Manejo Integrado de Pragas em Cereais: Arroz, Milho, Sorgo, Milheto e Trigo¶
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Rotacionar cereais no Cerrado parece, à primeira vista, uma barreira fitossanitária segura contra insetos: troca-se a espécie, quebra-se o ciclo da praga.
Boa parte do complexo de insetos desses cinco cereais, porém, ignora a fronteira entre lavouras.
Um inseto polífago não lê o nome da cultura antes de pousar, e a lagarta-do-cartucho que sai do milheto de cobertura vai para o milho seguinte com a mesma facilidade com que atravessa a divisa de dois talhões.
Decidir quando controlar, com o quê controlar e como preservar o que já controla de graça (os inimigos naturais) é o que separa o Manejo Integrado de Pragas de um calendário fixo de pulverização.
Este texto percorre o raciocínio inteiro dessa decisão: o que faz de um inseto uma praga, como se mede o momento de agir, quais pragas as cinco culturas compartilham e quais são exclusivas de cada uma, como se classificam os inseticidas por onde entram no inseto e por qual mecanismo agem, e como controle cultural, biológico, químico e transgênico se combinam num sistema único de manejo.
O eixo é sempre o mesmo: intervir com base em monitoramento e em limiar econômico, nunca por hábito ou por medo.
O que transforma um inseto em praga e o que é o MIP¶
Praga não é a espécie: é a densidade da espécie que custa mais deixar viva do que controlar.
Numa lavoura de milho ocorrem cerca de trinta espécies de insetos que se alimentam da planta, mas é improvável que todas apareçam num mesmo local, e mais improvável ainda que todas demandem controle.
O termo praga só se aplica à espécie presente numa densidade capaz de reduzir a produtividade e causar prejuízo igual ou maior que o custo do seu próprio controle (inseticida mais a operação de aplicação).
O restante do inventário de insetos fitófagos convive com a cultura sem justificar intervenção, muitas vezes mantido em baixa população pelos próprios inimigos naturais.
O Manejo Integrado de Pragas parte dessa definição econômica e a organiza num programa de decisão.
Manejo Integrado de Pragas (MIP)
conjunto de ações que busca preservar ou aumentar os fatores de mortalidade natural dos insetos-praga, associando a dinâmica populacional ao ambiente e integrando métodos culturais, biológicos, químicos e genéticos, para manter a população abaixo do nível que causa dano econômico. Não é a ausência de controle químico, e sim o uso do químico apenas quando o monitoramento indica que ele se justifica.
Um programa de MIP se estrutura em seis componentes, na ordem em que sustentam a decisão de campo.
A lista abaixo é sequencial: cada item depende do anterior.
- Definir o método de amostragem específico para cada espécie.
- Identificar corretamente as principais pragas da cultura e da região.
- Levantar os principais inimigos naturais presentes na área.
- Avaliar a influência dos fatores climáticos sobre a dinâmica populacional das pragas.
- Determinar os níveis de ação (ou de controle) para cada praga-chave.
- Definir as alternativas de controle disponíveis e escolher a mais seletiva.
A escolha do inseticida, quando ela ocorre, considera muito além da eficácia sobre a praga-alvo.
Pesa o impacto ambiental, o risco à saúde humana e, decisivamente, a seletividade em relação a polinizadores e a agentes de controle biológico natural.
Essa seletividade tem duas origens que o agrônomo manipula de formas diferentes.
| Tipo de seletividade | Origem | Como o agrônomo a obtém |
|---|---|---|
| Fisiológica | Inerente à molécula: mesmo em contato com o inimigo natural, causa mortalidade baixa ou nula | Escolha do ingrediente ativo (ex.: reguladores de crescimento, produtos biológicos) |
| Ecológica | Decorre do modo de aplicação: reduz o contato do produto com o inimigo natural | Aplicação dirigida (ao colo, ao cartucho, em reboleira) em vez de área total |
Os três níveis populacionais e as três categorias de praga¶
Monitorar uma praga é observar sua densidade oscilar entre três linhas de referência, não medir um número isolado.
A dinâmica populacional de um inseto se lê contra três níveis de densidade, monitorados ao longo do tempo.
Eles ordenam a decisão de controle e classificam a própria praga.
| Nível | Sigla | O que representa |
|---|---|---|
| Nível de equilíbrio | NE | Densidade em torno da qual a praga oscila naturalmente, sob os fatores de mortalidade natural (clima, inimigos naturais), sem intervenção |
| Nível de controle | NC (ou nível de ação, NA) | Densidade a partir da qual se recomenda iniciar o controle, para impedir que a população alcance o nível de dano econômico |
| Nível de dano econômico | NDE | Densidade a partir da qual o prejuízo causado se iguala ou supera o custo do controle |
O NC vem sempre abaixo do NDE de propósito: aplica-se antes de o prejuízo alcançar o custo do controle, porque entre a decisão e o efeito do inseticida a população ainda cresce.
A forma como a densidade oscila em torno desses níveis define três categorias de praga, e a categoria determina a intensidade de monitoramento que a espécie exige.
flowchart TD
A[Monitorar densidade da praga] --> B{Ultrapassa o NC?}
B -- Não, oscila no NE --> C[Não-praga: não demanda controle]
B -- Sim, em picos isolados --> D{Retorna ao NE sozinha?}
D -- Sim, na maior parte do tempo --> E[Praga ocasional: controle pontual]
D -- Não, só volta com intervenção repetida --> F[Praga-chave: monitoramento e controle sistematicos]
F --> G{E vetor de doenca sistemica?}
G -- Sim --> H[NDE quase nulo: decidir pelo risco epidemiologico, nao pelo dano direto]
A terceira categoria merece um alerta.
Para insetos vetores de patógenos sistêmicos (molicutes, vírus), como a cigarrinha-do-milho e os pulgões, um único inseto infectado contamina várias plantas.
O NDE do vetor tende a ser extremamente baixo, muitas vezes sem valor formalmente estabelecido, e a decisão de controle se baseia no monitoramento da densidade e no risco epidemiológico, não no dano direto de alimentação.
Como se calcula o nível de dano econômico e por que ele flutua com a cotação do cereal¶
O NDE não é uma constante da praga: sobe quando o cereal está barato e desce quando o preço sobe.
O nível de dano econômico não é um número fixo tabelado.
Ele resulta de uma conta que compara, para uma dada infestação, o quanto se perde deixando a praga agir contra o quanto custa controlá-la.
A formulação clássica do limiar de dano econômico (Stern e colaboradores, 1959, conhecimento consolidado da entomologia econômica) expressa isso de forma direta:
Fórmula do nível de dano econômico
NDE = C ÷ (V × I × D × K) - C = custo do controle por área (produto mais aplicação), em R\(/ha - **V** = valor do produto, isto é, o preço de mercado do cereal (R\)/kg ou R$/saca) - I = injúria por indivíduo (quanto de dano físico um inseto causa, ex.: área foliar consumida por lagarta) - D = dano por unidade de injúria (quanto de produtividade se perde por unidade de dano físico) - K = proporção da população efetivamente controlada (eficácia do método, de 0 a 1)
A leitura agronômica dessa conta é o ponto que mais importa para a decisão de campo.
O preço do cereal (V) está no denominador.
Quando a cotação sobe, o denominador cresce, e o NDE cai: passa a valer a pena controlar a praga em densidade menor, porque cada planta salva vale mais.
Quando o cereal está desvalorizado, o NDE sobe, e tolera-se uma infestação maior antes de gastar com controle, porque o produto colhido não paga a operação.
O mesmo raciocínio vale para o custo do controle (C, no numerador): inseticida mais caro eleva o NDE, adia a intervenção; controle barato o reduz.
A produtividade esperada entra pela via do dano (D): lavoura de alto potencial perde mais em valor absoluto com a mesma desfolha, o que antecipa a intervenção.
Por isso o mesmo número de lagartas por metro que justifica pulverizar num ano de milho valorizado pode não justificar no ano seguinte com o grão em baixa.
As fontes de manejo do milho registram exatamente essa dependência: o nível de dano econômico é função da produtividade esperada, do custo de controle e do preço do milho, de modo que preço mais alto, maior produtividade e menor custo de controle antecipam a necessidade de intervenção.
O NDE, portanto, é um alvo móvel que o agrônomo recalcula a cada safra e a cada cotação, não um valor que se decora uma vez.
Na prática, os níveis de controle publicados por cultura (as tabelas que aparecem nas seções seguintes) são traduções operacionais dessa conta para uma faixa típica de preço, custo e produtividade.
Servem como referência de campo, mas pressupõem um cenário econômico; em anos de preço muito fora da média, cabe ao agrônomo ajustar o gatilho.
Monitoramento e amostragem: a base de toda a decisão¶
Sem contagem sistemática da praga no campo, não existe MIP, existe calendário de pulverização.
O monitoramento é o que transforma o NC de um número abstrato numa decisão.
Ele varia conforme a praga tem ou não atrativo específico disponível e conforme o órgão atacado.
Três métodos dominam nos cereais, e cada praga responde melhor a um deles.
A armadilha de feromônio sexual é o método mais preciso, mas está validado para poucas espécies.
Entre as pragas iniciais e vegetativas dos cereais, Spodoptera frugiperda é frequentemente a única com feromônio sintético eficiente: gaiola triangular com piso colado, fixada a 1 m do solo e reajustada conforme a planta cresce, na densidade de 1 armadilha a cada 5 ha, com decisão de controle na média de 3 mariposas capturadas por noite.
Para Diatraea saccharalis há armadilhas com fêmeas virgens disponíveis comercialmente.
A maioria das demais espécies depende de levantamento direto.
A vistoria de campo (batida de pano, inspeção de plantas, contagem no solo) cobre o resto.
A cadência recomendada acompanha as fases críticas de cada cultura, resumidas abaixo.
| Cultura | Cadência e método de monitoramento | Momento crítico |
|---|---|---|
| Arroz | Semanal, da germinação ao início do perfilhamento e do primórdio da panícula à maturação; redário (rede de 0,38 m de diâmetro) para percevejos-da-panícula | Estabelecimento e florescimento |
| Milho | 10 pontos de amostragem por hectare; armadilha de feromônio para S. frugiperda desde a emergência; talhão dividido em glebas | Emergência a 15 dias após emergir; formação de grãos |
| Sorgo | Ao menos semanal; feromônio para S. frugiperda (1 armadilha/5 ha); levantamento a cada 3 dias no florescimento para mosca-do-sorgo | Cartucho e florescimento |
| Milheto | Levantamento de campo; sem inseticida registrado, o monitoramento orienta controle biológico e cultural | Estabelecimento e enchimento de grãos |
| Trigo | Inspeções semanais em bordas e interior; contagem de lagartas por tamanho (grandes, médias, pequenas) no solo; 10 pontos/ha para percevejos | Emergência a perfilhamento; emborrachamento e espigamento |
Dois refinamentos elevam a qualidade da decisão.
O primeiro é considerar a distribuição espacial da praga: percevejos e várias lagartas ocorrem em focos agregados, o que permite controle localizado (só onde a densidade atinge o NC), com economia documentada de mais de 60% de inseticida no controle de lagartas e de quase 50% no de percevejos em soja, desde que se conheça a variabilidade da praga no talhão.
O segundo é o horário: amostragens de percevejos rendem mais no início da manhã ou no fim da tarde, com temperaturas amenas, quando os insetos estão mais ativos e menos abrigados.
Pragas compartilhadas: agrupamento por número de culturas atacadas¶
A estratégia trófica do inseto prevê seu trânsito entre lavouras melhor que qualquer fronteira de talhão.
O caso mais direto de trânsito entre culturas é o inseto mastigador ou sugador polífago, que se desloca fisicamente de uma lavoura para outra.
Para esse grupo, a planta hospedeira importa menos que a disponibilidade de tecido para alimentação, e a troca de espécie na rotação não funciona como barreira.
Organizo as pragas compartilhadas pelo número de culturas que atacam, do espectro completo (as cinco) ao par de culturas, reservando a discussão individual para as pragas exclusivas de cada cereal, tratadas na seção seguinte.
Para cada praga vão o nível de controle e ao menos uma via de controle químico e uma biológica.
Espectro completo: as pragas das cinco culturas¶
Quatro frentes atacam arroz, milho, sorgo, milheto e trigo sem distinção: a lagarta-do-cartucho, a guilda de percevejos, a guilda de pulgões e as pragas de grãos armazenados.
Lagarta-do-cartucho, Spodoptera frugiperda (Lepidoptera: Noctuidae). É a praga mais importante do conjunto e ataca as cinco culturas. Reconhece-se pela larva com "Y" invertido na fronte e quatro manchas pretas em quadrado no oitavo segmento abdominal, com ciclo de cerca de 38 dias a 21 °C. É canibal, o que deixa em geral uma lagarta por planta em infestação severa. O dado que contraria o senso comum de rotação: o milheto não é hospedeiro secundário, e sim preferencial, produzindo mais adultos por metro quadrado que o próprio milho, de modo que milheto de cobertura entre dois milhos mantém a população-fonte da praga mais cara do país em plena entressafra.
O nível de controle muda com a arquitetura de cada cultura, o que exige tabela própria.
| Cultura | Nível de controle | Dano e observação |
|---|---|---|
| Milho | 3 mariposas/armadilha por noite; pulverizar 10 dias após a captura, com lagartas de ~10 mm | Reduz a produtividade em até 50%; ataca da emergência à espiga |
| Sorgo | 3 mariposas/noite ou 20% de plantas infestadas em 3 pontos por gleba | Perda de até 27% no peso de grãos; incidência sobe mais de 50% na safrinha |
| Arroz | 10% de plantas com dano ou ≥ 1 lagarta viva/m² (critério MT); ou 25% a 30% de folhas atacadas (vegetativa) | Consome folhas e colmos de plantas jovens até o nível do solo |
| Trigo | No início da infestação, a partir da emergência (contagem no solo) | Dano ao estande na fase de estabelecimento; ataque ao cartucho em lavoura desenvolvida |
| Milheto | Levantamento de campo; sem inseticida registrado | Coração morto em plantas jovens; desfolha |
Controle químico: piretroides são a base histórica, mas há uma ressalva séria de manejo.
Populações de S. frugiperda do Mato Grosso já apresentam resistência documentada a piretroides e organofosforados, o que torna a rotação de mecanismos de ação obrigatória e valoriza as alternativas biológicas.
Controle biológico (detalhado adiante): Bacillus thuringiensis, os fungos Beauveria bassiana e Metarhizium spp., o baculovírus SfMNPV, o parasitoide de ovos específico Telenomus remus, o generalista Trichogramma pretiosum (liberação de 100 mil vespas/ha) e a tesourinha Doru luteipes, predador que vive mais de 200 dias e consome mais de 8 mil ovos ao longo da vida.
Guilda de percevejos (Hemiptera, sobretudo Pentatomidae). Um complexo heterogêneo, com espécies distintas por cultura, mas biologia e tipo de dano suficientemente comuns para tratamento conjunto: desenvolvimento sem pupa (ovo, ninfa, adulto), aparelho sugador-perfurador, sintomas que aparecem dias após a picada, distribuição agregada e sobrevivência na entressafra sob a palhada e em plantas voluntárias de soja e milho. Além do dano direto, a perfuração do grão abre porta para o fungo Nematospora coryli, causando grãos ardidos e perda de qualidade comercial. Distinguem-se duas guildas funcionais pelo sítio de alimentação: percevejos do colmo (sintoma de "coração morto" e espiga ou panícula branca) e percevejos da panícula ou grão (grãos chochos, manchados, esterilidade).
| Cultura | Espécie dominante | Nível de controle | Fase crítica |
|---|---|---|---|
| Trigo | Diceraeus melacanthus / D. furcatus (barriga-verde) | D. melacanthus 1/m²; D. furcatus 4/m² (vegetativa) e 2/m² (reprodutiva) | Emborrachamento |
| Arroz | Tibraca limbativentris (colmo); Oebalus spp. (panícula) | Tibraca 1/m² (ou 1/20 perfilhos veg. e 1/4 plantas repr.); Oebalus 1 percevejo/4 panículas | Perfilhamento e florescimento |
| Sorgo | Percevejos-da-panícula (Nezara, Thyanta, Oebalus, Sthenaridea) | 12 percevejos pequenos ou 4 grandes por panícula | Enchimento de grãos |
| Milho | Barriga-verde (Diceraeus spp.); Leptoglossus zonatus (espiga) | 1 a 2 percevejos/5 plantas (ou 2/m² na palhada, pré-plantio) | Emergência a V4 |
| Milheto | Nezara viridula, Piezodorus guildinii | Monitoramento; sem inseticida registrado | Grãos em formação |
Controle químico: neonicotinoides, piretroides e metilcarbamatos, além de tratamento de sementes com neonicotinoide para a fase inicial (sempre na dose recomendada, pois o excesso causa fitotoxicidade).
Controle biológico: os parasitoides de ovos Telenomus podisi e Trissolcus basalis, os fungos Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae, e o parasitoide de adultos Trichopoda spp.
A associação sequencial de químico (choque nos adultos) seguido de microbiológico (ninfas e residuais) alcança até 91,7% de controle em Euschistus heros, superando o químico isolado.
Guilda de pulgões (Hemiptera: Aphididae). Também um complexo de espécies compartilhadas (sobretudo Schizaphis graminum e Rhopalosiphum spp.), com biologia comum: aparelho sugador de floema, reprodução por partenogênese telítoca vivípara nas condições brasileiras (só fêmeas, que parem ninfas), colônias numerosas em poucos dias e mortalidade das ninfas acima de 30 °C. O dano direto (sucção, redução de grãos, fumagina sobre o "honeydew") costuma ser menos grave que o indireto: a vetoração de vírus, que em vários casos é o principal impacto.
| Cultura | Espécie / vírus vetorado | Nível de controle |
|---|---|---|
| Trigo | Rhopalosiphum padi, Schizaphis graminum / complexo B/CYDV (nanismo-amarelo) | 10% de plantas infestadas (até emborrachamento); 10 pulgões/espiga (espigamento) |
| Sorgo | Schizaphis graminum / vírus do mosaico da cana | 1 folha amarela/planta (emergência a 15 cm); 2 folhas mortas/planta (panícula a maturação) |
| Milheto | Schizaphis graminum, Rhopalosiphum maidis / MDMV | Inimigos naturais; sem inseticida registrado |
| Milho | Rhopalosiphum maidis / mosaico-comum (SCMV), mela-do-pendão | Poucos pulgões já transmitem o vírus na fase vegetativa |
| Arroz | Rhopalosiphum rufiabdominalis (pulgão-da-raiz) | Praga de menor importância (ranking 13 a 14) |
O manejo dos pulgões é a demonstração mais clara de por que preservar inimigo natural é decisão econômica.
Parasitoides Aphidius spp. e predadores (joaninhas, Chrysoperla externa, sirfídeos) podem suprimir mais de 95% do crescimento populacional.
O uso de inseticida de amplo espectro provoca ressurgência: elimina o controle natural e libera uma explosão de pulgões maior que a infestação original.
Por isso a recomendação é preferir produtos seletivos e sistêmicos (adequados a sugadores) e aplicar apenas ao atingir o nível de ação.
O Programa de Controle Biológico de Pulgões do Trigo, iniciado em 1978, é a referência nacional de MIP em cultura anual.
Pragas de grãos armazenados. O ponto de contato entre as culturas aqui não é a lavoura, é o silo ou armazém compartilhado, onde trigo, sorgo, milho e arroz são guardados lado a lado. Separam-se em primárias, que rompem o grão íntegro (Sitophilus oryzae, S. zeamais, Rhyzopertha dominica, a traça Sitotroga cerealella), e secundárias, que só avançam sobre grão já danificado (Tribolium castaneum, Oryzaephilus surinamensis). O controle curativo é o expurgo com fosfina (fosfeto de alumínio ou de magnésio), que exige hermeticidade, temperatura acima de 10 °C e umidade relativa acima de 25%.
| Situação | Tempo de exposição à fosfina |
|---|---|
| Sementes | 96 h |
| Sacarias | 120 h |
| Silos metálicos | 240 h |
| Graneleiros | 280 h |
| Regra geral (temperatura > 10 °C) | 168 h (7 dias) |
Controle preventivo: pulverização de inseticida protetor (deltametrina, pirimifós-metílico, bifentrina) na massa de grãos durante o carregamento e nas estruturas, aliada à limpeza e ao controle de temperatura da massa entre 19 °C e 21 °C, que reduz a reprodução dos insetos.
Terra de diatomáceas atua fisicamente, desidratando o inseto.
O rigor no tempo de exposição não é detalhe: já há resistência a fumigantes documentada em Tribolium castaneum, Sitophilus zeamais e Rhyzopertha dominica, e expor por menos tempo que o necessário seleciona resistência sem eliminar a infestação, o pior dos dois mundos.
Quatro culturas¶
Três lagartas broqueadoras e de panícula atacam quatro dos cinco cereais, poupando apenas uma cultura cada.
Broca-do-colmo, Diatraea saccharalis (arroz, milho, sorgo, milheto). Lagarta que penetra no colmo após o primeiro ínstar e se desenvolve internamente, abrindo galerias, com mais de 65 espécies vegetais hospedeiras. Causa "coração morto" (ataque inicial) e "panícula branca" (ataque tardio no pedúnculo), além de acamamento por fragilização do colmo. O hábito interno torna o controle químico difícil, o que faz do controle biológico o pilar do manejo: o parasitoide larval Cotesia flavipes e o parasitoide de ovos Trichogramma galloi, ambos disponíveis comercialmente. Medida cultural central: trituração dos restos culturais, que reduz a sobrevivência das larvas em diapausa no período seco. Nível de controle no arroz: 4 posturas/100 colmos (vegetativa) e 2 posturas/100 colmos (reprodutiva), desde que o parasitismo de ovos seja inferior a 50%; ou, pelo critério de dano instalado, 5% de colmos com coração morto.
Lagarta-elasmo ou broca-do-colo, Elasmopalpus lignosellus (arroz, milho, sorgo, milheto). Praga inicial que ataca a base do colmo de plântulas, alojada num tubo de seda e terra junto ao solo, causando "coração morto". Seu poder daninho é máximo na combinação de solo arenoso, baixa precipitação e alta temperatura, condições típicas da safrinha. Nível de controle no milho: 5% das plantas infestadas. Manejo preferencial: tratamento de sementes com carbamatos e semeadura em solo úmido; a pulverização, quando necessária, deve ser dirigida ao colo com alto volume de calda (300 a 400 L/ha) para veicular o produto ao ponto de abrigo da lagarta.
Lagartas do gênero Helicoverpa (milho, sorgo, milheto, trigo). Duas espécies importam: a nativa lagarta-da-espiga (Helicoverpa zea) e a introduzida lagarta-do-velho-mundo (Helicoverpa armigera), detectada no país a partir da safra 2012/13, distinguível pelas calazas cônicas em semicírculo no dorso e pelo comportamento defensivo de erguer o tórax. Ambas atacam as estruturas reprodutivas (espiga, panícula), consomem grãos imaturos e abrem porta para podridões e micotoxinas. Controle químico difícil após a lagarta penetrar na estrutura, o que só deixa a pulverização eficaz contra lagartas pequenas; onde a lagarta se protege, recomenda-se isca tóxica para matar mariposas antes da postura. Nível de controle no sorgo: 2 lagartas pequenas por panícula, em média; no milho a lagarta-da-espiga não tem NA formal, com monitoramento por armadilha luminosa. Controle biológico: Trichogramma spp. e conservação da tesourinha Doru luteipes; genótipos Bt são a principal medida preventiva, com eficácia que varia entre eventos.
Três culturas¶
A vaquinha-verde-amarela ataca em duas frentes, no solo e na parte aérea, três dos cinco cereais.
Vaquinha-verde-amarela ou larva-alfinete, Diabrotica speciosa (trigo, milho, milheto). Coleóptero polífago com dano em dois estágios: a larva (larva-alfinete, filiforme, branca) broqueia raízes e coroa no solo, enfraquecendo o sistema radicular no início do desenvolvimento; o adulto (besouro verde-metálico com manchas amarelas) desfolha e consome grãos imaturos. Nível de ação no milho: 3,5 larvas/planta (equivalente a 20 larvas/m²) no período crítico da germinação a 45 dias. Controle biológico: o fungo Beauveria bassiana e o nematoide Heterorhabditis bacteriophora. Há uma divergência de manejo relevante sobre a larva de solo, tratada na nota abaixo.
Nota técnica
para a larva-alfinete no milho, a fonte 500 Perguntas lista a praga entre as cobertas pelo tratamento de sementes com inseticida sistêmico, mas Wordell Filho e colaboradores (2016) relatam que esse tratamento se mostrou, de modo geral, ineficaz contra a larva, recomendando inseticida granulado no solo na semeadura. Ambos os registros são mantidos; a pulverização após o ataque às raízes tem baixa eficácia.
Duas culturas¶
A lagarta-rosca corta a plântula rente ao solo em duas culturas, mas sem peso de praga primária no Cerrado.
Lagarta-rosca, Agrotis ipsilon (milho, sorgo, confirmado pelas fontes da wiki). Corta o colmo rente ao solo em plântula, sendo letal até cerca de 20 cm de altura. É de ocorrência esporádica, associada a solo úmido e rico em matéria orgânica, com incidência não significante em regiões de Cerrado, o que a coloca como praga ocasional e não primária. Manejo: tratamento de sementes e, quando necessário, pulverização dirigida à base da planta, onde a lagarta se abriga durante o dia.
Pragas específicas de cada cultura¶
O que não atravessa a fronteira entre lavouras exige manejo próprio, cultura por cultura.
Fora do conjunto compartilhado, cada cereal tem pragas que lhe são exclusivas ou quase, seja pela especialização do inseto, seja pela estrutura da planta.
Contra essas, a rotação de espécie tende de fato a funcionar como barreira, o oposto do que ocorre com os polífagos.
Arroz. No arroz de terras altas (sequeiro), foco desta disciplina, a principal praga é o percevejo-do-grão (Oebalus spp.), que ataca a panícula no enchimento e predomina nesse sistema (nível de controle de 1 percevejo por 4 panículas). O percevejo-do-colmo, Tibraca limbativentris, é a praga número um no arroz irrigado: aloja-se na base do colmo, causa "coração morto" e "panícula branca", com nível de controle de 1 percevejo/m² a partir dos 40 dias, controlado com piretroides no fim da tarde. O gorgulho-aquático ou bicheira-da-raiz, Oryzophagus oryzae, ocupa o terceiro lugar no ranking nacional, com larvas que atacam raízes em lâmina d'água. As cigarrinhas-das-pastagens (Deois spp.) têm NC de 1 inseto/30 colmos no pré-perfilhamento, e as saúvas (Atta spp.) demandam controle a 1 formigueiro ativo/ha.
Milho. A praga exclusiva de maior peso é a cigarrinha-do-milho, Dalbulus maidis, vetor dos enfezamentos (fitoplasma e espiroplasma) e da risca. É de monofagia funcional: reproduz-se apenas no milho, usando plantas voluntárias e soqueiras como abrigo entre cultivos. Por isso o manejo central não é a rotação de espécie, e sim a eliminação de plantas voluntárias, o uso de cultivares resistentes às doenças transmitidas e o controle do vetor, já que o tratamento de sementes mata a cigarrinha ao se alimentar, mas depois de ela já ter inoculado a doença. O percevejo-do-milho, Leptoglossus zonatus, ataca a espiga no enchimento de grãos.
Sorgo. A mosca-do-sorgo, Stenodiplosis sorghicola, deposita ovos nas flores abertas, e a larva destrói o ovário, deixando o grão vazio; o NC é de 1 fêmea por panícula em levantamentos a cada 3 dias durante o florescimento. Sua importância caiu no Brasil Central com o deslocamento do plantio para a safrinha, cujo florescimento em época mais fria escapa do pico da praga. O pulgão-da-cana, Melanaphis sacchari, é praga emergente de crescente relevância no Centro-Oeste, com colônias na face inferior das folhas basais.
Milheto. A cigarrinha-africana, Leptodelphax maculigera, tem preferência natural pelo milheto (cerca de 84% dos espécimes coletados) e é vetor potencial de vírus, com sobrevivência de 93% em 144 horas sobre milheto contra apenas 10% em 72 horas sobre milho, o que faz do milheto próximo ao milho um fator epidemiológico a considerar. O bicho-bolo (larvas de Diloboderus abderus, Eutheola humilis e outras) e a larva-arame (Conoderus spp.) atacam sementes e raízes, controlados por preparo profundo do solo, tratamento de sementes e os fungos Metarhizium sp. e Beauveria sp.
Trigo. As lagartas-do-trigo, Mythimna sequax e M. adultera (antes Pseudaletia), cortam a espiga na base e consomem grãos no espigamento, com nível de ação de 10 lagartas maiores de 2 cm/m² pelo critério da Comissão Brasileira de Pesquisa de Trigo e Triticale (com divergência de Salvadori e colaboradores, que adotam 10 lagartas menores ou iguais a 2 cm/m²). O percevejo-raspador, Collaria scenica (Miridae), provoca manchas esbranquiçadas de raspagem, com NC acima de 16 percevejos/planta no grão leitoso. O ácaro-do-enrolamento, Aceria tosichella, é vetor do vírus do mosaico estriado do trigo (WSMV).
Classificação dos inseticidas quanto à translocação e à via de entrada¶
Onde o produto entra no inseto e como ele se move na planta definem alvo, momento e cobertura da aplicação.
Antes de escolher um inseticida, o agrônomo precisa saber por qual via ele atinge o inseto e como se comporta na planta, independentemente do detalhe da composição química.
Essa classificação pragmática (Minguela e Cunha, 2013) organiza a decisão de tratamento.
Quanto à via de entrada no inseto, três formas clássicas:
| Via | Como age | Exigência de aplicação |
|---|---|---|
| Ingestão | O inseto morre ao consumir o produto depositado na planta ou nela translocado | Cobertura uniforme quando o produto fica na superfície; mira nos locais de alimentação |
| Contato | Penetra pela epiderme do inseto ao tocá-lo | Gotas de tamanho médio, recobrimento adequado na zona de atividade do inseto |
| Inalação (fumigação) | O produto no estado gasoso atinge o inseto pela respiração | Recinto fechado e hermético (expurgo de grãos); grande poder de penetração, sem residual |
Quanto à translocação na planta, a distinção que mais pesa na tecnologia de aplicação:
| Classe | Mobilidade na planta | Consequência prática |
|---|---|---|
| De contato / superficial | Nenhuma: age onde a gota se deposita | Exige alta cobertura e uniformidade; sensível à lavagem por chuva |
| Penetrante | Atinge tecidos mais profundos, sem translocação ampla | Cobertura importante, mas tolera irregularidade maior que o de contato |
| Translaminar | Atravessa a folha de uma face à outra, sem circular pela planta inteira | Atinge o inseto na face oposta à da deposição (ex.: pragas na face inferior), sem depender de cobertura total das duas faces |
| Sistêmico | Absorvido e translocado pelo floema e/ou xilema | Menos exigente quanto à cobertura; adequado a sugadores; base do tratamento de sementes |
Nota técnica
as fontes de tecnologia de aplicação da wiki detalham as classes de contato, penetrante e sistêmica; a categoria translaminar é apresentada aqui como conceito consolidado da entomologia aplicada, sem dado quantitativo atribuído às fontes. O translaminar ocupa posição intermediária, útil contra pragas abrigadas na face inferior da folha (ácaros, minadores), que o produto de contato só atinge com cobertura difícil.
A escolha da via se conecta ao comportamento da praga.
Sugadores (pulgões, percevejos, cigarrinhas) pedem sistêmicos, que chegam ao floema onde o inseto se alimenta.
Mastigadores expostos respondem a ingestão e contato.
Pragas abrigadas (lagarta no cartucho, broca no colmo) exigem produtos de ação de profundidade e alto volume de calda, porque a barreira física da planta reduz o alcance da gota.
Classificação pelo mecanismo de ação: os grupos IRAC¶
Rotacionar nome comercial não é rotacionar mecanismo: o que importa para a resistência é o grupo IRAC.
Um mesmo inseticida tem três identidades que não podem ser confundidas.
O nome técnico descreve a molécula pela química (IUPAC).
O nome comum é a denominação padronizada do ingrediente ativo (imidacloprido, cipermetrina, espinetoram), que deve constar do rótulo e do receituário.
O nome comercial é a marca registrada pela empresa, e um mesmo ingrediente ativo aparece sob dezenas de marcas.
Ao prescrever pelo nome comum, o agrônomo abre a escolha a qualquer produto registrado com aquele ingrediente ativo.
A classificação decisiva para o manejo, porém, é a do mecanismo de ação.
A classe química agrupa moléculas de estrutura similar, que tendem a compartilhar o mesmo sítio-alvo no inseto.
O mecanismo de ação é a primeira reação bioquímica inibida pelo produto, aquela que desencadeia toda a sequência até a morte.
O Insecticide Resistance Action Committee (IRAC) codifica os inseticidas e acaricidas por essa classificação, com numeração que consta obrigatoriamente do rótulo.
Alguns exemplos ilustram a lógica.
| Grupo IRAC | Mecanismo | Classe química (exemplo) |
|---|---|---|
| 1B | Inibidores da acetilcolinesterase | Organofosforados |
| 3 (3A) | Moduladores do canal de sódio | Piretroides |
| 4A | Moduladores do receptor nicotínico de acetilcolina | Neonicotinoides |
| 5 | Ativadores alostéricos do receptor nicotínico | Espinosinas |
| 11 | Disruptores da membrana intestinal | Bacillus thuringiensis e proteínas Bt |
| 28 | Moduladores do receptor de rianodina | Diamidas (clorantraniliprole) |
A implicação para o manejo é direta e frequentemente ignorada: aplicar em sequência dois produtos de classes químicas diferentes mas mesmo grupo IRAC equivale, do ponto de vista da seleção de resistência, a aplicar o mesmo produto duas vezes.
Por isso o código IRAC é o primeiro dado a checar antes de planejar uma rotação de produtos ou uma mistura em tanque.
A rotação verdadeira alterna grupos IRAC distintos, não marcas.
Controle cultural: manejar a paisagem e o calendário¶
Romper a ponte verde entre safras pesa mais, contra o vetor monófago, que trocar a cultura.
O controle cultural age sobre o ambiente e o calendário para reduzir a população da praga antes de qualquer aplicação.
Seu conceito-chave é a ponte verde: o intervalo entre a colheita e a semeadura seguinte no qual palha viva, soqueira ou planta voluntária mantêm tecido vivo que abriga o inseto ou o inóculo.
Onde essa ponte fica aberta, a praga passa de uma safra à próxima; onde ela é rompida, a população recomeça do zero.
As medidas culturais mais úteis nos cereais são consistentes entre culturas.
A eliminação de plantas voluntárias e soqueiras de milho remove o abrigo da cigarrinha-do-milho entre cultivos, medida central contra os enfezamentos justamente porque a rotação de espécie não detém um vetor de monofagia funcional.
A destruição ou trituração dos restos culturais reduz a sobrevivência das larvas de Diatraea em diapausa.
O ajuste da época de semeadura faz o florescimento do sorgo escapar do pico da mosca-do-sorgo.
A eliminação de hospedeiros específicos reduz pragas ligadas a plantas daninhas, como o controle do picão-preto contra Thyanta perditor no trigo.
O vazio sanitário regional (período programado sem hospedeiro) restabelece a suscetibilidade da população e é recomendação consolidada do manejo de resistência.
Aqui reaparece o alerta de rotação com que o texto abriu.
Contra pragas polífagas e contra patógenos necrotróficos de palha, a simples troca de espécie não funciona como barreira.
O planejamento de cobertura, tratado quase sempre como assunto de solo e água, é também decisão fitossanitária: milheto entre dois milhos, longe de quebrar o ciclo da lagarta-do-cartucho, alimenta uma população-fonte da praga.
Controle biológico e a tendência de crescimento do seu uso¶
O controle biológico deixou de ser alternativa marginal e virou pilar em expansão do manejo de cereais.
O controle biológico é, antes de tudo, um fenômeno natural: a regulação das populações pelos inimigos naturais, que mantém a maioria dos insetos fitófagos abaixo do nível de praga sem qualquer intervenção.
O manejo apenas o preserva (evitando inseticidas que eliminam os inimigos naturais) ou o intensifica (liberando agentes produzidos em biofábrica).
Os organismos benéficos dividem-se em três grupos.
Predadores. Insetos grandes em relação à presa, que consomem vários indivíduos ao longo da vida. Os mastigadores (joaninhas, Coccinellidae) predam pulgões, ovos e lagartas em praticamente todos os cultivos. Os sugadores (percevejos predadores Reduviidae, larvas de crisopídeos) paralisam e sugam a presa. O predador mais importante do milho e do sorgo é a tesourinha, Doru luteipes, que vive no interior do cartucho, sobrevive mais de 200 dias (contra 35 a 40 dias do ciclo da lagarta-do-cartucho) e consome mais de 8 mil ovos de lagarta-da-espiga ao longo da vida.
Parasitoides. Do tamanho da presa, com adulto de vida livre e larva que se desenvolve dentro (endoparasitoide) ou sobre (ectoparasitoide) o hospedeiro, matando-o. Os principais nos cereais estão na tabela abaixo, com o alvo e a base do controle.
| Parasitoide | Alvo | Observação |
|---|---|---|
| Trichogramma spp. (T. pretiosum, T. galloi, T. atopovirilia) | Ovos de lagartas | Vespinha < 1 mm; até 4 gerações no ciclo de uma praga; produção em biofábrica |
| Telenomus remus | Ovos de Spodoptera frugiperda | Parasitoide específico da lagarta-do-cartucho |
| Telenomus podisi, Trissolcus basalis | Ovos de percevejos | Liberação inclusive via drone; ovos congelados |
| Cotesia flavipes | Larvas de Diatraea saccharalis | Referência de controle da broca |
| Aphidius spp. | Pulgões | Base do Programa de Controle Biológico de Pulgões do Trigo (1978) |
Patógenos (entomopatógenos). Fungos, vírus e bactérias que infectam e matam insetos. Os fungos entomopatogênicos (Metarhizium anisopliae, M. rileyi, Beauveria bassiana) matam por contato, germinação e penetração na cutícula, com estratégia de controle inundativo (mínimo de 1 × 10¹² propágulos vigorosos/ha). Os baculovírus infectam sobretudo lagartas: ingeridos, dissolvem-se no intestino alcalino (pH 8 a 11) e provocam infecção generalizada, com o Baculovirus spodoptera específico para a lagarta-do-cartucho. O Bacillus thuringiensis (Bt), bactéria de solo, sintetiza na esporulação cristais proteicos que, solubilizados em pH alcalino, paralisam o intestino médio e matam o inseto por inanição ou septicemia em 1 a 3 dias, sem afetar os inimigos naturais.
O protocolo de liberação integra monitoramento e controle biológico, e serve de modelo para a guilda de lagartas.
Tip
Protocolo de liberação de Trichogramma (lagarta-do-cartucho) - Monitorar a chegada de mariposas com armadilha delta e feromônio, na densidade de 1 armadilha/5 ha. - Ao capturar, em média, 3 ou mais mariposas por noite, iniciar a soltura. - Liberar 100 mil vespinhas/ha em vários pontos da área, ajustável pela densidade da praga. - Indicador de eficiência: o ovo parasitado escurece cerca de 4 dias após o parasitismo.
A tendência de crescimento do uso de biológicos é o ponto que muda a economia do manejo de cereais.
Historicamente, o controle químico dominou de forma esmagadora: um retrato de 2013 estimava que os produtos fitossanitários clássicos respondiam por cerca de 80% do gasto mundial em proteção de cultivos, com o controle biológico em fração marginal.
Esse quadro está mudando por três forças convergentes.
A primeira é a resistência: com populações de S. frugiperda já resistentes a piretroides e organofosforados no Mato Grosso, e com resistência a fumigantes em pragas de armazenamento, o leque de químicos eficazes encolhe e força a integração de táticas.
A segunda é a infraestrutura: biofábricas regionais de Trichogramma, articuladas entre pesquisa (Embrapa), extensão (Emater) e produtores, viabilizaram a produção em escala, e parasitoides de ovos de percevejo já se liberam via drone com ovos congelados.
A terceira é o marco regulatório: a Lei 15.070, de 23 de dezembro de 2024, separou os bioinsumos (agentes biológicos de controle, bioquímicos, fitoquímicos e semioquímicos) do escopo dos agrotóxicos, criando categoria regulatória própria e estimulando o mercado.
O resultado prático é que o controle biológico deixou de ser um complemento ocasional para se tornar componente estruturante do MIP em cereais, sobretudo na safrinha do Centro-Oeste, onde a preservação dos inimigos naturais frequentemente mantém o pulgão-verde do sorgo abaixo do nível de dano sem qualquer aplicação.
A própria tecnologia Bt, tratada adiante, é uma forma de controle biológico embutida na semente.
Resistência a inseticidas: origem, herança e manejo¶
O inseticida não cria a resistência: ele seleciona os raros indivíduos que já a carregavam.
Compreender a resistência é a condição para não acelerá-la.
Ela não é causada pelo produto, e sim selecionada por ele.
Indivíduos com o alelo de resistência já existem na população antes do primeiro uso do inseticida, sem lhes conferir vantagem em condição normal.
Sob pressão de seleção contínua, o processo evolui em três estágios: eliminam-se os altamente suscetíveis, depois quase todos exceto os resistentes, e por fim os sobreviventes se intercruzam, elevando a frequência da resistência geração após geração.
O IRAC define a resistência como a mudança hereditária na suscetibilidade de uma população, refletida na falha repetida do produto usado conforme o rótulo.
O ponto central do manejo é a herança.
Assumindo resistência monogênica, existem três genótipos: SS (suscetível), RS (heterozigoto) e RR (resistente).
Se o alelo R for recessivo, o heterozigoto se comporta como suscetível e pode ser morto por dose adequada, o que retarda a resistência; se for dominante, o heterozigoto sobrevive à dose recomendada e a resistência avança rápido.
No início do processo, quando os RR ainda são raros, são os heterozigotos que carregam a maior parte dos alelos de resistência.
Garantir a mortalidade do heterozigoto é, por isso, o objetivo central de qualquer estratégia.
Distinguem-se ainda a resistência cruzada (um único mecanismo confere resistência a compostos do mesmo grupo) da resistência múltipla (mecanismos distintos coexistindo).
Entre os fatores que governam a evolução da resistência, apenas os agronômicos são manipuláveis pelo manejo: intensidade de uso, persistência do produto, especificidade do mecanismo, dose inadequada e baixa adoção de métodos alternativos.
Tanto a sobredose (alta pressão de seleção) quanto a subdose (sobrevivência de heterozigotos) aceleram o problema, o que reforça a regra de seguir sempre a dose de bula.
As estratégias de manejo organizam-se em três grupos clássicos (Georghiou, 1983).
| Estratégia | Princípio | Cuidado |
|---|---|---|
| Moderação | Reduzir a pressão de seleção para preservar suscetíveis (áreas de refúgio, controle em reboleira, produtos de baixa persistência, aplicar só acima do NDE) | Equivale à implementação efetiva do MIP |
| Saturação | Altas doses para matar também o heterozigoto | Risco de selecionar "super-resistentes"; não fazer por conta própria, seguir a bula |
| Ataque múltiplo | Rotacionar (mínimo 3 mecanismos distintos) ou misturar produtos que se cubram mutuamente | Mistura falha se a resistência a um componente já é alta; nunca reduzir a dose dos componentes |
Uma lista de pragas de cereais com resistência registrada no Brasil, com o modo de ação IRAC envolvido, dá a dimensão do problema.
| Espécie | Nome comum | Grupos IRAC com resistência |
|---|---|---|
| Spodoptera frugiperda | Lagarta-do-cartucho | 1B; 3; 5; 11; 15 |
| Sitophilus zeamais | Gorgulho-do-milho | 22A; 24 |
| Rhyzopertha dominica | Besourinho-dos-cereais | 3; 24 |
| Tribolium castaneum | Besouro-castanho | 24 |
| Diatraea saccharalis | Broca-da-cana | 11 |
O IRAC-BR (Comitê Brasileiro de Ação à Resistência a Inseticidas, fundado em 1997) consolida as recomendações práticas: seguir os princípios do MIP, usar níveis de ação locais, evitar semeadura paralela de hospedeiros da mesma praga, aplicar somente acima do NDE, rotacionar mecanismos de ação, evitar produtos com resistência já documentada, seguir a dose de bula com equipamento calibrado e adotar vazio sanitário quando possível.
Biotecnologia Bt: proteínas, eventos e espectro de controle¶
O milho Bt é um inseticida biológico embutido na semente, específico e sujeito à mesma lógica de resistência.
A atividade inseticida do Bacillus thuringiensis vem de proteínas produzidas na esporulação, expressas na planta transgênica ao longo do ciclo.
Elas se classificam em quatro grupos: as Cry (cristalinas), as mais usadas, altamente específicas para uma gama estreita de insetos; as Cyt (citolíticas), de espectro mais amplo; as Vip (proteínas inseticidas vegetativas), de alta toxicidade a lepidópteros incluindo S. frugiperda; e as binárias (bICP), de duas subunidades.
Os genes cry já somam mais de 500 sequências em 67 grupos.
A especificidade depende da interação da toxina com receptores no intestino médio do inseto: em pH alcalino (acima de 8), a toxina forma poros nas células epiteliais, que incham e se rompem.
Como humanos e vertebrados têm pH intestinal ácido, a toxina é degradada e inócua a eles.
O milho Bt disponível no Brasil age apenas contra Lepidoptera (lagarta-do-cartucho, broca-do-colmo, lagarta-da-espiga, lagarta-elasmo).
A toxina Cry3Bb1, com ação sobre Diabrotica (Coleoptera), existe em outros países.
Uma tecnologia comercial não equivale a um evento: a mesma planta transgênica é vendida sob marcas diferentes (o PowerCore e o VT PRO MAX são o mesmo evento MON89034 × TC1507 × NK603), de modo que, ao estudar, vale reduzir o nome comercial ao código do evento, que é o dado científico estável.
O espectro de controle por tecnologia, dado de eficácia a campo (Embrapa Milho e Sorgo, 2022), organiza-se abaixo para as principais pragas.
| Tecnologia | Lagarta-do-cartucho | Broca-do-colmo | Lagarta-da-espiga | Lagarta-elasmo | Larva-alfinete |
|---|---|---|---|---|---|
| YieldGard VT PRO | Sim | Sim | Sim | Sim | Não |
| YieldGard VT PRO 3 | Sim | Sim | Sim | Sim | Sim |
| VT PRO 4 | Sim | Sim | Sim | Sim | Sim |
| PowerCore / VT PRO MAX | Sim | Sim | Sim | Sim | Não |
| PowerCore Ultra | Sim | Sim | Sim | Sim | Não |
Nota técnica
o controle de Spodoptera frugiperda pela proteína Cry1F (evento TC1507) está comprometido no Brasil. A resistência de populações de campo ao Cry1F foi confirmada a partir de 2011 (Farias e colaboradores, 2014). Nas tecnologias empilhadas que contêm TC1507, o "Sim" para lagarta-do-cartucho se sustenta pelas demais proteínas do empilhamento (Vip3Aa20, Cry1A.105, Cry2Ab2), não pelo Cry1F isolado. Uma tecnologia de proteína única contra a lagarta-do-cartucho não deve ser tratada hoje como controle confiável.
O Bt não substitui todo o manejo.
As toxinas cry não têm atividade sobre sugadores nem sobre pragas subterrâneas, de modo que o tratamento de sementes continua necessário mesmo em milho Bt.
E a transgenia não aumenta o potencial produtivo: ela é defensiva, preserva o potencial do híbrido contra o dano da praga-alvo.
O nível de dano econômico numa lavoura Bt é o mesmo de uma convencional, mas o nível de ação deve ser reconsiderado: contar larvas muito pequenas indica ação prematura, pois muitas ainda morrerão pela toxina; o gatilho deve basear-se na taxa de plantas infestadas com lagartas sadias e de tamanho médio, observando os primeiros sintomas de intoxicação (movimento lento, redução de alimentação).
Área de refúgio e regras de coexistência¶
O produtor que não cumpre o refúgio é o primeiro prejudicado: sua lavoura Bt falhará primeiro.
A durabilidade da tecnologia Bt depende de duas exigências distintas que costumam ser confundidas.
A coexistência é obrigação legal, protege o vizinho que planta milho convencional.
O manejo da resistência de insetos (MRI) é recomendação da CTNBio, retarda a seleção de lagartas resistentes.
As duas coexistem na mesma lavoura com finalidades diferentes.
O mecanismo genético do refúgio¶
A estratégia principal do MRI em milho Bt é a de alta dose com refúgio, que pressupõe herança recessiva da resistência.
A planta expressa a toxina em alta dose (concentração ao menos 25 vezes maior que a necessária para matar todas as larvas suscetíveis, capaz de matar mais de 99% da população-alvo).
Essa dose mata os homozigotos suscetíveis (SS) e também os heterozigotos (RS), deixando vivos apenas os raros homozigotos resistentes (RR).
A área de refúgio, semeada com híbrido não Bt de porte e ciclo similar, funciona como criadouro de indivíduos suscetíveis, que se acasalam com os raríssimos resistentes sobreviventes; a progênie desse cruzamento é heterozigota, morta pela alta dose na safra seguinte.
Sem refúgio, dois resistentes acabam se encontrando e a resistência se fixa.
Regras de área de refúgio (milho Bt no Brasil)
- Semear entre 5% e 20% da área com híbrido não Bt (de preferência isogênico), conforme o evento: quanto menos eficaz ou piramidada a proteína, maior o refúgio exigido; a regra prática de referência é 10%.
- O refúgio não deve estar a mais de 800 m das plantas Bt, distância máxima de dispersão dos adultos de Spodoptera frugiperda documentada em campo.
- Em glebas com mais de 800 m de extensão, usar faixas de refúgio internas.
- No refúgio é permitido outro método de controle, exceto bioinseticida à base de Bt, e parte da população da praga deve sobreviver ali (sem uso exagerado de inseticida) para preservar os suscetíveis.
As pirâmides de genes (duas ou mais proteínas Bt na mesma cultivar, sem resistência cruzada entre elas) reforçam a estratégia pela "morte redundante": um inseto adaptado a uma proteína morre pela outra.
Isso permite reduzir a área de refúgio e aumentar a durabilidade de cada gene.
O primeiro evento piramidado no Brasil foi o MON89034 (Cry1A.105 mais Cry2Ab2), em 2009.
As demais estratégias de MRI (monitoramento por F2 Screen, baixa dose com MIP para eventos de expressão insuficiente, rotação de culturas, mistura de sementes, expressão seletiva e plantas-armadilha) complementam a de alta dose com refúgio, mas nenhuma a substitui, e o refúgio estruturado é consensualmente superior à mistura de sementes.
As regras de coexistência¶
A coexistência protege o direito do produtor vizinho de colher milho convencional livre de contaminação por polinização ou mistura de grãos.
O plantio de milho Bt exige isolamento mínimo da lavoura convencional vizinha de uma de duas formas:
- 100 m de distância entre as lavouras; ou
- 20 m de distância acrescidos de uma bordadura de 10 linhas de milho convencional de porte e ciclo similar ao milho GM.
Com esse isolamento, o milho da área convencional é considerado livre de transgênico.
A bordadura de coexistência pode também servir como área de refúgio, desde que nela não se use bioinseticida à base de Bt; se totalizar menos de 10% da área Bt, exige refúgio adicional.
Nota técnica
a distância comercial de coexistência (Resolução Normativa CTNBio nº 4/2007) é inferior à exigida pela própria CTNBio para pesquisa de campo (400 m mais 40 dias de isolamento temporal). A diferença reflete a distinção entre garantir a pureza comercial de um lote e assegurar o rigor experimental de um ensaio de biossegurança.
A responsabilidade pelo cumprimento recai sobre o produtor: ao abrir a embalagem de sementes Bt, ele assume, por contrato, as normas de coexistência e de MRI, sob risco de autuação pela Fiscalização Federal Agropecuária do MAPA.
O maior risco do descumprimento é a rápida seleção de biótipos resistentes.
Ainda que a lagarta-do-cartucho seja polífaga, numa grande área de monocultivo ela fica em situação de monofagia funcional (sem outra fonte de alimento ao alcance), o que torna o refúgio estruturado essencial.
E, como o primeiro a colher a lavoura que falha é quem a plantou, o produtor que ignora o refúgio é o primeiro prejudicado pela quebra de resistência.
Rotação e associação de mecanismos como sistema integrado¶
Rotacionar mecanismos de ação, culturas e o próprio uso do refúgio é um só sistema, não três táticas soltas.
O fio que costura o texto é que nenhuma tática isolada segura a resistência ou o dano.
A rotação de mecanismos de ação (IRAC) entre aplicações e safras retarda a seleção de resistência a inseticidas.
A rotação de culturas com espécie não hospedeira quebra o ciclo de pragas especializadas e de vetores monófagos, embora falhe contra os polífagos e contra patógenos de palha.
A área de refúgio rotaciona, no espaço, plantas Bt e não Bt para preservar suscetíveis.
O vazio sanitário rotaciona, no tempo, presença e ausência de hospedeiro.
Todos operam pelo mesmo princípio: impedir que a mesma pressão de seleção recaia continuamente sobre a mesma população.
O erro recorrente é tratar cada rotação como suficiente por si.
Rotacionar milho, sorgo e milheto na esperança de escapar da lagarta-do-cartucho não funciona, porque a praga atravessa as três e ainda se multiplica melhor no milheto.
Rotacionar sem alternar o grupo IRAC dos inseticidas seleciona resistência apesar da troca de cultura.
Semear milho Bt sem refúgio quebra a tecnologia em poucas safras.
A integração é o que dá robustez ao sistema: mecanismos de ação distintos, culturas escolhidas pela biologia real da praga e não pelo nome, refúgio estruturado e monitoramento contínuo compõem uma estratégia única de manejo de resistência e de dano.
O manejo integrado de pragas em cereais se decide, no fim, em duas perguntas feitas praga por praga: esta densidade já custa mais do que o controle, ao preço de hoje do cereal, e este organismo atravessa a fronteira entre lavouras ou não.
Quem responde a primeira sem recalcular o NDE a cada safra pulveriza por calendário e gasta onde não precisa; quem responde a segunda por presunção de gênero rotaciona cultura e espera sorte contra pragas que a rotação não detém.
O agrônomo que domina as duas perguntas troca o inseticida de reflexo pelo controle na hora certa, com o mecanismo certo, preservando os inimigos naturais que fazem, de graça, a maior parte do trabalho.
Referências¶
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FARIAS, Juliano R. et al. Field-evolved resistance to Cry1F maize by Spodoptera frugiperda (Lepidoptera: Noctuidae) in Brazil. Crop Protection, v. 64, p. 150-158, 2014.
LEITE, Natalia A. et al. O milho Bt no Brasil: a situação e a evolução da resistência de insetos. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2011. (Documentos, 133).
MINGUELA, Joaquim Vilela; CUNHA, João Paulo Arantes Rodrigues da. Manual de aplicação de produtos fitossanitários. Viçosa: Aprenda Fácil, 2013. 588 p.
PEREIRA FILHO, Israel Alexandre et al. Manejo da cultura do milheto. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2003. (Circular Técnica, 29).
PEREIRA FILHO, Israel Alexandre; RODRIGUES, José Avelino Santos (ed.). Sorgo: o produtor pergunta, a Embrapa responde. Brasília, DF: Embrapa, 2015. 327 p. (Coleção 500 Perguntas, 500 Respostas).
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STERN, Vernon M.; SMITH, Ray F.; VAN DEN BOSCH, Robert; HAGEN, Kenneth S. The integration of chemical and biological control of the spotted alfalfa aphid: the integrated control concept. Hilgardia, v. 29, n. 2, p. 81-101, 1959.
WORDELL FILHO, João Américo et al. Pragas e doenças do milho: diagnose, danos e estratégias de manejo. Florianópolis: Epagri, 2016. 82 p. (Boletim Técnico, 170).
Aula 10: Manejo Integrado de Pragas em Cereais · LISTA DE EXERCÍCIOS (perguntas)¶
Tip
Tente resolver cada questão antes de olhar o gabarito das respostas, ao final desta página: o esforço de recuperar o que você estudou é o que consolida a aprendizagem. O gabarito comentado dos Blocos B e C está no gabarito das respostas, ao final desta página. O Bloco A não tem gabarito aqui: ele será discutido em sala, no início da Aula 11.
Bloco A: Recuperação (para discutir em sala, no início da Aula 11; sem gabarito)¶
A1. Na Aula 09 você viu que manejo não é controle: o manejo integrado mantém a população da daninha abaixo do nível de dano econômico, e o controle é a ação pontual de um método. Na Aula 10 o mesmo critério econômico reaparece organizado em três níveis (NE, NC e NDE). (i) Explique por que o nível de controle (NC) vem sempre abaixo do nível de dano econômico (NDE), enquanto no manejo de daninhas o gatilho é o próprio limiar de dano. (ii) No manejo de pragas, o NDE é um alvo móvel que sobe e desce com o preço do cereal e o custo do controle; discuta em que medida esse mesmo raciocínio econômico ajuda a entender por que, na próxima aula, algumas doenças só causam grande prejuízo em determinados anos.
A2. As Aulas 09 e 10 tratam a resistência com a mesma lógica: o produto não cria a resistência, apenas seleciona indivíduos que já a carregavam, e a defesa central é rotacionar mecanismos de ação, não marcas. (i) Mostre o paralelo entre rotacionar mecanismos de herbicida (grupos do HRAC, Aula 09) e rotacionar mecanismos de inseticida (grupos IRAC, Aula 10), explicando por que alternar nome comercial não é rotacionar mecanismo. (ii) Diferencie resistência cruzada de resistência múltipla nos dois contextos e antecipe por que, na Aula 11, os fungicidas exigirão exatamente a mesma disciplina de rotação de mecanismos.
A3. O texto de pragas abre e fecha com o alerta de que rotacionar cultura não é barreira universal. (i) Contraste o que a rotação de culturas resolve na Aula 09 (quebrar o ciclo de daninhas adaptadas a uma cultura) com o que ela não resolve na Aula 10 (a lagarta-do-cartucho polífaga e o conceito de ponte verde). (ii) O próprio texto avisa que, contra pragas polífagas e contra patógenos necrotróficos de palha, a troca de espécie não funciona como barreira; use esse gancho para antecipar por que, na Aula 11, a destruição de restos culturais e a rotação bem escolhida voltarão a aparecer no manejo de doenças.
Bloco B: Consolidação da Aula 10¶
B1. (múltipla escolha) Para retardar a resistência da lagarta-do-cartucho, um produtor alterna a cada aplicação duas marcas comerciais diferentes, sem verificar o código de cada uma. O técnico observa que ambas trazem o mesmo número IRAC no rótulo. A avaliação correta é:
(a) A troca de marca já basta, pois marcas distintas têm sempre ingredientes ativos distintos.
(b) A rotação é válida, porque nomes comerciais diferentes garantem classes químicas diferentes.
(c) Não houve rotação de mecanismo: mesmo IRAC equivale a repetir o produto.
(d) A resistência não depende do mecanismo, e sim de alternar o nome comum do ingrediente ativo a cada safra.
B2. (múltipla escolha) Num ano de milho valorizado, certa densidade de lagartas por metro justificou a pulverização. No ano seguinte, com o grão em baixa, a mesma densidade não justificou controlar. A explicação correta é:
(a) O preço do cereal está no denominador do NDE: preço alto reduz o limiar.
(b) O NDE é constante biológica da praga, tabelada por cultura, e não varia com o mercado.
(c) Com o grão em baixa, cada planta salva vale mais, o que antecipa a intervenção.
(d) É o custo do controle, e não o preço do cereal, o único fator que desloca o valor do NDE.
B3. (múltipla escolha) Um pulgão vetor de vírus coloniza o floema do trigo na fase vegetativa. Sobre a via de entrada e a translocação do inseticida mais adequado, é correto indicar:
(a) Contato superficial, pois o pulgão fica exposto na face externa da folha.
(b) Fumigação, a única via realmente eficaz contra insetos de aparelho sugador.
(c) Ingestão por produto depositado e não translocado na superfície da folha.
(d) Sistêmico, que alcança o floema onde o pulgão se alimenta.
B4. (múltipla escolha) Um produtor de milho Bt cumpre a distância de coexistência com a lavoura convencional vizinha e conclui que, com isso, também já atendeu à exigência de refúgio. A avaliação correta é:
(a) Está certo: cumprida a distância de coexistência, o refúgio fica automaticamente atendido.
(b) São exigências distintas: a coexistência protege o vizinho, o refúgio retarda a resistência.
(c) O refúgio é dispensável no milho Bt, pois a alta dose mata inclusive os homozigotos resistentes.
(d) Basta a coexistência, já que a resistência da lagarta ao Bt é dominante e não se dilui no refúgio.
B5. (aberta) Um produtor planeja rotacionar milho, sorgo e milheto justamente para escapar da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), e ainda usa milheto como planta de cobertura entre dois milhos. (i) Explique por que essa estratégia não detém a praga e por que o milheto piora o quadro. (ii) Compare como o nível de controle da lagarta-do-cartucho muda entre milho, sorgo, arroz e milheto, mostrando que ele acompanha a arquitetura e o sistema de cada cultura.
B6. (aberta) Diante de uma infestação inicial de pulgões no trigo, um vizinho recomenda "aplicar logo um inseticida de amplo espectro para não deixar crescer". (i) Explique por que essa conduta pode produzir uma infestação maior que a original. (ii) Justifique por que preservar o inimigo natural é, nesse caso, uma decisão econômica, e diga qual a conduta recomendada.
B7. (aberta) Um produtor comprou milho Bt de tecnologia empilhada e concluiu que "com Bt não preciso mais de tratamento de sementes nem me preocupar com a lagarta-do-cartucho". (i) Corrija a afirmação quanto ao espectro do Bt e ao Cry1F. (ii) Explique por que o tratamento de sementes continua necessário e por que o Bt não eleva o potencial produtivo da lavoura.
Bloco C: Cálculo e diagnóstico¶
C1. (cálculo) Use a fórmula do nível de dano econômico da fonte, NDE = C ÷ (V × I × D × K), com os dados de um cenário de milho: custo do controle C = 120 R\(/ha**; preço do milho **V = 0,60 R\)/kg; injúria por indivíduo I = 2; dano por unidade de injúria D = 5; proporção controlada K = 0,80. (i) Calcule o NDE (indivíduos por hectare). (ii) Recalcule o NDE mantendo tudo igual, mas com o milho valorizado a V = 0,90 R\(/kg**. **(iii)** Volte ao preço original e recalcule com o custo do controle dobrado, **C = 240 R\)/ha. Comente o que cada resultado mostra sobre a natureza móvel do NDE. Arredonde a 4 casas decimais.
C2. (diagnóstico a partir de amostragem) Para cada situação de campo abaixo, confronte o dado de amostragem com o nível de controle da fonte e decida se recomenda ou não o controle, justificando. (i) Milho na fase vegetativa: armadilha de feromônio com média de 5 mariposas de S. frugiperda por noite. (ii) Sorgo em florescimento: levantamento a cada 3 dias com média de 0,5 fêmea de mosca-do-sorgo por panícula. (iii) Trigo na fase vegetativa: 3 percevejos Diceraeus furcatus por metro quadrado. (iv) Arroz de terras altas no enchimento: 1 percevejo-do-grão (Oebalus spp.) a cada 3 panículas.