Recomendação de Calagem e Gessagem¶
Onde a interpretação vira decisão¶
Na aula anterior nós lemos o talhão TH-07 de ponta a ponta.
Descobrimos um solo argiloso de Cerrado, ácido, com CTC baixa, saturação por bases abaixo do alvo e sem toxidez de alumínio na camada superficial.
Interpretar foi meio caminho.
Agora vem a parte que o produtor de fato compra: transformar aquele diagnóstico em uma dose de calcário, um tipo de calcário e, quando o subsolo pede, uma dose de gesso.
Vou puxar de novo o mesmo laudo, porque quero que você veja a corrente inteira, do número bruto até o caminhão espalhando corretivo no talhão.
Trabalhe comigo com calculadora na mão.
No fim, quero que você consiga fechar uma recomendação completa sozinho, defendê-la numa banca e explicar cada número que escreveu.
| Talhão | Prof. (cm) | Argila (g/kg) | pH CaCl₂ | M.O. (g/dm³) | P* (mg/dm³) | K⁺ (mg/dm³) | Ca²⁺ | Mg²⁺ | Al³⁺ | H⁺ |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| TH-07 | 0-20 | 371 | 4,7 | 25,3 | 9,5 | 29,4 | 1,53 | 0,78 | 0,13 | 3,52 |
| TH-07 | 20-40 | 371 | 4,7 | 17,4 | 9,8 | 24,3 | 1,25 | 0,47 | 1,42 | 2,48 |
Da leitura anterior, para a camada de 0 a 20 cm, já temos: K = 0,0752 cmolc/dm³, SB = 2,3852 cmolc/dm³, T = 6,0352 cmolc/dm³, V = 39,5215% e m = 5,1686%.
Guarde esses valores, porque eles entram nas fórmulas de calagem.
A camada de 20 a 40 cm, com aquele alumínio de 1,42 classificado como alto, é a que vai puxar a conversa de gesso lá no final.
Por que a gente calcaria: os três motivos, e a química por trás de cada um¶
Calcário não é um pó mágico que "melhora o solo".
Ele faz três coisas concretas, e você precisa saber quais são para entender por que existem três fórmulas diferentes de dose mais adiante.
Cada fórmula persegue um desses objetivos.
O primeiro motivo é corrigir a acidez ativa, o excesso de H⁺ que está solto na solução do solo baixando o pH.
Antes de seguir, preciso que você separe na cabeça os quatro rostos da acidez, porque eles não são a mesma coisa.
A acidez ativa é o H⁺ que está na solução, o que o pHmetro lê.
A acidez trocável é o Al³⁺ (e o H⁺, quando houver) adsorvido nos sítios de troca, pronto para voltar à solução.
A acidez não-trocável é o H⁺ preso em ligações covalentes na matéria orgânica e nos minerais, que só se libera bem devagar.
E a acidez potencial é a soma de tudo que pode virar acidez: Al³⁺ trocável mais H⁺ trocável mais H⁺ de ligação covalente, ou seja, H⁺ + Al³⁺ no laudo.
Quando você calcaria, ataca primeiro a ativa, mas mexe em todas.
A química de como o calcário sobe o pH vale a pena ver de perto, porque ela explica por que o mesmo produto neutraliza o alumínio ao mesmo tempo.
O carbonato de cálcio, ao encontrar água, se dissocia:
CaCO₃ + H₂O → Ca²⁺ + HCO₃⁻ + OH⁻
A hidroxila e o bicarbonato gerados são bases, e elas consomem o H⁺ da solução:
HCO₃⁻ + H⁺ → CO₂ + H₂O OH⁻ + H⁺ → H₂O
Some as duas reações e o resultado é claro: o H⁺ da solução some, virando água e gás carbônico, e o pH sobe.
Repare que o cálcio (Ca²⁺) fica no sistema, ocupando os sítios de troca que o hidrogênio e o alumínio abandonam.
Isso me leva ao segundo motivo.
O segundo motivo é reduzir a disponibilidade do alumínio tóxico.
Conforme a solução perde H⁺ e o pH sobe, o alumínio trocável não fica parado.
Ele reage com as hidroxilas e precipita:
Al³⁺ + 3 OH⁻ → Al(OH)₃ ↓
O hidróxido de alumínio é insolúvel, e alumínio precipitado não intoxica raiz.
É por isso que uma única aplicação de calcário resolve dois problemas de uma vez, sobe o pH e desarma o alumínio.
Onde o alumínio é o vilão principal, essa é a razão de calcariar.
O terceiro motivo é fornecer cálcio e magnésio.
O calcário não é só um neutralizador, ele é adubo de Ca e, se for dolomítico, de Mg também.
Cálcio e magnésio são nutrientes que a planta consome em quantidade, e em muitos solos de Cerrado eles estão baixos.
A calagem repõe.
Vale um comentário sobre o alvo.
Você poderia pensar "então quanto mais alto o pH, melhor".
Não é.
Olhe a curva de disponibilidade de nutrientes em função do pH (Malavolta, 1979): a maioria dos nutrientes tem disponibilidade máxima numa faixa de pH intermediária, algo em torno de 6,0 a 7,0 em água.
Abaixo disso, o fósforo é fixado por ferro e alumínio e some da solução, e o próprio alumínio e o manganês ficam tóxicos.
Acima disso, os micronutrientes metálicos (ferro, cobre, manganês, zinco) travam a disponibilidade.
Calcariar demais é tão problemático quanto calcariar de menos: você gasta dinheiro para induzir deficiência de micronutriente.
É por isso que a gente mira um V2 de cultura (60% para a maioria das lavouras de grãos), não um V de 100%.
O objetivo é equilíbrio, não neutralidade química.
O que é o PRNT, e por que ele aparece em toda fórmula¶
Antes das doses, preciso te apresentar o número que amarra a teoria à realidade do saco de calcário: o Poder Relativo de Neutralização Total, o PRNT.
Duas propriedades definem quanto um calcário neutraliza.
A primeira é a composição química, medida pelo Poder de Neutralização (PN), que expressa a capacidade de neutralizar ácido em relação ao carbonato de cálcio puro.
Carbonato de cálcio puro tem PN de 100%.
Um calcário com muita impureza (areia, argila) tem PN menor, porque parte do peso do saco não neutraliza nada.
A segunda propriedade é a granulometria, medida pela Reatividade (RE).
Partícula fina reage rápido e por inteiro dentro de uma safra.
Partícula grossa reage devagar, ou nem reage a tempo de servir para a cultura daquele ano.
Dois calcários com o mesmo PN, um moído fino e outro grosso, entregam correção diferente no mesmo prazo.
A reatividade captura isso.
O PRNT junta as duas:
PRNT = (PN × RE) ÷ 100
Um PRNT de 90% quer dizer que aquele calcário neutraliza 90% do que o carbonato de cálcio puro e fino neutralizaria, no mesmo peso e no mesmo prazo.
Agora a pergunta que interessa: por que ele entra dividindo nas fórmulas de dose?
Porque as fórmulas calculam quanto de neutralizante puro (PRNT 100%) o solo precisa.
Nenhum calcário comercial é puro.
Se o solo precisa de uma quantidade equivalente a 1 tonelada de material 100%, e você tem em mãos um calcário de PRNT 90%, você precisa aplicar mais que 1 tonelada dele, porque cada tonelada rende só 90% do trabalho.
Multiplicar por (100 ÷ PRNT), que é o mesmo que dividir por PRNT/100, corrige exatamente isso, converte a dose teórica pura na dose real do produto que você comprou.
Aqui eu me posiciono, e é uma opinião que vai contra o hábito de muita revenda: comparar calcário por preço da tonelada é erro de agrônomo iniciante.
O que importa é o preço por unidade de PRNT.
Um calcário barato de PRNT 60% pode custar mais caro por unidade de neutralização que um calcário aparentemente caro de PRNT 95%.
Quem compra pela tonelada, sem olhar o PRNT, às vezes paga mais para corrigir menos.
As três fórmulas de necessidade de calagem, e o que cada uma persegue¶
Existem três métodos porque existem os três motivos da calagem que eu descrevi.
Cada fórmula estima a dose necessária para atingir um objetivo diferente.
Vou calcular as três para o TH-07, na camada de 0 a 20 cm, usando um calcário de PRNT 90%.
Método 1: correção da acidez ativa (saturação por bases)¶
Este método pergunta: quanto de calcário eu preciso para elevar a saturação por bases do valor atual (V1) até o alvo da cultura (V2)?
Ele corrige a acidez ativa de forma indireta, porque, como vimos na aula passada, V e pH andam juntos (Quaggio et al., 1983, acharam correlação acima de 0,90 entre os dois).
Subir o V sobe o pH.
NC (t/ha) = [(V2 − V1) × T] ÷ PRNT
Para o TH-07, com V2 = 60% (maioria das culturas), V1 = 39,5215% e T = 6,0352:
NC = [(60 − 39,5215) × 6,0352] ÷ 90 NC = [20,4785 × 6,0352] ÷ 90 NC = 123,5918 ÷ 90 NC = 1,3732 t/ha
A lógica é direta: a diferença (V2 − V1) diz quantos pontos percentuais de saturação faltam, o T diz o tamanho do complexo de troca que precisa ser preenchido, e o PRNT ajusta para o produto real.
Este é, na prática do Cerrado, o método que quase sempre manda, porque o alvo de V2 costuma ser alto e a diferença para o V atual costuma ser grande.
Método 2: neutralização do alumínio tóxico¶
Este método pergunta: quanto de calcário para neutralizar o alumínio trocável e ainda deixar uma reserva de cálcio?
Ele foca no segundo motivo.
NC (t/ha) = Al³⁺ × 2 × (100 ÷ PRNT)
Para o TH-07, com Al³⁺ = 0,13:
NC = 0,13 × 2 × (100 ÷ 90) NC = 0,26 × 1,1111 NC = 0,2889 t/ha
Por que o fator 2?
Porque neutralizar o alumínio não é uma conta estequiométrica limpa de um para um.
O solo tem poder tampão, o alumínio vai saindo dos sítios aos poucos conforme o pH sobe, e a gente não quer só precipitar o alumínio que está lá hoje, quer manter o ambiente com cálcio suficiente para que ele não volte.
O multiplicador 2 embute essa margem de segurança.
Diferentes referências usam multiplicadores um pouco distintos (1,5, 2 ou 3, conforme o solo), mas a ideia é sempre a mesma: neutralizar com folga, não no limite.
Método 3: elevação dos teores de cálcio e magnésio¶
Este método pergunta: quanto de calcário para neutralizar o alumínio (ponderado pela textura) e ainda levar o Ca + Mg até o mínimo que a cultura exige?
Ele junta o segundo e o terceiro motivos numa conta só.
NC (t/ha) = {(Al³⁺ × Y) + [X − (Ca + Mg)]} × (100 ÷ PRNT)
Os coeficientes Y e X não são enfeite, eles carregam teoria.
O Y pondera o alumínio pela textura, porque solo com mais argila tampona mais e precisa de mais corretivo para o mesmo efeito: arenoso Y = 1, textura média Y = 2, argiloso Y = 3.
O X é o teor mínimo de Ca + Mg (em cmolc/dm³) que a cultura quer no solo: eucalipto X = 1, maioria das culturas X = 2, cafeeiro X = 3.
Para o TH-07, solo argiloso (Y = 3), maioria das culturas (X = 2), com Ca = 1,53 e Mg = 0,78:
NC = {(0,13 × 3) + [2 − (1,53 + 0,78)]} × (100 ÷ 90) NC = {0,39 + [2 − 2,31]} × 1,1111 NC = {0,39 + (−0,31)} × 1,1111 NC = 0,08 × 1,1111 NC = 0,0889 t/ha
Olhe o que aconteceu no segundo termo.
O Ca + Mg do solo (2,31) já passou do alvo X (2), então [X − (Ca + Mg)] deu negativo.
O solo não precisa de calcário para suprir cálcio e magnésio, ele já tem de sobra para a maioria das culturas.
Sobrou só o pedacinho de neutralização do alumínio.
Por isso a dose ficou minúscula.
Isso não é erro de conta, é o método te dizendo, corretamente, que sob a ótica de nutrição de Ca e Mg este solo quase não pede calcário.
Por que a gente escolhe a MAIOR das três doses¶
Chegamos ao ponto que mais gera dúvida na prova.
Temos três doses:
| Método | Objetivo | NC (t/ha) |
|---|---|---|
| 1. Saturação por bases | Corrigir acidez ativa (subir V até V2) | 1,3732 |
| 2. Neutralização do Al | Desarmar o alumínio com margem | 0,2889 |
| 3. Elevação de Ca + Mg | Suprir Ca + Mg da cultura e neutralizar Al | 0,0889 |
A regra é escolher a maior: 1,3732 t/ha.
E eu quero que você entenda o porquê, não que decore.
Cada fórmula mede a dose necessária para vencer um obstáculo diferente.
O método 1 mede o quanto falta para chegar no V2.
O método 2 mede o quanto falta para desarmar o alumínio.
O método 3 mede o quanto falta para nutrir a cultura de Ca e Mg.
Como mais calcário ajuda em todos os três objetivos ao mesmo tempo (sobe V, precipita Al, fornece Ca e Mg), a dose que satisfaz o objetivo mais exigente automaticamente satisfaz os outros dois, que exigiam menos.
A maior dose contém as menores.
Pense pelo avesso.
Se você escolhesse a menor (0,0889 t/ha, do método 3), o solo teria cálcio e magnésio suficientes, mas o V continuaria lá embaixo, longe dos 60%, e o pH não subiria o bastante.
Você teria resolvido um problema e deixado o principal de pé.
Escolher a maior é a única forma de garantir que nenhum dos três objetivos fica para trás.
É uma decisão de "a corrente é tão forte quanto o elo mais fraco": você dimensiona pelo elo que exige mais.
No TH-07 o método da saturação por bases dominou com folga, o que é o padrão em Cerrado.
Ainda assim, a boa prática manda calcular os três, porque em solos com alumínio muito alto e V já razoável o método 2 pode ganhar, e você não descobre isso se não fizer a conta.
Escolher o tipo de calcário por critério objetivo¶
Definida a dose, falta escolher o produto.
Os calcários se classificam pelo teor de óxido de magnésio (MgO):
| Tipo | % de MgO |
|---|---|
| Calcítico | 0% a 5% |
| Magnesiano | 5% a 12% |
| Dolomítico | > 12% |
A escolha não é gosto, é critério.
Você olha o magnésio do solo e a relação Ca:Mg.
A regra que eu ensino é objetiva.
Magnésio baixo no solo (Mg < 0,5 cmolc/dm³) manda escolher calcário dolomítico, porque você precisa repor magnésio junto com a correção.
Magnésio adequado e relação Ca:Mg em ordem liberam o calcítico ou o magnesiano, que custam menos e ainda corrigem a acidez igual.
No TH-07, o magnésio é 0,78 cmolc/dm³, classificado como adequado.
A relação Ca:Mg é 1,53 ÷ 0,78 = 1,9615, considerada estreita (abaixo de 2), o que quer dizer que há proporcionalmente pouco cálcio frente ao magnésio, não o contrário.
Juntando as duas leituras: o solo não precisa de magnésio extra, e até se beneficiaria de um pouco mais de cálcio para abrir a relação Ca:Mg.
A escolha objetiva aqui é um calcário calcítico ou magnesiano, nunca dolomítico.
Comprar dolomítico para este talhão seria pagar por um magnésio que o solo já tem, e ainda estreitar mais uma relação que já está apertada.
Esse é o tipo de erro que passa despercebido em relatório e custa caro em escala de fazenda.
Fechando a recomendação de calcário do TH-07¶
Junto tudo numa frase de recomendação, do jeito que assinaria: aplicar 1,3732 t/ha (a maior das três doses, vinda do método da saturação por bases) de calcário calcítico ou magnesiano de PRNT 90%, na camada de 0 a 20 cm, incorporado, com o objetivo de elevar a saturação por bases de 39,5215% para 60%.
Se o calcário disponível tiver outro PRNT, refaça só a divisão final; a dose muda proporcionalmente.
Uma implicação prática que fica: essa dose é modesta (menos de uma tonelada e meia), porque o TH-07 já tinha bases e fósforo adequados de algum manejo anterior.
Solo que nunca viu correção costuma pedir três, quatro, cinco toneladas.
A dose pequena aqui é sinal de um solo já em construção, não de um solo naturalmente bom.
Gessagem: o subsolo que ninguém olha¶
Vou ser direto sobre minha opinião, porque ela move a próxima seção inteira.
O gesso agrícola é a ferramenta mais subutilizada da agricultura de Cerrado.
O pessoal se obceca pela correção dos 20 cm de cima e ignora o que acontece embaixo, deixando a raiz presa numa camada rasa de solo.
Aí vem o veranico de quinze dias em pleno enchimento de grão, a raiz não desce porque o subsolo está tóxico de alumínio e pobre de cálcio, e a lavoura murcha com água disponível a 40 cm de profundidade que a planta não consegue alcançar.
Gesso resolve isso, e é barato.
Ignorá-lo é deixar produtividade no chão.
Primeiro, o que o gesso faz e o que ele não faz.
O gesso é sulfato de cálcio (CaSO₄·2H₂O).
Ele é solúvel e desce no perfil com a água, coisa que o calcário, pouco solúvel, não faz.
No subsolo, o gesso fornece cálcio (nutriente e sinalizador de crescimento radicular) e o sulfato reage com o alumínio, reduzindo sua atividade tóxica e "carregando" cálcio para baixo.
O que o gesso não faz é corrigir pH.
Ele é um sal neutro, não uma base.
Quem espera que o gesso suba o pH não entendeu a química.
Calcário corrige acidez e fica na superfície; gesso leva cálcio e amansa alumínio em profundidade.
São ferramentas complementares, não substitutas.
Quando aplicar gesso?
O critério olha a camada de 20 a 40 cm e dispara se qualquer uma destas condições aparecer: cálcio abaixo de 0,5 cmolc/dm³, ou saturação por alumínio (m) acima de 20%, ou alumínio trocável acima de 0,5 cmolc/dm³.
Basta uma para justificar.
Vamos ao subsolo do TH-07 (camada de 20 a 40 cm).
Primeiro converto o potássio:
K = 24,3 ÷ 391 = 0,0621 cmolc/dm³
Agora a CTC efetiva (CTCe), que é a capacidade de troca no pH atual do solo, somando as bases e o alumínio trocável (sem o hidrogênio de ligação covalente, porque no pH real ele não está ativo):
CTCe = Ca + Mg + K + Al³⁺ CTCe = 1,25 + 0,47 + 0,0621 + 1,42 CTCe = 3,2021 cmolc/dm³
Vejo a saturação por alumínio da camada para confirmar a necessidade:
m = (100 × Al³⁺) ÷ CTCe = (100 × 1,42) ÷ 3,2021 = 44,3459%
Com m de 44,3459% (acima de 20%) e alumínio de 1,42 cmolc/dm³ (acima de 0,5), o gesso está indicado com sobra.
Este subsolo é uma barreira química para a raiz, exatamente o cenário que eu descrevi.
A dose de gesso pelo método da CTC efetiva:
NG (t/ha) = [(CTCe₍₂₀₋₄₀₎ × 0,6) − Ca] × 6,4
O 0,6 é o alvo de saturação de cálcio: a gente quer que o cálcio passe a ocupar 60% da CTC efetiva do subsolo, criando um ambiente onde a raiz desce.
O termo (CTCe × 0,6) é o cálcio-alvo, e subtrair o Ca atual dá o quanto falta.
O 6,4 é o coeficiente que converte esse déficit de cálcio, em cmolc/dm³, na tonelagem de gesso para a camada, embutindo a profundidade da camada e a composição do sulfato de cálcio.
Aplicando:
NG = [(3,2021 × 0,6) − 1,25] × 6,4 NG = [1,9213 − 1,25] × 6,4 NG = 0,6713 × 6,4 NG = 4,2960 t/ha
Repare na assimetria que confunde o aluno desatento: a calagem do TH-07 deu pouco mais de 1 tonelada, e a gessagem deu mais de 4.
Não é erro.
São camadas e objetivos diferentes.
A superfície estava razoável, o subsolo estava hostil.
O laudo de 0 a 20 cm sozinho esconderia esse problema por completo.
É por isso que eu insisto: quem amostra só a camada de cima recomenda pela metade.
Agora é com você: um talhão do zero, calcário e gesso¶
Chega de me acompanhar.
A prova de que você aprendeu é fechar uma recomendação completa sem mim.
Aqui está o talhão TH-15, que você nunca viu, com as duas camadas.
Faça a recomendação de calcário para a superfície (as três fórmulas, a escolha da maior, o tipo de calcário) e a recomendação de gesso para o subsolo.
Use V2 = 60% (maioria das culturas), X = 2, e calcário de PRNT 85%.
| Talhão | Prof. (cm) | Areia (g/kg) | Argila (g/kg) | pH CaCl₂ | K⁺ (mg/dm³) | Ca²⁺ | Mg²⁺ | Al³⁺ | H⁺ |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| TH-15 | 0-20 | 720 | 190 | 4,4 | 30,0 | 0,60 | 0,20 | 0,55 | 3,10 |
| TH-15 | 20-40 | 720 | 190 | 4,4 | 20,0 | 0,40 | 0,15 | 0,90 | 2,60 |
Tente antes de descer para o gabarito.
Gabarito do TH-15¶
Começo pela textura da superfície, que define o coeficiente Y do método 3.
Areia = 72,0000%, argila = 19,0000%.
A argila está na faixa ambígua (15% a 35%), então calculo o delta: Δ = 72,0000 − 19,0000 = 53,0000%, que é ≥ 50%.
Logo, textura arenosa (tipo 1), e Y = 1.
Converto o potássio da superfície: K = 30,0 ÷ 391 = 0,0767 cmolc/dm³. Soma de bases: SB = 0,60 + 0,20 + 0,0767 = 0,8767 cmolc/dm³. CTC total: T = SB + H + Al = 0,8767 + 3,10 + 0,55 = 4,5267 cmolc/dm³. Saturação por bases: V1 = (100 × 0,8767) ÷ 4,5267 = 19,3676%.
Método 1 (saturação por bases): NC = [(60 − 19,3676) × 4,5267] ÷ 85 = [40,6324 × 4,5267] ÷ 85 = 183,9307 ÷ 85 = 2,1639 t/ha.
Método 2 (neutralização do Al): NC = 0,55 × 2 × (100 ÷ 85) = 1,10 × 1,1765 = 1,2941 t/ha.
Método 3 (elevação de Ca + Mg), com Y = 1 e X = 2: NC = {(0,55 × 1) + [2 − (0,60 + 0,20)]} × (100 ÷ 85) NC = {0,55 + [2 − 0,80]} × 1,1765 NC = {0,55 + 1,20} × 1,1765 NC = 1,75 × 1,1765 = 2,0588 t/ha.
As três doses: 2,1639, 1,2941 e 2,0588 t/ha.
A maior é 2,1639 t/ha (método da saturação por bases).
Repare como aqui o método 3 chegou perto do método 1, diferente do TH-07: neste solo o cálcio e o magnésio estavam baixos, então o método 3 pediu bastante calcário para nutrir.
Por isso a gente calcula os três.
Tipo de calcário: o magnésio da superfície é 0,20 cmolc/dm³, abaixo de 0,5, classificado como baixo.
A relação Ca:Mg é 0,60 ÷ 0,20 = 3,0000, que está na faixa adequada.
Mesmo com a relação em ordem, o magnésio absoluto está baixo, então o critério manda calcário dolomítico, para repor magnésio junto com a correção.
Este é o contraste com o TH-07: lá o magnésio adequado dispensava o dolomítico, aqui o magnésio baixo o exige.
Recomendação de calcário do TH-15: aplicar 2,1639 t/ha de calcário dolomítico de PRNT 85%, incorporado na camada de 0 a 20 cm, para elevar o V de 19,3676% para 60%.
Agora o gesso, no subsolo (20 a 40 cm): K = 20,0 ÷ 391 = 0,0512 cmolc/dm³. SB = 0,40 + 0,15 + 0,0512 = 0,6012 cmolc/dm³. CTCe = SB + Al = 0,6012 + 0,90 = 1,5012 cmolc/dm³. Saturação por alumínio: m = (100 × 0,90) ÷ 1,5012 = 59,9520%.
Critérios de gessagem no subsolo: cálcio de 0,40 está abaixo de 0,5, m de 59,9520% está acima de 20%, e alumínio de 0,90 está acima de 0,5.
As três condições disparam.
Gesso indicado.
NG = [(CTCe × 0,6) − Ca] × 6,4 NG = [(1,5012 × 0,6) − 0,40] × 6,4 NG = [0,9007 − 0,40] × 6,4 NG = 0,5007 × 6,4 = 3,2046 t/ha.
Recomendação de gesso do TH-15: aplicar 3,2046 t/ha de gesso agrícola, em superfície e sem incorporação (ele desce sozinho com a água), para levar cálcio ao subsolo e reduzir a saturação por alumínio de 59,9520%, abrindo caminho para a raiz descer.
Se a sua recomendação bateu com essa, do delta textural até a tonelada de gesso, você já sabe fechar uma calagem e uma gessagem completas.
Se travou em algum passo, volte na seção do método correspondente e refaça só aquela parte.
Cada fórmula tem uma pergunta própria, e é a pergunta que você precisa carregar, não os números.
Uma provocação para levar para o campo¶
Você percebeu que os dois talhões pediam correção de superfície parecida, mas contavam histórias de subsolo opostas?
O TH-07 tinha superfície boa e subsolo hostil.
O TH-15 tinha superfície e subsolo pobres.
Se você tivesse amostrado só os 20 cm de cima, teria recomendado calcário nos dois e ido embora achando o trabalho feito, e a raiz teria batido na mesma parede química de alumínio em profundidade nos dois casos.
Então fica a pergunta que separa o agrônomo que corrige solo do que só corrige laudo: da próxima vez que um cliente te entregar uma análise de uma camada só, o que você vai fazer, calcular a dose com o que tem em mãos, ou ter a coragem de dizer que sem a amostra de 20 a 40 cm você está recomendando no escuro?