Pular para conteúdo

Recomendação de Calagem e Gessagem

Onde a interpretação vira decisão

Na aula anterior nós lemos o talhão TH-07 de ponta a ponta.

Descobrimos um solo argiloso de Cerrado, ácido, com CTC baixa, saturação por bases abaixo do alvo e sem toxidez de alumínio na camada superficial.

Interpretar foi meio caminho.

Agora vem a parte que o produtor de fato compra: transformar aquele diagnóstico em uma dose de calcário, um tipo de calcário e, quando o subsolo pede, uma dose de gesso.

Vou puxar de novo o mesmo laudo, porque quero que você veja a corrente inteira, do número bruto até o caminhão espalhando corretivo no talhão.

Trabalhe comigo com calculadora na mão.

No fim, quero que você consiga fechar uma recomendação completa sozinho, defendê-la numa banca e explicar cada número que escreveu.

Talhão Prof. (cm) Argila (g/kg) pH CaCl₂ M.O. (g/dm³) P* (mg/dm³) K⁺ (mg/dm³) Ca²⁺ Mg²⁺ Al³⁺ H⁺
TH-07 0-20 371 4,7 25,3 9,5 29,4 1,53 0,78 0,13 3,52
TH-07 20-40 371 4,7 17,4 9,8 24,3 1,25 0,47 1,42 2,48

Da leitura anterior, para a camada de 0 a 20 cm, já temos: K = 0,0752 cmolc/dm³, SB = 2,3852 cmolc/dm³, T = 6,0352 cmolc/dm³, V = 39,5215% e m = 5,1686%.

Guarde esses valores, porque eles entram nas fórmulas de calagem.

A camada de 20 a 40 cm, com aquele alumínio de 1,42 classificado como alto, é a que vai puxar a conversa de gesso lá no final.

Por que a gente calcaria: os três motivos, e a química por trás de cada um

Calcário não é um pó mágico que "melhora o solo".

Ele faz três coisas concretas, e você precisa saber quais são para entender por que existem três fórmulas diferentes de dose mais adiante.

Cada fórmula persegue um desses objetivos.

O primeiro motivo é corrigir a acidez ativa, o excesso de H⁺ que está solto na solução do solo baixando o pH.

Antes de seguir, preciso que você separe na cabeça os quatro rostos da acidez, porque eles não são a mesma coisa.

A acidez ativa é o H⁺ que está na solução, o que o pHmetro lê.

A acidez trocável é o Al³⁺ (e o H⁺, quando houver) adsorvido nos sítios de troca, pronto para voltar à solução.

A acidez não-trocável é o H⁺ preso em ligações covalentes na matéria orgânica e nos minerais, que só se libera bem devagar.

E a acidez potencial é a soma de tudo que pode virar acidez: Al³⁺ trocável mais H⁺ trocável mais H⁺ de ligação covalente, ou seja, H⁺ + Al³⁺ no laudo.

Quando você calcaria, ataca primeiro a ativa, mas mexe em todas.

A química de como o calcário sobe o pH vale a pena ver de perto, porque ela explica por que o mesmo produto neutraliza o alumínio ao mesmo tempo.

O carbonato de cálcio, ao encontrar água, se dissocia:

CaCO₃ + H₂O → Ca²⁺ + HCO₃⁻ + OH⁻

A hidroxila e o bicarbonato gerados são bases, e elas consomem o H⁺ da solução:

HCO₃⁻ + H⁺ → CO₂ + H₂O OH⁻ + H⁺ → H₂O

Some as duas reações e o resultado é claro: o H⁺ da solução some, virando água e gás carbônico, e o pH sobe.

Repare que o cálcio (Ca²⁺) fica no sistema, ocupando os sítios de troca que o hidrogênio e o alumínio abandonam.

Isso me leva ao segundo motivo.

O segundo motivo é reduzir a disponibilidade do alumínio tóxico.

Conforme a solução perde H⁺ e o pH sobe, o alumínio trocável não fica parado.

Ele reage com as hidroxilas e precipita:

Al³⁺ + 3 OH⁻ → Al(OH)₃ ↓

O hidróxido de alumínio é insolúvel, e alumínio precipitado não intoxica raiz.

É por isso que uma única aplicação de calcário resolve dois problemas de uma vez, sobe o pH e desarma o alumínio.

Onde o alumínio é o vilão principal, essa é a razão de calcariar.

O terceiro motivo é fornecer cálcio e magnésio.

O calcário não é só um neutralizador, ele é adubo de Ca e, se for dolomítico, de Mg também.

Cálcio e magnésio são nutrientes que a planta consome em quantidade, e em muitos solos de Cerrado eles estão baixos.

A calagem repõe.

Vale um comentário sobre o alvo.

Você poderia pensar "então quanto mais alto o pH, melhor".

Não é.

Olhe a curva de disponibilidade de nutrientes em função do pH (Malavolta, 1979): a maioria dos nutrientes tem disponibilidade máxima numa faixa de pH intermediária, algo em torno de 6,0 a 7,0 em água.

Abaixo disso, o fósforo é fixado por ferro e alumínio e some da solução, e o próprio alumínio e o manganês ficam tóxicos.

Acima disso, os micronutrientes metálicos (ferro, cobre, manganês, zinco) travam a disponibilidade.

Calcariar demais é tão problemático quanto calcariar de menos: você gasta dinheiro para induzir deficiência de micronutriente.

É por isso que a gente mira um V2 de cultura (60% para a maioria das lavouras de grãos), não um V de 100%.

O objetivo é equilíbrio, não neutralidade química.

O que é o PRNT, e por que ele aparece em toda fórmula

Antes das doses, preciso te apresentar o número que amarra a teoria à realidade do saco de calcário: o Poder Relativo de Neutralização Total, o PRNT.

Duas propriedades definem quanto um calcário neutraliza.

A primeira é a composição química, medida pelo Poder de Neutralização (PN), que expressa a capacidade de neutralizar ácido em relação ao carbonato de cálcio puro.

Carbonato de cálcio puro tem PN de 100%.

Um calcário com muita impureza (areia, argila) tem PN menor, porque parte do peso do saco não neutraliza nada.

A segunda propriedade é a granulometria, medida pela Reatividade (RE).

Partícula fina reage rápido e por inteiro dentro de uma safra.

Partícula grossa reage devagar, ou nem reage a tempo de servir para a cultura daquele ano.

Dois calcários com o mesmo PN, um moído fino e outro grosso, entregam correção diferente no mesmo prazo.

A reatividade captura isso.

O PRNT junta as duas:

PRNT = (PN × RE) ÷ 100

Um PRNT de 90% quer dizer que aquele calcário neutraliza 90% do que o carbonato de cálcio puro e fino neutralizaria, no mesmo peso e no mesmo prazo.

Agora a pergunta que interessa: por que ele entra dividindo nas fórmulas de dose?

Porque as fórmulas calculam quanto de neutralizante puro (PRNT 100%) o solo precisa.

Nenhum calcário comercial é puro.

Se o solo precisa de uma quantidade equivalente a 1 tonelada de material 100%, e você tem em mãos um calcário de PRNT 90%, você precisa aplicar mais que 1 tonelada dele, porque cada tonelada rende só 90% do trabalho.

Multiplicar por (100 ÷ PRNT), que é o mesmo que dividir por PRNT/100, corrige exatamente isso, converte a dose teórica pura na dose real do produto que você comprou.

Aqui eu me posiciono, e é uma opinião que vai contra o hábito de muita revenda: comparar calcário por preço da tonelada é erro de agrônomo iniciante.

O que importa é o preço por unidade de PRNT.

Um calcário barato de PRNT 60% pode custar mais caro por unidade de neutralização que um calcário aparentemente caro de PRNT 95%.

Quem compra pela tonelada, sem olhar o PRNT, às vezes paga mais para corrigir menos.

As três fórmulas de necessidade de calagem, e o que cada uma persegue

Existem três métodos porque existem os três motivos da calagem que eu descrevi.

Cada fórmula estima a dose necessária para atingir um objetivo diferente.

Vou calcular as três para o TH-07, na camada de 0 a 20 cm, usando um calcário de PRNT 90%.

Método 1: correção da acidez ativa (saturação por bases)

Este método pergunta: quanto de calcário eu preciso para elevar a saturação por bases do valor atual (V1) até o alvo da cultura (V2)?

Ele corrige a acidez ativa de forma indireta, porque, como vimos na aula passada, V e pH andam juntos (Quaggio et al., 1983, acharam correlação acima de 0,90 entre os dois).

Subir o V sobe o pH.

NC (t/ha) = [(V2 − V1) × T] ÷ PRNT

Para o TH-07, com V2 = 60% (maioria das culturas), V1 = 39,5215% e T = 6,0352:

NC = [(60 − 39,5215) × 6,0352] ÷ 90 NC = [20,4785 × 6,0352] ÷ 90 NC = 123,5918 ÷ 90 NC = 1,3732 t/ha

A lógica é direta: a diferença (V2 − V1) diz quantos pontos percentuais de saturação faltam, o T diz o tamanho do complexo de troca que precisa ser preenchido, e o PRNT ajusta para o produto real.

Este é, na prática do Cerrado, o método que quase sempre manda, porque o alvo de V2 costuma ser alto e a diferença para o V atual costuma ser grande.

Método 2: neutralização do alumínio tóxico

Este método pergunta: quanto de calcário para neutralizar o alumínio trocável e ainda deixar uma reserva de cálcio?

Ele foca no segundo motivo.

NC (t/ha) = Al³⁺ × 2 × (100 ÷ PRNT)

Para o TH-07, com Al³⁺ = 0,13:

NC = 0,13 × 2 × (100 ÷ 90) NC = 0,26 × 1,1111 NC = 0,2889 t/ha

Por que o fator 2?

Porque neutralizar o alumínio não é uma conta estequiométrica limpa de um para um.

O solo tem poder tampão, o alumínio vai saindo dos sítios aos poucos conforme o pH sobe, e a gente não quer só precipitar o alumínio que está lá hoje, quer manter o ambiente com cálcio suficiente para que ele não volte.

O multiplicador 2 embute essa margem de segurança.

Diferentes referências usam multiplicadores um pouco distintos (1,5, 2 ou 3, conforme o solo), mas a ideia é sempre a mesma: neutralizar com folga, não no limite.

Método 3: elevação dos teores de cálcio e magnésio

Este método pergunta: quanto de calcário para neutralizar o alumínio (ponderado pela textura) e ainda levar o Ca + Mg até o mínimo que a cultura exige?

Ele junta o segundo e o terceiro motivos numa conta só.

NC (t/ha) = {(Al³⁺ × Y) + [X − (Ca + Mg)]} × (100 ÷ PRNT)

Os coeficientes Y e X não são enfeite, eles carregam teoria.

O Y pondera o alumínio pela textura, porque solo com mais argila tampona mais e precisa de mais corretivo para o mesmo efeito: arenoso Y = 1, textura média Y = 2, argiloso Y = 3.

O X é o teor mínimo de Ca + Mg (em cmolc/dm³) que a cultura quer no solo: eucalipto X = 1, maioria das culturas X = 2, cafeeiro X = 3.

Para o TH-07, solo argiloso (Y = 3), maioria das culturas (X = 2), com Ca = 1,53 e Mg = 0,78:

NC = {(0,13 × 3) + [2 − (1,53 + 0,78)]} × (100 ÷ 90) NC = {0,39 + [2 − 2,31]} × 1,1111 NC = {0,39 + (−0,31)} × 1,1111 NC = 0,08 × 1,1111 NC = 0,0889 t/ha

Olhe o que aconteceu no segundo termo.

O Ca + Mg do solo (2,31) já passou do alvo X (2), então [X − (Ca + Mg)] deu negativo.

O solo não precisa de calcário para suprir cálcio e magnésio, ele já tem de sobra para a maioria das culturas.

Sobrou só o pedacinho de neutralização do alumínio.

Por isso a dose ficou minúscula.

Isso não é erro de conta, é o método te dizendo, corretamente, que sob a ótica de nutrição de Ca e Mg este solo quase não pede calcário.

Por que a gente escolhe a MAIOR das três doses

Chegamos ao ponto que mais gera dúvida na prova.

Temos três doses:

Método Objetivo NC (t/ha)
1. Saturação por bases Corrigir acidez ativa (subir V até V2) 1,3732
2. Neutralização do Al Desarmar o alumínio com margem 0,2889
3. Elevação de Ca + Mg Suprir Ca + Mg da cultura e neutralizar Al 0,0889

A regra é escolher a maior: 1,3732 t/ha.

E eu quero que você entenda o porquê, não que decore.

Cada fórmula mede a dose necessária para vencer um obstáculo diferente.

O método 1 mede o quanto falta para chegar no V2.

O método 2 mede o quanto falta para desarmar o alumínio.

O método 3 mede o quanto falta para nutrir a cultura de Ca e Mg.

Como mais calcário ajuda em todos os três objetivos ao mesmo tempo (sobe V, precipita Al, fornece Ca e Mg), a dose que satisfaz o objetivo mais exigente automaticamente satisfaz os outros dois, que exigiam menos.

A maior dose contém as menores.

Pense pelo avesso.

Se você escolhesse a menor (0,0889 t/ha, do método 3), o solo teria cálcio e magnésio suficientes, mas o V continuaria lá embaixo, longe dos 60%, e o pH não subiria o bastante.

Você teria resolvido um problema e deixado o principal de pé.

Escolher a maior é a única forma de garantir que nenhum dos três objetivos fica para trás.

É uma decisão de "a corrente é tão forte quanto o elo mais fraco": você dimensiona pelo elo que exige mais.

No TH-07 o método da saturação por bases dominou com folga, o que é o padrão em Cerrado.

Ainda assim, a boa prática manda calcular os três, porque em solos com alumínio muito alto e V já razoável o método 2 pode ganhar, e você não descobre isso se não fizer a conta.

Escolher o tipo de calcário por critério objetivo

Definida a dose, falta escolher o produto.

Os calcários se classificam pelo teor de óxido de magnésio (MgO):

Tipo % de MgO
Calcítico 0% a 5%
Magnesiano 5% a 12%
Dolomítico > 12%

A escolha não é gosto, é critério.

Você olha o magnésio do solo e a relação Ca:Mg.

A regra que eu ensino é objetiva.

Magnésio baixo no solo (Mg < 0,5 cmolc/dm³) manda escolher calcário dolomítico, porque você precisa repor magnésio junto com a correção.

Magnésio adequado e relação Ca:Mg em ordem liberam o calcítico ou o magnesiano, que custam menos e ainda corrigem a acidez igual.

No TH-07, o magnésio é 0,78 cmolc/dm³, classificado como adequado.

A relação Ca:Mg é 1,53 ÷ 0,78 = 1,9615, considerada estreita (abaixo de 2), o que quer dizer que há proporcionalmente pouco cálcio frente ao magnésio, não o contrário.

Juntando as duas leituras: o solo não precisa de magnésio extra, e até se beneficiaria de um pouco mais de cálcio para abrir a relação Ca:Mg.

A escolha objetiva aqui é um calcário calcítico ou magnesiano, nunca dolomítico.

Comprar dolomítico para este talhão seria pagar por um magnésio que o solo já tem, e ainda estreitar mais uma relação que já está apertada.

Esse é o tipo de erro que passa despercebido em relatório e custa caro em escala de fazenda.

Fechando a recomendação de calcário do TH-07

Junto tudo numa frase de recomendação, do jeito que assinaria: aplicar 1,3732 t/ha (a maior das três doses, vinda do método da saturação por bases) de calcário calcítico ou magnesiano de PRNT 90%, na camada de 0 a 20 cm, incorporado, com o objetivo de elevar a saturação por bases de 39,5215% para 60%.

Se o calcário disponível tiver outro PRNT, refaça só a divisão final; a dose muda proporcionalmente.

Uma implicação prática que fica: essa dose é modesta (menos de uma tonelada e meia), porque o TH-07 já tinha bases e fósforo adequados de algum manejo anterior.

Solo que nunca viu correção costuma pedir três, quatro, cinco toneladas.

A dose pequena aqui é sinal de um solo já em construção, não de um solo naturalmente bom.

Gessagem: o subsolo que ninguém olha

Vou ser direto sobre minha opinião, porque ela move a próxima seção inteira.

O gesso agrícola é a ferramenta mais subutilizada da agricultura de Cerrado.

O pessoal se obceca pela correção dos 20 cm de cima e ignora o que acontece embaixo, deixando a raiz presa numa camada rasa de solo.

Aí vem o veranico de quinze dias em pleno enchimento de grão, a raiz não desce porque o subsolo está tóxico de alumínio e pobre de cálcio, e a lavoura murcha com água disponível a 40 cm de profundidade que a planta não consegue alcançar.

Gesso resolve isso, e é barato.

Ignorá-lo é deixar produtividade no chão.

Primeiro, o que o gesso faz e o que ele não faz.

O gesso é sulfato de cálcio (CaSO₄·2H₂O).

Ele é solúvel e desce no perfil com a água, coisa que o calcário, pouco solúvel, não faz.

No subsolo, o gesso fornece cálcio (nutriente e sinalizador de crescimento radicular) e o sulfato reage com o alumínio, reduzindo sua atividade tóxica e "carregando" cálcio para baixo.

O que o gesso não faz é corrigir pH.

Ele é um sal neutro, não uma base.

Quem espera que o gesso suba o pH não entendeu a química.

Calcário corrige acidez e fica na superfície; gesso leva cálcio e amansa alumínio em profundidade.

São ferramentas complementares, não substitutas.

Quando aplicar gesso?

O critério olha a camada de 20 a 40 cm e dispara se qualquer uma destas condições aparecer: cálcio abaixo de 0,5 cmolc/dm³, ou saturação por alumínio (m) acima de 20%, ou alumínio trocável acima de 0,5 cmolc/dm³.

Basta uma para justificar.

Vamos ao subsolo do TH-07 (camada de 20 a 40 cm).

Primeiro converto o potássio:

K = 24,3 ÷ 391 = 0,0621 cmolc/dm³

Agora a CTC efetiva (CTCe), que é a capacidade de troca no pH atual do solo, somando as bases e o alumínio trocável (sem o hidrogênio de ligação covalente, porque no pH real ele não está ativo):

CTCe = Ca + Mg + K + Al³⁺ CTCe = 1,25 + 0,47 + 0,0621 + 1,42 CTCe = 3,2021 cmolc/dm³

Vejo a saturação por alumínio da camada para confirmar a necessidade:

m = (100 × Al³⁺) ÷ CTCe = (100 × 1,42) ÷ 3,2021 = 44,3459%

Com m de 44,3459% (acima de 20%) e alumínio de 1,42 cmolc/dm³ (acima de 0,5), o gesso está indicado com sobra.

Este subsolo é uma barreira química para a raiz, exatamente o cenário que eu descrevi.

A dose de gesso pelo método da CTC efetiva:

NG (t/ha) = [(CTCe₍₂₀₋₄₀₎ × 0,6) − Ca] × 6,4

O 0,6 é o alvo de saturação de cálcio: a gente quer que o cálcio passe a ocupar 60% da CTC efetiva do subsolo, criando um ambiente onde a raiz desce.

O termo (CTCe × 0,6) é o cálcio-alvo, e subtrair o Ca atual dá o quanto falta.

O 6,4 é o coeficiente que converte esse déficit de cálcio, em cmolc/dm³, na tonelagem de gesso para a camada, embutindo a profundidade da camada e a composição do sulfato de cálcio.

Aplicando:

NG = [(3,2021 × 0,6) − 1,25] × 6,4 NG = [1,9213 − 1,25] × 6,4 NG = 0,6713 × 6,4 NG = 4,2960 t/ha

Repare na assimetria que confunde o aluno desatento: a calagem do TH-07 deu pouco mais de 1 tonelada, e a gessagem deu mais de 4.

Não é erro.

São camadas e objetivos diferentes.

A superfície estava razoável, o subsolo estava hostil.

O laudo de 0 a 20 cm sozinho esconderia esse problema por completo.

É por isso que eu insisto: quem amostra só a camada de cima recomenda pela metade.

Agora é com você: um talhão do zero, calcário e gesso

Chega de me acompanhar.

A prova de que você aprendeu é fechar uma recomendação completa sem mim.

Aqui está o talhão TH-15, que você nunca viu, com as duas camadas.

Faça a recomendação de calcário para a superfície (as três fórmulas, a escolha da maior, o tipo de calcário) e a recomendação de gesso para o subsolo.

Use V2 = 60% (maioria das culturas), X = 2, e calcário de PRNT 85%.

Talhão Prof. (cm) Areia (g/kg) Argila (g/kg) pH CaCl₂ K⁺ (mg/dm³) Ca²⁺ Mg²⁺ Al³⁺ H⁺
TH-15 0-20 720 190 4,4 30,0 0,60 0,20 0,55 3,10
TH-15 20-40 720 190 4,4 20,0 0,40 0,15 0,90 2,60

Tente antes de descer para o gabarito.

Gabarito do TH-15

Começo pela textura da superfície, que define o coeficiente Y do método 3.

Areia = 72,0000%, argila = 19,0000%.

A argila está na faixa ambígua (15% a 35%), então calculo o delta: Δ = 72,0000 − 19,0000 = 53,0000%, que é ≥ 50%.

Logo, textura arenosa (tipo 1), e Y = 1.

Converto o potássio da superfície: K = 30,0 ÷ 391 = 0,0767 cmolc/dm³. Soma de bases: SB = 0,60 + 0,20 + 0,0767 = 0,8767 cmolc/dm³. CTC total: T = SB + H + Al = 0,8767 + 3,10 + 0,55 = 4,5267 cmolc/dm³. Saturação por bases: V1 = (100 × 0,8767) ÷ 4,5267 = 19,3676%.

Método 1 (saturação por bases): NC = [(60 − 19,3676) × 4,5267] ÷ 85 = [40,6324 × 4,5267] ÷ 85 = 183,9307 ÷ 85 = 2,1639 t/ha.

Método 2 (neutralização do Al): NC = 0,55 × 2 × (100 ÷ 85) = 1,10 × 1,1765 = 1,2941 t/ha.

Método 3 (elevação de Ca + Mg), com Y = 1 e X = 2: NC = {(0,55 × 1) + [2 − (0,60 + 0,20)]} × (100 ÷ 85) NC = {0,55 + [2 − 0,80]} × 1,1765 NC = {0,55 + 1,20} × 1,1765 NC = 1,75 × 1,1765 = 2,0588 t/ha.

As três doses: 2,1639, 1,2941 e 2,0588 t/ha.

A maior é 2,1639 t/ha (método da saturação por bases).

Repare como aqui o método 3 chegou perto do método 1, diferente do TH-07: neste solo o cálcio e o magnésio estavam baixos, então o método 3 pediu bastante calcário para nutrir.

Por isso a gente calcula os três.

Tipo de calcário: o magnésio da superfície é 0,20 cmolc/dm³, abaixo de 0,5, classificado como baixo.

A relação Ca:Mg é 0,60 ÷ 0,20 = 3,0000, que está na faixa adequada.

Mesmo com a relação em ordem, o magnésio absoluto está baixo, então o critério manda calcário dolomítico, para repor magnésio junto com a correção.

Este é o contraste com o TH-07: lá o magnésio adequado dispensava o dolomítico, aqui o magnésio baixo o exige.

Recomendação de calcário do TH-15: aplicar 2,1639 t/ha de calcário dolomítico de PRNT 85%, incorporado na camada de 0 a 20 cm, para elevar o V de 19,3676% para 60%.

Agora o gesso, no subsolo (20 a 40 cm): K = 20,0 ÷ 391 = 0,0512 cmolc/dm³. SB = 0,40 + 0,15 + 0,0512 = 0,6012 cmolc/dm³. CTCe = SB + Al = 0,6012 + 0,90 = 1,5012 cmolc/dm³. Saturação por alumínio: m = (100 × 0,90) ÷ 1,5012 = 59,9520%.

Critérios de gessagem no subsolo: cálcio de 0,40 está abaixo de 0,5, m de 59,9520% está acima de 20%, e alumínio de 0,90 está acima de 0,5.

As três condições disparam.

Gesso indicado.

NG = [(CTCe × 0,6) − Ca] × 6,4 NG = [(1,5012 × 0,6) − 0,40] × 6,4 NG = [0,9007 − 0,40] × 6,4 NG = 0,5007 × 6,4 = 3,2046 t/ha.

Recomendação de gesso do TH-15: aplicar 3,2046 t/ha de gesso agrícola, em superfície e sem incorporação (ele desce sozinho com a água), para levar cálcio ao subsolo e reduzir a saturação por alumínio de 59,9520%, abrindo caminho para a raiz descer.

Se a sua recomendação bateu com essa, do delta textural até a tonelada de gesso, você já sabe fechar uma calagem e uma gessagem completas.

Se travou em algum passo, volte na seção do método correspondente e refaça só aquela parte.

Cada fórmula tem uma pergunta própria, e é a pergunta que você precisa carregar, não os números.

Uma provocação para levar para o campo

Você percebeu que os dois talhões pediam correção de superfície parecida, mas contavam histórias de subsolo opostas?

O TH-07 tinha superfície boa e subsolo hostil.

O TH-15 tinha superfície e subsolo pobres.

Se você tivesse amostrado só os 20 cm de cima, teria recomendado calcário nos dois e ido embora achando o trabalho feito, e a raiz teria batido na mesma parede química de alumínio em profundidade nos dois casos.

Então fica a pergunta que separa o agrônomo que corrige solo do que só corrige laudo: da próxima vez que um cliente te entregar uma análise de uma camada só, o que você vai fazer, calcular a dose com o que tem em mãos, ou ter a coragem de dizer que sem a amostra de 20 a 40 cm você está recomendando no escuro?