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Quadro Comparativo de Cereais em Sistemas de Sequeiro no Cerrado (ênfase MT)

1. O que a planta é

Indicador Trigo (sequeiro, >800 m) Arroz (terras altas) Milho (safrinha) Sorgo (granífero) Milheto (granífero)
Nome científico Triticum aestivum L. Oryza sativa L. Zea mays L. Sorghum bicolor (L.) Moench Cenchrus americanus (L.) Morrone
Centro de origem Crescente Fértil (Oriente Próximo) Sudeste Asiático Mesoamérica (México) Nordeste da África (Etiópia) África Ocidental (Sahel)
Tipo de polinização Autógama (cleistogamia) Autógama (homogamia) Alógama (protandria) Autógama (protandria parcial; 5-15% de alogamia) Alógama (protoginia)
Tipo de inflorescência produtiva Espiga Panícula Espiga Panícula Panícula espiciforme
Potencial de perfilhamento fértil Médio-alto Alto Baixo (indesejável) Médio Alto
Altura típica de plantas (m) 0,70-1,00 0,64-1,20 2,00-2,50 1,20-1,80 1,50-1,80
Ciclo médio (dias) 110-130 100-120 100-125 95-115 75-95
Risco de acamamento Médio Médio-alto Médio Baixo-médio Médio
Material genético predominante Cultivares Cultivares Híbridos Híbridos e variedades Variedades
Metabolismo fotossintético C3 C3 C4 C4 C4
Necessidade hídrica (mm/ciclo) 350-500 450-700 400-700 350-500 250-400
Sensibilidade à seca Alta Alta Média-alta Baixa Muito baixa
Estádio crítico de deficiência hídrica Espigamento e enchimento de grãos Emborrachamento e florescimento Pendoamento e enchimento de grãos Florescimento Florescimento
Temperatura basal inferior (°C) 5 10 10 10 10
Temperatura basal superior (°C) 30-32 35 35-38 35-38 35-38
Soma térmica aproximada (GD)² 1.600-2.200 1.700-1.900 1.400-1.800 1.300-1.700 1.000-1.500
Exigência fotoperiódica Baixa Média Baixa Baixa Média
Saturação por bases ideal (V%) 50-60 40-50 50-60 50-60 40-50
Resposta à tecnologia Alta Média-alta Muito alta Média Média-baixa
Adaptação ao Cerrado Média (exige >800 m altitude) Média Alta Muito alta Muito alta
Umidade na maturidade fisiológica (%) 35-40 25-30 30-35 28-30 28-35
Índice de colheita (partição) 0,40-0,50 0,45-0,55 0,45-0,55 0,35-0,45 0,20-0,35

2. O que o produtor decide

Indicador Trigo (sequeiro, >800 m) Arroz (terras altas) Milho (safrinha) Sorgo (granífero) Milheto (granífero)
População recomendada (plantas/ha) 3.500.000 a 4.500.000 1.800.000 a 2.500.000 55.000 a 70.000 180.000 a 220.000 100.000-175.000
Espaçamento entre fileiras (m) 0,17-0,20 0,25-0,35 0,45-0,50 0,45-0,50 0,40
Estande (plantas/m de fileira) 60-80 50 a 80 2,5-3,5 6-10 4-7
Janela de semeadura em MT jan.-fev. out.-dez. jan.-fev. fev.-mar. fev.-mar.
Profundidade de semeadura (cm) 2-4 2-4 3-5 3-5 2-4
PMS (g) 30-45 22-30 220-380 20-35 6-8
Gasto de sementes (kg/ha) 120-180 60-100 15-25 8-15 3-5
Estádio típico de cobertura nitrogenada Perfilhamento (Zadoks 21-23) Perfilhamento ativo V4-V6 V4-V5 20-30 DAE
Controle de plantas daninhas em pós-emergência Perfilhamento inicial 3-4 folhas V2-V6 3-5 folhas 3-4 folhas
Principal inseto-praga Pulgões e percevejo-barriga-verde Percevejo-do-grão (Oebalus) Lagarta-do-cartucho Pulgão-da-cana Lagarta-do-cartucho
Principal doença Brusone Brusone Enfezamentos e cercosporiose Antracnose Ferrugem e piriculariose
Principal desafio fitossanitário Brusone em condições úmidas Veranicos + brusone Cigarrinha e enfezamentos Pulgão-da-cana Manejo de palhada e pragas
Umidade ideal para colheita (%) 13-15 18-22 14-18 14-18 13-15
Perdas aceitáveis na colheita (kg/ha) 60 90 90 90 120

3. O que resulta

Indicador Trigo (sequeiro, >800 m) Arroz (terras altas) Milho (safrinha) Sorgo (granífero) Milheto (granífero)
Estabilidade produtiva Média-baixa Média Média Alta Alta
Potencial produtivo Médio Médio Muito alto Médio Médio-baixo
Produtividade média (kg/ha)³ 2.400-4.000 3.000-5.000 5.500-7.500 3.500-5.500 1.500-2.500
Produtividade média (sc/ha)³ 40-67 60-100 92-125 58-92 25-42
Produção de palhada (kg MS/ha) 3.000-6.000 4.000-7.000 6.000-12.000 5.000-9.000 8.000-15.000
Persistência da palhada Média Média Média-alta Alta Muito alta
Relação C/N 40:1-70:1 50:1-70:1 50:1-70:1 60:1-80:1 70:1-100:1
Potencial de ciclagem de nutrientes Médio Médio Alto Alto Muito alto
Ranking na produção mundial¹ 6º (produção regionalizada)
Ranking no consumo humano Regional (5º) Regional
Principal limitação mercadológica Mercado restrito no MT Menor competitividade econômica Alta dependência logística Menor liquidez de mercado Baixo valor do grão
Uso predominante no MT Farinha/panificação Consumo humano Ração, exportação e etanol Ração animal Cobertura, forragem e palhada

Notas Técnicas

¹ Ranking mundial de produção (FAO/FAOSTAT, 2023): em base de grão inteiro, o milho lidera (~1,2 bilhão t), seguido de trigo (~788 milhões t) e arroz beneficiado (~543 milhões t), com cevada (~146 milhões t) e sorgo (~57 milhões t) na sequência. Contabilizado em casca (paddy), padrão primário da FAO, o arroz supera o trigo e ocupa a 2ª posição, empurrando o trigo para 3º. Este quadro adota a base beneficiada para o arroz, por isso o trigo aparece em 2º e o arroz em 3º. O milheto é reconhecido como o 6º cereal em grão mais importante do mundo.

² Graus-dia (GD): Soma térmica acumulada acima da temperatura basal inferior, expressa em °C dia.

³ Produtividade: Valores em faixas médias para sistemas de sequeiro no Cerrado sob manejo adequado, variáveis conforme cultivar, altitude, fertilidade, ano agrícola e nível tecnológico. Conversão em sacas: 60 kg para trigo, milho, sorgo e milheto; 50 kg para arroz, que é a saca comercial usual do produto.


Mecanismos de polinização (glossário)

  • Cleistogamia: autofecundação com a flor fechada, antes da abertura.
  • Homogamia: anteras e estigma maduros ao mesmo tempo; autofecundação no momento da abertura da flor.
  • Protandria: anteras liberam o pólen antes de o estigma da mesma planta ficar receptivo; favorece a alogamia.
  • Protandria parcial: protandria incompleta, com sobreposição que faz predominar a autofecundação, restando uma fração de cruzamento.
  • Protoginia: estigma receptivo antes da liberação do pólen próprio; favorece a alogamia.

Observações Específicas por Cultura

TRIGO TROPICAL DE SEQUEIRO

  • Cultivo restrito a altitudes superiores a 800 m no Cerrado
  • Semeadura em janeiro-fevereiro permite que a maturação e a colheita ocorram na estação seca, reduzindo a pressão de brusone durante o enchimento de grãos
  • Elevada população de plantas compensa o menor perfilhamento efetivo sob estresse térmico
  • Principal desafio: brusone em condições de alta umidade relativa e temperatura
  • Produtividade média de 40 sc/ha, com potencial superior a 70 sc/ha em cultivares modernas

ARROZ DE TERRAS ALTAS

  • Requer precipitação bem distribuída durante o ciclo
  • Sensível a veranicos no período de emborrachamento e florescimento
  • Menor competitividade econômica frente a outros cultivos no MT
  • Potencial subutilizado na região do Cerrado
  • O percevejo-do-grão (Oebalus spp.) tende a predominar no sequeiro; o percevejo-do-colmo (Tibraca limbativentris) é mais associado ao arroz irrigado

MILHO SAFRINHA

  • Janela de semeadura crítica: janeiro-fevereiro (risco crescente após 1º de março)
  • Maior teto produtivo entre os cereais avaliados
  • Alta dependência de janela de semeadura e regime hídrico
  • Principal inseto-praga: lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda); a cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis), vetora de enfezamentos, é uma ameaça crescente e regionalmente severa
  • Representa cerca de 78% da produção nacional de milho (2ª safra, 2024/25)

SORGO GRANÍFERO

  • Elevada estabilidade produtiva em ambientes restritivos
  • Maior tolerância ao déficit hídrico que o milho
  • Boa opção para semeadura tardia (fev.-mar.)
  • Crescente uso de híbridos no mercado
  • Menor liquidez de mercado que milho

MILHETO

  • O milheto, anteriormente classificado como Pennisetum glaucum, passou a ser taxonomicamente reconhecido como Cenchrus americanus após revisões filogenéticas do gênero Pennisetum (Morrone, 2010).
  • Destaque pela elevada produção de biomassa e persistência de palhada
  • Relação C/N muito alta (70:1-100:1)
  • Ciclo curto (75-95 dias)
  • Uso predominante: cobertura de solo, palhada e forragem
  • Baixo valor do grão limita uso como cultura comercial
  • Excelente opção para sistemas de integração lavoura-pecuária

Referências Técnicas Principais

  • Embrapa Trigo (Sistema de produção de trigo no Brasil, 2017)
  • Embrapa Arroz e Feijão (Cultivo do arroz de terras altas no Brasil, 2010)
  • Embrapa Milho e Sorgo (Sistemas de Produção, 2012-2014)
  • Fundação MT
  • Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA)
  • Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB)
  • SOSBAI (Sociedade Sul-Brasileira de Arroz Irrigado)
  • FAOSTAT (Food and Agriculture Organization)
  • Taiz et al. (Fisiologia e Desenvolvimento Vegetal, 6ª ed., 2017)
  • Fancelli & Dourado Neto
  • Carvalho & Nakagawa (Sementes: ciência, tecnologia e produção, 2012)
  • Sousa & Lobato (Cerrado: correção do solo e adubação, 2018)
  • Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC/MAPA)

Data de atualização: Julho de 2026

Contexto: Cerrado brasileiro, com ênfase em Mato Grosso, sistemas de sequeiro