Aula 09: Manejo Integrado de Plantas Daninhas em Cereais · Gabarito comentado (Blocos B e C)¶
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Gabarito dos Blocos B e C. As questões do Bloco A não entram aqui: serão discutidas em sala, no início da Aula 10. Confira cada questão depois de ter tentado. Leia também o comentário das alternativas erradas: entender por que a distratora é tentadora vale tanto quanto acertar.
Bloco B: Consolidação da Aula 09¶
B1. Gabarito: (a). O glifosato é não seletivo: aplicado sobre trigo convencional no estádio vegetativo, mata a cultura, não apenas a daninha. O não seletivo em pós só se justifica em três situações (cultura com evento de tolerância, aplicação dirigida ou pré-plantio/pré-emergência), nenhuma delas presente aqui. (b) confunde os eixos de classificação: troca "não seletivo" por "graminicida seletivo"; espectro (folha larga × estreita) não é o que define se o produto poupa a cultura. (c) repete a ilusão da dose: seletividade por subdose não existe para o glifosato, e o próprio texto mostra o oposto com o metribuzin, tóxico à soja em pós mesmo em subdose. (d) inventa uma translocação seletiva: o sistêmico se move na planta em que penetra, e não escolhe entre cultura e daninha.
B2. Gabarito: (c). O fim do PAI (20 DAS) marca o início das perdas; entre 20 e 30 DAS a cultura já conviveu com a interferência, e a redução de produtividade causada pela competição é irreversível: "removida a daninha depois do PAI, a produtividade não se recupera". (a) confunde PTPI com PAI: estar dentro do PTPI significa que ainda é preciso manter no limpo, não que não há perda; a perda começou no fim do PAI. (b) supõe que só a convivência do ciclo inteiro causa dano, ignorando que o momento importa mais que a duração. (d) trata a interferência como reversível, o oposto do princípio que dá peso ao período crítico.
B3. Gabarito: (d). Só o herbicida sistêmico se transloca pelo floema e/ou xilema e atinge pontos distantes, como as estruturas subterrâneas; é o que permite controlar perenes, e por isso a integração no manejo da tiririca usa a dessecação sistêmica (glifosato + 2,4-D). (a) erra duas vezes: a tiririca é uma ciperácea, não uma gramínea, e um graminicida não a controlaria; além disso, seletivo para gramínea não tem relação com atingir tubérculo. (b) o contato age só no ponto de penetração e não alcança as estruturas subterrâneas, que rebrotam. (c) o pré-emergente atua sobre sementes/plântulas em germinação, não sobre os tubérculos já formados e brotando de uma infestação estabelecida.
B4. Gabarito: (b). O quadro do HRAC classifica como risco baixo usar mais de dois mecanismos de ação, integrar controle cultural, mecânico e químico e fazer rotação completa de culturas: diversificar a pressão de seleção é a estratégia. (a) aumentar a dose não vence resistência por alteração do local de ação e ainda intensifica a pressão de seleção. (c) trocar de marca mantém o mesmo mecanismo (EPSPs): rotacionar produto não é rotacionar mecanismo. (d) a mistura só funciona quando os produtos têm mecanismos e detoxificação diferentes; misturar dois inibidores da EPSPs é, na prática, um só mecanismo.
B5. (aberta) Resposta esperada. (i) A seletividade por metabolismo diferencial ocorre quando a cultura degrada a molécula antes que ela atinja o sítio de ação. Milho e sorgo toleram a atrazina porque suas raízes contêm benzoxazinonas, que degradam rapidamente a molécula por hidroxilação e conjugação. O arroz tolera o propanil porque suas folhas contêm de 10 a 30 vezes mais a enzima arilacilamidase que as gramíneas infestantes, degradando o herbicida antes que ele chegue ao cloroplasto. Em ambos os casos a proteção é da própria planta (metabolismo), não uma bondade do produto. (ii) O milho detoxifica o nicosulfuron depressa via citocromo P450. Os organofosforados (por exemplo, o acefato) inibem o citocromo P450, o mesmo sistema que degrada o herbicida no milho. Sem essa detoxificação, o nicosulfuron se acumula e causa dano à cultura; por isso a fonte exige intervalo de 7 dias entre o nicosulfuron e os inseticidas organofosforados (e a adubação nitrogenada de cobertura). Não é cautela genérica de bula: é incompatibilidade metabólica específica, e mostra que a seletividade em cereais é um equilíbrio, não uma garantia absoluta.
B6. (aberta) Resposta esperada. (i) Milho solteiro: arsenal completo, aproveitando a seletividade metabólica do milho (P450 e benzoxazinonas): pré-emergentes (atrazina, s-metolachlor, isoxaflutole), pós latifolicidas (atrazina, 2,4-D, mesotrione, tembotrione) e graminicidas seletivos (nicosulfuron, foramsulfuron), com jato dirigido na entrelinha como recurso de escape. O objetivo é eliminar as daninhas. (ii) Consórcio com braquiária: o objetivo se inverte, conter a gramínea companheira sem matá-la. Usa-se nicosulfuron em dose reduzida (20% a 50% da dose do milho solteiro), apenas para paralisar o crescimento da braquiária enquanto o milho se estabelece; a dose ideal ainda está em estudo, e o erro para mais elimina o capim, para menos não o segura. (iii) Consórcio com mix de cobertura: o manejo químico praticamente desaparece porque as companheiras são dicotiledôneas, qualquer latifolicida (atrazina, 2,4-D, mesotrione) que controlasse as folhas largas daninhas mataria também a crotalária e o nabo, enquanto um graminicida feriria o milho. Resta apoiar-se no posicionamento de pré-emergentes antes da semeadura das companheiras, no manejo cultural e no efeito de abafamento do próprio coquetel, que fecha o solo e suprime as daninhas por competição e cobertura.
B7. (aberta) Resposta esperada. (i) Como sorgo e milheto são gramíneas, um graminicida que controlasse a gramínea daninha também feriria a cultura, e não há graminicida seletivo registrado para elas; contra as gramíneas daninhas não sobra ferramenta química eficaz. Por isso a defesa recai sobre a própria cultura: quanto mais pobre o arsenal, mais o manejo cultural passa a ser a estrutura central, ao contrário do milho, cujo arsenal amplo permite apoiar-se na química. (ii) O texto indica entrar bem estabelecido, com estande cheio, espaçamento reduzido e palhada, porque a única defesa contra as gramíneas daninhas é o sombreamento e a competição da própria cultura: um dossel que fecha cedo suprime a gramínea pela disputa de luz, água e espaço (a regra de que a primeira planta a se estabelecer exclui as demais). É o controle cultural dando à cultura a vantagem competitiva que o herbicida não pode dar. Vale notar o contraste com o arroz de sequeiro, também sem esse recurso pleno por ser C3 e fechar o dossel tarde.
Bloco C: Cálculo e diagnóstico¶
C1. (cálculo/diagnóstico) Resolução (4 casas decimais).
A fonte fixa para o 2,4-D o intervalo de 1 dia por 100 mL de produto aplicado.
(i) 2,4-D: intervalo = 1.250 ÷ 100 = 12,5000 dias.
(ii) Glifosato: sem intervalo obrigatório ("plante e aplique"), ou seja, 0,0000 dia (com a ressalva de cuidado em áreas de muita massa, pela intoxicação da plântula ao atravessar a palha em decomposição). Glufosinato de amônio: contato de ação rápida, 1 a 3 dias antes da semeadura.
(iii) O intervalo mais longo comanda: o 2,4-D, com 12,5000 dias, é o fator limitante (supera os 0 dias do glifosato e os 1 a 3 dias do glufosinato). Portanto o milho só deve ser semeado no mínimo 12,5 dias após a dessecação. Antecipar a semeadura para respeitar apenas o glifosato ou o glufosinato exporia a cultura à fitotoxicidade residual do 2,4-D.
C2. (diagnóstico) Diagnóstico esperado. (i) Percorrendo o fluxograma: operação adequada (não é falha de aplicação) → falha atingiu só uma espécie (sim) → sem reinfestação por novas emergências (sim) → mesmo mecanismo de ação repetido (sim). Todas as portas apontam para o mesmo destino: suspeita de resistência, aqui aos inibidores da EPSPs (glifosato), coerente com o azevém listado na fonte como resistente à EPSPs. Antes de concluir, foram descartadas as causas triviais (produto, dose, estádio, calibração, clima e reinfestação), exatamente o que o roteiro exige. (ii) Pelo método do HRAC: colher sementes de cerca de 40 plantas suspeitas e de plantas sensíveis padrão, semear e tratar com metade da dose, a dose recomendada, o dobro e o quádruplo. Diferença grande de controle entre suspeitas e sensíveis aponta alteração do local de ação; diferença pequena aponta metabolismo. Confirma-se em vaso, informa-se o fabricante e erradicam-se as plantas remanescentes antes que reponham o banco de sementes. (iii) A recomendação é o próprio manejo integrado voltado à resistência: rotacionar e associar mecanismos de ação (entrar com graminicidas fops/dims ou contato como o glufosinato, misturas de mecanismos e detoxificação diferentes), somados à volta dos métodos culturais e à rotação de culturas, elevando o caso para a faixa de risco baixo do quadro HRAC. O azevém do Sul é o exemplo mais completo porque começou resistente ao glifosato (EPSPs), evoluiu para ALS e ACCase e chegou à resistência múltipla, fechando o arco da aula: a resistência é o preço de tratar o químico como método único, e a solução é o manejo integrado.