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Recomendação de Semeadura

O ato de instalar a lavoura

Nós já percorremos um caminho longo juntos.

Interpretamos o solo, corrigimos a acidez com calagem e gessagem, e montamos a adubação.

Tudo isso construiu o ambiente.

Agora chega o momento em que a lavoura de fato nasce: a semeadura.

É aqui que uma recomendação de gabinete encontra o campo, e onde um erro de conta não fica no papel, ele vira falha na população de plantas que você só enxerga quando a lavoura emerge desuniforme, e aí já é tarde.

Vou trabalhar com o cenário da apresentação: uma propriedade em Campo Verde, Mato Grosso, trigo sequeiro em cultivo mínimo, média tecnologia, expectativa de 3.500 kg/ha, espaçamento de 0,17 m entre fileiras.

E vou fazer uma correção importante na metodologia, que muda os números para melhor.

A apresentação calculou a quantidade de sementes usando só a germinação.

Isso subestima o que você precisa semear, porque germinação não é a mesma coisa que planta estabelecida no campo.

Vou incluir o fator de emergência, e você vai ver o tamanho da diferença.

No fim, você sairá capaz de fechar uma recomendação de semeadura inteira, do estande desejado até quantos dias a operação leva com a frota disponível.

A janela não perdoa: ZARC e o Plante Certo

Antes de qualquer semente, existe uma pergunta de calendário.

Quando eu posso semear?

A resposta vem do Zoneamento Agrícola de Risco Climático, o ZARC, disponibilizado pelo MAPA na ferramenta Plante Certo.

Para cada município, cultura e tipo de solo, o ZARC indica os períodos de semeadura em que o risco climático (seca ou geada na fase errada) fica dentro de um patamar aceitável, geralmente apresentado em níveis de 20%, 30% ou 40% de risco.

Isso não é burocracia, é o que amarra a operação inteira.

A janela de semeadura tem começo e fim, e você precisa semear toda a sua área dentro dela.

Semear fora da janela é apostar contra o clima na fase mais sensível da cultura, e é também o que muitas vezes tira o direito ao seguro rural e ao crédito, que exigem aderência ao ZARC.

Essa janela finita é a razão de existir a última conta desta aula, a de quantos dias você leva para semear a área.

Se a frota não fecha a área dentro da janela, a recomendação agronômica perfeita não vale nada, porque parte da lavoura vai ao solo no dia errado.

Guarde essa ideia, porque ela dá sentido a tudo que vem depois.

O estande desejado: por que existe uma população ideal

Toda recomendação de semeadura começa por um alvo, o estande desejado, que é a população de plantas por área que você quer ter estabelecida.

Para o trigo nas nossas condições, o alvo é de 400 plantas por metro quadrado, o que dá 4.000.000 de plantas por hectare (400 × 10.000 m²).

Por que perseguir uma população específica, nem mais nem menos?

Porque a produtividade responde à densidade em forma de sino.

Com poucas plantas, você desperdiça área: sobra luz, água e nutriente que ninguém aproveita, e mesmo o perfilhamento do trigo não compensa o vazio.

Com plantas demais, a competição entre elas por luz e água aperta, as plantas estiolam, ficam finas, acamam com o vento, e o microclima úmido dentro do dossel fechado convida doença foliar e de espiga.

Existe um ponto de equilíbrio, a população em que cada planta tem espaço para produzir bem e o conjunto ocupa o terreno por inteiro.

Esse ponto muda com a cultura, a cultivar, o nível tecnológico e a expectativa de rendimento, e é ele que a recomendação de estande captura.

Aqui já registro uma opinião que vai orientar a aula: você deve pensar em plantas por metro quadrado, nunca em quilos de semente por hectare.

O quilo é uma consequência, não um objetivo, e ele engana, porque o mesmo quilo de semente pode virar populações muito diferentes conforme o tamanho da semente.

Quem raciocina em kg/ha erra estande sem perceber.

Quem raciocina em plantas/m² acerta a lavoura.

Da semente à planta: por que a semente não é a planta

Se eu preciso de 4.000.000 de plantas por hectare, seria ingênuo jogar 4.000.000 de sementes e esperar 4.000.000 de plantas.

Nem toda semente vira planta, e a perda acontece em duas etapas que você precisa separar na cabeça.

A primeira perda é a germinação.

O saco de semente traz um percentual de germinação, digamos 90%, obtido em teste de laboratório sob condições ideais: umidade controlada, temperatura ótima, substrato limpo, sem praga.

Esse número diz quantas sementes, das que você comprou, são viáveis e capazes de germinar no melhor cenário possível.

No nosso caso, germinação de 90%.

A segunda perda, que a apresentação não considerou e que eu vou incluir agora, é a emergência a campo.

Nem toda semente que germinaria no laboratório consegue romper o solo e se estabelecer na lavoura de verdade.

O campo tem profundidade de semeadura irregular, umidade que oscila, encrostamento da superfície depois de uma chuva forte, pragas de solo, patógenos, dano mecânico da semeadora, temperatura fora do ideal.

Sob cultivo mínimo, com palhada por cima e contato semente-solo mais variável, essa perda cresce.

A emergência a campo é sempre menor que a germinação de laboratório, e ignorar isso é semear com uma régua otimista demais.

Vou adotar uma emergência de 90%, e aqui preciso ser explícito sobre o motivo, porque esse valor virou o nosso padrão.

Quando o agrônomo tem uma estimativa própria de emergência para aquela área, aquela época e aquela previsão de chuva, ele usa o número dele.

Quando ele não tem, ou quando o dado simplesmente não foi informado, ele adota 90%.

Escolhi 90% porque, em condições de campo boas mas realistas (umidade adequada na semeadura, profundidade correta, contato semente-solo razoável, sem encrostamento severo nem ataque forte de praga), a perda entre a semente germinada e a plântula estabelecida gira em torno de 10%.

É um valor moderadamente conservador: não é otimista a ponto de fingir que o campo é um laboratório, nem pessimista a ponto de inflar demais a dose.

Dez por cento de perda representa um campo bem manejado, que é a condição para a qual a maioria das recomendações é feita.

Por que incluir esse fator mesmo quando você não conhece o valor real?

Porque deixar a emergência de fora não é uma escolha neutra, é assumir, sem dizer, que a emergência é de 100%.

E emergência de 100% no campo simplesmente não existe.

Omitir o fator não é o caminho seguro, é o caminho garantidamente errado, porque troca uma estimativa próxima da realidade (90%) por uma suposição impossível (100%).

Há ainda uma assimetria de custo que resolve a dúvida.

Se você superestimar um pouco e semear sementes a mais, o prejuízo é um punhado de semente extra, barato e sem volta trágica.

Se você subestimar e semear de menos, o prejuízo é um estande furado e produtividade perdida, caro e irreversível, porque não existe como adicionar depois uma planta que nunca emergiu.

Entre errar para mais com semente barata e errar para menos com lavoura falha, o padrão de 90% protege você do erro mais caro.

Por isso ele entra sempre, conhecido ou não.

A fração de plantas que realmente se estabelece é o produto das duas perdas:

Fração de estabelecimento = Germinação × Emergência Fração de estabelecimento = 0,9000 × 0,9000 = 0,8100

Ou seja, de cada semente que vai ao solo, só 81,00% viram planta estabelecida.

Para atingir o estande, eu preciso compensar essas duas perdas dividindo o estande desejado pela fração de estabelecimento:

Sementes por hectare = Estande desejado ÷ (Germinação × Emergência) Sementes por hectare = 4.000.000 ÷ 0,8100 = 4.938.271,6049 sementes/ha

Agora compare com o que sairia usando só a germinação, como na apresentação original:

Sementes por hectare (só germinação) = 4.000.000 ÷ 0,9000 = 4.444.444,4444 sementes/ha

A diferença é grande, quase 500 mil sementes por hectare.

Quem esquece a emergência semeia sementes de menos, e a lavoura emerge com uma população abaixo do alvo, perdendo rendimento por falha de estande.

Esse é o tipo de erro silencioso que só aparece na colheita, quando não dá mais para corrigir.

Incluir a emergência é o que separa a conta de laboratório da recomendação de campo.

Um refinamento para quem quiser ir além: se o saco informar também a pureza (percentual de semente pura, sem torrão, palha ou semente de outra espécie), você multiplica por mais esse fator, exatamente da mesma forma.

Estabelecimento = germinação × pureza × emergência.

A lógica é sempre a mesma, dividir o alvo pela fração que sobrevive a cada peneira.

Do número de sementes ao peso: o PMS

Você compra e regula semente por peso, não contando grão por grão.

Então preciso converter o número de sementes por hectare em quilos por hectare, e a ponte para isso é o peso de mil sementes, o PMS.

No nosso caso, PMS de 37 g, ou seja, mil sementes pesam 37 g (0,0370 kg).

A conta é uma regra de três direta:

1.000 sementes pesam 0,0370 kg 4.938.271,6049 sementes pesam x

x = (4.938.271,6049 × 0,0370) ÷ 1.000 = 182,7160 kg/ha de sementes

Comparando de novo com a versão só com germinação:

x (só germinação) = (4.444.444,4444 × 0,0370) ÷ 1.000 = 164,4444 kg/ha de sementes

A correção da emergência elevou o gasto de sementes de 164,4444 para 182,7160 kg/ha, uma diferença de 18,2716 kg/ha.

Não é detalhe.

Em uma área grande, são toneladas de semente que a conta antiga deixaria de fora, com o custo escondido de um estande furado.

O PMS, repare, é específico do lote e da cultivar, então ele muda de saco para saco.

É mais uma razão para raciocinar em plantas, e só no fim traduzir para o peso daquele lote em particular.

Sementes por metro de sulco: calibrando a semeadora

Assim como na adubação, o produtor não regula a semeadora em sementes por hectare, e sim em sementes por metro de linha.

Preciso traduzir.

Primeiro, quantos metros de sulco existem em um hectare, no espaçamento de 0,17 m:

Metros de sulco por hectare = 10.000 ÷ 0,17 = 58.823,5294 m/ha

Agora distribuo as sementes por hectare ao longo desses metros:

Sementes por metro = 4.938.271,6049 ÷ 58.823,5294 = 83,9506 sementes/m

Há um caminho mais curto e igualmente válido, que eu gosto de mostrar porque revela a lógica.

As plantas desejadas por metro de linha são 400 plantas/m² × 0,17 m = 68 plantas/m.

Dividindo pela fração de estabelecimento: 68 ÷ 0,8100 = 83,9506 sementes/m.

Chega no mesmo lugar, e deixa claro que estamos compensando as perdas também no nível do metro de sulco.

Compare, mais uma vez, com a conta antiga: 68 ÷ 0,9000 = 75,5556 sementes/m.

O agrônomo que calibra a semeadora em 75,5556 quando deveria calibrar em 83,9506 instala a lavoura com 10% menos plantas do que planejou.

A régua da máquina reflete o erro da régua da conta.

Início e término da semeadura: a frota contra a janela

Definida a semente, falta a logística, e ela conversa direto com a janela do ZARC.

A pergunta é: em quantos dias eu consigo semear a área, e isso cabe na janela?

Os dados da operação no talhão TH-17, de 201,6 ha:

Dois conjuntos mecanizados, 8 horas trabalhadas por dia, semeadora de 40 linhas, velocidade de 9 km/h, eficiência de campo de 0,7, espaçamento de 0,17 m.

Começo pela largura de trabalho da semeadora, que é o número de linhas vezes o espaçamento:

Largura de trabalho = 40 × 0,17 = 6,8000 m

A capacidade de campo teórica é a área que a máquina cobriria por hora se trabalhasse sem parar, sem sobreposição, sem manobra.

Ela é a largura de trabalho vezes a velocidade (com 9 km/h convertidos para 9.000 m/h):

Capacidade de campo teórica = 6,8000 × 9.000 = 61.200 m²/h = 6,1200 ha/h

Nenhuma máquina trabalha no teórico.

Ela faz cabeceira, manobra no fim da linha, para para abastecer semente e adubo, sobrepõe um pouco nas passadas.

A eficiência de campo mede quanto do tempo teórico vira trabalho real, e aqui vale 0,7, ou seja, 70% de aproveitamento.

A capacidade de campo efetiva corrige a teórica por esse fator:

Capacidade de campo efetiva = 6,1200 × 0,7 = 4,2840 ha/h

Em uma jornada de 8 horas, um conjunto faz:

4,2840 × 8 = 34,2720 ha/dia por conjunto

Com dois conjuntos operando:

34,2720 × 2 = 68,5440 ha/dia

Agora o tempo para semear os 201,6 ha:

Dias = 201,6 ÷ 68,5440 = 2,9412 dias

Como não existe fração de jornada quando a preocupação é fechar a área, arredondo para cima: 3 dias de semeadura.

Repare por que o arredondamento é sempre para cima aqui, e nunca para baixo.

Se eu arredondasse 2,9412 para 2 dias, a área não fecharia, sobraria lavoura sem semear.

Arredondar para cima garante que a operação termina, e esses 3 dias são o que você confronta com a janela do ZARC.

Se a janela para trigo em Campo Verde tiver, digamos, 20 dias, 3 dias de operação cabem com folga.

Se a área fosse dez vezes maior e a janela a mesma, essa conta é o que te diria, antes da safra, que a sua frota é pequena demais e que você precisa de mais um conjunto ou de semear mais horas por dia.

Dimensionar frota pela janela é uma decisão de planejamento que nasce desta conta simples.

O programa completo de semeadura do TH-17

Junto tudo na recomendação que eu assinaria para o trigo sequeiro em Campo Verde:

Semear para um estande de 400 plantas/m² (4.000.000 plantas/ha), considerando germinação de 90% e emergência a campo de 90%, o que exige levar ao solo 4.938.271,6049 sementes/ha.

Com PMS de 37 g, isso equivale a um gasto de 182,7160 kg/ha de sementes.

A semeadora deve ser calibrada para 83,9506 sementes por metro de linha no espaçamento de 0,17 m.

A operação, com dois conjuntos de semeadora de 40 linhas a 9 km/h e eficiência de 0,7, cobre 68,5440 ha/dia, fechando os 201,6 ha do TH-17 em 3 dias, dentro da janela do ZARC.

A diferença prática de ter incluído a emergência: sem ela, a recomendação teria mandado 164,4444 kg/ha e uma calibração de 75,5556 sementes/m, e a lavoura teria emergido com população abaixo do alvo.

A correção não é preciosismo acadêmico, é a diferença entre atingir e não atingir o estande que você projetou.

Agora é com você: uma semeadura do zero

Chega de me seguir.

Aqui está um cenário novo, o talhão TH-25, plantado com soja, e você monta a recomendação completa: sementes por hectare (com emergência), gasto de sementes em kg/ha, sementes por metro de sulco, e os dias de semeadura confrontados com a janela.

Dados agronômicos: estande desejado de 320.000 plantas/ha, germinação de 85%, emergência a campo não informada, PMS de 160 g, espaçamento de 0,50 m.

Dados operacionais: um conjunto mecanizado, semeadora de 16 linhas, velocidade de 6 km/h, eficiência de campo de 0,65, 10 horas por dia, área de 150 ha.

Tente antes de descer.

Repare que a emergência não veio no enunciado, então aplique o padrão.

Gabarito do TH-25

Como a emergência não foi informada, adoto o padrão de 90%.

Fração de estabelecimento = 0,8500 × 0,9000 = 0,7650.

Sementes por hectare = 320.000 ÷ 0,7650 = 418.300,6536 sementes/ha.

Gasto de sementes (PMS 160 g, ou 0,1600 kg por mil sementes): x = (418.300,6536 × 0,1600) ÷ 1.000 = 66,9281 kg/ha.

Metros de sulco por hectare = 10.000 ÷ 0,50 = 20.000,0000 m/ha. Sementes por metro = 418.300,6536 ÷ 20.000 = 20,9150 sementes/m.

Conferindo pelo caminho curto: 320.000/10.000 = 32 plantas/m², vezes 0,50 m = 16 plantas/m; e 16 ÷ 0,7650 = 20,9150 sementes/m.

Bateu.

Operação: Largura de trabalho = 16 × 0,50 = 8,0000 m. Capacidade de campo teórica = 8,0000 × 6.000 = 48.000 m²/h = 4,8000 ha/h. Capacidade de campo efetiva = 4,8000 × 0,65 = 3,1200 ha/h. Por dia (10 horas, um conjunto) = 3,1200 × 10 = 31,2000 ha/dia. Dias = 150 ÷ 31,2000 = 4,8077 dias, que arredonda para 5 dias de semeadura.

Se o seu programa bateu, do fator de estabelecimento até os dias de operação, você já sabe recomendar uma semeadura completa.

Se travou, volte na seção correspondente e refaça só aquele trecho.

O que importa é você entender por que a semente não é a planta, por que a emergência entra junto com a germinação, por que o PMS traduz contagem em peso e por que os dias de operação existem para caber numa janela que não perdoa.

Uma provocação para levar para o campo

Você reparou que, das duas versões da conta, a diferença toda veio de um único número que a apresentação original nem usava, a emergência?

Um coeficiente de 90% mexeu em mais de 18 kg/ha de semente e em dez por cento da população.

Semeadura é a etapa onde os pequenos fatores esquecidos cobram os maiores preços, porque não há adubação de cobertura que reponha uma planta que não nasceu.

Então fica a pergunta que separa o agrônomo que calcula semente do que entende semeadura: quando você usar o padrão de 90% porque a emergência não foi informada, vai deixar esse número parado para sempre, ou vai encarar cada lavoura como uma chance de medir a emergência real daquele solo, daquela palhada e daquela época, e assim trocar o padrão pela verdade daquele talhão?