| FP | Cartucho fumigante |
| FR | Bastonete fumigante |
| FT | Tablete fumigante |
| FW | Granulado fumigante |
| GA | Gás liquefeito sob pressão |
| GE | Gerador de gás |
| HN | Concentrado para termonebulização |
| KN | Concentrado para nebulização a frio |
O código aparece sempre no rótulo do produto e determina três decisões de uma vez: o modo de preparo da calda, o equipamento de aplicação compatível e as restrições de compatibilidade em mistura em tanque.
Vale um esclarecimento sobre a nomenclatura: as siglas vêm do inglês por convenção de harmonização internacional, adotada também no âmbito do Mercosul, o que explica por que "pó molhável" carrega as letras WP (wettable powder) e não PM.
flowchart TD
A[Formulação fitossanitária] --> B{Como se prepara a calda?}
B -- Dilui em água --> C[WP, WG, SC, SL, SP, SG, ME, CS]
B -- Base fabricada em solvente orgânico --> D[EC, EW, EO, OD, OF, OI, OP]
B -- Aplica direto, sem diluir --> E[GR, DP, TB, UL, ED]
B -- Trata semente --> F[FS, ES, LS, DS, SS, CF]
B -- Formulação especial --> G[Fumigantes, gases, aerossol]
Formulações sólidas para diluição em água¶
As formulações sólidas exigem atenção redobrada no preparo porque dependem da dispersão correta da partícula sólida em meio aquoso.
Pó molhável (WP)¶
O WP é uma formulação em pó muito fino, com partículas frequentemente abaixo de 5,0 µm, composta por ingrediente ativo sólido adsorvido sobre veículo mineral, geralmente argila, associado a agentes dispersantes e molhantes.
Ao ser adicionado à água, forma suspensão, não solução: as partículas se distribuem na fase aquosa graças aos dispersantes, mas não se dissolvem.
A dosagem do WP é expressa em massa, o que cria uma dificuldade prática real: pesar é menos intuitivo que medir volume, e o uso de recipientes volumétricos improvisados introduz erro se a densidade do pó não for considerada.
Por isso o WP exige pré-diluição obrigatória, misturado antes com pequena quantidade de água em recipiente auxiliar até formar pasta fluida, que só então vai ao tanque sob agitação.
Adicionado direto ao tanque seco, o pó forma grumo que não se dispersa mesmo com agitação intensa.
As partículas em suspensão têm potencial abrasivo sobre ponta de pulverização e filtro, sobretudo quando o veículo mineral tem dureza elevada, e volume baixo de calda agrava esse risco por concentrar mais partícula no sistema.
Um aspecto que soa contraintuitivo: apesar do risco inalatório durante o manuseio, o WP costuma ter menor absorção dérmica e menor fitotoxicidade que o concentrado emulsionável para muitos ingredientes ativos, porque o ativo está adsorvido em partícula sólida, não dissolvido em solvente orgânico que facilita a penetração tanto na pele do operador quanto na cutícula vegetal.
O WP está saindo de uso na maior parte dos ingredientes ativos, substituído por SC e WG.
A exceção são os fungicidas multissítios, como mancozebe, clorotalonil e oxicloreto de cobre, que voltaram a ganhar espaço no manejo de resistência e continuam frequentemente comercializados nessa formulação.
Granulado dispersível (WG)¶
O WG vem substituindo o WP.
As partículas do pó molhável são aglomeradas em grânulos de 0,2 a 4,0 mm por aglomeração, extrusão ou secagem por evaporação.
Ao contato com a água, o grânulo se desintegra rapidamente, regenerando o pó fino que então forma suspensão: o sistema final na calda é o mesmo do WP, mas o caminho até lá é bem mais seguro.
As vantagens sobre o WP são substanciais: pouca formação de poeira no manuseio, redução significativa da exposição inalatória do operador, dosagem mais fácil por volume, já que a densidade aparente do grânulo é mais consistente que a do pó solto, e facilidade de uso de embalagem hidrossolúvel, na qual o saco de polímero solúvel vai direto à água, eliminando o contato do operador com o produto.
O comportamento na calda segue o do WP, exigindo agitação mantida para evitar sedimentação.
A compatibilidade com EC pode ser problemática em alguns casos, já que os emulsificantes do concentrado emulsionável interferem na dispersão dos grânulos, e a mistura de WG com WP no mesmo tanque é uma das combinações mais frequentemente incompatíveis entre formulações sólidas.
| Parâmetro | WP | WG |
|---|---|---|
| Forma física | Pó solto | Grânulo aglomerado |
| Tamanho de partícula | Abaixo de 5 µm | 0,2 a 4,0 mm, regenera abaixo de 5 µm na água |
| Formação de poeira | Alta | Baixa |
| Risco inalatório | Alto | Baixo |
| Embalagem hidrossolúvel | Pouco usada | Frequente |
| Pré-diluição | Obrigatória | Recomendável |
| Tendência de mercado | Declínio | Crescimento |
Pó solúvel (SP) e granulado solúvel (SG)¶
O SP e o SG são formulações sólidas nas quais o ingrediente ativo é solúvel em água.
Ao serem diluídos, formam solução verdadeira, não suspensão, e a calda resultante é translúcida, homogênea em escala molecular e não exige agitação para se manter estável.
Operacionalmente é a condição mais favorável entre as sólidas: sem sedimentação, sem abrasão, sem entupimento.
O SP tem as mesmas vantagens de custo e transporte do WP, com a vantagem adicional de formar solução.
Alguns fabricantes usam embalagem hidrossolúvel também para o SP, eliminando o risco de inalação de pó.
A limitação é química: poucos ingredientes ativos têm solubilidade aquosa adequada para essa formulação.
O SG combina a vantagem do SP, formar solução, com a vantagem do WG, ausência de pó solto, e é considerado a formulação mais segura entre as sólidas, ainda que menos comum no mercado brasileiro.
Formulações líquidas para diluição em água e em solvente orgânico¶
A diferença operacional entre um concentrado emulsionável e uma suspensão concentrada é maior do que a aparência do líquido no galão sugere.
Concentrado solúvel (SL)¶
O SL é uma formulação líquida na qual o ingrediente ativo está dissolvido em água ou em solvente compatível com água, na concentração máxima que a solubilidade permite.
Ao ser diluído, forma solução verdadeira, translúcida, sem partícula, que não exige agitação intensa.
Os herbicidas à base de sal, como glifosato, paraquat, glufosinato e dicamba sal, são exemplos típicos.
Por ser hidrofílica, a calda de SL pode ter dificuldade de molhar superfície cerosa sem a presença de surfatante adequado, incorporado à formulação ou adicionado como adjuvante.
Suspensão concentrada (SC)¶
A SC é formada por partículas sólidas do ingrediente ativo, insolúveis em água, micronizadas e suspensas em fase aquosa contínua, com dispersante, molhante e estabilizador de viscosidade.
As partículas têm diâmetro típico de até 5,0 µm.
Ao chegar ao tanque, produz uma suspensão mais refinada que a do WP, porque já vem pré-dispersa no meio líquido.
Sobre o WP, a SC leva vantagem em quatro pontos: é mais fácil de medir e manusear, por ser líquida; tem menor risco operacional no manuseio, sem poeira; desgasta menos a ponta de pulverização, sem a fase de hidratação do pó; e reduz o risco de inalação no preparo.
A limitação principal é a sedimentação, que ainda ocorre se a agitação parar por tempo prolongado.
Em calda pré-preparada para uso posterior o risco é maior, porque a partícula sedimentada no fundo do tanque pode compactar e não se redispersar nem com agitação forte depois.
A agitação precisa ser contínua, com retorno de pelo menos 30% da vazão nominal da bomba do pulverizador ao tanque.
A SC costuma ser compatível com WG em mistura, uma das combinações mais frequentes em lavoura de grãos.
Nota técnica
A nanotecnologia vem sendo aplicada ao desenvolvimento de SC com partícula abaixo de 100 nm, com potencial de aumentar a solubilidade efetiva de ingredientes ativos pouco solúveis e permitir redução de dose. A área está em expansão, mas a regulamentação específica para nanopesticidas no Brasil segue incipiente.
Concentrado emulsionável (EC)¶
O EC é a formulação líquida tradicional para ingrediente ativo hidrofóbico.
O ativo é dissolvido em solvente orgânico, aromático ou alifático, em alta concentração, com adição de emulsificante.
O produto no galão é uma solução clara ou levemente turva em solvente orgânico, não uma emulsão.
A emulsão só se forma no tanque, quando o concentrado entra em contato com a água: o emulsificante se posiciona na interface solvente-água e estabiliza a gotícula oleosa dispersa, gerando o aspecto leitoso característico da calda.
O tamanho típico da gotícula de emulsão fica entre 0,1 e 5,0 µm.
| Vantagens do EC | Desvantagens do EC |
|---|---|
| Fácil de manusear, transportar e armazenar | Suscetível a erro de dosagem por alta concentração |
| Alta concentração reduz custo de transporte | Geralmente mais tóxico que outras formulações |
| Exige pouca agitação no tanque | Facilmente absorvido pela pele do operador e de animais |
| Menos abrasivo, sem partícula sólida | Solvente pode deteriorar mangueira plástica e conexão |
| Resíduo pouco visível na superfície tratada | Pode ser corrosivo a metal |
| Favorece a penetração na cutícula pelo efeito do solvente | É inflamável, com risco no armazenamento e transporte |
| Tende a formar gota maior, com menor deriva em algumas pontas | Risco de cristalização em temperatura baixa |
Formulações EC produzem calda com tensão superficial reduzida e, em ponta de jato plano sem indução de ar, tendem a gerar gota maior em relação à água pura, o que contribui para reduzir o potencial de deriva.
Os emulsificantes tradicionais eram à base de nonilfenol etoxilado, hoje em descontinuação em vários países por persistência ambiental e suspeita de interferência endócrina em organismo aquático.
A substituição vem sendo feita por óxido de etileno e álcool etoxilado, em concentração de 5 a 10% da formulação.
Emulsão de óleo em água (EW), emulsão de água em óleo (EO) e dispersão de óleo (OD)¶
A EW chega ao galão já como emulsão pré-formada, com a fase oleosa dispersa em fase aquosa contínua e estabilizada por emulsificante.
Ao contrário do EC, não carrega solvente orgânico aromático convencional em grande quantidade, o que reduz o risco de toxicidade aguda por inalação e a inflamabilidade.
Ao diluir, a emulsão só é dispersada na calda, sem mudança estrutural, e a agitação é necessária, mas menos crítica que nas suspensões.
A EO é a configuração inversa: a fase aquosa, com o ingrediente ativo dissolvido, fica dispersa em fase oleosa contínua.
É menos comum em aplicação foliar, reservada a situações em que o ativo é solúvel em água mas precisa de veículo oleoso para penetração ou retenção.
A OD é usada para ingrediente ativo sólido insolúvel tanto em água quanto em solvente orgânico convencional, suspenso em fase oleosa, normalmente óleo vegetal ou mineral com surfatante.
Ao ir para o tanque, forma um sistema de suspensão-emulsão, de aspecto turvo, que combina o comportamento de suspensão da partícula sólida com o de emulsão da fase oleosa dispersa.
Em quantidade moderada o óleo reduz a tensão superficial e aumenta o tamanho médio de gota, com efeito redutor de deriva; em concentração alta, no entanto, pode gerar gota mais leve, menos densa que a água, com maior suscetibilidade ao deslocamento pelo vento, sobretudo em aplicação aérea.
A OD exige agitação constante, semelhante à SC, e vem se firmando como substituta do EC para ativo sem boa solubilidade em solvente orgânico convencional.
Microemulsão (ME) e suspo-emulsão (SE)¶
Na ME, o ingrediente ativo está disperso em gotícula de dimensão muito reduzida, estabilizada por alta concentração de surfatante, tão pequena que não dispersa a luz visível de forma significativa.
Isso faz o produto comercial aparecer translúcido ou levemente opalescente já no galão, mais estável que a emulsão convencional e mais resistente à separação de fase.
Ao diluir, forma calda translúcida a levemente opalescente, não leitosa como a do EC, com alta área interfacial, o que pode favorecer a absorção do ativo e dispensa agitação intensa.
Nota técnica
A terminologia "microemulsão" no rótulo nem sempre corresponde à definição técnica rigorosa. Parte dos produtos comercializados como ME são, na prática, emulsões convencionais com gotícula na faixa de 1 a 5 µm, fora da escala submicrométrica esperada de uma microemulsão verdadeira.
A SE é uma formulação híbrida que combina suspensão de partícula sólida com emulsão de gotícula oleosa em fase aquosa contínua. Serve para veicular dois ingredientes ativos de natureza físico-química distinta num único produto, um insolúvel formulado como suspensão e outro solúvel em solvente orgânico formulado como emulsão, resultando num sistema mais complexo, que exige balanceamento cuidadoso dos surfatantes para manter as duas fases estáveis ao mesmo tempo.
O que se forma quando o produto encontra a água¶
| Característica | Solução | Emulsão | Suspensão |
|---|---|---|---|
| Número de fases | Única (monofásica) | Duas (bifásica) | Duas (sólido e líquido) |
| Aspecto da calda | Translúcido, limpo | Leitoso, opalescente | Turvo, opaco |
| Tamanho de partícula ou gota | Molecular, abaixo de 1 nm | 0,1 a 5 µm (EC, EW) | 1 a 5 µm típico |
| Comportamento sem agitação | Estável, não separa | Coalescência lenta, fase oleosa sobe | Sedimentação, sólido decanta |
| Necessidade de agitação | Não | Moderada | Intensa e contínua |
| Risco de abrasão | Nenhum | Baixo | Alto |
| Risco de entupimento | Baixo | Médio, se houver floculação | Alto |
| Formulações típicas | SL, SP, SG | EC (formado no tanque), EW, ME | SC, WP, WG diluídos |
Formulações para aplicação direta¶
Algumas formulações chegam ao alvo sem passar pelo tanque do pulverizador, associadas a aplicação de solo, formigueiro, armazém ou volume muito reduzido.
O GR é composto por partícula sólida de 0,3 a 2,5 mm de diâmetro, obtida por impregnação do ingrediente ativo em material poroso como argila, fibra vegetal ou plástico, com concentração de ativo tipicamente entre 2,5 e 10%.
Sua característica operacional definidora é a baixíssima deriva: a partícula grande e pesada não permanece suspensa no ar e cai por gravidade no ponto desejado.
Aplicado direto ao solo com distribuidor de grânulo, serve para inseticida sistêmico de solo, nematicida e herbicida pré-emergente que precisa ser incorporado.
Suas variantes diferem só na granulometria: o MG, microgranulado, tem partícula menor, para aplicação localizada no sulco de semeadura; o FG, granulado fino, fica intermediário entre MG e GR; o GG, macrogranulado, tem grânulo maior, voltado a isca formicida e aplicações específicas.
A vantagem dos granulados é não serem arrastados pelo vento e exigirem baixíssima exposição do aplicador; a desvantagem é a baixa aderência ao alvo, que impede uso foliar, e a dependência de incorporação ao solo na maior parte dos casos.
O DP é a formulação mais simples que existe: ingrediente ativo adsorvido em material inerte, sem processamento adicional para aplicação via líquida.
Está praticamente em desuso nas grandes lavouras, restrito a polvilhamento de semente em pequena escala e controle de formiga, com as desvantagens clássicas de alta suscetibilidade à deriva pelo vento, distribuição irregular, risco elevado de exposição inalatória e fácil remoção do alvo pela chuva ou pelo orvalho.
O UL e o SU são formulações líquidas em alta concentração, chegando a 100% de ingrediente ativo em alguns casos, destinadas a volume igual ou inferior a 8 L/ha, sem diluição em água, exigindo equipamento aplicador específico como atomizador rotativo.
O solvente, quando presente, precisa ter baixa volatilidade, alta capacidade de dissolução do ativo, baixa viscosidade e não ser fitotóxico.
O ED é a formulação oleosa que recebe carga elétrica ao sair do pulverizador: a gotícula, com carga oposta à da planta aterrada, é atraída por ela e se deposita inclusive na face inferior da folha, em volume de 0,2 a 2,0 L/ha.
Formulações para tratamento de sementes¶
O tratamento de sementes exige propriedade diferente da aplicação foliar: aderência à superfície, manutenção do contato durante a germinação, sem interferir na viabilidade.
| Código | Denominação | Característica |
|---|---|---|
| FS | Suspensão concentrada para tratamento de sementes | Equivalente a uma SC com aderência ajustada, a mais usada no mercado brasileiro em soja, milho e algodão |
| ES | Emulsão para tratamento de sementes | Análoga a EW, com viscosidade ajustada para o tratamento |
| LS | Solução para tratamento de sementes | Análoga a SL, para ativo solúvel em água |
| DS | Pó para tratamento a seco de sementes | Aplicação em pó, sem veículo líquido |
| SS | Pó solúvel para tratamento de sementes | Pó que se dissolve, formando calda translúcida |
| CF | Suspensão de encapsulado para tratamento de sementes | Equivalente a CS, com aderência ajustada para semente |
A FS predomina por estabilidade e aderência adequadas ao tratamento industrial ou em unidade de beneficiamento.
O DS mantém importância onde não há acesso a equipamento de tratamento líquido.
Formulações especiais¶
Gás, fumigante e concentrado para nebulização atendem situações em que o sistema convencional de pulverização não se aplica.
As formulações especiais concentram os fumigantes (FU, FD, FK, FP, FR, FT, FW), usados principalmente em armazém e silo de grão contra praga de produto armazenado, o gás liquefeito sob pressão (GA) e o gerador de gás (GE), além dos concentrados para termonebulização (HN) e nebulização a frio (KN), empregados em situação de controle de vetor e área urbana.
São formulações de alta toxicidade aguda em ambiente confinado, exigindo protocolo próprio de segurança que foge do escopo do preparo de calda convencional.
Formulações encapsuladas e de liberação controlada¶
O encapsulamento é a estratégia mais consolidada para controlar o momento e a velocidade de liberação do ingrediente ativo no ambiente.
A CS é a formulação de liberação controlada de maior expressão comercial.
O ingrediente ativo é encapsulado em microcápsula de material polimérico, como poliureia, polímero de cianoacrilato ou gelatina, suspensa em fase aquosa, com diâmetro típico na faixa de micrômetros.
Ao ir ao tanque, o sistema se comporta operacionalmente como uma suspensão.
A liberação ocorre gradualmente após a aplicação, por difusão pela membrana da cápsula ou por rompimento dela quando a condição do ambiente (temperatura, umidade, pH, ação biológica) atinge determinado parâmetro.
Essa liberação gradual traz três consequências: maior segurança do operador durante o manuseio, já que o ativo está encapsulado e a exposição dérmica e inalatória no preparo cai; maior residual no campo, o que beneficia produto com alta taxa de degradação ambiental ou volatilização rápida; e redução de volatilização e fitotoxicidade, já que a cápsula protege o ativo da degradação prematura por luz, calor ou umidade.
O exemplo clássico citado na literatura internacional é o Penncap-M, no mercado norte-americano, com microcápsula de 30 a 50 µm de metilparation e liberação lenta por permeação da parede.
No mercado brasileiro, inseticida piretroide encapsulado é aplicação comum, com extensão do efeito residual e redução do odor característico.
Nota técnica
A formulação CS apresenta risco específico para abelha. A microcápsula pode ser carregada pela operária para dentro da colmeia, onde o ingrediente ativo é liberado gradualmente no meio do enxame, um mecanismo de exposição diferente do contato direto com calda fresca, que pode ser subestimado em análise de risco que considera só o momento da aplicação. Aplicação de CS em cultura em floração exige cuidado redobrado quanto à proximidade de apiário e ao horário de aplicação.
A pesquisa em liberação controlada avançou para além da microcápsula convencional, com sistema baseado em nanopartícula polimérica (poli-ácido lático-co-glicólico, quitosana, alginato de cálcio), nanoemulsão e ciclodextrina avaliados como carreador de ingrediente ativo fungicida, inseticida e herbicida.
Alguns resultados documentados na literatura merecem registro: imidaclopride encapsulado em nanopartícula de poli-ácido lático-co-glicólico, em ensaio contra o psilídeo vetor do greening dos citros, apresentou mortalidade equivalente à formulação comercial com dose duzentas vezes menor, o exemplo mais expressivo de redução de dose já documentado nessa linha de pesquisa; triciclazol encapsulado em nanopartícula de polipropileno glicol mostrou melhor eficácia que o fungicida comercial contra Rhizoctonia solani; nanopartícula de quitosana carregando óleo essencial fungicida apresentou eficiência de encapsulação superior a 80%, com liberação gradual e atividade prolongada.
No mercado comercial já existem produtos descritos como microemulsão sistêmica ou baseados em nanotecnologia, caso do Plenum 160 ME, da Dow AgroScience, e de produtos da linha Maxx, da Syngenta.
As limitações atuais incluem terminologia comercial imprecisa, já que nem todo produto rotulado como ME é microemulsão técnica, ausência de protocolo regulatório específico para nanomaterial no Brasil e escassez de estudo consolidado sobre o destino ambiental desses nanocarreadores no longo prazo.
Formulação e qualidade da pulverização¶
A formulação altera propriedade física da calda, e essas propriedades afetam diretamente o espectro de gota, a cobertura do alvo e o potencial de deriva.
A composição da calda, definida pelas formulações presentes, influencia três propriedades físicas determinantes na pulverização: tensão superficial, viscosidade e densidade.
A água pura tem tensão superficial alta, cerca de 72 mN/m a 20 °C, sob a qual a gota tende a permanecer esférica e a molhar mal superfície cerosa.
O surfatante presente em formulações EC, EW, SL e ME reduz a tensão superficial da calda, alterando a forma de fragmentação do líquido na ponta de pulverização e deslocando a classe de gota: tensão superficial menor tende a gerar gota menor na mesma ponta e pressão.
A presença de fase oleosa, como em EC e OD, tende a aumentar a viscosidade da calda, e para a mesma pressão, viscosidade maior tende a gerar gota maior.
É por isso que o concentrado emulsionável costuma produzir gota maior que a água pura na mesma ponta de jato plano sem indução de ar, o que reduz o risco de deriva.
Calda com alto teor de óleo tem densidade menor que a água pura, o que torna a gota mais leve, mesmo quando grande em diâmetro, e mais suscetível ao deslocamento pelo vento, efeito mais relevante em aplicação aérea, em que a gota percorre distância maior no ar antes de atingir o alvo.
A abrasividade da suspensão, presente em WP, SC e WG, tem relação direta com o desgaste da ponta de pulverização.
Ponta desgastada altera vazão e espectro de gota sem que o operador perceba, comprometendo a calibração e a uniformidade da distribuição.
E o WP e o WG, com agitação deficiente, podem concentrar partícula no fundo do tanque durante jornada longa de trabalho: as últimas linhas aplicadas recebem calda mais concentrada, ou praticamente só água se o sólido sedimentou por completo, comprometendo a homogeneidade do tratamento inteiro.
| Formulação | Qualidade exigida para bom desempenho |
|---|---|
| WP | Boa suspensibilidade e dispersão em água, granulação fina e uniforme, mistura rápida, pouca formação de espuma |
| WG | Rápida desintegração na água, baixa formação de poeira, dosagem precisa |
| SP | Dissociação rápida em água, solução aquosa sem resíduo |
| SL | Solução límpida em água, solução verdadeira do ingrediente ativo |
| SC | Dispersão espontânea em água, suspensão estável, baixa sedimentação |
| EC | Emulsificação espontânea em água, resultando em emulsão estável e homogênea de aspecto leitoso |
| GR | Boa fluidez sem formação de pó, liberação do ativo na presença de água, granulometria uniforme |
| UL | Baixa volatilidade, baixa viscosidade, ausência de sólido em suspensão |
| CS | Estabilidade da cápsula no armazenamento, liberação gradual no campo, suspensão estável no tanque |
Tendências em formulações de menor risco¶
A evolução das formulações não é neutra, tem direção clara: reduzir a exposição do operador, eliminar solvente problemático e controlar o momento de liberação do ativo.
A tendência mais consolidada no mercado brasileiro nas últimas décadas foi a transição de WP para WG, na maioria dos fungicidas e herbicidas sólidos.
O WG elimina a formação de poeira no manuseio, reduz de forma significativa a exposição inalatória do operador e permite o uso de embalagem hidrossolúvel, movimento motivado tanto por demanda regulatória quanto por conveniência operacional.
A segunda tendência foi a substituição de EC por EW, OD e ME: o EC carrega solvente orgânico com toxicidade inerente por via dérmica e respiratória, inflamabilidade, odor intenso e, no caso do emulsificante à base de nonilfenol, risco endócrino ambiental, enquanto EW, OD e ME reduzem ou eliminam o solvente mais problemático, usando fase oleosa vegetal ou solvente de menor risco com emulsificante mais moderno.
A CS representa um avanço adicional em segurança: durante o manuseio, o ingrediente ativo está encapsulado, com exposição reduzida em relação ao produto não encapsulado, e a formulação ainda contribui para menor volatilização pós-aplicação, com implicação positiva para a qualidade do ar e a proteção do trabalhador rural em área próxima.
Nas próximas décadas, a nanotecnologia de liberação controlada é a fronteira técnica mais discutida, com nanopartícula que libera o ativo em resposta a estímulo específico prometendo reduzir dose aplicada e resíduo ambiental, como já demonstrado em caso isolado de eficácia equivalente com dose duzentas vezes menor.
A barreira atual é regulatória e de escalabilidade industrial, não tecnológica.
| Formulação de saída | Formulação de entrada | Motivação principal |
|---|---|---|
| WP | WG | Redução de poeira, segurança do operador, embalagem hidrossolúvel |
| EC com solvente aromático | EW, OD, ME | Eliminação de solvente orgânico problemático, menor inalação, menor inflamabilidade |
| EC, SC convencional | CS | Liberação controlada, menor exposição dérmica, maior residual |
| Formulação convencional | Nano e microencapsulada | Menor dose, maior seletividade, menor resíduo ambiental |
| Brometo de metila (GA) | Outro fumigante, alternativa não fumigante | Eliminação obrigatória, por degradar a camada de ozônio conforme o Protocolo de Montreal |
A embalagem hidrossolúvel, embora não seja uma formulação em si, merece registro como inovação complementar: elimina o contato do operador com o produto durante a pesagem e a transferência ao tanque, reduzindo a exposição justamente no pico de risco do processo.
Acho que o gargalo real da adoção dessas formulações mais novas não está mais na química.
A encapsulação em nanopartícula entrega resultado de laboratório consistente há quase uma década, com casos de redução de dose que qualquer engenheiro agrônomo assinaria embaixo sem pestanejar.
O que trava a chegada ao campo é a ausência de um marco regulatório brasileiro específico para essas formulações: enquanto a fiscalização tratar um encapsulado de nanopartícula com o mesmo crivo de registro de um concentrado emulsionável convencional, o produto vai continuar caro demais para virar rotina de lavoura, mesmo quando o ganho de eficiência já está documentado.
Quadro-síntese: decisões operacionais por formulação¶
Consulta rápida diante de uma embalagem com o código no rótulo, para decidir agitação, pré-diluição e cuidado com abrasão antes de encher o tanque.
| Sigla | Nome | Sistema na calda | Aspecto | Agitação | Pré-diluição | Risco de abrasão | Nota crítica |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| WP | Pó molhável | Suspensão | Turvo | Intensa | Obrigatória | Alto | Risco inalatório no manuseio, em declínio |
| WG | Granulado dispersível | Suspensão | Turvo | Intensa | Recomendável | Médio | Embalagem hidrossolúvel comum |
| SP | Pó solúvel | Solução | Translúcido | Desnecessária | Não | Nenhum | Risco inalatório no manuseio |
| SG | Granulado solúvel | Solução | Translúcido | Desnecessária | Não | Nenhum | Formulação mais segura entre as sólidas |
| SL | Concentrado solúvel | Solução | Translúcido | Desnecessária | Não | Nenhum | Pode exigir surfatante para molhamento |
| SC | Suspensão concentrada | Suspensão | Turvo | Intensa | Não | Médio | Sedimentação compactada em pausa longa |
| EC | Concentrado emulsionável | Emulsão, forma no tanque | Leitoso | Moderada | Não | Baixo | Inflamável, cuidado com mangueira plástica |
| EW | Emulsão de óleo em água | Emulsão pré-formada | Leitoso | Moderada | Não | Baixo | Menor toxicidade e inflamabilidade que EC |
| ME | Microemulsão | Microemulsão | Translúcido a opalescente | Baixa | Não | Baixo | Nem todo ME é microemulsão técnica |
| OD | Dispersão de óleo | Suspensão-emulsão | Turvo | Intensa | Não | Médio | Alta proporção de óleo afeta deriva |
| CS | Suspensão de encapsulado | Suspensão | Turvo | Moderada | Não | Médio | Risco para abelha, carregada até a colmeia |
| GR / MG | Granulado / microgranulado | Aplicação direta | n/a | n/a | n/a | n/a | Sem deriva pelo vento, aplicação ao solo |
| DP | Pó seco | Aplicação direta | n/a | n/a | n/a | n/a | Alta deriva pelo vento, em desuso |
| UL / SU | Ultra baixo volume | Aplicação direta | n/a | n/a | n/a | n/a | Volume igual ou inferior a 8 L/ha |
| ED | Pulverização eletrostática | Aplicação direta com carga | n/a | n/a | n/a | n/a | Volume de 0,2 a 2,0 L/ha, deposição na face inferior |
| FU / FD / FK | Fumigante | Gás | n/a | n/a | n/a | n/a | Armazém e silo, toxicidade aguda alta |
| FS / DS / LS | Tratamento de sementes | Variável | n/a | n/a | n/a | n/a | Aderência à superfície da semente |
Dois produtos com a mesma molécula ativa podem ter desempenho completamente diferente no campo porque foram formulados de maneiras distintas, com tensoativo diferente em concentração diferente escolhida por cada fabricante.
Ler o código no rótulo antes de decidir taxa de aplicação, ponta e sequência de mistura no tanque não é excesso de zelo, é a única forma de transformar uma variável que parece invisível numa decisão técnica de fato.
Referências¶
ANTUNIASSI, U. R.; BOLLER, W. (Ed.). Tecnologia de aplicação para culturas anuais. 2. ed. Botucatu: FEPAF, 2019.
ANTUNIASSI, U. R. Entendendo a tecnologia de aplicação: pulverizadores terrestres. 2. ed. Botucatu: FEPAF, 2022.
BRASIL. Lei nº 14.785, de 27 de dezembro de 2023. Dispõe sobre pesquisa, experimentação, produção, embalagem e rotulagem, transporte, armazenamento, comercialização, propaganda comercial, utilização, importação, exportação, destino final dos resíduos e embalagens, registro, classificação, controle, inspeção e fiscalização de agrotóxicos. Diário Oficial da União, Brasília, 28 dez. 2023.
BRASIL. Lei nº 15.070, de 23 de dezembro de 2024. Altera a Lei nº 14.785, de 27 de dezembro de 2023. Diário Oficial da União, Brasília, 26 dez. 2024.
CHAIM, A. Manual de tecnologia de aplicação de agrotóxicos. Brasília: Embrapa, 2009.
COSTA, A. G. F. Tecnologia de caldas fitossanitárias. 2. ed. Londrina: Embrapa, 2023.
COSTA, L. L. et al. Pesquisa e desenvolvimento de sistemas de liberação controlada de produtos fitossanitários a base de micro e nanotecnologia para aplicações agrícolas. [S.l.: s.n.], 2019.
EMBRAPA SOJA. Manual técnico para subsidiar a mistura em tanque de agrotóxicos e afins. Londrina: Embrapa Soja, 2021. (Documentos, 437).
EMBRAPA. Tecnologia de aplicação de defensivos agrícolas. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2006.
MAPA. Norma ABNT NBR 12697/2018, agrotóxicos e afins: produtos técnicos, concentrados técnicos e formulações, terminologia. Brasília: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, 2018.
MAPA. Tabela de códigos e denominações de formulações de agrotóxicos. Brasília: Secretaria de Defesa Agropecuária, Departamento de Fiscalização de Insumos Agrícolas, Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins.
MINGUELA, J. V.; CUNHA, J. P. A. R. Manual de aplicação de produtos fitossanitários. Viçosa: Aprenda Fácil, 2013.
SENAR. Aplicação de agrotóxicos. Curitiba: SENAR-PR, 2013.
MATUO, T.; PIO, L. C.; RAMOS, H. H.; FERREIRA, M. C. Proteção de plantas: tecnologia de aplicação dos agroquímicos e equipamentos. Jaboticabal: FUNEP, 2010.
Exercícios¶
Tip
Tente resolver antes de abrir o gabarito. O esforço de recuperar e raciocinar é o que consolida o aprendizado; consultar a resposta cedo demais desperdiça esse ganho. O Bloco A não tem gabarito: são questões de discussão, retomadas no início da próxima aula.
Bloco A: para discutir na próxima aula¶
Responda por escrito, de forma breve. Não há resposta divulgada: traga suas respostas para a discussão em sala.
A1. Na Aula 04, o texto afirmou que o herbicida auxínico em formulação éster tem mais deriva de vapor que o mesmo ativo em amina ou sal, e que a deriva de vapor depende da formulação, com pouca margem de controle do aplicador no campo. A Aula 05 mostra que éster etil-hexílico, sal de dimetilamina, sal de isopropilamina e sal potássico são formas químicas distintas do mesmo ingrediente ativo, cada uma com massa molar e equivalente ácido diferentes. Discuta: a escolha da forma química ou formulação de um herbicida afeta ao mesmo tempo duas decisões que pareciam separadas, o risco de deriva de vapor (Aula 04) e a quantidade de produto comercial necessária para entregar a mesma dose ativa (Aula 05). Como esses dois efeitos se conectam na cabeça do agrônomo que compara dois glifosatos na prateleira?
A2. O Ponto de Partida da aula perguntava o que muda fisicamente quando um princípio ativo é formulado como concentrado emulsionável (EC), suspensão concentrada (SC) ou granulado dispersível (WG). Responda ao fechamento da aula: quando cada um desses três encontra a água no tanque, que sistema físico se forma em cada caso, e por que essa diferença invisível no galão decide, na prática, a necessidade de agitação e o risco de abrasão da ponta de pulverização?
A3. O texto afirma que a formulação define três propriedades físicas da calda (tensão superficial, viscosidade e densidade) além da abrasividade da suspensão, e que "volume baixo de calda agrava o risco de abrasão por concentrar mais partícula no sistema". Também menciona que a má qualidade da água pode dissociar a emulsão. Se a formulação já governa a calda antes mesmo de escolher o equipamento, o que isso antecipa sobre a próxima aula, que trata justamente da calda fitossanitária, da qualidade da água e da taxa de aplicação (L/ha)?
Bloco B: consolidação da aula¶
B1. Um agrônomo abre um galão de um produto com o código EC no rótulo e estranha: o líquido está claro, levemente turvo, não leitoso. Ele desconfia que o produto está vencido. Qual é a avaliação correta?
(A) O produto se deteriorou, pois no galão um EC já deveria ter o aspecto leitoso da emulsão.
(B) É o esperado: o EC é solução em solvente, e a emulsão leitosa só se forma no tanque, com a água.
(C) É uma microemulsão, translúcida por definição desde a embalagem, sem nunca formar emulsão.
(D) É uma suspensão concentrada cujas partículas sólidas ainda não decantaram no fundo do galão.
B2. Um operador diluiu em água um produto sólido e obteve uma calda translúcida, homogênea, que permaneceu estável sem agitação. Qual formulação corresponde a esse comportamento?
(A) Pó molhável (WP), que forma suspensão de partículas finas abaixo de 5 µm.
(B) Suspensão concentrada (SC), já pré-dispersa e por isso mais estável na água.
(C) Granulado solúvel (SG), que se dissolve e forma uma solução verdadeira.
(D) Granulado dispersível (WG), que regenera o pó fino ao contato com a água.
B3. O texto afirma que o WG "vem substituindo o WP" e que a transição de WP para WG foi "a tendência mais consolidada no mercado brasileiro nas últimas décadas". Explique por que essa substituição ocorre, listando pelo menos três vantagens do WG sobre o WP, e diga em que classe de produto o WP ainda resiste.
B4. ("Explique ao produtor") Um produtor comprou dois fungicidas com o mesmo ingrediente ativo, a mesma concentração (200 g/L) e a mesma sigla de formulação (SC), de fabricantes diferentes, e reclama que "um trava a ponta e o outro corre liso". Ele conclui que uma das empresas "fraudou o produto". Em linguagem de lavoura, explique por que dois produtos aparentemente idênticos podem se comportar de forma diferente sem que nenhum esteja fraudado.
B5. Um técnico vai aplicar um inseticida piretroide encapsulado (CS) numa cultura em floração, próxima a um apiário. Sobre o risco para abelha nessa situação:
(A) A microcápsula pode ser levada à colmeia e liberar o ativo no meio do enxame.
(B) A CS é segura para a abelha, pois o ativo encapsulado nunca fica disponível no campo.
(C) A CS elimina o risco à abelha, já que a liberação lenta reduz muito a dose que chega ao alvo.
(D) O risco à abelha independe da formulação, pois toda calda fresca age da mesma maneira sobre ela.
B6. Numa jornada longa de pulverização com um produto SC, o operador deixa a agitação deficiente para "poupar a bomba" e ainda pré-prepara parte da calda de manhã para usar à tarde. Antecipe os problemas operacionais que essa conduta pode gerar e explique o mecanismo físico de cada um.
Bloco C: cálculo e diagnóstico¶
C1. (Cálculo, equivalente ácido e dose) O glifosato ácido (N-fosfonometil-glicina) tem massa molar de 169 g/mol; o sal de isopropilamina tem 228 g/mol. Uma recomendação de bula pede 720 g e.a./ha. Considere três produtos comerciais:
| Produto | Forma | Concentração |
|---|---|---|
| A | sal de isopropilamina | 360 g e.a./L |
| B | sal potássico | 540 g e.a./L |
| C | sal de amônio (WG) | 720 g e.a./kg |
(i) Calcule o percentual de equivalente ácido contido no sal de isopropilamina (massa de ácido sobre massa de sal).
(ii) Calcule a dose de produto comercial (L/ha ou kg/ha) de A, B e C para entregar 720 g e.a./ha.
(iii) Comente por que comparar dois produtos pela concentração do sal, sem olhar o equivalente ácido, leva a erro de dose.
Use 4 casas decimais nos resultados.
C2. (Diagnóstico, cuidados de preparo por formulação) Um produtor vai aplicar, ao longo de um dia inteiro, um fungicida multissítio à base de mancozebe formulado como WP (pó molhável). Para reduzir o número de reabastecimentos, ele planeja baixar o volume de calda e pretende jogar o pó direto no tanque com água e ligar a agitação. Diagnostique os riscos dessa conduta e recomende os cuidados corretos de preparo de calda.