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Mistura em Tanque de Produtos Fitossanitários

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A mistura em tanque é a operação mais comum da agricultura brasileira intensiva e, em proporção ao seu uso, a menos estudada.

Um levantamento de Gazziero (2015), com 500 usuários de produtos fitossanitários em 17 estados brasileiros, mostra que 97% dos entrevistados praticavam a mistura, 95% deles combinando entre dois e cinco produtos numa mesma calda, e 9,5% chegando a sete produtos ou mais numa única pulverização.

O dado mais revelador dessa pesquisa não é o de adoção, é o de conhecimento: 72% dos participantes declaravam desconhecer, ou considerar insuficiente, a informação técnica disponível sobre o assunto.

Misturar produto sem dominar a química da calda pode sair bem em uma centena de aplicações e custar uma safra na centésima primeira.

O custo do erro não aparece em nenhum rótulo, aparece na lavoura, dias depois da aplicação, quando já é tarde para corrigir.

Trato mistura em tanque como decisão técnica que exige tanta atenção quanto a escolha do ingrediente ativo.

A regulamentação brasileira passou por reformas profundas nos últimos anos: a Instrução Normativa nº 40/2018 abriu caminho ao transferir a responsabilidade técnica ao engenheiro-agrônomo, e a Lei nº 14.785/2023 consolidou em norma de hierarquia superior o que a IN antes regulamentava sozinha.

Essas duas peças jurídicas não resolvem o problema técnico da mistura, que continua complexo.

O que elas fazem é nomear o profissional responsável por cada calda mal formulada que falhar no campo.


O que é mistura em tanque e por que ela existe

Misturar produtos no tanque resolve um problema logístico real, mas depende de verificação prévia de compatibilidade.

Mistura em tanque

Associação de dois ou mais produtos fitossanitários, com ou sem fertilizante foliar, no tanque do pulverizador, diluídos em água em momento imediato à aplicação, para realizar controle fitossanitário e suprir carência nutricional.

A agricultura tropical intensiva impõe calendário fitossanitário comprimido.

No Cerrado mato-grossense, a soja de primeira safra e o milho safrinha operam com janela de aplicação estreita, em que atrasar uma operação pode comprometer a eficácia do controle e elevar a pressão de doença sobre a safra seguinte.

Nesse contexto, a mistura em tanque não é conveniência operacional, é ferramenta de manejo.

As razões documentadas se organizam em três grupos.

No campo agronômico e fitossanitário: controlar ao mesmo tempo planta daninha, praga e doença que ocorrem no mesmo talhão e período; adotar estratégia de manejo de resistência combinando mecanismos de ação distintos numa única aplicação; atingir alvo biológico de difícil controle cuja associação reduz dose individual sem ultrapassar o limite registrado; combinar produto seletivo e de espectro reduzido, preservando organismo não-alvo; aproveitar estádio fenológico e condição meteorológica favoráveis.

No campo operacional e econômico: otimizar combustível, água, mão de obra e equipamento ao concentrar operações; reduzir o número de passagens do pulverizador sobre a lavoura, diminuindo compactação do solo; encurtar o tempo de cobertura da área numa janela climática curta.

No campo de segurança e ambiental: reduzir a exposição do trabalhador rural pela menor quantidade de manuseio de produto; reduzir o impacto ambiental acumulado pelo menor número total de operações na safra.

O histórico regulatório brasileiro é de vaivém, e vale contar porque explica por que ainda existe gente no campo repetindo orientação ultrapassada.

Em abril de 1985, por orientação do Ministério da Agricultura, a recomendação de mistura em tanque foi retirada de rótulo e bula: cada produto só podia ser recomendado dentro dos limites do próprio registro, e a combinação não estava aprovada em documento nenhum.

O campo manteve a prática mesmo assim.

A racionalidade econômica, o calendário fitossanitário tropical e a fiscalização pouco efetiva tornaram a proibição nominal, sem efeito real.

Entre 1995 e 2000 a recomendação voltou a ser aceita, e a partir de 2000 foi proibida de novo.

Esse ciclo criou quase duas décadas em que a prática era universal no campo e irregular nos documentos, o que travou financiamento de pesquisa nacional sobre um tema tecnicamente clandestino.

A consequência foi a chegada da regulamentação, em 2018, com base científica ainda escassa para a diversidade de combinação que a agricultura brasileira já praticava havia anos.

Decaro Junior (2019, apud Costa, 2019) documenta a escala do problema atual: entre 2000 e 2018, o número de produtos misturados por aplicação em soja cresceu de 5 a 10 vezes, enquanto o volume de calda usado em cultura horizontal (soja, milho, algodão) caiu cerca de 3 vezes.

O resultado combinado é uma calda de 15 a 30 vezes mais concentrada que há duas décadas, tanto em autopropelido quanto em aeronave.

Essa concentração crescente é a razão prática por trás da recomendação de ponta de pulverização com vazão mínima de 0,2 gal/min e do cuidado redobrado com a malha de filtro: calda mais concentrada entope filtro e ponta com muito mais facilidade.


Base jurídica: da proibição de 1985 à Lei 14.785/2023

A permissão para recomendar mistura em tanque está hoje na lei ordinária, não só numa instrução normativa.

A Instrução Normativa nº 40, de 11 de outubro de 2018, publicada pela Secretaria de Defesa Agropecuária do MAPA no Diário Oficial da União de 15 de outubro de 2018 (Seção 1, n. 198, p. 3), estabeleceu regra complementar à emissão da receita agronômica prevista no Decreto nº 4.074/2002, com foco no exercício profissional e na eficiência agronômica da aplicação.

A base jurídica para transferir essa responsabilidade ao engenheiro-agrônomo é o Acordo de Cooperação Técnica firmado entre a SDA/MAPA e o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia, citado no preâmbulo da norma.

O efeito prático desse acordo é deslocar a decisão técnica sobre mistura, antes restrita ao escopo do rótulo, para o profissional que assina a receita.

Ao assinar, o agrônomo passa a responder por três dimensões: a compatibilidade física da calda, a compatibilidade química entre os ativos e a eficácia biológica do controle pretendido.

Receita agronômica

Documento técnico de prescrição profissional, obrigatório para a comercialização e a aplicação de produto fitossanitário no Brasil, emitido por profissional legalmente habilitado (engenheiro-agrônomo ou engenheiro-florestal), com conteúdo mínimo definido pelo Decreto nº 4.074/2002 (art. 66) e pela Lei nº 14.785/2023 (art. 22).

A norma tem seis artigos.

O Art. 1º estabelece a IN como conjunto de regra complementar ao art. 66 do Decreto nº 4.074/2002, sem revogá-lo.

O Art. 2º determina que a receita traga o nome do produto comercial e de eventual equivalente, com informação de incompatibilidade quando houver, além da cultura, área de aplicação e advertência sobre intervalo de segurança e colheita.

Seu §1º torna obrigatória a transcrição, na receita, de qualquer informação de rótulo ou bula sobre mistura em tanque: se o rótulo proíbe ou condiciona uma combinação, essa condição precisa aparecer na receita, e o agrônomo responde pelo descumprimento.

O §2º exige que a informação de incompatibilidade fique em campo específico do documento.

O Art. 3º é o núcleo da norma do ponto de vista de responsabilidade profissional: a interpretação das recomendações oficiais, para elaborar a receita, é competência e responsabilidade do engenheiro-agrônomo, em consonância com as boas práticas agrícolas e as informações científicas disponíveis.

O agrônomo é intérprete ativo da norma, não executor passivo do rótulo.

O Art. 4º determina à SDA a coordenação de manual técnico que subsidie essa receita qualificada, e foi com base nele que a Embrapa Soja, com a UENP e a Bayer, publicou em 2021 o Manual Técnico para Subsidiar a Mistura em Tanque de Agrotóxicos e Afins (Documentos 437), a principal referência técnica deste texto.

O Art. 5º atribui a fiscalização aos órgãos estaduais e distrital de defesa agropecuária (em Mato Grosso, o INDEA-MT), e o Art. 6º trata da vigência a partir da publicação.

A Lei nº 14.785, de 27 de dezembro de 2023, deu um passo além.

No Capítulo VIII, Seção I, o Art. 39 estabelece a obrigatoriedade da receita agronômica, e o §1º permite ao profissional habilitado prescrever receita preventiva, antes da ocorrência da praga, para alvo biológico que exija produto fitossanitário.

O §2º autoriza de forma expressa o profissional habilitado a recomendar mistura em tanque, quando necessário.

Essa única linha elevou a permissão de mistura ao nível de lei ordinária: a IN 40/2018, que antes carregava sozinha essa regulamentação, virou norma infralegal de detalhamento de uma autorização que já está na própria lei.

O Art. 50 fecha a moldura, atribuindo ao profissional responsabilidade civil e administrativa por dano comprovado decorrente de receita errada, imperícia, imprudência ou negligência.

O agrônomo pode recomendar a mistura, e responde pelos danos de uma recomendação tecnicamente equivocada.

Hierarquia Norma Conteúdo essencial para a mistura em tanque
Lei ordinária Lei nº 14.785/2023, Art. 39, §2º Autoriza o profissional habilitado a recomendar mistura em tanque
Lei ordinária Lei nº 14.785/2023, Art. 50 Responsabilidade civil do profissional por receita errada, imperícia ou negligência
Decreto Decreto nº 4.074/2002, Art. 66 Conteúdo mínimo da receita agronômica
Instrução Normativa IN MAPA nº 40/2018 Conteúdo da receita para situações de mistura em tanque
Norma técnica ABNT NBR 13875:2014 Método de determinação da compatibilidade física da mistura
Norma técnica ASTM E1518-05/2012 Método alternativo de avaliação de compatibilidade física

Obrigações do agrônomo na prescrição de mistura em tanque

  • Verificar rótulo e bula de todos os produtos envolvidos na mistura.
  • Incluir na receita o nome dos produtos comerciais e as informações de incompatibilidade constantes em documento oficial.
  • Dispor as informações de incompatibilidade em campo específico da receita.
  • Fundamentar a prescrição nas boas práticas agrícolas e nas informações científicas disponíveis.
  • Recomendar teste de compatibilidade prévio quando houver dúvida sobre a combinação.
  • Não prescrever mistura cujo rótulo contraindique de forma expressa a combinação.
  • Assumir responsabilidade civil pelos danos decorrentes de receita errada, imperícia, imprudência ou negligência.

A ausência de informação científica sobre uma combinação específica não é autorização técnica para misturar.

É, ao contrário, fator de risco que o profissional precisa considerar antes de assinar a receita.


Vantagens e riscos operacionais

Cada vantagem de tempo e custo tem uma contrapartida técnica que precisa ser pesada antes da decisão.

Dimensão Vantagem Risco ou desvantagem
Controle fitossanitário Espectro ampliado numa única operação Antagonismo entre ingredientes ativos
Manejo da resistência Combinação de mecanismos de ação distintos Falta de informação técnica sobre muitas combinações
Custo operacional Redução de passagem de pulverizador, combustível e mão de obra Necessidade de repetir a operação em caso de falha da mistura
Exposição do trabalhador Menor número de manuseios Calda complexa aumenta o risco de erro de preparo
Impacto ambiental Menor número de aplicações no ciclo Calda com muitos ativos dificulta a rastreabilidade
Estabilidade da calda Maior diluição reduz problema físico Baixa taxa de aplicação concentra produto e amplia o risco

Essa última linha é a que menos aparece discutida em sala de aula, e é a que eu mais insisto em destacar: a mesma decisão que reduz custo (baixar a taxa de aplicação) é a que mais eleva o risco de incompatibilidade.

Volto a esse ponto mais à frente, porque ele merece tratamento próprio.


Cinco formas de interação entre ingredientes ativos

O antagonismo é o risco mais sério de uma mistura, e ele não deixa marca visível na calda.

Quando dois ingredientes ativos se encontram na mesma calda, o resultado biológico pode assumir cinco formas.

Tipo de interação Definição Implicação prática
Sinergismo Efeito conjunto superior à soma dos efeitos individuais Permite, em tese, reduzir dose, mas exige dado de pesquisa que confirme a relação
Efeito aditivo Efeito conjunto igual à soma dos efeitos individuais, quando as substâncias têm ação tóxica idêntica sobre o alvo Cada produto contribui proporcionalmente à própria dose
Efeito idêntico Cada substância age isoladamente, com ação tóxica distinta sobre o alvo Combinação neutra do ponto de vista da interação
Potencialização Efeito aumentado em que nem todo componente interage direto com o alvo, mas um amplifica a ação do outro Resultado parecido com o sinergismo, mecanismo diferente
Antagonismo Efeito conjunto inferior ao do produto mais ativo aplicado isolado É o próprio mecanismo da incompatibilidade química, e o risco mais relevante da mistura

A combinação de piretroide com butóxido de piperonila (PBO) resulta em sinergismo, aumentando o poder residual da deltametrina sobre o inseto (Beckel et al., 2006).

O mesmo PBO, misturado com o organofosforado fenitrotiom, causa antagonismo e reduz a toxicidade ao inseto (Beckel et al., 2006).

Em herbicida, fluazifop-p-butil combinado com 2,4-D reduz o controle de milho RR voluntário (Alvarenga et al., 2018); inibidor de ACCase combinado com inibidor de ALS, ou com quinclorac, clomazone ou propanil mais thiobencarb, mostra antagonismo no controle de capim-arroz resistente a imidazolinona (Matzenbacher et al., 2015); clodinafop-propargyl combinado com metsulfuron-methyl ou 2,4-D mostra antagonismo no controle de azevém (Trezzi et al., 2007); dicamba combinado com quizalofop-p-etílico ou clethodim reduz o controle de milho voluntário RR, sobretudo em dose mais baixa (Underwood et al., 2015).

Esses exemplos confirmam que o resultado de uma mistura depende da combinação específica de moléculas, não de uma lógica genérica de classe química.

Nota técnica

A maior preocupação prática em mistura em tanque é o antagonismo, não a degradação física. O antagonismo não destrói a molécula, apenas reduz sua eficácia sobre o alvo. Uma calda visualmente perfeita, sem sinal de incompatibilidade física, pode transportar ativo que se neutraliza mutuamente em campo.

Acho que o ensino de tecnologia de aplicação dá peso desproporcional à espuma e à floculação, porque são visíveis, e pouco peso ao antagonismo, que não é.

Se eu tivesse que escolher um único ponto para fixar nesta aula, seria esse: compatibilidade física não é sinônimo de compatibilidade biológica.

Nota técnica

A taxonomia de interação acima trata da eficácia biológica sobre o alvo, e por isso define antagonismo como efeito conjunto inferior ao do produto mais ativo aplicado isolado. Não confundir com a classificação de interação toxicológica apresentada na Aula 3 (efeito da mistura sobre a saúde do operador e do organismo não-alvo), onde "antagônico" descreve a ação tóxica conjunta ser inferior à soma das individuais. São eixos distintos: aqui se mede o controle da praga; lá, a toxicidade ao aplicador. A mesma palavra, "antagonismo", carrega definição própria em cada contexto.


Incompatibilidade física e química

Incompatibilidade física se vê no tanque; incompatibilidade química se vê na lavoura, dias depois.

Incompatibilidade física

Conjunto de fenômenos visuais que indicam falta de coexistência estável e homogênea dos componentes da calda no veículo de aplicação, manifestado por separação de fase, formação de floco, grumo, pasta, cristal, precipitado, espuma excessiva ou gelificação.

As causas mais comuns são agitação inadequada, ordem incorreta de adição dos produtos, ausência de emulsificante compatível entre as formulações envolvidas e concentração excessiva de produto em relação ao volume de água.

Um exemplo recorrente: concentrado emulsionável (EC) adicionado ao tanque antes de pó molhável (WP) forma pasta insolúvel na camada superior, que obstrui filtro de linha, filtro de ponta e o próprio orifício da ponta de pulverização, causando variação de vazão e distribuição irregular da calda ao longo da barra.

Espuma na calda

Formação de bolha estável na superfície da mistura, decorrente do excesso de surfactante ou de agitação mecânica intensa. Compromete o controle do volume real no tanque, pode causar transbordamento no abastecimento e indica desequilíbrio entre os componentes.

As consequências práticas de uma incompatibilidade física no campo não se resumem a "sujar o tanque".

Elas incluem variação de concentração da calda ao longo da operação, porque produto sedimentado é distribuído de forma irregular conforme é arrastado pela agitação; obstrução de filtro de linha, filtro de ponta e orifício de ponta, com interrupção do serviço; dano mecânico por passagem de aglomerado sólido pelo pulverizador; aplicação em concentração diferente da prescrita, com reflexo direto na eficácia e no risco de fitotoxicidade; e entupimento de sensor de pressão em pulverizador com controle eletrônico, comprometendo a leitura de vazão e a estabilidade da operação inteira.

Incompatibilidade química

Alteração negativa da eficácia dos produtos pela interação entre seus componentes na calda, sem manifestação visual imediata, resultante de oxidação, redução, hidrólise, complexação ou encapsulamento dos ingredientes ativos, ou de antagonismo biológico entre eles.

Os principais mecanismos são hidrólise alcalina ou ácida de ativo sensível ao pH, complexação com cátion de cálcio, magnésio, ferro ou outro metal em água dura, desestabilização de emulsão por interação entre surfactantes de formulações diferentes e antagonismo entre molécula ativa sobre o mesmo alvo biológico.

Um exemplo quantitativo documentado por Ruedell (1995) mostra a gravidade do problema: cipermetrina dissolvida em água com pH 9,0 perde 55% do ingrediente ativo em duas horas, e 90% em 24 horas.

A degradação não deixa sinal na calda, e o produtor só descobre o problema quando o controle não acontece em campo.

A incompatibilidade química é mais difícil de diagnosticar do que a física porque exige dado de pesquisa específico sobre a combinação aplicada, raro para a maioria das misturas reais brasileiras, tempo de observação superior a 24 horas em alguns casos para que a degradação se manifeste, e capacidade analítica para detectar produto de degradação na calda armazenada.

Por isso, na prática, ela é prevenida, não diagnosticada.

A prevenção passa pelo controle da qualidade da água, pela escolha criteriosa da combinação com base em literatura técnica e pelo cumprimento estrito da ordem de adição dos produtos no tanque, temas das próximas seções.


Qualidade da água antes de abrir a primeira embalagem

A água de pulverização pode inativar um produto antes que ele saia da ponta de pulverização.

A água é o veículo universal do preparo da calda.

Suas características condicionam a estabilidade de toda formulação que entra no tanque, e as variáveis a monitorar são pH, dureza, temperatura e sólidos em suspensão.

Em pH acima de 7, a hidrólise alcalina quebra molécula sensível em composto inativo, e a constante de dissociação de muitos herbicidas se altera, afetando a absorção pelo tecido vegetal.

Em pH abaixo de 5, alguns ativos se degradam e algumas formulações sofrem alteração física.

A faixa de pH mais segura para a maioria dos produtos fica entre 4 e 6, mas essa referência é genérica: o valor ideal varia por produto, e a consulta ao fabricante para cada ingrediente ativo é insubstituível.

Adoto aqui a posição de monitorar e corrigir o pH quando a bula do produto indicar essa necessidade, sem generalizar a correção como rotina de toda calda: a maioria das águas disponíveis em propriedade agrícola brasileira é tipicamente branda, e no Cerrado mato-grossense em particular o perfil natural das águas reduz o risco de inativação por pH em comparação com região de clima temperado.

A recomendação prática para a região é confirmar a característica da água por análise laboratorial antes de prescrever corretivo como item obrigatório de toda mistura.

Dureza da água é a concentração de cátion bivalente (cálcio, magnésio e, em menor escala, ferro, manganês, zinco e cobre) dissolvido na água, expressa em unidade equivalente de carbonato de cálcio.

Valor acima de 321 ppm de CaCO₃ caracteriza a água como dura e exige condicionamento antes de adicionar o produto fitossanitário.

Em água dura, o cátion se liga à molécula de ativo ou de adjuvante, formando composto insolúvel e de baixa atividade, e o glifosato é especialmente sensível a esse mecanismo.

A correção é feita por agente sequestrante ou quelatizante, que neutraliza a carga do cátion antes da adição dos demais produtos.

No Cerrado, a maioria das águas disponíveis é tipicamente branda, o que reduz esse risco frente a regiões de clima temperado, mas isso não substitui a análise laboratorial quando a fonte de água for suspeita (açude com sedimento mineral, poço em área calcária).

Temperatura baixa retarda a dissolução e a dispersão do produto no tanque.

Formulação EC pode formar gel abaixo de 15 °C, dificultando a homogeneização da calda.

Nas regiões tropicais do Cerrado, a temperatura raramente é fator limitante em campo aberto, mas pode ser relevante em armazenamento noturno de calda pronta em período de frio atípico, ou em aplicação nas primeiras horas da manhã em mês de inverno seco.

Partícula de argila e matéria orgânica em suspensão pode adsorver ingrediente ativo, reduzindo a atividade biológica, efeito mais pronunciado em argila de alta atividade (montmorilonita, ilita), mais comum em solo de clima temperado do que nos Latossolos do Cerrado, dominados por caulinita e óxido de ferro de baixa atividade adsorvente.

O efeito físico da partícula, no entanto, afeta qualquer região: o atrito danifica mangueira, filtro e ponta de pulverização, independente da atividade biológica do solo de origem.

Característica Condição crítica Efeito sobre a mistura Ação corretiva
pH menor que 5 ou maior que 7 Degradação por hidrólise ácida ou alcalina; alteração na dissociação de molécula Acidificante ou tamponante, antes de qualquer produto
Dureza maior que 321 ppm de CaCO₃ Inativação de ativo por cátion bivalente; desestabilização de emulsão Sequestrante ou quelatizante, antes de qualquer produto
Temperatura menor que 15 °C Gelificação de formulação EC; dissolução lenta de WG e WP Pré-diluição em água morna; evitar armazenamento prolongado
Sólidos em suspensão água visivelmente turva Adsorção de ativo; dano mecânico ao sistema Uso de água limpa; filtragem na entrada do tanque

Referência de solubilidade e densidade dos ingredientes ativos

A solubilidade em água de cada ingrediente ativo é o dado técnico que sustenta a ordem de mistura no tanque.

Decaro Junior (2019, apud Costa, 2019) organiza uma tabela de propriedade físico-química que serve de base objetiva para decidir a ordem de adição, já que produto menos solúvel em água costuma entrar primeiro no tanque.

Classe Ingrediente ativo Solubilidade em água (ppm, 20 °C) Densidade (g/cm³)
Fungicida multissítio Mancozebe 6,20 1,90
Fungicida multissítio Oxicloreto de cobre 1,19 3,50
Fungicida multissítio Clorotalonil 0,81 1,80
Fungicida IBS Protioconazol 300,00 1,36
Fungicida IBS Ciproconazol 93,00 1,26
Fungicida IBS Difenoconazol 15,00 1,37
Fungicida IBS Epoxiconazol 7,10 1,38
Fungicida IBS Tebuconazol 36,00 1,25
Fungicida IBS Fenpropimorfe 4,32 0,93
Fungicida inib. respiração Azoxistrobina 6,70 1,34
Fungicida inib. respiração Piraclostrobina 1,90 1,37
Fungicida inib. respiração Trifloxistrobina 0,61 1,36
Fungicida inib. respiração Picoxistrobina 3,10 1,40
Fungicida inib. respiração Fluazinam 0,13 1,81
Fungicida inib. respiração Bixafem 0,49 1,48
Fungicida inib. respiração Fluxapiroxade 3,44 1,16
Herbicida Glifosato 10.500,00 1,71
Herbicida 2,4-D 24.300,00 1,57
Herbicida Glufosinato de amônio 500.000,00 1,32
Herbicida Haloxifope-P-metílico 7,90 1,37
Herbicida Sulfentrazona 780,00 1,21
Herbicida Imazetapir 1.400,00 1,11
Inseticida Lambda-cialotrina 0,01 1,33
Inseticida Tiodicarbe 22,20 1,47
Inseticida Clorpirifós 1,05 1,51
Inseticida Lufenurom 0,05 1,66
Inseticida Acetamiprido 2.950,00 1,33
Inseticida Acefato 790.000,00 1,35

O contraste é nítido: todo fungicida do levantamento é insolúvel em água, com valor abaixo de 300 ppm, o que favorece formulação sólida ou em suspensão (WG, WP, SC).

Herbicida e alguns inseticidas, como acefato e glufosinato, têm solubilidade ordens de grandeza maior, compatível com formulação solúvel (SL, SP, SG).

Essa assimetria explica por que o fungicida exige agitação mais cuidadosa e mais atenção à ordem de mistura quando entra na mesma calda que um herbicida solúvel.


Sistemas de preparo da calda

Quanto mais cedo o produto entra em contato com a diluição plena, menor o risco de incompatibilidade.

Três sistemas são usados na prática brasileira, com risco técnico distinto.

No incorporador do pulverizador, o produto é depositado num compartimento acoplado ao equipamento, que o encaminha aos poucos ao tanque, já parcialmente abastecido com água, recomendável a dois terços do volume.

A diluição progressiva reduz a concentração pontual do produto no contato inicial, o que diminui a chance de incompatibilidade física.

É o sistema de menor risco técnico entre os três, e o recomendado como padrão para mistura complexa.

Na pré-mistura externa, o produto é diluído num reservatório de capacidade menor que o tanque, com frequência 200 L ou menos, gerando uma mistura concentrada depois transferida ao pulverizador e completada com água até a concentração final.

O ganho operacional é reduzir o tempo de abastecimento, executável em paralelo à aplicação.

O custo técnico é a alta concentração durante o preparo, que eleva o risco de incompatibilidade física e degradação química do ativo.

Na calda pronta, a mistura é preparada na concentração final em equipamento separado (caminhão ou carreta) e transferida ao pulverizador no campo.

O ganho operacional é aumentar a capacidade de pulverização por dia.

O risco está no armazenamento: se a calda fica parada por tempo prolongado, com ou sem agitação, aumenta a exposição do ativo a processo de hidrólise e à interação com íon da água, e a degradação avança em função do tempo e do pH da calda armazenada.

Pré-mistura e calda pronta elevam a capacidade operacional da frota, sobretudo em lavoura grande com múltiplos pulverizadores.

O ganho é real, e o custo técnico também: quanto mais concentrada a mistura no momento do preparo e quanto mais tempo a calda fica armazenada, maior o risco de incompatibilidade e de degradação.


Ordem de adição dos produtos no tanque

A sequência de adição dos componentes ao tanque é o principal fator controlável de incompatibilidade física.

Não existe consenso absoluto sobre a ordem de adição.

A primeira orientação técnica é a mesma em toda fonte: consultar rótulo e bula de cada produto e seguir a sequência indicada pelo fabricante.

Quando essa indicação não existe, o técnico recorre a norma de referência.

A ABNT NBR 13875:2014 recomenda a sequência WG, WP, SC, SL, EC, começando com 60% do volume total de água.

A ASTM E1518-05/2012 recomenda SL, WG, WP, SC, EC, começando com o volume total de água da calda.

O Manual Técnico da Embrapa Soja (Documentos 437, 2021) consolida um protocolo de onze passos que incorpora as duas normas e adapta ao contexto brasileiro, detalhando o posicionamento de condicionador e adjuvante.

É o protocolo que adoto como referência principal deste texto, por ser a fonte com respaldo institucional mais amplo entre universidade, indústria e órgão regulador:

  1. Encher o tanque com água até dois terços do volume a ser aplicado.
  2. Iniciar a agitação e mantê-la ininterrupta até o final da aplicação.
  3. Adicionar os condicionadores de água (sequestrante, acidificante, tamponante), redutor de deriva, antiespumante e compatibilizante, quando necessário.
  4. Adicionar os pós molháveis (WP).
  5. Adicionar os granulados (GR), granulados dispersíveis em água (WG) e granulados solúveis em água (SG), com pré-mistura quando indicada pela bula.
  6. Adicionar as suspensões concentradas (SC).
  7. Adicionar os concentrados solúveis (SL).
  8. Adicionar os concentrados emulsionáveis (EC).
  9. Adicionar os demais adjuvantes, quando necessário.
  10. Adicionar fertilizante foliar, quando necessário.
  11. Completar o volume com o restante da água.

A lógica do protocolo é dissolver primeiro a formulação sólida, que precisa de maior proporção de água, depois a suspensão, que exige agitação para manter homogeneidade, e por último a oleosa (EC), que se emulsifica melhor quando o restante já está disperso.

Adjuvante e fertilizante foliar entram depois do fitossanitário para reduzir o tempo de contato quando há suspeita de incompatibilidade.

Quando o rótulo não especifica a posição relativa entre granulado dispersível (WG) e pó molhável (WP), sigo a ordem acima, com WP antes de WG, por conta da maior dificuldade de dispersão do pó molhável em alta concentração; se a mistura específica envolver os dois formulados e não houver indicação de bula, o teste da garrafa, descrito na próxima seção, é o critério de desempate que decide a ordem real para aquele caso.

Existe ainda um critério de campo descrito por Decaro Junior (2023, apud Costa, 2023), organizado pela solubilidade do próprio ingrediente ativo, não pelo código de formulação: corrigir primeiro a qualidade da água, se necessário; depois adicionar produto insolúvel em água e em solvente orgânico (WP, WG, SC, OD, CS); depois produto solúvel em solvente orgânico (EC, EW, EO, ME); depois produto solúvel em água (SL, SP, SG); e por último fertilizante foliar ou produto de solubilidade não especificada em rótulo, isolando seu efeito, porque costuma ser o maior causador de incompatibilidade por carregar íon.

Um refinamento prático da mesma fonte vale reter: dentro da mesma categoria de solubilidade, o granulado dispersível (WG) entra antes do pó molhável (WP), por ter menor superfície específica, e entre produto da mesma categoria, adicionar primeiro o de maior dose recomendada.

Óleo segue o critério do EC; ativador (surfactante, emulsificante, estabilizante) entra entre duas categorias imiscíveis; fertilizante foliar de procedência desconhecida merece pré-teste em garrafa PET, nas mesmas proporções de campo, antes de entrar na calda real.

Critério Ordem recomendada
Embrapa (Documentos 437, 2021) Condicionadores → WP → WG/SG → SC → SL → EC → adjuvantes → fertilizante foliar
ABNT NBR 13875/2014 WG, WP, SC, SL, EC (60% do volume de água no início)
ASTM E1518-05/2012 SL, WG, WP, SC, EC (volume total de água no início)
Decaro Junior (2023), por solubilidade do ativo Correção de água → insolúvel em água e solvente → solúvel em solvente orgânico → solúvel em água → fertilizante foliar
Tipo de adjuvante Posicionamento na sequência Justificativa técnica
Quelatizante e corretivo de pH No início, antes de qualquer produto fitossanitário Condiciona a água antes de qualquer reação com o ativo
Antiespumante No início, junto com o condicionador Atua de forma preventiva, antes da geração de espuma
Óleo (mineral, vegetal, metilado) Segue o critério da formulação EC Precisa de emulsificação tardia para reduzir interação com sólido
Estabilizador e surfactante Entre a adição de formulação imiscível (sólida e líquida oleosa) Atua na transição entre fase da calda
Fertilizante foliar Por último, com teste prévio Caso especial, com frequência reativo com herbicida

A literatura registra categoria de mistura de alto risco histórico, independente do produto específico: produto com enxofre combinado com formulação de base oleosa (EC); mistura direta de formulação sólida (WG e WP) com formulação oleosa (EC) sem diluição intermediária; e algumas formulações de glifosato combinadas com 2,4-D em volume de calda reduzido.

A associação de fertilizante foliar com herbicida merece critério próprio: no caso do glifosato, existe grande variação entre formulação comercial e marca, e o resultado de pesquisa com um produto não se generaliza para outro.

Formulação quelatizada de fábrica tende a apresentar menor reatividade com o herbicida, e quanto menor a dose de glifosato na calda, maior a chance de redução de eficiência quando em mistura com adubo foliar.

Nota técnica

Um caso real de safra de soja (2019/20) mostra o custo de errar a ordem de mistura. A sequência corretor de pH, glifosato (SL), cletodim (EC), óleo (EC) por último gerou fase oleosa sobrenadante minutos depois do preparo, e queimou folíolo de soja em campo. Corrigindo a ordem para corretor de pH, óleo (EC), cletodim (EC), glifosato (SL), a emulsão ficou estável, com aspecto esbranquiçado, sem fitotoxicidade. A diferença entre as duas caldas foi só a posição do óleo na sequência.

Regra prática sobre ordem de mistura

  • A sequência do rótulo e da bula prevalece sobre qualquer protocolo genérico.
  • Na ausência de indicação do fabricante, seguir o protocolo Embrapa (Documentos 437/2021).
  • Formulação sólida antes de formulação líquida oleosa.
  • Condicionador de água antes de qualquer produto fitossanitário.
  • Fertilizante foliar por último, sempre com pré-teste.
  • Agitação ininterrupta do início do preparo até o fim da aplicação.

Quando o produto precisa de pré-mistura, a proporção mínima recomendada é de 3 L de água para cada 1 kg/L de produto: 50 kg/L de produto pedem, no mínimo, 150 L de água limpa num recipiente de 200 L ou mais, transferido ao tanque principal de 3 a 5 minutos antes do início da aplicação.


O teste da garrafa (jar test)

Um teste de poucos minutos, em escala de um litro, evita comprometer o volume inteiro do tanque.

Teste da garrafa (teste da jarra, jar test)

Procedimento de validação prévia de uma mistura em tanque, executado em pequena escala antes da aplicação em campo, no qual o produto é combinado em recipiente transparente, nas mesmas proporções previstas para o tanque, para observar eventual sinal de incompatibilidade física.

O teste é executado em garrafa plástica (PET) ou jarra de 1 L.

Esse volume mínimo é recomendado porque algumas incompatibilidades não se manifestam em volume menor.

A dosagem do produto é calculada pela proporção da calda do pulverizador:

quantidade de produto por litro de teste = (dose por hectare × 1 L) dividido pelo volume de calda por hectare

Um exemplo numérico ilustra o cálculo: para dose de ingrediente ativo de 1.440 g/ha, taxa de aplicação de 100 L/ha e concentração do ativo no produto de 720 g/L, o volume de produto na calda de 100 L é 1.440 dividido por 720, ou seja, 2 L de produto.

A proporção produto/calda é 2 dividido por 100, ou seja, 0,02 L por litro de calda.

Para 1 L de calda no teste, isso equivale a 20 mL do produto.

O procedimento reproduz o que vai acontecer no tanque real:

  1. Medir a água, dois terços do volume total previsto para 1 L de teste.
  2. Adicionar o condicionador de água.
  3. Adicionar o produto, seguindo exatamente a sequência prevista para o tanque.
  4. Adicionar adjuvante e fertilizante foliar, se previsto na mistura.
  5. Completar com o restante da água.
  6. Fechar, agitar bem e deixar em repouso por 2 horas.
  7. Observar o resultado e decidir conforme o tempo de separação de fase.
Condição observada na calda Decisão técnica
Estabilidade perfeita Aplicar sem restrição
Separação após mais de 10 minutos Aplicar com agitação constante
Separação entre 5 e 10 minutos Aplicar com agitação constante, situação arriscada
Separação em até 1 minuto Não aplicar
Separação imediata Não aplicar

Quando o resultado indica incompatibilidade, separação em até um minuto ou imediata, a primeira ação é alterar a sequência de adição e repetir o teste.

Em muitos casos, o problema se resolve com sequência diferente, sobretudo quando a incompatibilidade decorre de adicionar EC antes de WP.

Se o problema persistir com toda sequência testada, a mistura deve ser abandonada.

O teste da garrafa tem limite que o agrônomo precisa ter claro.

Ele não reproduz de forma integral o ambiente do tanque do pulverizador, onde pode existir resíduo de calda anterior em bomba, tubulação e válvula, e detecta só incompatibilidade física: uma calda visualmente perfeita no teste pode ter antagonismo biológico no campo.

A validação completa da combinação depende de dado de pesquisa sobre a mistura específica, não só do teste de bancada.


A agitação no pulverizador e o risco do armazenamento prolongado

A agitação insuficiente é o único fator de risco totalmente controlável pela regulagem do próprio equipamento.

A agitação hidráulica, padrão na maioria dos pulverizadores, funciona pelo fluxo de retorno após o controlador de pressão, e a vazão de retorno precisa ser de ao menos 30% da vazão nominal do equipamento para manter padrão mínimo de agitação.

Quando isso não é suficiente, a solução passa por ponta agitadora dedicada, circuito hidráulico complementar com pulverizador elétrico alimentado pela bateria, ou agitador mecânico suplementar nos casos mais extremos.

Mistura complexa com formulação SC, WP e WG juntas exige agitação robusta, e o sistema de calda pronta é especialmente sensível a isso, porque formulação precipitada e acumulada no fundo do tanque é difícil de ressuspender depois.

A permanência de mistura no tanque por período prolongado, de um dia para o outro ou por restrição climática, aumenta o risco de incompatibilidade e de alteração química.

Um caso documentado mostra o risco do armazenamento de véspera: calda fotografada 10 minutos depois do preparo, comparada à mesma calda 24 horas depois, mostrou cristal depositado no fundo e na lateral do recipiente após esse período.

É outro argumento contra guardar calda pronta esperando terminar a aplicação no dia seguinte.


Taxa de aplicação e incompatibilidade: a interação subestimada

A redução do volume de calda para economizar tempo aumenta justamente o risco que se quer evitar.

A tecnologia de pulverização avançou, nas últimas décadas, na direção de reduzir a taxa de aplicação.

Ponta de maior eficiência, sistema de controle de seção, pressão constante, aplicação em faixa e ponta de indução de ar tornaram viável, do ponto de vista técnico, aplicação com 30, 40 ou 50 L/ha em cultura que antes demandava 100 L/ha ou mais.

A vantagem é real: menor consumo de combustível e água, maior capacidade operacional por carga, menor compactação do solo, mais hectare por jornada de trabalho.

A consequência menos discutida é o aumento do risco de incompatibilidade.

Com menos água por área, cada produto ocupa proporção maior do volume de calda, a concentração dos componentes da formulação sobe, e o surfactante de formulação EC interage com partícula de formulação WG em proporção maior.

O cátion de uma água de dureza moderada fica em menor diluição relativa frente à molécula do ativo.

Antuniassi (2019) documenta isso de forma direta: a mesma mistura de herbicida, mesma dose, mesma ordem de adição, variando só o volume de água no início do preparo, mostrou incompatibilidade visível a 50 L/ha com o tanque a um quarto do volume antes da mistura; o problema diminuiu a 50 L/ha com o tanque a três quartos, e desapareceu por completo a 100 L/ha com o tanque a três quartos.

O mesmo conjunto de produtos pode ser compatível ou incompatível dependendo só da diluição.

Essa interação entre taxa de aplicação reduzida e aumento do risco de incompatibilidade raramente é comunicada de forma explícita na prática de campo.

O técnico escolhe o volume de calda com base em cobertura e eficácia biológica, e escolhe o produto com base em manejo fitossanitário.

A interação entre as duas decisões define a chance de a mistura resultar numa calda estável e eficaz.

Quando há dúvida sobre a compatibilidade de uma mistura com taxa de aplicação baixa, a recomendação técnica é aumentar o volume de calda para aquela combinação específica, mesmo que o equipamento seja capaz de aplicar com menos água.

Volume de 100 L/ha cobre a maioria dos casos, e volume maior é preferível para mistura com três produtos ou mais em condição de incompatibilidade potencial.

Uma decisão que aparece com frequência crescente na lavoura de soja do Cerrado merece registro: o operador, ao notar espuma ou separação de fase no tanque, completa o abastecimento com mais água, na expectativa de "salvar" a aplicação.

Funciona com frequência para dissolver o sintoma visível.

Não corrige incompatibilidade química nem antagonismo, e gera calda heterogênea, distribuída de forma irregular ao longo da barra.

Quem prescreve a mistura precisa antecipar essa decisão do operador, e definir, na receita, o volume de calda que reduza a chance de ela ser necessária.

Fator de risco Mecanismo Critério de decisão
Baixa taxa de aplicação (menor que 50 L/ha) Aumento da concentração relativa dos componentes Aumentar o volume ou reduzir o número de produtos
Água dura (maior que 321 ppm CaCO₃) Cátion bivalente inativa ativo e desestabiliza emulsão Sequestrante antes de qualquer produto
pH fora da faixa de 4 a 6 Hidrólise alcalina ou degradação ácida Acidificante ou tamponante antes dos produtos
Temperatura abaixo de 15 °C Gelificação de EC; dispersão lenta de sólido Pré-diluição em água morna
Enxofre combinado com EC Reação química entre enxofre e solvente oleoso Evitar; se necessária, validar com dado e teste
WG/WP combinado com EC sem ordem correta Formação de pasta insolúvel Seguir a ordem: sólido antes de oleoso
Glifosato combinado com adubo foliar em baixo volume Interação entre sal de glifosato e cátion do fertilizante Formulação quelatizada; teste; aumentar volume
Armazenamento prolongado da calda Hidrólise progressiva e separação por perda de agitação Aplicar imediatamente depois do preparo
Mistura com mais de cinco produtos Soma de probabilidade de interação binária entre pares Avaliar redução do número de produtos por aplicação

Perdas por mistura em tanque: a contabilidade da calda

As perdas que reduzem a dose real sobre o alvo não são só físicas, como a deriva, são também químicas, dentro do próprio tanque.

Antuniassi (2019) organiza a perda que reduz a dose real do produto sobre o alvo separando o que ocorre fora do tanque (perda física) do que ocorre dentro dele (perda química).

Mistura em tanque inadequada está entre as principais causas de perda química.

Perda física (fora do tanque) Perda química (dentro do tanque)
Deriva de partícula e volatilização do ativo Inativação de ingrediente ativo por íon e coloide na água
Escorrimento e rebote da gota Degradação por pH inadequado e fotodegradação (raio UV)
Lavagem do produto pela chuva Mistura inadequada (decantação, separação de fase, floculação, antagonismo)

Essa distinção importa para a decisão técnica.

Quando um agrônomo investe em ponta antideriva, em condição climática adequada e em altura de barra correta para reduzir a perda física, mas falha em preparar uma calda compatível e estável, ele está resolvendo metade do problema.

A dose real sobre o alvo depende das duas categorias de perda, não só da primeira, e é por isso que trato mistura em tanque como parte do mesmo bloco de conteúdo que perda de aplicação, mesmo que as duas apareçam em aulas separadas na ementa.


Misturas com produtos biológicos: outra lógica de risco

Quando o ingrediente ativo é um organismo vivo, a pergunta não é só se a calda fica homogênea, é se o organismo sobrevive até o alvo.

O crescimento do mercado de produto biológico no Brasil colocou nas mãos do agrônomo um tipo de mistura para o qual o protocolo convencional é insuficiente.

Quando o ingrediente ativo é um organismo vivo, fungo, bactéria, vírus ou nematoide, a questão não é só se a calda permanece fisicamente homogênea, é se o organismo permanece viável até atingir o alvo.

O Manual Técnico da Embrapa é explícito: suas recomendações de mistura em tanque valem para produto químico, e misturar produto biológico só deve ser feito com base em estudo específico que comprove a possibilidade.

Essa ressalva é ignorada com frequência no campo.

Bactéria formadora de esporo tolera melhor a mistura: esporo de Bacillus spp. tem alta resistência a agente químico, o que o torna relativamente mais compatível.

Abbasi e Weselowski (2015) registraram sinergismo entre Bacillus subtilis QST 713 e hidróxido de cobre no controle da mancha bacteriana do tomateiro.

Bactéria sem essa forma de resistência exige mais cautela: Halfeld-Vieira e Santos (2018) registraram incompatibilidade entre isolado de Azospirillum amazonense e os fitossanitários fipronil, azoxistrobina, ciproconazol e piraclostrobina.

Fungo de controle biológico corre o maior risco: fungicida convencional reduz de forma substancial a viabilidade desse fungo, mesmo em dose que não causaria fitotoxicidade à cultura.

Dalacosta et al. (2019) registraram incompatibilidade entre formulação de Trichoderma spp. e os ativos difenoconazol, fluazinam, iprodiona e tiabendazol em tratamento de semente.

A regra prática para esse tipo de mistura é curta: consultar o fabricante do produto biológico para obter lista de compatibilidade já estudada; adicionar o produto biológico por último na sequência de preparo, reduzindo o tempo de contato com o produto químico; aplicar a calda logo depois do preparo, sem armazenamento; e, quando a compatibilidade não estiver documentada, considerar separar as duas aplicações no tempo, biológico numa data e químico noutra, em vez de arriscar a viabilidade do organismo numa mistura sem respaldo técnico.


Responsabilidade técnica quando a bula não prevê a mistura

Assinar uma receita de mistura em tanque é assumir responsabilidade por três dimensões técnicas ao mesmo tempo.

A regulamentação combinada da IN 40/2018 e da Lei 14.785/2023 criou uma moldura nova para o exercício profissional.

Antes da IN, o rótulo era o limite da responsabilidade: o técnico recomendava o que estava aprovado no documento oficial do produto, e a combinação entre produtos não estava aprovada em lugar nenhum.

Depois da IN e da Lei, o técnico pode prescrever a mistura, e responde pelo resultado, civil e administrativamente.

O problema central é a assimetria entre a abrangência da prática (97% dos produtores misturam) e a base de informação disponível (72% deles admitem desconhecê-la ou considerá-la insuficiente).

O Art. 3º da IN exige que a receita seja elaborada em consonância com as boas práticas agrícolas e com a informação científica disponível, mas para parcela expressiva das misturas que o campo realiza, essa informação é escassa, e a empresa fabricante só recomenda combinação com produto do próprio portfólio.

O agrônomo prescreve com base em julgamento técnico fundamentado, em literatura aplicável por analogia e em teste prévio da combinação.

Ao assinar receita com mistura em tanque, o agrônomo passa a responder por três dimensões distintas: a compatibilidade física da calda, a compatibilidade química entre os ativos e a eficácia biológica do controle pretendido.

Nenhuma das três se resolve sozinha, uma calda fisicamente estável pode ser quimicamente antagônica, e uma combinação quimicamente neutra pode falhar porque o organismo biológico não sobreviveu à mistura.

Prefiro tratar a receita de mistura em tanque como documento de engenharia, não como formulário burocrático: cada linha carrega uma decisão técnica que pode ser testada, e decisão sem teste é aposta que o agrônomo faz com o dinheiro e a lavoura de outra pessoa.

A pergunta que fica para quem vai prescrever a primeira receita de mistura em tanque da carreira não é se a combinação é permitida por lei.

É se existe teste, dado de compatibilidade ou literatura suficiente para responder por ela se algo der errado no talhão.


Referências

ABNT. NBR 13875: Agrotóxicos e afins, mistura em tanque, determinação da compatibilidade física. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Normas Técnicas, 2014.

ANTUNIASSI, U. R.; BOLLER, W. (ed.). Tecnologia de aplicação para culturas anuais. 2. ed. Passo Fundo: Aldeia Norte; Botucatu: FEPAF, 2019.

ANTUNIASSI, U. R.; CARVALHO, F. K.; MOTA, A. A. B.; CHECHETTO, R. G. Entendendo a tecnologia de aplicação. Botucatu: FEPAF, 2022. 52 p.

ASTM. E1518-05: Standard practice for evaluation of physical compatibility of pesticides in aqueous tank mixtures by the dynamic shaker method. West Conshohocken: ASTM International, 2012.

BRANDT BRASIL. Guia de tecnologia de aplicação: ordem de mistura em tanque. São Paulo: BRANDT, [s.d.].

BRASIL. Decreto nº 4.074, de 4 de janeiro de 2002. Regulamenta a Lei nº 7.802, de 11 de julho de 1989. Diário Oficial da União, Brasília, 8 jan. 2002.

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Secretaria de Defesa Agropecuária. Instrução Normativa nº 40, de 11 de outubro de 2018. Diário Oficial da União, Brasília, Seção 1, n. 198, p. 3, 15 out. 2018.

BRASIL. Lei nº 14.785, de 27 de dezembro de 2023. Dispõe sobre a pesquisa, a experimentação, a produção, a embalagem, a rotulagem, o transporte, o armazenamento, a comercialização, a propaganda comercial, a utilização, a importação, a exportação, o destino final dos resíduos e das embalagens, o controle, a inspeção e a fiscalização de agrotóxicos, de produtos de controle ambiental e afins. Diário Oficial da União, Brasília, 28 dez. 2023.

COSTA, A. G. F. (coord.). Tecnologia de caldas fitossanitárias. Londrina: Embrapa, 2019.

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GAZZIERO, D. L. P. Misturas de agrotóxicos em tanque nas propriedades agrícolas do Brasil. Planta Daninha, v. 33, n. 1, p. 83-92, 2015.

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MACIEL, C. D. G.; GAZZIERO, D. L. P.; THEISEN, R.; BRIDI, L. G. H.; ADEGAS, F. S. Tecnologia de aplicação de pesticidas. Londrina: Embrapa Soja, 2025. 31 p. (Embrapa Soja. Documentos, 477).

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SENAR. Mecanização: operação de pulverizadores autopropelidos. Brasília: SENAR, 2016. (Coleção SENAR, n. 170).


Exercícios

Tip

Tente resolver antes de abrir o gabarito. O esforço de recuperar e raciocinar é o que consolida o aprendizado; consultar a resposta cedo demais desperdiça esse ganho. O Bloco A não tem gabarito: são questões de discussão, retomadas no início da próxima aula.

Bloco A: para discutir na próxima aula

Responda por escrito, de forma breve. Não há resposta divulgada: traga suas respostas para a discussão em sala.

A1. Na Aula 07 você aprendeu que um adjuvante pode ser incompatível com o próprio ingrediente ativo por reação iônica (surfatante catiônico anula o glifosato, surfatante aniônico anula o paraquat) e que os condicionadores de calda (acidificantes, tamponantes, sequestrantes) são uma classe de adjuvante que trata a água antes do produto. Na Aula 08, esses mesmos condicionadores aparecem em primeiro lugar na ordem de adição do tanque, antes de qualquer fitossanitário, e o óleo e o fertilizante foliar têm posição própria na sequência. Por que a decisão sobre o adjuvante deixa de ser "somar um produto que melhora a calda" e passa a ser também uma decisão de posição na sequência? O que a máxima da Aula 07, "verificar o que a formulação já contém antes de adicionar adjuvante externo", vira quando há vários produtos no mesmo tanque?

A2. O texto afirma, como o ponto que o autor mais insiste em fixar, que compatibilidade física não é sinônimo de compatibilidade biológica: uma calda visualmente perfeita, sem espuma, floco ou separação de fase, pode transportar ativos que se neutralizam mutuamente no campo. Explique por que o antagonismo é considerado o risco mais sério de uma mistura mesmo sendo invisível no tanque, e por que o teste da garrafa (jar test), sozinho, não é suficiente para liberar uma combinação.

A3. O texto mostra que a calda brasileira ficou de 15 a 30 vezes mais concentrada em duas décadas, e que uma incompatibilidade física obstrui o filtro de linha, o filtro de ponta e o próprio orifício da ponta de pulverização, causando variação de vazão e distribuição irregular da calda ao longo da barra. Se uma mistura mal preparada compromete justamente a ponta e a vazão, o que isso antecipa sobre a próxima unidade, que abre estudando a formação da gota na ponta de pulverização, os tipos de ponta e a relação entre pressão, vazão e tamanho de gota?

Bloco B: consolidação da aula

B1. Numa calda de dois herbicidas, o controle do milho RR voluntário ficou inferior ao obtido pelo herbicida mais ativo aplicado sozinho. Segundo a taxonomia de interação entre ingredientes ativos do texto, esse resultado caracteriza:

(A) antagonismo, o risco central da mistura.
(B) sinergismo, que permitiria reduzir a dose.
(C) efeito aditivo, com contribuição proporcional.
(D) potencialização de um ativo pelo outro.

B2. Um técnico vai preparar uma calda com um sequestrante (condicionador de água), um pó molhável (WP), uma suspensão concentrada (SC), um concentrado emulsionável (EC) e um fertilizante foliar. Nenhuma bula especifica a ordem. Seguindo o protocolo Embrapa (Documentos 437/2021), a sequência correta de adição é:

(A) concentrado emulsionável, suspensão concentrada, pó molhável, sequestrante, fertilizante foliar.
(B) pó molhável, suspensão concentrada, concentrado emulsionável, sequestrante, fertilizante foliar.
(C) sequestrante, pó molhável, suspensão concentrada, concentrado emulsionável, fertilizante foliar.
(D) sequestrante, concentrado emulsionável, suspensão concentrada, pó molhável, fertilizante foliar.

B3. No teste da garrafa de 1 L, preparado na sequência prevista para o tanque, a calda ficou estável durante a agitação, mas em repouso apresentou separação de fase após 7 minutos. Pela tabela de decisão do texto, a conduta é:

(A) não aplicar, pois separação em minutos indica incompatibilidade.
(B) aplicar com agitação constante, por ser situação arriscada.
(C) aplicar sem restrição, já que houve repouso antes.
(D) descartar e substituir todos os produtos da calda.

B4. ("Achar o erro") Na safra de soja 2019/20, um operador preparou a calda na ordem: corretor de pH, glifosato (SL), cletodim (EC) e óleo (EC) por último. Minutos depois surgiu fase oleosa sobrenadante, e a aplicação queimou folíolo de soja no campo. Identifique o erro, indique a correção e explique a lição sobre ordem de mistura.

B5. Um produtor quer misturar dois produtos numa combinação para a qual não existe estudo de compatibilidade publicado, e argumenta: "se nenhuma bula diz que é proibido, então pode misturar". Você é o agrônomo que assinaria a receita. Responda ao produtor e liste as três dimensões técnicas pelas quais você passa a responder ao assinar.

B6. Um produtor pretende incluir na calda um produto biológico à base de Trichoderma spp. junto de fungicidas convencionais. Explique por que o protocolo convencional de mistura é insuficiente nesse caso e quais cuidados específicos você recomendaria.

Bloco C: cálculo e diagnóstico

C1. (Cálculo) Um agrônomo vai validar, em teste da garrafa de 1 L, uma calda que levará um fungicida com dose de ingrediente ativo de 1.200 g/ha, concentração de 500 g/L no produto comercial, para taxa de aplicação de 130 L/ha. Calcule:

(i) o volume de produto comercial por hectare;

(ii) a proporção produto/calda (L por litro de calda);

(iii) a quantidade do produto, em mL, para 1 L de teste;

(iv) o volume de água a medir no início do teste (dois terços do volume).

Use 4 casas decimais.

C2. (Diagnóstico integrado) Na soja do Cerrado mato-grossense, um operador quer aplicar a 40 L/ha para render mais hectares por carga, numa calda com cinco produtos (fungicida SC, fungicida WG, inseticida EC, herbicida SL e óleo). A água vem de um açude com sedimento visível. No teste, notou espuma e pretende, no campo, "salvar" a aplicação completando o tanque com mais água. Diagnostique a situação cruzando os fatores e recomende a conduta.


Gabarito

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